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Olá, bem-vindos à Vici & Suave. O meu nome é Miguel Santos Carrapatoso, sou jornalista e editor adjunto de política do Observador. Tenho ao meu lado o novíssimo coordenador de política da Rádio Observador, o Miguel Viterbo Dias, a graduada Mariana Lima Cunha e a estrela em ascensão, Miguel Jeirinhas Pereira Santos. É esta verdadeira constelação que me vai ajudar a explicar uma semana em que Luís Montenegro parou a oposição no peito, fintou à direita e à esquerda e acabou a marcar o primeiro gol da legislatura.

Inventou a receita das amêijoas à Bulhão Pato, com a qual entrou na eternidade. E eu não lhe quero desejar que comece já a inventar a sua receita das amêijoas à Bulhão Pato. Sempre era uma boa alternativa à reforma do Estado, digamos.

Eu gosto muito de cozinha, mas não vim para aqui para cozinhar. Eu vim para aqui para fazer e vim para aqui para fazer a reforma do Estado. Isto não é diálogo, isso é plágio. Isso não é diálogo, isso é monólogo. O seu programa cheira a troika. Uma coligação deliberada, ativa e cúmplice politicamente. O governo joga com os dois pés, joga de cabeça e até para no peito quando é necessário.

Resta saber onde é que vai parar este governo. Mas também foi uma semana pródiga em novidades presidenciais. António José Seguro sprintou, Henrique Gouveia e Melo tropeçou e Luís Marques Mendes ganhou uma nova moral. Para discutir tudo isto e muito mais, venha daí a refeição mais deliciosa da política portuguesa. E antes de vos servir uma sopa fresquinha para falar deste governo em estado de graça, Miguel Viterbo Dias, quero perguntar-te como é que as gentes de Almeirim receberam a notícia de que és coordenador de política da Rádio Observador.

Ainda não saiu no jornal local. Vamos tratar disso em breve para depois poder ter uma reação da população.

Muito bem, cá espero essa reação.

Mas não houve manifestação nas ruas?

Não houve nada ainda.

Devia ter havido uma vaga de fundos spontâneos.

Muito obrigado pelas vossas altas expectativas.

Mas então comecemos por ti, Miguel Viterbo Dias. Acompanhaste de forma exemplar, acrescento eu, o programa de debates, dois dias de debate. Com que impressão ficaste deste Luís Montenegro 2.0?

É um Luís Montenegro mais soltinho. Continuando nas metáforas futebolísticas, está mais confortável ali no miolo. Eu não sei o que é o miolo.

O miolo é meio-campo.

É meio-campo. Até faz algum sentido.

Eu como não percebo nada de bola, acho que continuas a falar de comida. Soltinho, é o miolo.

Até ver estás a acertar nas metáforas.

É que as metáforas futebolísticas, um amigo meu pronta sempre uma coisa que elas falham sempre depois na relação com o futebol. Adapta-se à política, mas falha no resto. Mas Luís Montenegro está mais confortável, vai preparando ali um pouco o abraço de urso que quer dar ao Partido Socialista nos próximos quatro anos e a diferença na relação entre o PS e o Chega notou-se já neste debate do programa do governo. Com o PS há aquele respeito institucional e aquela simpatia prévia com José Luís Carneiro, que tem essa disponibilidade para negociar. E há aquela conversa do não vamos menorizar, nós sabemos historicamente quem é que tem estado do lado das grandes reformas e, portanto, nota-se que Luís Montenegro vai abrindo assim os braços para começar a dar aquele abraço a José Luís Carneiro, que pode ser difícil para o PS digerir.

Acho que devias fazer um disclaimer, não estás a chamar urso ao nosso primeiro-ministro.

Não, neste caso seria...

Nem a José Luís Carneiro.

Exato. Já com o Chega há a inversão do ónus da prova, portanto, a responsabilidade está do lado de André Ventura.

Parece um jurista.

E nota-se aquela questão, até no discurso com José Luís Carneiro, de Luís Montenegro a dizer: "Com o Chega, temos que ver se há ou não uma mudança de postura, porque há uma desconfiança à partida com o partido de André Ventura". Portanto, nota-se essas duas velocidades com que encara os dois maiores partidos da oposição, mas sempre com aquele discurso, e que Paulo Rangel sintetizou muito bem, da aliança e do partido do meio, que é disponível para atender e para telefonar a todos.

