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Olá, bem-vindos à Vixi Suave. António Costa decidiu começar a atacar duas ex: a ex-secretária de Estado do Turismo e a ex-secretária de Estado do Tesouro, que diz que ambas cometeram ilegalidades. Luís Montenegro também teve esta semana um espinho que o atingiu e teve mesmo uma baixa quase dupla, que é Pinto Moreira deixou de ser vice-presidente da bancada do PSD e também presidente da Revisão Constitucional. Vamos ver como é que foi esta semana.

Lamento perante os portugueses. Os portugueses não gostam, censuram o governo por isso e o governo deve tomar a lição.

Eu tenho 99,9% a certeza da ilegalidade da situação.

E se o senhor deputado tem 99%, eu tenho 99,9. É evidente que devia ter devolvido.

Mas acho que foi um ato de verdadeiro inseguimento. O deputado Joaquim Pinto Moreira, que é um deputado que eu conheço muitíssimo bem há muitos anos, vai renunciar hoje mesmo à sua posição enquanto vice-presidente do grupo parlamentar do PSD e como presidente da Comissão de Revisão Constitucional.

Sempre que um político é preso, todos os políticos ficam envergonhados.

Sempre que há Vixi Suave, todos os jornalistas ficam envergonhados. Eu sou o Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador e tenho 99,9% de certeza que tenho comigo o Miguel Vitor Dias, da Rádio Observador, e as jornalistas da seção de política, Mariana Lima Cunha e Rita Tavares. Vai começar a Vixi Suave.

Acho que nunca disseste uma coisa tão acertada, Rui.

Acho que estou envergonhado.

Qual delas? Ah, sobre a vergonha. Eu nunca vejo.

Falta de vergonha, Rita.

Não tenho essa virtude.

Acho que podemos ter vergonha-

Pessoas como o António Costa não se revê, no caso, na atitude de Rita Marques. Nós não nos revemos na atitude do Rui Pedro Antunes? Não.

Eu acho que já estamos a abusar da palavra vergonha, está bem?

Olha, é o presidente da assembleia.

A assembleia agora também tem dado mal nas análises. A assembleia tem falta de ferro. Ferro Rodrigues.

Como isto começa.

Então vamos começar pela sopa de ex. Quem é que quer começar?

Não sei, quem é que vai ter aqui a maior experiência neste tema é a Mariana, não é?

Diz que eu fui.

Sobre a ex tenho pouco a dizer.

Eu não preenchi nenhum questionário sobre a minha vida pessoal.

O Miguel queria só dizer que és a ex-jornalista de Expressa, a atual jornalista do Observador.

Sim, jornalisticamente tenho poucos ex. Já que a Rita me voluntariou, tomou a iniciativa por mim, aí vou eu. Vou falar das ex, aliás, das ex de António Costa, neste caso. Estava a me lembrar até de um socialista com quem conversava ontem à tarde que dizia que neste momento já é perigoso ser ex-membro deste governo, porque corre sempre o risco de ser atacado publicamente por António Costa. Ele acrescentava com alguma graça que ainda bem que António Costa nunca se divorciou, porque assim nunca vimos esta fúria em público. Mas fora de brincadeiras, acho que é certo que o caso Rita Marques e até de Alexandra Reis, a que António Costa também se referiu no Parlamento esta semana, fazem parte da estratégia do primeiro-ministro para controlar danos depois destas semanas de caos em que o governo esteve metido e que funcionou aqui como um escudo bastante útil, diria eu, no debate. Aliás, é certo que se nós, se calhar, íamos para o debate com uma expectativa, por exemplo, de ouvir falar muito mais de nomes como Fernando Medina, que passou o debate anterior a ser triturado pela oposição, até ainda de Pedro Nuno Santos. E o que é certo é que os ataques que António Costa fez tanto à Rita Marques como à Alexandra Reis estiveram nos nossos títulos, por exemplo, a tarde toda, acabaram por desviar o foco para aí. E, portanto, acho que passam a integrar um bocadinho a maneira como António Costa tentou virar a página destas semanas de caos político. Nós ouvíamos aqui no som inicial aquele pedido de desculpas, que eu acho que é um pedido de desculpas à la António Costa. A palavra desculpa foi dita? Não foi.

E depois diz quase como uma ladainha: aos portugueses.

Do estilo: pronto, eu aprendi, eu decorei que precisava dizer isto e vou dizer isto.

Disseram para dizer isto.

Quer que eu peça desculpa? Eu peço desculpa.

Exatamente. E havia um dirigente do PS que dizia: "Pronto, está o reconhecimento feito na arena parlamentar e junto dos portugueses." Portanto, aquela frase, já na segunda ronda do debate, serviu para, pelo menos, para os socialistas fecharem o capítulo.

Diz que aprendeu a lição. Coimbra é uma lição, é lá que vai ser o-

A Comissão Nacional do PS.

A Comissão Nacional do PS. Aliás, que o presidente da Federação do PS-

Estive na transição.

Não, e só dizer uma coisa sobre os ex-ministros, que é antigamente diz-se que a melhor profissão do mundo não era ministro, era ex-ministro, porque eles iam sempre para grandes cargos nas empresas estatais.

Certo. Agora é pior.

E o Ricardo Araújo Pereira tinha uma crônica na altura, na Visão, que dizia que as pessoas quando morrem vão para o céu e os ministros quando saem do governo vão para o CEO.

Mas ser ex-secretário de Estado é um pouquinho mais perigoso do que ser ex-ministro, neste momento.

Rita. Não, tinhas terminado, Mariana.

Não, passo a palavra com todo o gosto. Sobre esta parte da análise do que foi o debate e de como houve aqui uma mudança de tom e uma tentativa de António Costa de virar o jogo, eu acrescentava a parte que tem a ver com este mecanismo que foi apresentado ontem e que surgiu na sequência de todos estes casos e que foi, aliás, no debate, dito por António Costa que ia ser apresentado no dia seguinte e aprovado no Conselho de Ministros, e foi. E estas 36 perguntas que surgem nesta altura. Ontem a Ministra da Presidência dizia que era uma responsabilização da pessoa que assina o compromisso de honra e preenche o questionário, e também do primeiro-ministro. Não parece tanto isso, parece mais uma desresponsabilização na medida em que a pessoa que indica o nome, o primeiro-ministro ou os ministros, no caso dos secretários de Estado, fazem essa escolha, mas o ônus de validar se elas são idôneas ou não fica na pessoa que é escolhida. E claro que depois o questionário é lido por quem o pediu, por quem fez o convite, mas não há propriamente aqui nenhuma fiscalização externa. Isto não é o mesmo que já existia, nem isto se fazia. Quando se olha para as perguntas dos questionários, nós há bocado falávamos ali fora que a questão do bom senso, de facto, não está, pelo menos na igual medida na cabeça de todas as pessoas, mas quando olhamos para este questionário, é um questionário mínimo. É uma coisa que me custa a crer que até hoje não tenha sido colocada.

