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Olá, bem-vindos à Vichy Soares. O meu nome é Miguel Santos Carrapatoso, sou jornalista e editor adjunto de política do Observador. Tenho comigo Dom Vasco Maldonado Correia, o Duque Miguel Pereira Santos e a Duquesa Mariana Lima Cunha. É esta ilustre corte da política portuguesa que me vai ajudar a explicar uma semana marcada pelo fim de um dos folhetins mais animados da política nacional, a eleição dos juízes do Tribunal Constitucional. Veremos se o folhetim chegou mesmo ao fim. Em maio teremos seguramente mais episódios. E ainda temos António José Seguro na estrada e Montenegro entre a euforia dos dois anos de governo e a depressão da realidade que se cozinha no horizonte. Para discutir tudo isto e muito mais, venha daí a refeição mais deliciosa da política portuguesa. Vasco Maldonado Correia, tenho uma sopa só pra ti, sopa a aquecer. António José Seguro esteve na estrada, tal como tu estiveste a acompanhar o novo presidente da República. O que te apraz dizer sobre as primeiras impressões deixadas por António José Seguro?
Miguel, é dizer primeiro que foi o primeiro embate entre o Presidente da República e o Primeiro-Ministro. Foi feito com sorrisos, com elogios de parte a parte, mas acho que não é ir muito longe dizer que os discursos que tiveram em Tomar tiveram uma certa carga tóxica, ou no mínimo passivo-agressiva, e que Seguro e Montenegro estavam mais interessados em pisar o pé um do outro do que em elogiar o trabalho que têm feito, logo a começar pelo caricato que é o Primeiro-Ministro-
No fundo, Vasco, se me permites, tal como a nossa relação.
Sim, mas eu acredito que a nossa relação ainda possa melhorar, Miguel.
Acho que a tua relação é mais tóxica com o Vasco ou com o Miguel Vítor Dias?
Com o Vasco.
Pois. Mas não é por minha culpa.
Mas dizias, Vasco.
Dizia que é começar pelo caricato que é o primeiro-ministro andar a comentar ou avaliar as iniciativas de um presidente, como se o presidente precisasse desse selo de aprovação, mas também não é inocente quando Montenegro diz qualquer coisa como: "Nós falamos os dois em privado e concordamos que o ruído é mau." Começa a avisar que está atento a esses sucessivos recados que têm chegado por parte de António José Seguro e a tentar pôr o presidente em xeque, mas do outro lado, Seguro também não se deixou ficar e também diz claro que não está aqui para criar problemas, mas que é preciso assumir responsabilidades e que o primeiro-ministro estava ali para o fazer, ou seja, a dar esse passo por Luís Montenegro. O Seguro tem feito muita pressão para que os apoios aos afetados pelo mau tempo cheguem mesmo ao terreno. Fica essa como a primeira bandeira escolhida pelo presidente para o combate político. E mesmo que o governo não admita, é natural que isso cause algum desconforto. Dizer também, Miguel, e já termino, que o presidente vai vivendo esta semana numa bolha muito bem cuidada de previsibilidades. Já deu para ver que fora disso há muito pouca abertura para improvisos, e a crítica ao improviso foi precisamente um dos reparos que Seguro aqui deixou. E para dar um exemplo que ilustra bem isso mesmo, aqui há uns dias o presidente almoçou com agricultores e pelo meio dos cumprimentos recebeu um saco de arroz e nessa altura uma jornalista perguntou-lhe se gostava de cozinhar ou se costumava cozinhar, e Seguro com um ar muito sério, muito solene, disse: "Não respondo esse tipo de perguntas." Isto para dizer que está tudo a ser feito para evitar o erro ao máximo, evitar situações futuras em que possa ser confrontado com palavras que deixou quando saiu mais para fora de pé.
Muito obrigado, Vasco. Desejo uma boa continuação. Sei que estás na estrada e que tens de acompanhar o novo presidente da República. Miguel Pereira Santos, estes sinais de que nos falava o Vasco Maldonado Correia e as intervenções de António José Seguro perspetivam um presidente da República mais pressionante do que talvez Luís Montenegro gostasse?
