Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
O plano era aterrar apenas para reabastecer. Este avião tem como destino a Sibéria, onde está a maior refinaria da empresa daquele homem baixo, de cabeça rapada e óculos, que vai a dormir a bordo. Tem um ar tímido e discreto, mas com apenas 40 anos, além de ser banqueiro, já controla 2% de toda a produção mundial de petróleo. São 05:00 e o avião aterra num aeroporto a meio caminho. Quando o piloto tenta estacionar, é travado por uma série de carrinhas que se atravessam à sua frente na pista. Um grupo de homens de uniforme, com máscaras e coletes à prova de bala, entra no avião onde segue o empresário russo. "Pousem as armas", gritam aos seguranças privados que seguem a bordo. É então que um dos agentes se aproxima do homem de cabeça rapada. "Temos um mandado. Venha conosco." O empresário é algemado e sai do avião com um agente dos serviços secretos russos a puxá-lo pelo braço. O homem mais rico da Rússia acaba de ser detido. Chamavam-lhes os sete banqueiros. A alcunha, colocada por um dos membros do grupo, era uma referência aos sete boiardos que governaram a Rússia no início do século XVII. O autoelogio servia para destacar a influência que um pequeno grupo de banqueiros detinha sobre todo o poder político russo durante a presidência Yeltsin, na década de 90. Mas a chegada de um homem quase desconhecido veio alterar tudo. Quando Vladimir Putin é eleito presidente da Rússia, em março de 2000, rapidamente deixa claro que com ele não há reinados partilhados. No espaço de menos de três anos, o grupo dos sete banqueiros estará desfeito. Este homem que acaba de ser detido vai ser usado como exemplo. Este é "Um Espião no Kremlin", uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Marco Delgado, com banda sonora original de Martim Sousa Tavares e Manuel Palha. Episódio dois: o ganso e outros traidores.
Esta é uma história real. E é o conhecimento da história que guia a Honda em direção a um futuro melhor. Vamos continuar este percurso juntos, porque a Honda tem muito para contar, mas também tem muita vontade de ouvir. Nesta viagem, os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis.
Como é que o espião no Kremlin se transforma num ditador e acaba a invadir a Ucrânia? Criando uma teia de poder e guerra. No último episódio, percebemos que o primeiro passo é usar a guerra para se transformar num líder adorado. O segundo passo, como vão perceber agora, é silenciar os traidores. Numa manhã quente de julho, 30 homens são recebidos num dos salões do Palácio do Kremlin. Sentados naquela longa mesa corrida, estão os empresários mais ricos do país. O chá ainda está quente no serviço de porcelana do palácio, onde o presidente começa a falar. Explica que a partir de agora há novas regras. Os empresários não devem envolver-se na política. Calmo e sorridente, Putin deixa implícito que se tentarem influenciar o poder, vão sofrer as consequências. Os empresários ficam visivelmente desconfortáveis. Mexem-se nas cadeiras, trocam olhares. A maioria vai acabar por aceitar o ultimato. Três homens, porém, vão desafiá-lo. Dois não foram sequer convidados pra aparecer no Kremlin nesse dia. É um sinal de que já não são vistos como amigos. O terceiro homem faz parte do grupo de 30 empresários que estão nesta mesa a ouvir Putin. Neste momento, não faz ideia de que vai passar 10 anos na prisão. Era tão provável como chegar à Lua, disse um jornalista russo. Nesta noite de outubro de 1995, no salão de um dos hotéis Hilton, em Genebra, celebra-se a entrada de um banco russo no mercado suíço. Há caviar, vodka gelada e música. Este sucesso só é possível por causa de um programa de privatizações polêmico. Os banqueiros emprestavam dinheiro ao Estado e, em troca, recebiam ações numa série de empresas estatais lucrativas. Se o Estado não pagasse o empréstimo de volta a tempo e horas, os banqueiros podiam vender as empresas em leilões abertos. É assim que, quase do dia para a noite, surge uma nova classe de milionários no país. Uma classe que gosta de consumir caviar e vodka gelada a rodos, mas que gosta ainda mais de se manter perto do poder. Daí o nome que lhes dão: oligarcas. Chamam-lhe "o Ganso", pela semelhança de sons entre o seu apelido e essa palavra em russo. Na década de 1980, Vladimir Gusinsky era apenas um taxista ilegal. Fazia dinheiro usando o seu próprio carro para levar pessoas ao aeroporto. Durante uma noite de trabalho pelas ruas de Moscovo, o Ganso fez uma pausa entre clientes para fumar