E mais, António Costa sabia, por exemplo, do caso de Miguel Alves, que era arguido ou que pelo menos estava envolvido no processo.

E no caso desta secretária de Estado Carla Alves, a ministra também sabia do processo que envolvia o marido. O que é que teria mudado se ela tivesse escrito lá que o marido tinha contas arrestadas? O que é que tinha mudado? Tinha mudado alguma coisa? Falta um bocadinho explicar essa parte. Ficamos aqui sem perceber.

E há bocado fizeste uma reflexão, Rita, que eventualmente é interessante para também fazer com o Artur. A reflexão é interessante por si, que é: se calhar todo aquele questionário não teria resolvido nenhum dos assuntos até agora.

Sim, muito provavelmente não. Por exemplo, aqueles casos que existiam no governo inicial, até das licenciaturas, de as pessoas não terem dito a verdade nos currículos. Muda alguma coisa? Também tem lá uma linha sobre habilitações acadêmicas, muda alguma coisa?

Sim, as pessoas provavelmente continuariam a mentir.

Teria evitado a mentir ou a enganar-se? Aliás, Mariana Vieira da Silva ontem diz mesmo que as pessoas às vezes enganam-se a preencher isto, mas nem todos os enganos são iguais. Depois vai haver novamente uma subjetividade nessa avaliação. É o que fica aqui subjacente àquilo que a ministra disse ontem, que é aquilo que for respondido, nomeadamente nessas questões mais sensíveis ainda que são as judiciais, depois depende da relevância que o primeiro-ministro ou os ministros na altura derem a essas mesmas questões. Fica tudo na mesma, só que agora escrito e com um compromisso de honra. Vale o que vale, é um papel, pode ser importante pra mim um compromisso de honra, pode não ser tão importante praquela pessoa que o assina porque quer ser ministro.

Também achei graça, Rita, quando a ministra ontem dizia alguma coisa como, porque alguém lhe pergunta: "Então, mas essas perguntas não se faziam sempre?" E ela responde uma coisa do gênero: "Bem, isto, cada um faz as suas. Sem ter uma lista uniforme, dá uma ideia que cada ministro convidava uma pessoa, lembrava-se de duas ou três perguntas, não se lembrava de outras e não havia qualquer..."

E agora há um guião.

Exato.

Sistematiza a entrevista de emprego.

Mas depois o questionário.

Acho que essa é uma parte dos casos judiciários.

Se alguma vez esteve preso numa prisão turca. Se preçou quando esteve na universidade.

Mas nós quando olhamos pro questionário, parece uma coisa completamente feita à medida daquilo que aconteceu nos últimos tempos. Nem sequer há uma memória muito profunda. Há coisas que são feitas à medida dos últimos tempos.

Rita Tavares folheou o questionário.

Na questão de impedimentos e conflitos de interesses, aparece: prestou ou desenvolveu nos últimos três anos, que vão ser os que vão estar em análise e que vão pesar pra isto, atividade de qualquer natureza, com ou sem caráter remunerado ou de permanência, suscetível de gerar conflitos de interesses reais, aparentes ou meramente potenciais. Veja lá se isto pode dar asneira ou não. Faça a sua própria avaliação.

Nós depois avaliamos por cima.

Pôr a responsabilidade para cima quando isto der errado.

Eu já estou imaginando António Costa no Parlamento daqui a uns meses a desculpar-se de algum erro neste formulário e dizer: "Bom, onde está uma cruz no não, deve ler-se no sim. O único erro foi este." Já estou a imaginar este tipo de desculpa.

A pessoa enganou-se, pronto. Ele se enganou no formulário, senhor deputado. Já estou a ver essa tendência de algo, também.

Miguel, e a ti, porque tu não és só meramente potencial. És muito potencial.

E qualquer dia até se vai perceber que foi um potencial estragado.

Eu disse só Rita e não Rita Tavares, porque da composição inicial da Vixi Suave sobraram três pessoas, a Rita Tavares, eu e a Rita Penela. A Rita Penela abandonou-nos.

Não preencheu o formulário. A Rita não preencheu o formulário.

Inicialmente havia três Ritas, a Rita Matias, a Rita Penela e a Rita Tavares. Neste momento só a Rita Tavares. Estamos aqui os dois. Se calhar, daqui a 50 anos teremos aqui os dois ainda. Se daqui deixam-nos mais gente, mas pronto.

Estou só a fazer dois comentários muito breves, um ainda sobre o debate desta semana no Parlamento, em que subscrevo a opinião da Mariana. E realmente é fácil aproveitar duas pessoas que não só já não são do governo, como também não são altos militantes do PS. Portanto, sábado, Alexandra Reis e Rita Marques não vão fazer sombra a António Costa, como Pedro Nuno Santos, que mesmo não estando presente, a sombra dele há de se ver junto ao Hotel Vila Galé.

Alguns dirigentes socialistas com que nós falamos ontem pra um texto que ainda vai ser publicado Publicado, que está na arca.

Acho que olha para a câmara com uma espécie de teaser aqui do programa.

Mas é um pouco isso, que havia socialistas que nos diziam, tanto a mim como à Mariana, que se indignam muito mais agora do que no caso do Pedro Nuno Santos ou de qualquer outro caso que envolva um socialista de gema, porque de fato aqui são figuras fora desse âmbito.

Da máquina do PS.

Portanto, é mais fácil atacar.

Estava aqui só a pensar onde devíamos ir almoçar amanhã a Aveiro, para ver se alguém vai almoçar a Aveiro .

Mas há uma coisa que me parece. Vocês vão a Coimbra e o Nuno Moita, que era o presidente da administração do PS de Coimbra, anfitrião.

É verdade.

Demitiu-se também. Acho que foi condenado, efetivamente, por ter favorecido numa contratação pública.

Ainda mais um questionário que podia ter dado errado.

Condenado a um dia de anos. Vou-me abster de citar aqui o caso Pimenta Machado, que foi mais ou menos parecido. Mas deixa-me só dar conta de uma coisa antes de fecharmos este assunto, que é: bati aqui de frente numa opinião do João Taborda Gama, ex-secretário de Estado, que diz assim: "Agora só falta o mecanismo para evitar as vírgulas entre o sujeito e o predicado". E depois aponta vários pontos do questionário que estão errados.

É uma coisa que me enerva muito mais.

É uma análise mais técnica.

É que não é bem um circuito, um questionário não tem bem um circuito, é só um questionário. Ou então se for é um curto-circuito. Não há muito logo. Vamos só para a última sopa, que é segunda e última, não vamos ter tempo para ir a três sopas, que é uma sopa sem espinhas, mas podia ser sem Espinho. Isto também não correu muito bem. Agora começo por ti, Miguel.

Obrigado. Sobre o caso Vórtex.

Será?

Gosto sempre de utilizar esta palavra.