A verdade é que, indo um bocadinho contra o relato que o Vasco acabou de nos fazer, mas houve notícias que deram conta que Montenegro foi até bastante elogioso durante o dia em que esteve com o presidente da República nas presidências abertas. Portanto, pode haver também aqui uma abertura para testar o que é que será esta nova relação com António José Seguro. Não é que Marcelo Rebelo de Sousa não fosse pressionante.
Mas era mais imprevisível.
Podia ser mais maléfico.
E isso chocava de frente com a personalidade de Luís Montenegro, que gosta de controlar o ritmo e a agenda mediática e política. É isso?
Sim, de certa forma, penso que ainda não é possível dizer que existe uma crispação entre os dois lados, porque parecem ambos alinhados nesta perspectiva de completar a atribuição dos apoios às vítimas das tempestades e agora também com a questão do aumento do custo de vida relacionado com a guerra. Parece que Luís Montenegro também se estará a retrair um pouco de criar esse mau ambiente.
De entrar em choque frontal com António José Seguro.
E haverá certamente razões, diria, mais importantes para o fazer num futuro próximo, com diplomas importantes que podem ou não ser levados para o Constitucional. Portanto, esta relação ainda está-
Ainda está por testar. Ainda falta o teste de algodão.
É para algo do atmel Depois é que vamos ver.
Estão a quebrar o gelo.
Não sei se podemos falar de uma lua de mel entre António José Seguro e Luís Montenegro. Enfim, veremos.
A relação que pode vir a seguir.
Mariana Lima Cunha, tenho uma sopa azeda para ti em relação à eleição dos juízes para o Tribunal Constitucional. Não porque as coisas tenham necessariamente corrido mal, mas porque foi uma sopa que esteve.
É verdade, Miguel.
E que azedou.
Esperemos muito.
Ultrapassou claramente o prazo de validade o folhetim da escolha dos juízes do Tribunal Constitucional. Não sabemos como é que vai acabar. À partida, há um princípio de entendimento entre o Partido Socialista e o Partido Social-Democrata, que se estende previsivelmente ao Chega. Mas o que te parece? Em maio teremos finalmente quatro novos juízes do Tribunal Constitucional?
Eu sou uma mulher de fé, portanto vou apostar que sim, mas se calhar mais do que por virtude dos partidos e talento negocial deles, que também teve de haver para se chegar aqui a algum tipo de princípio de consenso, porque houve esta, feliz para alguns, novidade de haver mais um juiz de saída, José João Abrantes.
Que é um nome muito difícil de dizer. José João Abrantes.
É tipo Jorge Jesus na rádio, é muito complicado. Na faculdade tive exercícios para tentar dizer Jorge Jesus e como vês ainda é difícil.
Nota-se.
Obrigada, Miguel. Vamos começar aqui a desenvolver também uma relação com uma dinâmica pesada, seguramente.
Nota-se que já passaram muitos anos desde a faculdade.
Exatamente. Mas ia eu dizer que o que facilita que haja um acordo é que há um dado novo, não é que os partidos tenham chegado de repente a um consenso, porque até agora o que nós tínhamos era a intenção de PSD e Chega de repartirem entre si os três lugares que estavam em discussão e o PS rasgar as vestes.
Intenção ou ameaça?
Ameaça, sim. Era a informação que nós tínhamos, era a informação pública que existia, que havia essa ameaça. E o quarto lugar vem aqui desbloquear essa tensão, porque já permite, no fundo, salvarem todos um bocadinho a face e dizerem que de alguma maneira ganharam. Não ganharam o que queriam, claro que o PS não queria ficar em minoria no Tribunal Constitucional, mas as coisas são o que são. Mas pelo menos conseguir dar pelo menos um juiz a cada um, dar dois ao PSD, que é o que faz sentido tendo em conta a composição atual do Parlamento e as votações que se seguirão. Diria que a coisa está mais ou menos montada para em maio se chegar de facto a um consenso. Depois o que vai acontecer é, tentando prever aqui, o PS vai puxar muito a brasa à sua sardinha e dizer que houve um consenso para o último nome, o PSD vai dizer que sim, mas a última palavra foi sua e a indicação foi sua, e finalmente vamos, espero eu, acabar com este folhetim. Acho que André Ventura terá de fazer a sua pressão até o fim, dizer que não há acordo nenhum, que vai chatear o PSD até à última para não dar lugar ao PS, mas também seria um bocadinho difícil acabarmos este processo com quatro juízes e nenhum atribuído ao PS, acho eu, depois do que já se disse, do que se assumiu em público e o PSD finalmente assumiu algum tipo de acordo em público. Portanto, tenho fé para maio.