E nós teremos a oportunidade de falar especificamente sobre José Luís Carneiro, mas Mariana Lima Cunha, Luís Montenegro, apesar de toda a retórica, é bom lembrar, não tem maioria no Parlamento. Os sinais que o governo tem dado desde que tomou posse e neste debate sobre o programa de governo demonstram um Luís Montenegro preparado para a legislatura exigente que terá pela frente.

Preparado, não sei se estará. Acho que Luís Montenegro há um ano fez uma série de exigências à oposição, quase ameaças à oposição, sobre estar obrigada a aprovar o seu programa de governo, depois os orçamentos, por aí fora, porque se tinha viabilizado o governo, agora tinha essas obrigações todas pela frente. E desta vez aparece mais confiante em que não precisa de fazer essa, não lhe quero chamar chantagem, mas lançar essas obrigações por cima da mesa, porque de facto saiu reforçado e saiu com a tal maioria maior, não tão grande assim, mas ainda assim maioria maior que queria. E acho que ele, de facto, quando o Miguel fala no abraço de urso, há vários abraços que Luís Montenegro está a tentar dar. Não só ao PS, como depois olhando para o programa também e olhando nos seus dois pontos, que eu diria principais ou que se destacaram mais, incluindo na discussão do programa de governo, que são a imigração e a reforma do Estado Acaba por tentar esvaziar duas bandeiras que são dos partidos à sua direita, da Iniciativa Liberal e do Chega. Portanto, se é verdade que Luís Montenegro está no meio, como o Pelrão já anunciou, e o partido quer ser o partido charneira do meio, que vai falando um pouco com todos, também é porque o eixo se virou todo um bocadinho à direita e acho que só isso é que permite que o atual programa de governo e o atual governo possam ser considerados do meio do eixo político. Portanto, acho que é tudo uma decorrência não só da composição única que saiu destas eleições, como do estado em que os partidos da oposição estão, em que Luís Montenegro se consegue colocar no centro do debate político e, como antecipaste, e não anteciparei antes de me fazeres a pergunta, mas o estado do PS, evidentemente, também contribui para isso. E deixa-me só dizer que o do Chega também, porque André Ventura claramente entrou aqui num dilema depois das últimas eleições. Eu vi-o a fazer aquela noite eleitoral que ele inventou para os resultados de imigração, e ele estava ali a fazer um discurso duplo. Ele, por um lado, dizia que não é preciso ninguém ter medo dele, não é preciso os imigrantes terem medo dele, não é preciso as minorias terem medo dele. Eu acho que até houve alguns apoiantes meio confusos com o discurso que o André Ventura disse à altura, porque parecia hiper moderado, e depois ia contrastando com uns: "Mas calma, não vamos perder o ADN e aburguesar-nos." E acho que André Ventura, como é hábito, vai navegando um bocadinho alguma ambiguidade. No Parlamento, acho que a narrativa que ele encontrou continuará a ser de colar PS e PSD e está resolvido, mas isso também é só enquanto não tiver de votar coisas e tomar decisões de facto, e for só uma questão discursiva.

Miguel Pereira Santos, também estás de parabéns.

Parabéns, Miguel.

Pertences aos quadros d'O Observador desde a semana passada, creio eu.

Pertence aos quadros e não lhe ligavam o microfone.

Isto é só investimentos.

Para quem não conhece, Miguel Pereira Santos é um sósia quase perfeito de Guilherme Geirinhas, o humorista, portanto, O Observador a reforçar-se bem. Também tiveste a oportunidade de acompanhar o debate parlamentar. Tu percebes de futebol, ao contrário da Mariana e do Miguel Viteiro Dias. Foi uma boa exibição a de Luís Montenegro? Foi um jogo de Champions, como ele próprio disse?

Sim, acho que foi uma boa exibição e se me permites fazer outra analogia futebolística, eu ia dizer que eu acho que ele conseguiu fazer uma mancha ao centro.

Muito bem.

Esticando.

Estou perdida neste programa.

Uma mancha é o movimento que o guarda-redes faz quando tem um atacante a vir na sua direção para conseguir tapar a baliza o melhor que consegue.

Obrigada.