E atinge todos, calma lá, não é só o PSD. Este caso vai a todos.

Não, isto é um vórtex que suga todos. Não suga Nuno Moita, o presidente da Câmara de Coimbra, julgo eu. Sobre isto estava a comentar à Mariana lá fora, tinha uma opinião muito singela para dar. Face ao caso Rodrigo Gonçalves, que foi o único caso judicial que envolveu até o momento a liderança do Luís Montenegro, houve uma reação muito mais rápida do que a de Joaquim Pinto Moreira. Mas ainda assim, acho que não sai muito chamuscado. Dá a ideia que guardaram um pouco aquele trunfo de ele vai demitir-se para a entrevista para a SIC. Porque Pinto Moreira deu uma entrevista um dia antes a dizer que tinha todas as condições para enfrentar aquilo. A primeira reunião da Comissão de Revisão Constitucional decorreu sem qualquer tipo de problemas, ninguém falou desse assunto, só se falou de calendários de trabalho, e três horas depois dessa reunião, deixou de ter condições e ia pedir a demissão. Guardou ali um pouco aquele trunfo, demorou dois dias a maturar ou a atirar o tapete ao grande amigo Joaquim Pinto Moreira, mas ainda assim lá teve que acabar por fazê-lo.

Mariana.

É o banho de ética.

Não sei se viste ontem a entrevista de Luís Montenegro.

Vi um pouco.

Mas também não é sobre a entrevista que estou a perguntar, é sobre este caso. E também no caso deste Espinho, que o PSD não pegou neste tema, nem sequer nos casos da secretária de Estado no debate político geral que tivemos. Houve aqui uma estratégia de tentar fugir aos casos.

Sim, e acho que até, aliás, isso foi outra coisa que acabou por beneficiar o debate que eu começava por falar no início do programa e de que vários socialistas disseram que António Costa se saiu muito bem e que o primeiro-ministro está em forma, etc. Isso também ajudou, porque quem ouvisse a intervenção inicial do PSD, que é muito focada, por exemplo, nas questões do crescimento económico, que são aliás um clássico nas intervenções de Joaquim Miranda Sarmento, é uma intervenção que podia ser feita naquele debate ou noutro qualquer. Não era propriamente marcada pelo que tem envolvido o governo nas últimas semanas e isso fica evidente e aí o PSD acaba por poupar o PS.

E poupa porque depois disponibilizou para aprovar este mecanismo quando ele nem sequer vai passar pela Assembleia da República, é uma coisa interna do governo.

Mas era como a Rita estava a dizer, este tipo de casos nunca salpicam só um partido. Aliás, nós estamos aqui, enquanto estamos a falar, obviamente, de Joaquim Pinto Moreira.

Deixemos só a maneira do salpico. Eu no início...

É uma referência à Shakira.

É isso, tinha pensado nisso. Não é só a Shakira que está a dizer mal dos ex, António Costa também diz mal dos ex. Não vou forçar tanto, mas vá, quem é que salpicou?

Enquadra-se. A questão é, e o PSD, aliás, Joaquim Miranda Sarmento acabou de comentar o afastamento dos cargos de Joaquim Pinto Moreira no Parlamento há poucos minutos e dizia que esta era uma questão de ética e transparência, mas que não se devia confundir, misturar os casos, etc., numa tentativa de separar o que já se sabe e com o levantamento da imunidade parlamentar, não sabemos o que se vai saber mais, mas o que já se sabe em relação a Pinto Moreira e o que já se sabe em relação ao autarca de Espinho, que é PS, de facto, Miguel Reis. E acho que isso também pode ajudar a explicar o fato de quando este tema é puxado, eu penso que só uma vez e pelo Chega, se não me engano, durante o debate, nenhum partido puxar por isso.

E António Costa responde daquela maneira simples, porque de facto também tinha ali telhados de vidro nesta operação, não havia volta a dar. É uma coisa que atinge todos e atingindo todos, não vem para a arena política.

Estava também meio envergonhado, não quis dizer.

Talvez, e o deputado estava lá sentado na terceira ou quarta-feira.

E já não mandaram, no bom sentido, os cães de ataque para acusar, por exemplo, de ser um náufrago, como disseram na semana passada.

Todos estes casos e este caso também de Espinho, baixou um pouco a turbulência e o tom que estava a ser usado no Parlamento, porque de facto, neste caso e nesta operação que está a acontecer ainda, não se sabe que mais casos poderão vir por aí, todos acabam por ter Enfim, fragilidades que podem ser atingidas.

No fundo, diga-me um autarca que não é arguido.

Sim, é verdade, mas alguns são por razões quase de indeferimento de recurso.

Mas é de facto uma fatalidade para o PSD, que numa altura destas podia capitalizar aqui e não consegue porque ele mesmo é atingido por um caso, que não é um casinho.

Teve que chamar Pinto Moreira e dizer que já não dava.

O Murphy deve ser militar.

"Me enamoré hasta que me cansé."

Mais uma breakout.

Mas de facto teve essa coisa. E ontem foi muito agressivo, também queria dizer, na entrevista à SIC, em que de uma forma bastante assertiva foi respondendo às questões e estava claramente acossado, até porque tentaram misturar mais ou menos ao longo da semana.

Pois, quis afastar aquilo de o atingir diretamente.

Exatamente.

Atingir também o tom, se calhar.

E por atingir diretamente, não vamos nós atingir o tempo, nem o rigor do noticiário e por isso termina aqui a primeira parte da Vixissuas. Regressamos dentro de momentos com o consultor de comunicação de António Costa nas últimas legislativas, Luís Paixão Martins. Ora, bem-vindos à segunda parte da Vixissuas. Connosco temos Luís Paixão Martins, podemos dizer desta forma, depois já pode ser retificado, o principal consultor de comunicação de António Costa nas legislativas de 2022. Também tinha sido de Cavaco Silva nas presidenciais de 2006 e de José Sócrates nas legislativas de 2005, que são três maiorias absolutas. Falo destas em específico porque lançou um livro que tem o nome de "Como perder uma eleição", que chegou recentemente às bancas. Isso também é um pretexto para o ouvirmos aqui.

Boa tarde a todos, obrigado pelo convite.

Escreveu nesse livro, precisamente, "Como perder uma eleição", que a TAP era a mãe das maiores dificuldades narrativas, porque os portugueses contribuintes não gostam da companhia aérea. O primeiro-ministro admitiu, na quarta-feira, pela primeira vez, a privatização total da companhia. A única forma de destruir este calcanhar de Aquiles é afastá-la completamente da esfera pública e deixar de ser responsável pela companhia aérea.

