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Bem-vindo a mais um "Tratar da Saúde". Hoje vamos falar de um conjunto de doenças que podem atingir a tireoide, as articulações, a pele, o intestino, o sistema nervoso ou até vários órgãos ao mesmo tempo. Falo das doenças autoimunes. Doutora Mariana Sobral, bem-vinda. O que acontece exatamente numa doença autoimune?

Basicamente, uma doença autoimune afeta o sistema imunitário. O sistema imunitário de base existe para nos proteger contra infeções ou outras ameaças. Numa doença autoimune, este sistema perde em parte a capacidade de distinguir entre o que pertence ao próprio organismo e o que é estranho. Como resultado, pode atacar células, tecidos, órgãos saudáveis e provocar lesão.

E como é que podemos distinguir as diferentes doenças autoimunes?

É muito difícil e às vezes não é possível. Numa série de televisão bastante conhecida, o médico sempre que não percebia o diagnóstico, dizia que era lúpus. Isso significa que há muitas doenças e muitas manifestações. Algumas atingem sobretudo um órgão, como a tireoidite autoimune ou o pâncreas na diabetes. Outras podem afetar muitos sistemas, como a artrite reumatoide ou o lúpus eritematoso sistémico.

E tem-se falado muito de um aumento das doenças autoimunes. Estão realmente a disparar?

Os estudos efetivamente mostram que a incidência das doenças autoimunes aumentou em diferentes populações, mas temos que evitar explicações simplistas. Parte do aumento pode refletir um melhor diagnóstico e naturalmente pode existir um aumento real de novos casos que ainda estamos a estudar.

Então e por que razão é que isso pode estar a acontecer, doutora?

A explicação mais provável é uma combinação de fatores. A genética aumenta a predisposição, mas não explica tudo. Ambiente, infeções, estilo de vida, tudo isto pode contribuir numa pessoa que já tenha esta predisposição. Não podemos nunca atribuir uma doença autoimune a um único alimento, a uma única emoção, a um único fator de risco isolado.

E que sintomas devem levar uma pessoa a procurar avaliação?

Os sintomas às vezes são pouco específicos. Alguns exemplos são cansaço persistente, queda de cabelo, inchaço nas articulações, principalmente nas articulações das mãos, uma rigidez matinal. E também ter em conta que é muito típico que estes sintomas evoluam por períodos. Aparecem, desaparecem. Há fases de exacerbações e fases de melhoria. Estes sintomas, naturalmente que isoladamente, não podem concluir que é uma doença autoimune, mas são sinais evidentes para conversar com o profissional de saúde e fazer a avaliação.

E como é que se faz o diagnóstico? Basta pedir uma análise aos anticorpos?

Mais uma vez, não. O diagnóstico resulta de uma combinação entre a história, o exame físico e exames dirigidos às hipóteses. Podem incluir análise ao sangue, urina, imagens, outros testes. Os anticorpos podem ser úteis, mas temos sempre que ter atenção. Um resultado positivo não significa automaticamente que a pessoa tenha a doença e um resultado negativo não exclui. Os resultados têm mesmo que ser interpretados no contexto clínico.

E qual é o papel do médico de família neste percurso todo?

O médico de família, mais uma vez, é a porta de entrada. Vai ter que organizar a história, avaliar os sintomas, o padrão e depois, quando existe naturalmente uma suspeita fundamentada, pode pedir uns exames iniciais e referenciar para a especialidade adequada, que de acordo com os sintomas, pode ir desde reumatologia, medicina interna, dermatologia ou outra.

E quem já tem um diagnóstico autoimune, o que deve fazer?

Deve conhecer a sua doença, manter um seguimento regular, tomar medicação conforme prescrita, não iniciar dietas restritivas ou tratamentos que prometem fazer um detox ao sistema imunitário sem discutir primeiro com a equipa de saúde.

Por quê? Porque o sistema imunitário está contra nós? É mais ou menos isso?

Não devemos pensar assim. O sistema imunitário continua a ser essencial para a nossa proteção. Nestas doenças, há uma desregulação que tem que ser compreendida e tratada. O objetivo do tratamento não é desligar completamente as defesas, mas no fundo reduzir a inflamação inadequada, idealmente sem comprometer a capacidade de combater infeções. A mensagem principal é: sintomas persistentes merecem avaliação. Não podemos fazer autodiagnósticos de uma análise isolada. Procurar ajuda.

Doutora Mariana Sobral, muito obrigada por mais uma conversa. Até amanhã.

Obrigada, Joana.