E ele aqui esticou os membros, especialmente para o lado direito, para esvaziar um bocadinho aquelas bandeiras que a Mariana estava a falar, tanto do Chega como da IL. Agora, falta saber se a execução vai conseguir corresponder àquilo que é o plano, já que, por exemplo, na reforma do Estado, que tem sido um tema bastante mobilizador, quando desafiado, por exemplo, por Carlos Guimarães Pinto, o governo da AD não se comprometeu com cortes na administração pública, portanto sempre ali a salvaguardar o espaço do centro. A mesma coisa um bocado aconteceu na imigração, onde o governo tem até uma retórica um bocado dura no meu aspecto, com esta questão do reagrupamento familiar, mas ao mesmo tempo não deixa de mencionar o papel que os imigrantes têm na economia e que são bons para o balanço da Segurança Social. Acho que estes dois aspetos são bastante reveladores dessa vontade de ocupar todo o espaço que existe.

Sim, e geralmente quando se tenta ocupar todo o espaço, a coisa não corre particularmente bem, porque haverá sempre alguém a dizer que é insuficiente e que há coisas que ficam por fazer. Vamos servir uma segunda sopa, sopa de Carneiro mal morto. Mariana Lima Coutinho.

O ÓBVI que me acusava de chamar urso ao primeiro-ministro.

Carneiro é o nome do senhor.

A vida dá muitas voltas.

É o nome do senhor, não haverá mal, seguramente. Se nos estiver a ouvir, é obviamente uma graça. Sopa de Carneiro mal morto.

Estava agora a pensar que estou com síndrome de Joana Marques.

E vamos lá ver, se não estiver, é na mesma uma graça.

Para falar da prestação de José Luís Carneiro no Parlamento, nos bastidores do Partido Socialista, foi uma prestação que soube há pouco. José Luís Carneiro parece numa camisa de forças, ao mesmo tempo quer afirmar-se como líder da oposição, não o sendo formalmente, quer dar mostras de que está disposto a fazer reformas e a entender-se com o PSD em nome da estabilidade do país e parece, neste debate, pelo menos, ter ficado um bocadinho a meio do ponto.

Sim, acho que José Luís Carneiro não fez a intervenção mais galvanizadora do mundo neste quase arranque de mandato, porque ele não é líder oficial do PS, mas é o único candidato. E isso foi notado acho que no PS e noutros partidos. Aliás, eu ouvi uma pessoa no PS dizer que ele já ouviu conselhos do PSD ao PS nos corredores do Parlamento, em que dizia que ele deveria ter optado por entrar em campo só no Estado da Nação, por exemplo, para lançar uma legislatura nova, porque este debate, de facto, ainda foi muito feito de discussão um bocadinho do passado das eleições e de gestão das eleições.

Com um aspeto bizarro, que José Luís Carneiro não é formalmente líder do PS. Portanto, até isso é um bocadinho estranho.

Sim. Por isso mesmo, foi um lançamento um pouco morno da sua liderança. Não só por estes aspectos que estamos a falar, mas também porque o José Luís Carneiro contribuiu para isso. Não sei se foi propriamente uma bandeira superentusiasmante a de falar da despartidarização dos cargos do Estado como primeira pergunta ao primeiro-ministro, que não era propriamente uma bandeira do PS para esta legislatura.

Era um hábito.

Isto também foi uma graça do Miguel. Ele acabou por fazer uma misturada: abre o discurso com uma série de disponibilidades para o consenso, sendo que nós já sabemos que ele quer fazer uma série de reformas de fundo com o PSD, ao mesmo tempo faz aquelas críticas, que eu acho que não são críticas particularmente graves, quando fala de haver um plágio no programa do governo. Eu não me lembro de uma legislatura que não tenha começado com acusações de plágio das propostas e falta de diálogo, etc. Por aí é um pouco mais do mesmo, mas quando o José Luís Carneiro diz que o PS não vai ser assessor do PSD, mal seria. A mim pareceu um pouco estranho ser preciso deixar isto claro. O que vale no meio de tudo isto é que o PS parece um pouco conformado com o estado em que está. Os dirigentes do PS, o que eu vejo, já estão muito virados para as autárquicas e diria até não particularmente atentos ao que se passa no Parlamento. Quem está com o Carneiro obviamente está com esperança de que toda a ideia de fazer reformas de fundo no país mostre um PS um pouco diferente daquele que era o de Pedro Nuno Santos, mas ao mesmo tempo, quem não está com o José Luís Carneiro tem um sentimento muito prático, que é a lógica dos líderes para queimar. É um bom líder para esta fase, quando for questão de se candidatar a primeiro-ministro, aí é que temos de ver. Não sinto particular entusiasmo nas fileiras do PS neste momento. Acho que pode ser só das pessoas estarem cansadas e a querer ir de férias.