Eu só falo das questões que têm a ver com a comunicação e o marketing. Em relação a isso, o que eu escrevo no livro, e penso, e pensava na altura da última campanha, é que a TAP é um ativo tóxico para uma campanha eleitoral e portanto para o dia a dia dos políticos, e a situação não melhorou. Pelo contrário, tem vindo a agravar-se a reputação da TAP, em termos da sua imagem. Há aqui uma questão da TAP que vale a pena sublinhar, que há a gestão da CEO e há a gestão política. E o que acontece na TAP, por razões que eu não consigo perceber, compreender, é que a companhia só faz a gestão através de uma senhora, que é uma CEO, certamente competente, mas do mercado dos aviões, e ninguém faz a gestão política da companhia na companhia e, portanto, na prática, quem faz a gestão política da TAP é o governo. É como se a gestão política da Caixa Geral de Depósitos, que é outro ativo relevante das empresas que têm uma relação com o Estado, fosse feito pelo governo. Não é.

Porque também tem um ex-ministro à frente. Facilita.

Não sei se facilita ou dificulta. O que eu estou a dizer é que na TAP há uma lacuna gravíssima, que é a inexistência daquilo a que podemos chamar um chairman, um Almirante Marques, uma pessoa que dirija a companhia do ponto de vista político. E como isso não é feito na companhia, na prática, é feito no governo. É feito no ministro, que coitado até teve que apanhar voo para outros voos, e até cai em cima da figura do primeiro-ministro. Ninguém leva ao primeiro-ministro as questões da Caixa Geral de Depósitos e toda a gente leva ao primeiro-ministro as questões da TAP. Portanto, é um problema da própria gestão política do equipamento, da empresa, da marca TAP. Depois, os portugueses detestam a TAP e é irrelevante que ela tenha resultados positivos ou não tenha, e até seirás que os aviões andam ou horas ou não andam. Foi criada uma reputação à companhia péssima. Há muitas pessoas que não andam nos aviões da TAP. Há uma ideia que pagam à mesma, a companhia, que tem muitos prejuízos, que são uns privilegiados, coisas que provavelmente não são de todo verdade, mas criou-se um caldo muito negativo em relação à companhia. E a ideia que eu tenho hoje, como eu disse, na campanha eleitoral de 2022, faz agora um ano, era o elemento mais crítico que a candidatura do Partido Socialista tinha. Passado um ano, eu acho que é muito mais crítico ainda e que 2023 é um ano decisivo. Se o Partido Socialista quer ir para as próximas eleições com a possibilidade de não entregar o poder à direita, tem que resolver este ano a questão da TAP.

Tem que privatizá-la e afastar-se.

Afastá-la da política. Não é possível continuar a governar o país com a pretensão de vir a ganhar eleições, se a TAP continuar a ser o ativo tóxico que é hoje em dia, em termos da comunicação do governo e do Partido Socialista e da imagem do primeiro-ministro, tudo somado.

E as coisas foram piorando bastante nas últimas semanas. Escreveu também no livro que António Costa é um político à antiga, que responde às perguntas dos jornalistas. Os novos já têm um chip para não terem de o fazer. Esta foi a teimosia de António Costa mais difícil de travar ou a característica dele mais difícil de travar durante a campanha, entre os conselhos que lhe deu ou nunca lhe disse para não responder aos jornalistas?

Eu não tenho pretensão de travar ninguém. Como eu aliás explico no livro, e muito bem explicado, tendo trabalhado com pessoas com a personalidade do José Sócrates, animal feroz, do professor Cavaco Silva, enfim Um outro qualquer cognome que lhe queremos dar. E do Dr. António Costa, com todo o cautelão, eu nunca tive a pretensão de os travar em coisa nenhuma. Portanto, deixamos isso claro. Eu acho que o António Costa gere muito bem a sua imagem, isso está em causa, e é até uma pessoa muito cuidadosa, que não se expõe muito, que tem uma certa reserva na sua relação com os media e com o público em geral. O que eu aí digo é que talvez até seja uma qualidade e não um defeito. Ele não usa aquela técnica que usam as pessoas da outra geração. É um caso curioso que ocorre, o José Sócrates, por exemplo, que foi primeiro-ministro quase 20 anos antes de António Costa, é um político mais recente que o António Costa, tem outro tipo de formação. O António Costa é um político muito influenciado pelo Tomás Soares, pelo Dr. Jorge Sampaio, é de uma geração, digamos, do PREC.

É a antiga.

É a antiga, pronto. O José Sócrates, por exemplo, já não era, embora tenha sido primeiro-ministro muito antes. E, portanto, ele não usa as mesmas técnicas. Hoje em dia, os políticos vivem num mundo de uma grande hostilidade. Vocês são os hostis e sabem o que eu estou a dizer. É muito difícil reagir perante a pressão que os jornalistas colocam aos políticos. E portanto, eles ganharam uma couraça, um estilo, uns argumentos, uma maneira de se proceder. E o dr. António Costa, que é de um tempo um pouco diferente, em que havia uma relação mais simples entre a comunicação social e os políticos, ainda vem desse tempo. E, portanto, o que acontece , mas qualquer entrevistador sabe isso, senão ele também não teria escrito, não teria revelado, se fosse um segredo, que perante a réplica, o dr. António Costa, em vez de continuar a fugir à pergunta, faz peito, tem o seu orgulho e responde. Era isso o que eu queria dizer.

Só uma pequena curiosidade mais: diz no livro que o político não deve dizer que não, até porque as campanhas são a arte do sim, de oferecer, etc. E o primeiro-ministro às vezes começa as perguntas com um: "Vamos lá ver." O "vamos lá ver" do ponto de vista comunicacional é bom?

É um tique que ele tem.

Mas é melhor do que dizer não.

Sim, não é uma palavra impossível. Eu leio alguma coisa sobre isso e já não me lembro, na presidência talvez do Clinton, já não me lembro se era do Obama, era proibido escrever não nos papéis que faziam, era proibido o "mas", que é uma adversativa, não podia ser usado. Portanto, as pessoas têm tendência a encontrar argumentos de proximidade nas public relations.

O "vamos lá ver" é melhor que não.

O vamos lá ver é uma maneira de a pessoa pensar como é que responde.

Ganhar tempo.

Sim, de pensar. As pessoas também têm direito a pensar, ou não?

Se estivesse na comunicação do governo agora, aconselharia o primeiro-ministro a classificar os vários problemas que tem tido com governantes como casos e casinhos?

Eu não consigo avaliar isso. Eu não tenho capacidade pra estar na comunicação do governo. Não tenho competência nem estilo para uma tarefa dessas e, portanto, também não consigo comentar. E não estou a dizer isto para me defender de uma resposta negativa. Não estou. Há aqui uma questão que é relevante, que é: eu faço análises, não faço comentários, a não ser quando me distraio.

Não devia ser o caso.

