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Tratar da saúde é o que fazemos nos próximos minutos com a doutora Vanessa Mendes, diretora clínica dos Centros de Saúde CUF. Doutora, bom dia.
Bom dia.
Eu sou a Maria João Simões. Hoje falamos de dor nas costas. Quem é que nunca sentiu? Em Portugal, estima-se que oito em cada 10 pessoas vão ter pelo menos um episódio significativo de dor lombar ao longo da vida. Mas quando é que aquela dor que parece mais uma pode ser sinal de algo mais grave e quando é que precisa de cirurgia? Já lá vamos, mas antes, doutora, a maioria das dores nas costas é grave?
Não. E isso é importante dizer desde já. Cerca de 90% das dores lombares são mecânicas e autolimitadas, ou seja, melhoram com medidas conservadoras, nomeadamente o repouso, analgesia, fisioterapia e exercício orientado. A cirurgia é necessária numa minoria dos casos. O problema aqui é distinguir aquela dor comum da dor que pode estar a sinalizar algo mais sério.
Então vamos ao que interessa. Quais são os sinais de alerta?
Existem alguns sinais, efetivamente, os chamados red flags, que nunca devem ser ignorados e exigem uma avaliação médica urgente. Aqui falamos de sintomas neurológicos graves, como por exemplo, a perda de controle de esfíncteres, como incontinência urinária ou vocal, ou, por exemplo, também a perda de força progressiva nas pernas ou pé pendente com dificuldade na marcha. Também sinais de infecção ou doença sistémica, nomeadamente febre associada à dor lombar, uma perda de peso que é inexplicável e que pode ser progressiva. Também uma dor associada a trauma ou fatores de risco, como por exemplo, após um acidente de viação, ou então, por exemplo, em pacientes com historial de cancro. Também atendendo às características da dor. Uma dor lombar de início súbito e intensidade extrema, ou uma dor que irradia para a região abdominal e que pode indicar outra patologia que não lombar, como por exemplo uma cólica renal ou até uma pancreatite.
E aquela dor que desce pela perna, a famosa ciática?
A ciática é muitas vezes causada por uma hérnia discal, que comprime a raiz nervosa a nível de L5-S1 e é uma dor que irradia tipicamente para a face posterior e externa da coxa e região gemelar, podendo atingir o pé.
Região gemelar? Zona do gémeos.
É, dos gémeos. Exatamente, é isso mesmo. Geralmente é uma dor aguda, tipo queimadura, choque ou pontada intensa. Os doentes vão referindo diversas formas, sendo acompanhada normalmente de dormência, aquele encortiçamento que também nos referem, e perda de sensibilidade nas zonas que já mencionei. Na maioria dos casos, melhora em semanas com tratamento conservador, sendo importante destacar que mesmo hérnias volumosas podem regredir. Contudo, se houver défice neurológico progressivo, como já falámos também, a perda de força significativa ou uma dor incapacitante que não melhora após várias semanas, a cirurgia pode ser considerada. A decisão nunca é apenas baseada no exame de imagem, mas sim da combinação deste com os sintomas, o exame físico e o impacto funcional na vida do paciente.
Falou de imagem. Muitas pessoas fazem uma ressonância magnética e assustam-se com o relatório, mas também porque muitas vezes não sabemos interpretar o que lá está escrito.
Exatamente. E aqui refere um ponto crucial. Alterações como protusões ou hérnias discais são muito frequentes, mesmo em pessoas sem dor. E ter uma imagem alterada não significa automaticamente que vamos precisar de cirurgia. Estamos aqui a tratar de pessoas, não tratamos exames.
Para terminar, doutora Vanessa Mendes, a partir de que momento nos devemos preocupar com uma dor nas costas?
Devemos nos preocupar quando a dor vem acompanhada de sinais neurológicos, sintomas sistêmicos ou perda de função. Na maioria das situações, a dor nas costas melhora com tratamento conservador e reabilitação adequada, e a cirurgia pode ser necessária, mas está reservada para situações bem definidas.
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Até amanhã.