um cigarro. Encostado ao seu carro, aquele homem franzino e de casaco de cabedal olhava em volta, distraído, quando reparou no ferro velho de carros que ficava ali ao pé, e viu um enorme cabo de cobre puro. Percebeu que estava ali uma mina de ouro. Poucos anos depois, as pulseiras de cobre que criou já eram um acessório de moda popular em toda a Rússia. Distinguiam-nas dois pequenos dragões gravados ao lado do nome da marca. A partir daí, foi-se sempre a subir para este empresário. Em 1993, usou parte dos seus milhões para fundar o primeiro canal de televisão privado do país. "A nossa profissão são as notícias", era o lema da NTV. Mas o verdadeiro objetivo do Ganso era influenciar o poder. Gusinsky não apoia Putin para suceder a Yeltsin, e o seu canal reflete esse posicionamento. Por exemplo, através de um programa satírico de bonecos ao estilo contrainformação, muito popular na Rússia no início da década de 2000. Num dos episódios, ridicularizam Putin. O alvo das piadas não terá gostado nada deste episódio, dizem. Desde que chegou à presidência, segue atentamente tudo o que se passa na televisão. Na sua secretária no Kremlin, tem sempre um comando para ir mudando de canais. Mas apesar disso, não foi o programa de bonecos que ditou o fim da NTV. Estamos em março de 2000, a apenas dois dias da eleição presidencial que vai dar a vitória a Vladimir Putin. A NTV exibe um documentário de investigação. O tema é o incidente em Ryazan, quando dois agentes do FSB foram apanhados a colocar o que parecia uma bomba na cave de um prédio. O programa explora o possível envolvimento dos serviços secretos nas explosões que abalaram o país em 1999. A reação do governo não tarda. O ministro da Informação deixa um recado a um dos chefes do canal: "A NTV passou das marcas. A partir de agora, aos nossos olhos, vocês são criminosos". Mas Gusinsky não tem problemas só com o poder político. Tem também de lidar com outros tubarões, que, tal como ele, fizeram fortunas quase da noite para o dia. O maior deles todos chama-se Boris Berezovsky. O embaixador canadiano Jeremy Kinsman era vizinho de Berezovsky em Moscovo. Conta como este empresário enriqueceu.
O Berezovsky recebeu uma concessão que lhe permitiu importar carros Mercedes-Benz, e transformou isso num império televisivo e de muitas outras empresas.
Matemático de formação, Boris Berezovsky é um dos oligarcas mais próximos de Boris Yeltsin. E ao longo da década de 90, a sua influência política não tem limites. O seu gabinete fica no Logovaz Club, a sede da sua primeira empresa de importação de carros no centro de Moscovo. Mas a sede é muito mais do que um local de negócios. É um salão de paredes amarelas, onde o fumo do tabaco se mistura com o barulho das garrafas a serem abertas e com o som das conversas dos que se sentam nas mesas de estilo bistro parisiense. Há um grande piano de cauda, por vezes tocado por um velho amigo de Berezovsky. E num canto, um crocodilo embalsamado. A filha de Yeltsin, Tatiana, é presença habitual. Mas a estrela ali é Boris. Chega sempre atrasado, de mãos nos bolsos. É baixo e careca, mas o seu carisma quase maníaco transparece em cada palavra que diz. Pede desculpa pela demora e sai pouco depois, apressado, mas não sem antes trocar uma palavra com todos os que lhe interessam. Ao contrário do Ganso, Berezovsky vê com bons olhos a subida ao poder de Putin. Ficou impressionado com o antigo agente do KGB. Primeiro, por Putin ter recusado quando Berezovsky o tentou subornar com um carro. Depois, por Putin ter feito questão de aparecer no aniversário da sua mulher com um ramo de flores, numa altura em que Berezovsky estava na mó de baixo dentro do Kremlin. A proximidade entre os dois era tal, que em julho de 1999, é ele quem dá a Putin a notícia de que Yeltsin o quer convidar para primeiro-ministro e provável sucessor na presidência. Berezovsky viaja então para Biarritz, no sul de França, onde Vladimir estava a passar férias com a família, num apartamento modesto, e faz-lhe a proposta. No fim ele disse: "Muito bem, vamos tentar, mas entende que tem de ser o Boris Nikolayevich a dizer-mo diretamente". E Yeltsin assim fez. O primeiro mandato de Vladimir Putin parecia seguir o mesmo caminho das democracias ocidentais. Mas um olhar mais atento revelava uma realidade diferente, como nos explica Sergei Guriev, economista russo independente, que trabalhou como consultor do Kremlin nesses primeiros tempos, antes de se desiludir de tal forma que se juntou ao opositor Alexei Navalny.