Não, a minha vida é analisar a partir de fatos. Eu não acompanho a vida política para poder dizer: "Passou-se aquilo, devia ter sido feito aquilo outro." Não faço a mínima ideia. Não ligo mesmo à vida política. Agora, o que eu queria dizer, para explicar o meu raciocínio, é o seguinte: as pessoas que avaliaram o que se passou na campanha eleitoral de dezembro de 2021 e de janeiro de 2022, certamente que acharam que havia um combate renhido, que o PSD podia ganhar as eleições. Quem seguisse a cobertura mediática. E, no entanto, foi uma vitória folgada do Partido Socialista. Eu admito que hoje, quem analisa o que se passa pela cobertura dos media, possa pensar que a comunicação do governo é defeituosa, mas que ela na prática não o esteja a ser. Tenho que também deixar isso claro. Ou seja, há sempre uma-

Uma perceção mediática

...um antagonismo. Há uma disputa de poder. Isto não tem nada de especial. Há uma disputa de poder entre o poder político e o poder mediático. Há um combate entre dois poderes. Porque disputam o mesmo território, que é o território da atenção dos ouvintes, dos espectadores, do público, dos eleitores. Como estão a disputar o mesmo território, é natural que haja um combate entre eles. E esse combate, neste caso particular, em janeiro de 2023, sem nenhum instrumento de medida, nós não podemos saber se esse combate está a ser desfavorável para o governo. Sinceramente.

Mas, por exemplo, há pouco estava a dizer que não acompanha a política. Tenho algumas dúvidas que não tenha essa curiosidade, tendo em conta-

Nenhuma, não tenho dúvidas.

Fez consultoria na última campanha. Alguém que conseguiu a maioria absoluta, ou pelo menos esteve envolvido nessa conquista, agora olha para o uso que está a ser dado a essa maioria absoluta e a falta de condições de estabilidade, pelo menos aparentes. Com um governo com muitas demissões em muito pouco tempo, e pode deixar de pensar: "Olha, que desperdício."

Não, sobre a maioria absoluta, é um dossiê que me é caro, o dossiê da maioria absoluta. O dr. António Costa, na noite das eleições, a comemorar as eleições, quase que pediu desculpa aos eleitores por ter tido maioria absoluta, naquele discurso que ele fez. E explicou que a maioria absoluta tem uma péssima reputação entre os eleitores e que ele iria lutar, combater essa reputação.

Correu bem.

Que ele iria lutar, combater essa reputação Eu sobre isso, não respondendo diretamente à sua pergunta, Rita, tenho a dizer o seguinte: a maioria absoluta é um termo, é uma plataforma política que corresponde a uma ideia de estabilidade. Ou seja, foi uma das razões porque o Partido Socialista teve maioria absoluta nas eleições. Foi que o Partido Socialista era a única proposta eleitoral que oferecia a possibilidade de um governo estável a quatro anos.

Está a desbaratar isso.

Não estou a dizer isso.

Porque, na verdade, a estabilidade deixa muito a desejar.

São quatro anos. Se calhar, se não fosse o governo de maioria absoluta, já tinha caído. Já tinha havido um problema no Parlamento. Ou seja, o facto de ter maioria absoluta faz com que o governo, por exemplo, resista e continue a resistir e não tropece, ou se tropeçar, não cai, da mesma maneira do que se não tivesse. O que eu estou a dizer é uma coisa interessante do ponto de vista também eleitoral, que é o seguinte: nas próximas eleições legislativas, provavelmente vamos continuar a ter esta reconstrução da direita, ou seja, esta ideia que é uma direita fragmentada e, portanto, à direita não há ninguém que possa oferecer um governo estável. É a minha perspectiva, sem ser bruxo, o meu pensamento do que vai acontecer daqui a três anos, como aconteceu nas últimas eleições no ano passado. E o Partido Socialista tem essa vantagem comparativa. Ou seja, se o Partido Socialista conseguir levar a bom porto a ideia de melhorar a reputação da maioria absoluta, ou seja, se o doutor António Costa conseguir concretizar um dos desígnios que ele anunciou na noite eleitoral, que foi: "Eu vou lutar para alterar a reputação da maioria absoluta", quando chegar às eleições, ele tem uma vantagem competitiva, tem um atributo para oferecer aos portugueses que mais nenhum outro partido tem. E isso é um elemento importante. Se ele não conseguir, há pouco falávamos da TAP, há uma diferença fundamental entre o conceito TAP e o conceito maioria absoluta, no meu ponto de vista. A TAP é um problema, a maioria absoluta é uma oportunidade. Portanto, se o governo não conseguir mudar a reputação da maioria absoluta, por isso fica mais frágil perante as eleições. Deixa ter uma vantagem comparativa com o que a direita pode oferecer. Enquanto que a TAP não, a TAP é um problema, tem que ser resolvido antes de lá chegar, senão é uma oferta que o PS e o governo faz à direita. Mas, portanto, em relação à maioria absoluta, o grande problema para o doutor António Costa é que não é quem está no governo que define a bondade, os méritos da maioria absoluta. É um conjunto de entidades, o governo, a oposição, os vários partidos, os meios de comunicação social, os grupos de interesse, os lobbies, a sociedade em geral é que desenha o pensamento em relação à maioria absoluta. Isso é um trabalho complicado. Aceito que não esteja a correr bem, mas é um fator muito importante, essencial para quem vier a fazer, não eu, certamente, a comunicação da campanha do Partido Socialista daqui a três anos.

Como analista de comunicação e não enquanto comentador político, a postura de António Costa naquela entrevista à Visão, que foi até criticada dentro do PS, foi um erro, mostrou uma imagem de arrogância, até a questão da fotografia da capa.

A arrogância, pra mim, não é um defeito. Eu também não sou um eleitor médio e, portanto, também tenho direito de ter uma opinião sobre esse assunto. Eu sou um arrogante profissional. Portanto, a arrogância em si, pra mim, não é um defeito. Acho que não foi um grande momento. Ou seja, uma pessoa que aparece tão poucas vezes, ter aparecido de uma maneira tão descontraída, parece-me um pouco... Eu devo dizer uma coisa que tem a ver com a minha profissão, mas enfim, não é propriamente um segredo, que é: eu acho que os políticos devem estar sempre em tensão. Ou seja, a pior entrevista que os políticos dão é aos amigos. Não há nada pior do que um político ser entrevistado por um amigo, porque é aí que vai nascer as maiores asneiras, aquelas coisas que ficam pra história. O político deve estar sempre sob tensão e, portanto, deve ver as perguntas sempre dos jornalistas como um problema.

Não gosta daquele modelo da Ana Bella Neves na CNN conversar com eles.