Miguel Pereira Santos, já que estás tão exigente com a dicção da Mariana Lima Cunha.
Tenta dizer legislativas.
Pergunto se este acordo, este princípio de entendimento que foi alcançado entre os dois partidos, PS e PSD, eu ia dizer os dois maiores partidos, mas isso já não é assim tão atual, mas se este princípio de entendimento vai de alguma forma desarmadilhar o dossiê orçamental. Isto porque o Partido Socialista, ou fontes da direção do Partido Socialista e outros notáveis do partido vieram dizer que se o Chega entrasse no Tribunal Constitucional, se houvesse acordo entre o PSD e o Chega nesta matéria, o Partido Socialista deveria chumbar o orçamento. Isto de alguma forma desarmadilha esse processo?
Essa foi uma das discussões do congresso, e penso que mesmo no próprio congresso do PS não houve bem uma decisão a esse nível. Havia uma divisão entre quem entendia que deviam haver consequências e quem entendia que essas consequências não.
Uma bomba atómica que não poderia ser usada.
Era uma grande chatice ter de cumprir essa ameaça.
Pois, penso que José Luís Carneiro saiu mesmo do próprio congresso numa posição em que ele próprio não defendia isso. Portanto, agora teve esta boa surpresa de haver esta janela em que o PS, em princípio, poderá dizer que um dos nomes foi indicado por si, e isso acho que deita por terra alguma pretensão dos socialistas de se retirarem de uma eventual aprovação ou viabilização do próximo orçamento de Estado.
Muito bem. Para terminar, Mariana Lima Cunha, uma sopa a esfriar para falar sobre Luís Montenegro, que esteve no Conselho Nacional do PSD esta semana e entre muitas vitórias reclamadas nos dois anos de governo, também disse ou assumiu, diria quase taxativamente, que o país regressará aos défices. Ora, isto para um governo de centro-direita será um problema? A ideia de que as contas certas com o governo de direita afinal não são assim tão certas?
Eu não acho que seja esse o problema principal, no sentido em que eu acho que toda a gente percebe o contexto em que estamos.
Toda a gente percebe, menos...
Vi um ar desconfortável no Miguel.
O Partido Social-Democrata quando estava na oposição não perceberia assim tanto.
Claro, mas isso faz parte.
Estás a assumir a leitura mais cínica que é comum os políticos fazerem, é isso?
Sim, acho que há algum cinismo nos políticos, acho que nós os conhecemos bem, mas acho sobretudo que um problema maior do que os números do défice é o problema dos números reais, ou seja, o número que se vê agora quando vamos a uma bomba de gasolina e vemos o preço do gasóleo e da gasolina, os números da conta do supermercado, e acho que é nisso que Luís Montenegro se deve focar, porque há um problema de colisão com a realidade de alguns dossiês. Eu acho que Luís Montenegro vai ter algumas vitórias a reclamar na resolução de alguns dossiês a nível parlamentar, etc. Tem conseguido navegar como pode neste cenário partido. Agora, Luís Montenegro tem tentado criar a narrativa, está sempre a falar que estamos na Liga dos Campeões, somos os campeões da Europa, somos o farol, somos os maiores, mas tem de ter muito cuidado para não se aproximar perigosamente da ideia de que o país está melhor e os portugueses é que não sentem.
Uma frase que o perseguiu.
Uma frase que ele cunhou. Por isso é que eu dizia, não sei se é tão negativo, também será evidentemente negativo a marca que deixa um governo de direita chegar a um défice no contexto atual do mundo, como as contas que as pessoas têm para pagar, e isso é que pode terminar um problema muito grande para o governo de Montenegro.
Fugir àquela frase atribuída falsamente a Maria Antonieta: "Se não têm pão, comam excedente." Muito bem, a primeira parte da Vixi Suas tem de ficar por aqui. Voltamos dentro de momentos com a entrevista a António Rodrigues.