Ele nunca foi um liberal. Economicamente, sim, recrutou pessoas para levar a cabo reformas e continuou a fazê-las até 2002, 2003. Essas reformas deram bons frutos, mas no que diz respeito à política, abriu uma nova ofensiva contra os media livres desde o primeiro dia. E hoje sabemos também que era corrupto desde o primeiro dia.
Os media foram os primeiros alvos de Putin, em concreto a NTV, do Gans. Quatro dias depois de Vladimir Putin tomar posse como presidente da Rússia, a sede da NTV é alvo de buscas. Um grupo de agentes vestidos de camuflado e com máscaras a tapar a cabeça, entram nos escritórios e vasculham tudo, indiferentes aos jornalistas e outros funcionários no local. Será a primeira de 35 buscas nos meses seguintes. O responsável financeiro da empresa é detido. É aberto um processo judicial com audições para possivelmente liquidar a empresa. Mesmo com toda a pressão, o Gans não recua e critica publicamente o presidente. Numa entrevista, diz que a ideia de Putin como um democrata é um mito. Uma semana depois, Gusinsky é convocado para um interrogatório na sede da Procuradoria-Geral. Vai sem advogado, uma decisão que lhe sai cara. Uma hora e um quarto depois de começar a ser ouvido, é oficialmente detido por suspeitas num caso de fraude com uma antiga empresa privatizada. Enquanto tudo isto acontece em Moscovo, Putin está numa visita de Estado a Espanha. Os jornalistas que o acompanham fazem-lhe perguntas sobre a detenção do empresário. Putin começa por dizer que não sabe detalhes e que ainda não conseguiu falar com o procurador-geral. Ao mesmo tempo, em Moscovo, o ministro da imprensa faz uma proposta ao número dois do Gans: se a NTV for totalmente vendida à empresa estatal Gazprom, por 300 milhões de dólares, as acusações contra Gusinsky caem. Na cadeia, fazem a mesma oferta ao Gans e também o ameaçam. Dizem-lhe que o vão pôr em celas cheias de prisioneiros com tuberculose e sida. Sente-se um refém e desabafa: "Quando se tem uma arma apontada à cabeça, só há duas opções, aceitar as condições dos bandidos ou levar com uma bala". Gusinsky aceita as condições. Três dias depois, sai em liberdade e embarca num avião para Espanha. Não é ele o empresário que foi detido a bordo de um avião, como contámos no início deste episódio. Esse é outro homem que ainda vamos conhecer melhor. Mas Gusinsky, o Gans do cobre e dos media, nunca mais regressou à Rússia. São 7h30 da manhã, quando o exercício de lançamento de um torpedo falha e há uma explosão na proa de um submarino. Um incêndio deflagra nos compartimentos da dianteira. Dois minutos e 15 segundos depois, há nova explosão. A maioria da tripulação de 113 marinheiros tem morte imediata. No fundo do mar de Barents, entre a Noruega e a Rússia, é quase impossível que alguém ouça o desastre que aconteceu no submarino nuclear Kursk. Mas as explosões têm uma dimensão tal, que são detetadas pelos sensores sísmicos noruegueses. E os oficiais russos que estão a monitorizar o exercício naval à distância, percebem de imediato que algo aconteceu. As primeiras buscas só começarão nove horas depois. Isto apesar de 23 marinheiros ainda estarem vivos, trancados num dos compartimentos da parte de trás do submarino, que se vai afundando lentamente. O presidente Vladimir Putin está de férias na estância balnear russa de Sochi. Só é informado do que se passa na manhã do dia seguinte, quando o Kursk já se afundou. Dizem-lhe apenas que o submarino está desaparecido Na mesma manhã, começam a circular rumores entre os familiares dos marinheiros. Muitos começam a juntar-se na base naval mais próxima do mar de Barents, para pedir informações. O presidente parece paralisado. Rejeita as ofertas de ajuda dos governos norueguês e norte-americano. Não interrompe as férias. Deixa o Ministério da Defesa tratar dos