É, eu não gosto de nada que pareça intimidade. Acho que deve ser mesmo tensão. Por quê? Porque o problema de um político como António Costa não é um problema de marketing, ou seja, toda a gente o conhece, tem notoriedade, ele não precisa de ligar o holofote pra ser visto. O problema dele é de risco. Ele só tem que analisar os riscos, só tem que não ir pra além de onde deve ir, não dizer mais do que deve, etc. Muitas vezes faço essa confusão. Durante a campanha, muitas pessoas acham que as campanhas são feitas para aumentar a notoriedade. É, alguns casos são. Na campanha do Sócrates contra o Santana Lopes, o Santana Lopes tinha uma notoriedade muito maior que a do Sócrates e, portanto, a campanha do Sócrates foi uma campanha de aumentar a notoriedade. Mas de uma maneira geral, isso não acontece. Uma pessoa que é primeiro-ministro há quatro anos, seis, não precisa de aumentar a notoriedade. Portanto, o problema das entrevistas do António Costa, com o apoio do professor Marcelo Rebelo de Sousa, que se fosse meu aconselhado me daria dias de aflição permanentes, não é um problema de notoriedade. Não é um problema de ficar bem na fotografia.

É que é excesso de confiança naquele meio, naquele aquário?

Não sei, talvez. Não tenho mais informações do que a Rita em relação a isso, não faço a mínima ideia. Não sei como é que a entrevista foi feita, como não foi feita, só vi a capa. Acho que nem li a entrevista, vi a capa.

E a capa chegou pra ficar marcada.

Sim, pra tirar o tom.

Aquela fotografia. Já que falava dos riscos em campanha ainda há pouco, íamos perguntar-lhe quanto medo é que teve que o caso do Zé Albino pudesse ser um turning point na campanha?

Eu fui dos que teve menos medo

Mas houve quem tivesse, então, acho que sim.

Sim, fiz parte de uma equipe em que havia pessoas que estavam mais preocupadas do que eu em relação a isso, porque eu não acredito em milagres. E, portanto, não achei que da campanha do PSD nascesse algo tão revelador de uma nova lógica, de uma nova estratégia. Nunca pensei, sinceramente. Mas aquilo teve um impacto extraordinário pelo seu inesperado. Acho que essencialmente pelo inesperado. Eu procurei encontrar algum racional, como o doutor Rui Rio, uma pessoa muito ligada aos números, às contas, àquelas coisas, era auditor ou coisa que valha, a gestão dele na Câmara do Porto foi muito fria. Talvez aquela ideia de mostrar um cantinho da casa dele e o gato fosse uma questão de o humanizar. E até compreendi isso. Quando ele depois extrapolou para a questão política é que fiquei mais perplexo.

Pensou que não vinha em livro nenhum aquela estratégia.

É, fiquei perplexo. Entre nós há sempre alguém que diz: "Mas eles com isto conseguiram centrar a campanha neles." É verdade. Ou seja, numa campanha nós estamos sempre à procura da atenção dos eleitores. Eu explico bem isso no livro. O grande problema de uma campanha é nós conseguirmos um minuto de atenção dos nossos eleitores, não é mais nada. E naquele momento, de facto, os eleitores foram-se embora. O doutor António Costa andou a fazer campanha pro boneco, pro gato. Por quê? Porque durante 24 horas, também não foi uma vida, mas 24 horas numa campanha eleitoral é imenso tempo. Durante 24 horas, ou 30, ou 40, não chegou a dois dias, a campanha saiu daquilo que se estava a dizer e passou a falar do gatinho do doutor Rui Rio. Foi uma surpresa muito grande.

Já agora, deixa-me perguntar-lhe sobre outra estratégia do PSD, agora mais recente. Aliás, disse ainda na Academia Socialista, em setembro, que o PSD tinha um problema com o Passos e com os pensionistas. Com Luís Montenegro na liderança, perguntava-lhe se acha que esse problema pode ou não desaparecer. E já agora, se achou eficaz os cartazes em que Luís Montenegro falava do corte nas pensões e da austeridade socialista. É uma narrativa que seja eficaz para o PSD?

Não, o que eu acho é que com o Luís Montenegro, o Pedro Passos Coelho voltou a aparecer. Ou seja, o comentário que eu fiz na altura foi um pouco a propósito disso. Voltou a aparecer, há quem fale, tenho lido que ele se está a posicionar para uma candidatura presidencial, etc. Isto não tem nada de pessoal, é pura análise político-eleitoral de que durante muito tempo, durante duas décadas, o PSD era o partido dos pensionistas, das pessoas com menos recursos, era o partido das pessoas mais pobres, etc. E que isso acabou com a troika. Ou seja, as primeiras medidas que o governo Passos Coelho tomou foram tiros nos pés do eleitorado do PSD. E hoje em dia, o que nós encontramos, qualquer estudo eleitoral diz isso, é que há um certo equilíbrio entre a direita e a esquerda até aos 65 anos. A partir dos 65 anos, as pessoas tendem a votar à esquerda, no Partido Socialista, porque estão preocupadas com as suas pensões, provavelmente estão ainda amarguradas com o que aconteceu no governo Passos Coelho. O que eu acho sobre isso, enfim, o tempo vai passando, e portanto daqui a três anos, se calhar, já ninguém se lembra disso, não estou a pôr isso em causa. Mas o que eu acho sobre isso é que sempre que aparece o Pedro Passos Coelho, e isso vem à memória das pessoas, e portanto, desse ponto de vista, não é um argumento muito positivo para o PSD, como ingrediente da marca.

Então o Passos aparecer ajuda este governo?

Sim, talvez. Mas eu não estava sequer a pensar nesses termos. Não me furto à pergunta, mas eu estava a pensar em termos da marca PS. Eu sou do marketing. Portanto, a marca PSD de hoje em dia não enriquece com a presença do Pedro Passos Coelho, porque faz lembrar um trauma que foi colocado aos fãs da marca em determinada altura por ele.

Aqui um ponto também vem da academia PS, do que disse lá, dos admiradores de Costa, e também tem de alguma forma aflorado numa parte do livro. Foi o António Costa, mais do que o PS, que ganhou as eleições. A marca Costa é a mesma marca Passos.

Eu somei.

Somou ao eleitorado PS o que Costa traz a mais, precisamente.

É engraçado esse aspecto, porque num grupo de direção de uma campanha, fala-se muito nas campanhas há duas ciências do conhecimento que estão no ar: a ciência política e a ciência da comunicação. Eu sou o menos dotado da ciência da política. Todas as outras pessoas que são das campanhas têm muito mais formação, muito mais interesse, toda a vida viveram na política. Portanto, eu sou o menos indicado para aconselhar políticos na política. E na comunicação, embora tenha mais algum conhecimento do que na política, basta ligar a televisão à noite que encontro 200 pessoas que sabem mais de comunicação do que eu, portanto, também não preciso de estar.

Afinal não é tão arrogante assim.

O que eu acho que introduzo, e era isso respondendo à sua pergunta, Rui Pedro, é a matemática. É outra ciência oculta que ninguém fala. Por quê? Porque eu penso: esta marca, que é a marca partidária, quantos eleitores é que tem? Eu ainda por cima não sou de porcentagens, sou de valores absolutos. Um milhão, 1.200.000. Há umas eleições em que foi um pouco mais. O doutor António Costa, à marca do Partido Socialista, acrescenta quantos eleitores? 200 mil Porque tem mais eleitores, mas acrescenta. Depois, como é questões interesseiras. Há muitos eleitores que votam por interesse próprio.

