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"Tratado" da Saúde, da Rádio Observador, sempre com a doutora Vanessa Mendes. Doutora, bom dia, bem-vinda.

Bom dia, obrigada.

Este sábado comemora-se o Dia Mundial da Luta contra a Obesidade e a verdade é que os medicamentos para perda de peso estão cada vez mais presentes nas notícias, nas redes sociais, nas conversas do dia a dia. Não só prometem resultados, como têm vindo a mudar a forma como olhamos para a obesidade. Mas será que estamos perante uma verdadeira revolução na medicina ou será mais uma ilusão? Doutora, estes medicamentos representam uma mudança real?

A resposta curta é que representam, em grande parte, uma evolução clínica muito relevante, mas que está rodeada de falsas ideias. E que é importante destacar que a obesidade é reconhecida como sendo uma doença crônica, complexa e multifatorial. E durante muitos anos, o seu tratamento esteve centrado quase exclusivamente no estilo de vida, que sabemos hoje não ser de todo suficiente.

Não chega. E então, o que é que torna estes medicamentos diferentes?

Ao contrário de terapêuticas mais antigas, estes fármacos atuam em mecanismos biológicos que estão bem definidos. E aqui mimetizam hormônios naturais, como o GLP-1, que estão envolvidas na regulação do apetite, retardam o esvaziamento gástrico e atuam ao nível do cérebro, promovendo saciedade. Isto traduz-se em resultados que, pela primeira vez, são verdadeiramente relevantes, com perdas de peso que podem ultrapassar os 15% e, em alguns casos, aproximar-se dos 25%, que são percentagens muito significativas. Além disso, têm benefícios metabólicos importantes, como por exemplo, a redução do risco cardiovascular, a melhoria da função metabólica, como melhoria da glicemia, da pressão arterial e do próprio perfil lipídico. E impacto, naturalmente, nas condições associadas, como, por exemplo, a apneia do sono.

Sim. E então onde é que entra a ilusão?

A principal ilusão é a ideia de que existe uma solução simples para um problema complexo. Estes medicamentos não substituem mudanças no estilo de vida. Sem reeducação alimentar, atividade física, há risco de perda de massa muscular e de recuperação de peso após a suspensão. Existe também o risco de utilização em contextos inadequados, nomeadamente em pessoas sem indicação clínica, com objetivos apenas estéticos, o que expõe a riscos desnecessários e pode limitar o acesso de quem realmente precisa. Há ainda a questão da sustentabilidade. São terapêuticas de custo elevado, frequentemente de longa duração e que exigem um plano estruturado para manter resultados.

E existem riscos associados, doutora?

Como em qualquer terapêutica. Não são isentos de efeitos adversos. Os mais frequentes são gastrointestinais, parte das alterações do trato gastrointestinal, e também náuseas e vômitos. E embora raros, podem ocorrer efeitos graves, por isso a sua utilização deve ser sempre feita com acompanhamento médico.

Depois de tudo o que explicou, fica claro que todas estas soluções vêm mudar a forma como encaramos a obesidade, não é?

Sem dúvida. Estes tratamentos vieram reforçar a ideia de que a obesidade é uma doença crônica, e não apenas uma questão de força de vontade, o que ajuda naturalmente a reduzir o estigma e a promover uma abordagem mais estruturada e baseada em evidência. E para terminar, dizer que estamos, sem dúvida, perante uma revolução terapêutica na área da obesidade, sendo estes fármacos ferramentas extremamente eficazes, mas há uma mensagem importante a deixar: não podem ser uma solução isolada, e o sucesso da perda de peso e da sua posterior manutenção depende sempre da integração com o estilo de vida e de um acompanhamento clínico adequado, porque na obesidade, como na medicina em geral, não existem soluções milagrosas, mas sim estratégias bem orientadas e sustentadas no tempo.

E sustentadas no tempo. tratadasaude@observador.pt, para onde pode enviar as suas dúvidas, as suas sugestões. Se preferir, pode enviar-nos o seu áudio por WhatsApp 910024885. O número é sempre o mesmo. Doutora Vanessa Mendes, bom fim de semana. Até segunda.

Obrigada. Até segunda. Obrigada.