comunicados, e este vai dando informações falsas ao público. "Toda a gente a bordo está viva", garante o responsável da Marinha. A essa hora, todos os marinheiros já tinham morrido. Boris Berezovsky telefona ao presidente e insiste, sem sucesso, que ele interrompa as férias. Berezovsky já tinha tido a ousadia de criticar algumas decisões de Putin, mas agora vai cometer um erro fatal. Depois de ser ignorado por Putin, Boris Berezovsky dá uma ordem a um dos pivôs do canal de televisão que controla: "Não há restrições na cobertura do assunto. Faz o que quiseres". A ORT junta-se assim ao tom crítico do resto da imprensa nacional, enquanto as buscas decorrem. "Por que o presidente tem estado em silêncio?", pergunta-se numa manchete. Outro jornal publica uma série de fotos de Putin nas férias, bronzeado, a jogar snooker com responsáveis da Marinha. A legenda diz simplesmente: "Eles não se afundam". Uma estação de rádio faz uma sondagem que se revela demolidora para Putin. Três quartos dos inquiridos acham que o presidente devia estar a acompanhar as buscas no local. Na base naval, o canal de Berezovsky entrevista as mulheres dos marinheiros, que fazem críticas ao poder político. O presidente, furioso, telefona a um dos jornalistas e acusa-o de ter contratado prostitutas para falarem mal dele na televisão. Mas o clamor das famílias é cada vez mais audível. Quando o vice-primeiro-ministro vai à base para falar com elas, uma das mulheres perde as estribeiras. Chama-lhe "porco" e acusa-o de estar a engordar enquanto o filho está a morrer. Tenta calmá-la. Uma enfermeira da Marinha aproxima-se e injeta-lhe um sedativo. A mulher desmaia. Tudo é captado pelas televisões. Perante a situação caótica, o presidente percebe finalmente que tem de ir ao local. E é então que acontece algo que Putin nunca mais vai permitir que se repita. Fala diretamente com a multidão em fúria. As famílias esperavam pelo presidente desde as 16h, mas ele só aparece à noite. De fato preto, sem gravata, reúne-se com os cerca de 500 familiares que ali estão. As televisões só têm autorização para filmar os primeiros 30 segundos. Os jornalistas são depois retirados da sala, com a exceção de um, que finge ser familiar das vítimas e esconde o gravador debaixo do casaco. O encontro começa tenso, mas à medida que Putin fala, consegue domar a multidão. "Saiu dali como o presidente daqueles que estavam prontos para o despedaçar pouco antes", resume o jornalista que ficou na sala. O Kursk serviu-lhe de lição. Até hoje, só aceita encontros programados, como a reunião com as mães de soldados russos a combater na Ucrânia, em novembro de 2022, todas elas com ligações ao partido ou ao governo. Depois de controlar a fúria das famílias do Kursk, passa à fase seguinte: responder aos ataques mediáticos de que foi alvo. Na televisão, ameaça os oligarcas que o traíram e que acusa de aproveitamento político. "Seria melhor para eles venderem as suas vilas na costa mediterrânica de França ou Espanha. Aí teriam de explicar por que essas propriedades estão registadas em nomes falsos ou em nome de empresas. E aí perguntaríamos de onde veio o dinheiro". Putin decidiu que a ação de Berezovsky era ação de um traidor, e um traidor é pior do que um inimigo. A um jornalista russo, nesse mesmo mês de agosto, o próprio presidente explicou que "um traidor é um homem que está sempre por perto, mas no momento em que acha que estamos fracos, esfaqueia-nos pelas costas. Para eles não pode haver misericórdia". No final de agosto, Putin e o seu chefe de gabinete recebem Berezovsky no Kremlin. O que aconteceu na reunião foi relatado mais tarde pelo próprio empresário. O oligarca começa por dizer que defende a cobertura do acidente do Kursk por parte da sua televisão. No seu habitual tom lisonjeiro, reforça que as críticas ajudam