Com o bolso.

Pois, por exemplo, as pessoas têm pensões, votam a pensar nas pensões e votam de uma maneira um pouquinho diferente do que às vezes se pensa. Não é no rendimento, é na segurança. Portanto, o que está em causa não é dizer: "Eu vou aumentar as pensões". É dar a garantia, ter a credibilidade para as pessoas pensarem que o mundo das pensões não é tocado. Isso são outros eleitores. Depois há os eleitores que votam por razões ideológicas. Eu gosto de explicar bem explicadinho que o ideológico de hoje não é ser comunista ou liberal. É o Serviço Nacional de Saúde, é uma ideologia. Há eleitores que votam no partido ou na pessoa que lhes garantir que o Serviço Nacional de Saúde vai robustecer-se ou não vai acabar. E há pessoas que votam ou deixam de votar por causa da extrema-direita, por causa do Chega. Ou seja, quando nós estamos a ajudar a gerir uma campanha eleitoral, que é um momento curto, de dois meses, não é mudar o mundo, é tentar cativar mais eleitores, o que nós temos que fazer é um somatório daqueles que são os nossos potenciais eleitores e tentar cativá-los, sensibilizá-los, falando com eles e, ao mesmo tempo, tentando afastar dos nossos adversários aqueles que são os potenciais eleitores deles. Por isso é que há o voto útil e a abstenção útil. O voto útil é aqueles que votam a nosso favor e a abstenção útil é aqueles que deixaram de votar no nosso adversário por qualquer hesitação de última hora.

João Martins, era fácil vender António Costa ao fim de 10 anos, a marca, ou ia ser uma marca difícil de renovar se decidisse continuar para além de 10 anos?

Não, é um tema engraçado. Há um mérito que nós temos que nos dar a nós próprios, portugueses, que é um mérito incrível, que é o doutor António Costa de manhã, sai à rua com os cãezinhos, passeia na rua, cumprimenta as pessoas, fala com as pessoas, não há o mínimo indício de qualquer agressividade. O nosso presidente da República, é notório que faz o mesmo. Ou seja, o doutor António Costa tem o mérito de, ao fim destes anos todos, dos problemas todos que o país tem tido, da pandemia, da guerra, de tudo o que quiserem dizer, de poder entrar num restaurante e as pessoas o cumprimentarem. Ou seja, não tem muita rejeição. Se nós compararmos com outros líderes do Partido Socialista, estou-me a lembrar do José Sócrates ou do durão Barroso, eles tinham muito mais rejeição do que o doutor António Costa. Até o professor Cavaco Silva, que esteve no poder 10 anos, no último mandato tinha mais rejeição do que provavelmente tem hoje o doutor António Costa. Isso é uma virtude que ele tem. Não sei se tem algum interesse para a vida política futura dele, para quem está a planear um trabalho.

Não tem propriamente animosidade.

Não tem rejeição.

É como dizia o João Soares do Santana Lopes: tem mel. Também tem mel o António Costa.

Não, eu estou até a ser mais discreto do que isso. Não tem rejeição. Os políticos têm sempre duas coisas: os que gostam deles e os que os detestam. E o doutor António Costa conseguiu não ter rejeição. Eu costumo dizer, é redondinho. Ou seja, tem um comportamento sem arestas e isso ajuda, certamente, à relação com as pessoas. Depois tem outra vantagem, já agora, se me é permitido, que é o Presidente da República. Ou seja, o professor Marcelo Rebelo de Sousa forma com ele uma plataforma, uma dupla, como nunca tivemos na nossa democracia, em que há uma certa cumplicidade estratégica, talvez por causa da pandemia. Eu admito que o professor Marcelo Rebelo de Sousa, se não tivesse sido a pandemia, podia ter intervenções mais agudas em relação ao governo, como teve nos incêndios. A gente já não se lembra, mas quando foi dos incêndios...

Da ministra da Administração Interna ele admitiu.

Sim, claro, ele foi muito mais agudo. Depois veio a pandemia e a pandemia mudou-nos a todos. E a ele também, e ele ficou mais explicador do governo do que propriamente contrapeso.

Mas olhe, deixe-me aqui pegar no assunto da marca PS e olhando um bocadinho para o futuro, já disse que não quer fazer mais campanhas, ou pelo menos não quer fazer a próxima.

Já não tenho idade, é só por isso.

Pedro Nuno Santos é um político interessante para acrescentar a essa marca?

Eu não o conheço pessoalmente. Nunca falei com ele. Em nenhum momento. Mas deu-se um caso curioso, porque ele fez o único discurso político ideológico da campanha eleitoral, em Aveiro.

Em que nem referiu António Costa.

Sim, em Aveiro. Fez um discurso político e eleitoral. Eu gostei do discurso dele. Também não havia muito para deixar de gostar, porque os outros discursos eram todos normais. E ele não, teve a coragem de fazer um discurso político interessante. E fui à procura das fontes para me encontrar com ele, porque aquilo tem uma ideologia muito diferente. Quer dizer, uma coisa é o Pedro Nuno Santos, que o Bloco de Esquerda...

Ele falou o discurso das gaspiadeiras.

Sim, exatamente, é esse. Uma coisa é o Pedro Nuno Santos, que o Bloco de Esquerda e o PC e a Ana Gomes acham que é, e outra coisa é o Pedro Nuno Santos daquele discurso. Nem sei se foi ele que escreveu, estou até à vontade para admitir que não foi ele que escreveu, não é que ele não tenha capacidade, mas é uma coisa muito culta, elaborada, e geralmente os políticos não têm muito tempo para isso. Mas eu fiquei a achar que o caminho que ele fala nesse discurso das gaspiadeiras, já me lembrava da expressão, é um caminho para o Partido Socialista Mudei o meu pensamento. Nunca pensei muito no Pedro Nuno Santos, mas com esse discurso mudei o meu pensamento em relação a isso. Acho que se ele conseguisse afastar-se da imagem que os outros fazem dele, o Bloco e o PC, aquelas manhãs que cantam todos, que rodeiam o Partido Socialista, que ele tem ali um caminho interessante. Aquela ideia do mérito não ser um conceito dos liberais. Eu, por exemplo, gostava de vender essa ideia à brava. A ideia que o mérito é um conceito dos liberais é uma coisa que funciona nas empresas.

A meritocracia. Acho que temos muitas vezes aqui e não tem mérito por causa dessas pessoas.

E as gueijeiras não têm mérito.

Pois, é uma questão das empresas. Eu, como fui empresário 30 anos e tive clientes que eram capitalistas, empresários, professores de direito, eu passava a vida a explicar a eles. Uma coisa é gerir a empresa e outra coisa é gerir o país. E uma diferença é que no país não se despedem pessoas. Portanto, a reestruturação que se faz numa empresa é difícil fazer num país. E o Pedro Nuno Santos, esse discurso é uma visão socialista, uma visão de esquerda, relativamente a esse problema do mérito. Eu gostei muito desse discurso.