Miguel Pereira Santos, achas que o José Luís Carneiro animou os tifosi?

Certamente os tifosi do lado dele.

Dos três ou quatro que apoiam.

Dentro da equipe PS há várias subequipes.

Há várias claques?

Várias claques. Sim, mas imagino que esses terá animado, outros nem tanto. E pode haver um bocado deste desconforto por esta parecer uma entrada um bocado precoce, quando ainda não se oficializou aquilo que é a coroação dele. Penso que o discurso dele também não foi especialmente mobilizador. Acho que ainda tem espaço para mostrar mais alguma coisa, mas só para a semana é que deverá ser mesmo oficializado como líder do PS e a agenda vai ser bastante preenchida nos próximos meses.

É dar tempo para que o José Luís Carneiro possa ganhar mais experiência nas novas funções. Vou servir uma última sopa.

Queria tanto falar de José Luís Carneiro.

Podes falar, força.

Posso começar só um minutinho?

Não sei se quero.

Era só para assinalar. O José Luís Carneiro teve aquele mérito de assumir já o papel principal neste debate, que era importante. E depois escolhe como primeira bandeira a questão da despartidarização da máquina da administração pública, que não lembra o diabo. PS, quovadis, onde é que andaste destes anos? E depois, naquele discurso final, houve ali dos cerca de 15 minutos, para aí sete, onde toda a gente andava perdida. Falou-se de agropecuária duas vezes, até chegarmos à parte dos assessores, que é uma lapalissada que depois terminou aquela intervenção. Era só isto.

Estiveste muito bem. Por falar em carneiro mal morto, queria desafiar-te a comentar a candidatura de António José Seguro e o impacto que ela está a ter no Partido Socialista.

Eu não sabia que António José Seguro partilhava apelido com o José Luís Carneiro, Miguel. Não estou a perceber qual é a chamada.

Já é uma imagem.

A graça está a expandir-se.

António José Seguro mantém aquele seu tom discursivo, que pode não ser o mais galvanizador, mas teve duas coisas que são sinais mais neste arranque: uma sala grande e cheia, e isso acho que teve algum impacto, para quem andava afastado há 10 anos conseguir mobilizar tanta gente é um bom primeiro sinal. E depois teve um discurso onde disse tudo o que tinha que dizer, fez a resenha do porquê que andou afastado.

Mas foi um discurso longo.

Também esteve 10 anos fora. Fez a resenha do porquê que andou afastado e respondeu às questões que pairam na cabeça de todos. Tem esse mérito. Ainda assim, na sala cheia, e eu assinalei isto várias vezes até com vocês fora daqui, apesar de estar muita gente, havia muito poucos jovens, aquilo marcou-me. Se me está a ouvir, mesmo não estando, acho que é preciso dar um sinal de renovação também à falange que apoia António José Seguro.

Só um disclaimer é que a expressão a que eu me refiro, os olhos de carneiro mal morto, pode significar e descrever um olhar amoroso e lânguido. Nem tudo é negativo.

Vou tentar convencer quem me está a ajudar.

Os apoiantes que estavam na sala.

Mariana Lima Cunha, mesmo para acabar, o Partido Socialista está obrigado e condenado a apoiar esta empolgante candidatura de António José Seguro à Presidência da República?

Acho que é cada vez mais difícil não o fazer. Da direção atual e cessante do PS, as respostas que tive sobre o discurso foram "não ouvi" e "não vi".

Da equipe de Pedro Nuno Santos ninguém teve a oportunidade de ouvir António José Seguro.

Estavam em domingo, também haviam outras coisas para fazer, estava calor.

Estava bom tempo.

Estava bom tempo. Mas agora há este encantamento que surgiu no PS com António Vitorino, que aí sim, parece-me um sentimento anti-Seguro.

Que está há 25 anos a dizer que é candidato a alguma coisa.

Parece-me um sentimento sobretudo anti-Seguro, porque para quem ouve o PS, quando Centeno ainda estava na corrida, havia uma convicção de que António Vitorino não podia ser candidato, que ninguém com menos de 30 ou 40 anos o conhecia, aliás, o próprio José expressou esse sentimento, e que não era possível. Só se explica de facto esta hesitação no apoio por Seguro ser quem é, por ter o historial que tem, sobretudo entre os cogitistas.

E voltamos dentro de momentos com a segunda parte da Vixi Suave, com alguém que tem muito a dizer sobre as presidenciais e o Partido Socialista, Francisco Assis. Até já.