o presidente, porque revelam que ele não tem intenções de censurar os media. Depois de ouvir Berezovsky em silêncio, Putin abre uma pasta com documentos. Começa a enumerar, em voz alta, uma série de suspeitas de crimes por parte da televisão que o oligarca controla, nomeadamente corrupção. Exige que o empresário entregue as suas ações a uma empresa estatal indicada pelo governo Berezovsky confrontou-o: "Diz-me uma coisa, Volodia, fazeres-me o mesmo que fizeste ao Gans, foi ideia tua?" Putin responde: "Isso agora já não importa nada. Adeus, Boris Abramovich". Nos meses seguintes, a Procuradoria abre uma investigação por suspeitas de desvio de dinheiro contra Berezovsky. Em novembro, anuncia que vai acusar formalmente o empresário. Mas Boris Berezovsky não é detido. Também não é ele o homem apanhado a meio da noite no avião pelos serviços especiais. Em vez disso, decide pedir asilo político no Reino Unido, que lhe é concedido. Como Guzinski, nunca mais regressará à Rússia. Para contar a história do homem detido dentro do avião, primeiro é preciso apresentar outra figura do Kremlin. O seu nome é Igor, Igor Sechin. Mas nos corredores do Kremlin, há quem lhe chame pelas costas, Darth Vader. Num dos telegramas diplomáticos norte-americanos divulgados pela WikiLeaks, é descrito desta forma: Sechin é tão obscuro que há uma piada que diz que ele talvez nem exista. É antes um mito urbano, um papão inventado pelo Kremlin para incutir medo. Sechin foi, durante anos, uma espécie de secretário de Vladimir Putin. Era o homem que lhe geria a agenda, que lhe entregava papéis pra assinar, que lhe levava a mala se fosse preciso. Sempre servil, de cabeça e voz baixas, mas sempre a atuar na sombra. O economista Sergei Guriev, que se cruzou com ele, descreve assim o seu percurso.
Sechin foi atrás de Putin para o governo logo na década de 90, quando Putin foi para Moscou. Sechin seguiu Putin para todo lado. A certa altura, criou a Rosneft e começou a geri-la, mas antes disso ocupou vários lugares no governo e sempre estava muito próximo de Putin. Para além disso, teve um papel no KGB também. Quando Putin se tornou presidente, Sechin não trabalhava no FSB, mas havia rumores de que ele escolhia pessoas-chave dentro do FSB.
A ligação de Sechin ao KGB remonta à década de 80 e passa por Angola e Moçambique. Foi ali que trabalhou, oficialmente como tradutor militar, durante as guerras civis de ambos os países. Vários especialistas dizem que, na prática, Sechin trabalharia como espião. Segundo a imprensa russa, poderia mesmo estar ligado ao fornecimento de armas aos grupos africanos pró-soviéticos. Nesse período, aprendeu a falar português fluentemente, o que viria a ter um peso determinante no seu futuro. Foi graças a isso que conheceu Vladimir Putin, quando este trabalhava na Câmara de São Petersburgo, numa viagem ao Brasil, em que Sechin serviu de tradutor. Desde que gere a petrolífera estatal Rosneft, que Sechin também usa o português como arma. O seu braço direito na empresa é Didier Casimiro, um luso-descendente belga. Segundo a agência Bloomberg, os dois falam em português durante as reuniões, quando não querem que mais ninguém compreenda a sua conversa. Esta empresa, a Rosneft, tem um papel muito importante nesta história. É a empresa estatal que absorveu a petrolífera expropriada ao homem que foi detido no início deste episódio. Agora, podemos finalmente revelar o seu nome. Esse homem chama-se Mikhail Khodorkovsky. E o Darth Vader do Kremlin pode ter contribuído pra essa prisão. Khodorkovsky começou a sua carreira como empresário aos 19 anos, a importar e revender computadores portáteis, mas em pouco tempo comprou a petrolífera Yukos. Com isso, tornou-se o homem mais rico da Rússia, como nos explica Jeremy Kinsman, antigo embaixador do Canadá em Moscovo.