Não se despedem pessoas no país, na TAP despedem. Estamos a chegar ao fim, que é o problema dele, efetivamente, terem lhe dado a TAP para as mãos, também é um problema que ele tem que resolver se for ele o candidato.

Foi um problema de um despedimento da TAP.

Só mesmo para terminarem muito rapidamente, antes de passarmos pra fase do carne ou peixe, porque já estamos a queimar no tempo.

Carne ou peixe?

Sim, é por causa da Vixi Suave. "Queques que guincham" era uma expressão que aconselharia? "Queques que guincham", foi o que António Costa chamou à iniciativa liberal ou queques que tentam guinchar. Era uma expressão que aconselharia.

Queques é giro, eu não me importava de repetir o queques. O guincha é assim um bocadinho mais coisa. Agora queques acho bem.

Que lhes chame queques. Muito bem. Vamos então avançar pra fase do carne ou peixe, em que tenho que escolher uma de duas opções.

Não é difícil, não?

Não, não é nada difícil. Luís Paixão Martins, preferia passar férias na casa de Cavaco Silva, na Praia da Coelha ou na de António Costa, também no Algarve, no Carvoeiro?

Como personalidade, gosto mais do António Costa. Somos mais da mesma cultura, digamos, me é permitido dizer isto, lisboetas, anos 70, 80. Eu fui colega, camarada de redação da mãe do António Costa, Maria Antónia Palla, e conheci o pai dele na Publicis, na Agência LCK, agência de publicidade, e portanto, tenho uns laços mais... Sou mais parecido, se quiser, com a cultura do António Costa do que a do professor Cavaco Silva.

Preferia desenhar os próximos cartazes da iniciativa liberal ou passar a gerir as redes sociais de Rui Rio? Que agora também mudaram o foco depois de se ter retirado.

Eu há pouco expliquei a história do risco. Eu sou muito quadrado nessas coisas, não acho graça aos cartazes engraçados, nem acho que a gestão das redes seja uma coisa muito para se divertir. Eu estou sempre preocupado com o risco. Que asneira é que vai sair daquela equipe criativa.

E são duas plataformas onde podem sair muitas asneiras. Não escolhia nenhuma, então.

Não, não escolhia nenhuma.

Preferia ter a desenhar uma estratégia para uma maioria absoluta de Luís Montenegro ou de Pedro Nuno Santos?

Sou muito mais próximo da ideia de país de Pedro Nuno Santos do que Luís Montenegro, embora o Luís Montenegro conheço pessoalmente e gosto dele, e o Pedro Nuno Santos, como disse, nunca falei com ele na vida. Não é isso que está em causa.

Preferia ter como companhia na sua herdade clube de tiro de Monfortinho para um fim de semana, António Cunha Vaz ou Inês de Sousa Real, do PAN.

Do PAN. Sim, preferia a senhora do PAN. De longe mesmo.

Mesmo com os caçadores.

Mesmo de longe. Sabe que eu tenho um problema, descobri na campanha eleitoral, tenho um problema em relação ao PAN. Não os levo muito a sério. E portanto, achei que faz parte da nossa sociedade ter uns contrapontos. Umas pessoas que levantam umas questões de nicho. E só depois é que percebi que ela, de facto, tem muitos inimigos. Não tinha ideia.

Tem a tal taxa de rejeição.

É enorme.

Luís Paixão Martins, para terminar aqui o nosso programa, o que nos explica a sobremesa que nos trouxe, que no caso deste programa é a música que escolheu trazer e o porquê.

Vou escolher uma coisa muito fora de moda, mas é a vida. Eu escolhi o "Cantigas de Maio", que é um álbum que eu considero o melhor álbum da música portuguesa do José Afonso. Também tem a ver com os anos em que eu estava mais ligado à rádio e à música e, portanto, me interessava mais por esses temas do que hoje em dia. É uma produção feita pelo José Mário Branco em França, para quem é do tempo dessa música pop, foi onde o Elton John gravou o "Honky Chateau", porque era um castelo onde gravavam música, e que tem, de facto, um trabalho sobre a música portuguesa incomparável com o que foi produzido antes e depois. Portanto, eu escolho o "Cantigas de Maio".

Luís Paixão Martins, muito obrigado. Vixi Suave, como sempre, regressa na próxima semana.

"Eu fui ver a minha amada lá pra os baixos do jardim. Eu fui ver a minha amada lá pra os baixos do jardim. Dei-lhe uma rosa encarnada para se lembrar de mim. Dei-lhe uma rosa encarnada para se lembrar de mim. Eu fui ver meu benzinho lá pra os lados do..." Eu fui ver o meu benzinho lá para os lados do Passal. Dei-lhe o meu lenço de linho, que é do mais fino bragal. Dei-lhe o meu lenço de linho, que é do mais fino bragal. Minha mãe quando eu morrer. Minha mãe quando eu morrer. Ai chore porque muito amargou. Ai chore porque muito amargou. Para então dizer ao mundo. Para então dizer ao mundo. Ai Deus mo deu, ai Deus mo levou. Ai Deus mo deu, ai Deus mo levou. Ai Deus mo deu, ai Deus mo levou. Eu fui ver uma donzela numa barquinha a dormir. Eu fui ver uma donzela numa barquinha a dormir. Dei-lhe uma colcha de seda para nela se cobrir. Dei-lhe uma colcha de seda para nela se cobrir. Eu fui ver uma solteira numa salinha a fiar. Eu fui ver uma solteira numa salinha a fiar. Dei-lhe uma rosa vermelha para de mim se encantar. Dei-lhe uma rosa vermelha para de mim se encantar. Minha mãe quando eu morrer. Minha mãe quando eu morrer. Ai chore porque muito amargou. Ai chore porque muito amargou. Para então dizer ao mundo. Para então dizer ao mundo. Ai Deus mo deu, ai Deus mo levou. Ai Deus mo deu, ai Deus mo levou. Ai Deus mo deu, ai Deus mo levou. Eu fui ver a minha amada lá nos campos eu fui ver. Eu fui ver a minha amada lá nos campos eu fui ver. Dei-lhe uma rosa encarnada para de mim se prender. Dei-lhe uma rosa encarnada para de mim se prender. Verdes prados, verdes campos, onde está minha paixão. Verdes prados, verdes campos, onde está minha paixão. As andorinhas não param, umas voltam, outras não. As andorinhas não param, umas voltam, outras não. Minha mãe quando eu morrer. Minha mãe quando eu morrer. Ai chore porque muito amargou. Ai chore porque muito amargou. Para então dizer ao mundo. Para então dizer ao mundo. Ai Deus mo deu, ai Deus mo levou. Ai Deus mo deu, ai Deus mo levou. Ai Deus mo deu, ai Deus mo levou.