Khodorkovsky acabou por juntar dinheiro suficiente para fundar um banco e depois juntou mais dinheiro para conseguir fazer uma licitação no leilão da petrolífera Yukos. E a Yukos tinha reservas maiores do que qualquer outro ativo petrolífero no mundo, com exceção da Arábia Saudita. Creio que ele a comprou por 225 milhões de dólares. Um ano depois, o seu valor era de dois mil milhões. Por isso, pode ver o tipo de fortunas que se estava ali a criar.
O preço de compra foi um pouco mais alto, 330 milhões, mas mesmo assim, um valor irrisório quando comparado com o que a Yukos viria a valer em tão pouco tempo. Ninguém sabe ao certo em que momento Putin passou a ver Khodorkovsky como um traidor, mas a tensão entre os dois foi evidente numa reunião pública em fevereiro de 2003. Era mais um dos encontros habituais de empresários no Kremlin, no imponente Salão de Santa Catarina. Khodorkovsky apareceu vestido de forma descontraída, com uma camisola de gola alta, e atendeu uma chamada a meio da reunião. Atitudes de que o presidente, apreciador da formalidade, não gostou. Mas o verdadeiro problema surgiu quando chegou a vez de Khodorkovsky falar. A sua apresentação de PowerPoint trazia o título "Corrupção na Rússia: um travão ao crescimento económico". E o empresário passou ao ataque, denunciando suspeitas de corrupção no negócio da empresa estatal Rosneft, que comprara recentemente uma pequena produtora por um valor muito superior ao estimado. Putin, irritado, reagiu de imediato. "A Rosneft precisa de novas reservas como qualquer outra empresa. E a Yukos, a sua empresa, também tem reservas em excesso. Como é que as obteve?", perguntou. Depois da reunião, Putin transmite o seu desagrado a um amigo, que mais tarde conta a conversão aos jornais de Moscovo. "Depois de tudo aquilo em que eles já meteram a mão, agora vêm aqui acusar-me de aceitar subornos? Ele tem a lata de me dar lições de moral em frente a toda a gente?" Outros problemas acumularam-se para Khodorkovsky nos meses seguintes. Em abril, o empresário negoceia uma fusão com a empresa de Roman Abramovich e começa a sondar a possibilidade de juntar ao negócio petrolíferas americanas, o que desagrada ao Kremlin. O presidente também informa diretamente Khodorkovsky que sabe que este anda a financiar o Partido Comunista, a principal força da oposição, a poucos meses das eleições parlamentares. Todas essas razões são apontadas como possíveis explicações para a prisão de Khodorkovsky. Mas haverá mais, e envolvem aquele homem a quem chamam Darth Vader e que fala português. Sechin mandara colocar Khodorkovsky sob escuta, e era ele quem entregava pessoalmente os relatórios com os resumos das conversas ao presidente. Os rumores no Kremlin dizem que esses relatórios traziam conversas suspeitas do empresário com políticos dos Estados Unidos. Traziam também comentários de Khodorkovsky a desvalorizar Putin. Fala-se até que o empresário teria defendido um golpe de Estado. Seria verdade? Ou teria Sechin exagerado o conteúdo da conversa? O economista Sergei Guriev diz que Putin quis fazer do dono da Yukos um exemplo.
Putin viu em Khodorkovsky uma ameaça e decidiu derrubar aquele poder. Esta foi uma grande mudança. Ele disse aos grandes empresários: "Eu giro a política, vocês não podem interferir de todo. Ou fazem o que eu digo, ou vão para a prisão".
A corda costuma partir para o lado mais fraco. E na Rússia de Putin, o poder político ainda é mais forte do que o dinheiro. A 25 de outubro de 2003, apenas dois meses antes das eleições, Khodorkovsky é acordado dentro do avião onde viajava para a Sibéria e sai algemado. É formalmente acusado dos crimes de fraude e evasão fiscal. Menos de um ano depois, a petrolífera estatal Rosneft absorve os bens da Yukos. Putin nomeia como presidente da empresa Igor Sechin, o seu secretário que fala português. Khodorkovsky passa o julgamento na prisão. Em tribunal, aponta o dedo a Sechin. Diz que a destruição da Yukos foi maquinada por certas pessoas influentes para controlarem a empresa de petróleo mais próspera da Rússia. Não lhe vale de nada fazer esta denúncia. É condenado a nove anos de prisão numa colónia penal. O caso de Khodorkovsky provocou um abalo naqueles primeiros anos da presidência de Putin, explica Sergei Guriev, economista que chegou a trabalhar como consultor do Kremlin.
Foi chocante. E foi um ponto de viragem, trouxe uma atmosfera diferente. Na altura da detenção de Khodorkovsky, era impossível imaginar que ele seria detido. E era impossível imaginar que ele ia passar anos na prisão. Pensemos nos outros oligarcas. Guzinsky foi detido e libertado ao fim de uma semana. E depois Putin chateou-se com Berezhovsky, mas não o pôs na prisão. Por isso, isto é completamente diferente. E quando Khodorkovsky recebeu como pena vários anos de prisão, tornou-se óbvio que as regras do jogo tinham mudado.
Hoje em dia, uma prisão como a de Khodorkovsky não surpreende. Vinte anos depois daquele momento, é habitual surgirem notícias de pessoas a serem condenadas a cinco, 10 ou 20 anos de prisão na Rússia, apenas por condenarem publicamente a guerra na Ucrânia. Mas em 2003, ainda era possível acreditar que Vladimir Putin iria colocar a Rússia no caminho da democracia. Vladimir Milov, que nessa altura já tinha sido vice-ministro da Energia e batido com a porta em desacordo por questões técnicas, ainda acreditava naquele ano.
A última vez que o vi foi em maio de 2003, durante o concerto do Paul McCartney, na Praça Vermelha. Há uma gravação deste famoso momento em que, a meio do concerto, ele sai do Kremlin a pé e senta-se ali, a cinco metros de nós. Foi a última vez que tivemos uma ilusão de normalidade sobre o futuro da Rússia, porque semanas depois começaram as detenções no caso Yukos. E aí ficou muito claro que caminho estávamos a seguir.
Boris Berezovsky já vivia em Londres há quase 10 anos. Costumava dizer que escolhera ser um imigrado político, em vez de um preso político. E em 2012, decidiu usar a justiça britânica pra ajustar contas do passado. O empresário estava na loja da Dolce & Gabbana, da Sloane Street, quando o seu condutor o avisou de que o homem que procurava estava na Hermès, umas portas abaixo. "Traz os documentos", grita Berezovsky pro condutor. De seguida, corre rodeado dos seus seguranças, rua abaixo. Ao chegar à Hermès, é barrado na porta pelos seguranças do homem a quem quer entregar uma intimação para ir a tribunal. Seguem-se empurrões entre as duas equipes de segurança. No meio da confusão, Berezovsky consegue furar e entrar na loja. Ao ver o cabelo branco do homem que procura, corre na sua direção de braço estendido pra lhe entregar os documentos. "Tenho um presente pra ti", gritou. O outro recusa pegar no envelope. Berezovsky atira-o aos seus pés e sai porta afora. O homem fica parado. Chama-se Roman Abramovich. O mundo tinha ficado a conhecer Abramovich uns anos antes, quando o milionário russo comprou o Chelsea em 2003 e devolveu a glória ao clube londrino após a contratação do treinador português José Mourinho. Mas o julgamento que o vai opor a Boris Berezovsky vai começar a desvendar como, pra além dos holofotes do futebol, este homem pode ser muito mais próximo de Putin do que a maioria das pessoas pensava. Ele é essencial pra Putin conseguir esconder uma das coisas mais importantes para o presidente russo: dinheiro. Muito dinheiro. Só que essa é uma história para o próximo episódio. "Um Espião no Kremlin" é uma série em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Marco Delgado, e tem banda sonora original de Martim Sousa Tavares e Manuel Palha. O guião e as entrevistas são de Cátia Bruno. A edição é de João Santos Duarte. A sonoplastia é de Bernardo Almeida. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos ainda as vozes de Vadim Polyakovoy, Austin Bush e David Zakharov, agenciado da Sonder People. Ouvimos também sons históricos retirados do YouTube e da televisão russa NTV. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.
Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis
