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Olá, bem-vindos à "Vichy Soize". Um frouxo, um fanfarrão e um indignado entram no Hemiciclo. Trata-se de um debate que foi claramente sobre o estado da nação, já que na maior parte do tempo foi dispensado o estado da noção. Numa assembleia de egos, a pergunta é: espelho meu, espelho meu, há alguém mais fanfarrão do que eu?
Por isso, senhor primeiro-ministro, eu sei que estava habituado à oposição frouxa do PS, mas isso acabou e esse país morreu no dia 18 de maio. Bom, a do José Luís Carneiro ainda é mais frouxa que a outra que era antes. Ainda é mais frouxa. Mas isso é um problema do doutor José Luís Carneiro.
Do meu ponto de vista, até hoje nunca encontrei um deputado tão fanfarrão como aquele deputado que está a liderar aquela bancada. A verdade é que nós podemos e devemos atacar as ideias. Agora, fazer referência a que um colega aqui é fanfarrão não me parece que seja o tratamento urbano.
Sou deputado desta Câmara há muitos anos, o que estou a dizer vincula-me a mim e a mim exclusivamente. Tenho vergonha da intervenção que o senhor presidente acabou de proferir e a forma como tratou este plenário, porque mostra uma dualidade de critério na forma como repudia comentários perfeitamente aceitáveis proferidos por um deputado desta Câmara e não tem coragem, coragem, senhor presidente, perante a extrema-direita que estraga o debate parlamentar quotidianamente, de defender a Câmara e defender os deputados.
O tempo da tática estéril, do ruído constante e da obstrução sistemática já não serve a Portugal.
Por falar em ruído, vamos à nossa primeira parte. O meu nome é Rui Pedro Antunes, sou editor de política do Observador e tenho comigo as jornalistas da seção de política, Rita Tavares e Inês André Figueiredo. Vai começar a Vichy Soize. Em primeiro lugar, a sopa que eu tenho para propor é uma sopa-nação. Sabiam que existe? Desta vez não estamos a martelar a sopa.
Queres falar um pouco mais dessa sopa? Explicar-nos mais de onde é que vem.
É uma sopa cabo-verdiana que, em ocasiões especiais é consumida e, portanto, é muito famosa, a sopa-nação. Pelo menos eu.
Também dá para a ocasião especial de ontem.
Mas leva alguma coisa em especial? Leva feijão, acho eu. Ok. Mas se quiseres eu vou ver a receita. Não, acho que não é preciso. Eu posso ir ver a receita. Refere-se a um tipo de sopa tradicionalmente consumida em Cabo Verde, muitas vezes associada ao jornal A Nação, tem a ver com o jornalismo. Olha. É uma sopa feita com ingredientes como feijão, carne e outros vegetais e é considerada um prato importante na culinária cabo-verdiana. Viste? Muito bem. E então. Já aprendemos qualquer coisa. Qual é a tua sopa da nação, Rita?
É mais do reino do taticismo do que deste estado, que é o que se está a passar neste momento no panorama político português. Luís Montenegro parece até mais taticista do que André Ventura costuma ser. A forma como povoa todo o ideário do Chega, fazendo até com que André Ventura tenha de ir mais longe nas questões da imigração, como aquele momento em que leu uma lista de alunos no plenário. E nisto de distribuir dinheiro por pensionistas e por quem paga impostos em véspera de eleições autárquicas. É absolutamente admirável. Nem sequer já é uma coisa que se esconda. E depois, ao mesmo tempo, surge no debate do estado da nação a negar a primeira impressão que deu como primeiro-ministro nesta sua segunda vida como primeiro-ministro, quando esta semana até disse uma frase suspeita ao referir-se ao Chega como uma alternativa futura de governo. E, de facto, está demasiado colado ao Chega, temos falado isto longamente por aqui, mas ao mesmo tempo apareceu no Parlamento a ali gerar um bocadinho de tensão com o PS. Incluiu uma medida que o José Luís Carneiro tinha apresentado um ou dois dias antes, a Unidade de Coordenação das Situações de Emergência, jura que não tem o acordo de princípio com o Chega e jurou ao PS, e a dada altura até chegou a admitir que só não privatizava a TAP na totalidade já, porque sabe que os seus parceiros políticos não estão nessa e que é preciso fazer as coisas com mais calma. Luís Montenegro está a virar-se para todos os lados e esta semana até se virou para Isaltino Morais e até para Maria das Dores Meira, a antiga autarca comunista que vai independente em Setúbal, numa clara tentativa de, na noite eleitoral, poder contabilizar tudo e mais alguma coisa a seu favor.
Deixa-me só dizer uma coisa, Rita, que é: ele vai obviamente querer dizer que apoiou candidatos apoiados pelo PSD, ganharam as maiores câmaras e incluiram Oeiras. Há uma diferença técnica e de detalhe que é, no caso de Pedro Santana Lopes, por exemplo, na Figueira da Foz, o Pedro Santana Lopes vai na lista do PSD. No caso de Oeiras, o PSD apoia a lista de Isaltino Morais e não apresenta candidatura. Ou seja, vai ser contado como independente, enquanto, por exemplo, na Figueira da Foz, vai ser contada como uma câmara PSD.
Que nós contamos como independente, sim, eu acredito. O que eu estou a dizer é que Luís Montenegro está claramente a fazer uma estratégia de jogar tudo em todo lado e para toda a gente e no fim fazer uma conta que somar com tudo aquilo que apoiou e apoiou diretamente, em lista e com símbolo ou sem símbolo.
Conta o apoio do Isaltino, claro, como se fosse do PSD.
Exato. O estado da nação continua a ser uma nação em clima eleitoral e enquanto assim for, vai ficar difícil perceber qual é a verdadeira orientação deste governo e para onde é que vai afinal direcionar-se. E depois também há o estado da oposição. E aqui eu falo da oposição, falo mais do PS, porque esta semana estive a acompanhar até uma reunião da comissão política interessante, que soubemos esta semana que endosseu, precisamente depois dessa reunião da comissão política, José Luís Carneiro endosseu o tom com Luís Montenegro. É certo também que o PS não parece vir a ter grandes escolhas, está condenado a não deixar cair este governo e isso implica que vá deixando passar, sobretudo, os principais instrumentos de governação. É uma situação difícil para José Luís Carneiro e sempre agravada internamente quando se trata do Partido Socialista. Ainda esta semana, nessa primeira reunião da comissão política que teve, José Luís Carneiro já viu o que aí vem com vários socialistas a colocarem pressão sobre a definição do espaço do PS na oposição e pressionam para que não fique de mão estendida a propor acordos à AD, quando Montenegro aparece mais inclinado para a extrema-direita. Do estado da nação, pelo menos do meu ponto de vista, é mais ou menos isto.
Muito bem. Inês André Figueiredo, e a tua sopa nação?
Eu acho que tivemos ali cinco horas, não foi ontem? E mais do que o estado da nação, eu retirei dali algum estado da perceção, porque para o governo estamos quase a alcançar um estado perfeito de nação e para a oposição, a nação está uma podridão. A palavra usada por André Ventura, que alegadamente ouviu no Senhor João, que é um café à frente da Assembleia da República, ou não, ou se calhar é uma papelaria. Acho que essa discussão a que assistimos ontem na Assembleia da República também diz um bocadinho o que é que se está a passar no Hemiciclo, a capacidade de transformar tudo em questões que, na verdade, não interessam a ninguém, os mil pedidos de esclarecimento que vão tendo palco lá na Assembleia da República, vai tudo dar um bocadinho a esta ideia. Eu gostava só de sublinhar que para nós é muito divertido assistir àquilo, mas se calhar para as pessoas não tem interesse nenhum e não resolve nada, porque está muito mais tempo a discutir-se pormenores do que propriamente questões políticas. Do debate em si, eu gostava de destacar, por exemplo, a questão da saúde, porque foi praticamente ignorado na intervenção inicial do primeiro-ministro. Foram poucos segundos. André Ventura disse que-
Um, dois, três.
André Ventura disse que são 16. Ontem, pelas contas de um canal televisivo, salvo erro da SIC, eram 29. Portanto, são 30 segundinhos em vários minutos. Seja como for, quando há problemas gravíssimos com a situação do INEM, quando há urgências fechadas, bebés que morreram a caminho de maternidades. Já disse isto algumas vezes, não sei se alguma máquina ouvi isso hoje. Nenhum governo tem soluções mágicas para resolver os muitos problemas do SNS, mas num debate do estado da nação, fingir que está tudo bem e que vamos esperar que corra tudo bem, por exemplo, com as urgências de Setúbal, que têm sido umas das mais sacrificadas, parece-me poucochinho e nisso parece-me que a oposição esteve bem.
Mas olha, Luís Montenegro atravessou-se na questão das urgências da Península de Setúbal.
Quando foi questionado, disse que não ia haver problema.
Mas disse que está resolvida para o verão. Agora vamos ver como é que corre.
Exatamente, mas depois disse: "Vamos ver se aquilo que nós achamos vai acontecer."
Se aguentamos, fez pressão.
É um bocadinho estranho ouvir um primeiro-ministro com este tipo de discurso. Já sabe que a questão da saúde é-
Se não cumprir, está frito.
Exato. Já sabe que a questão da saúde é sempre um cavalo de batalha de todas as oposições e assim continuará a ser. Ainda sobre o debate, acho que há um momento do debate que parece que foi uma proeza qualquer de André Ventura, porque diz que houve um acordo com o primeiro-ministro, que minutos antes tinha assegurado que não havia nenhum acordo em resposta a José Luís Carneiro, mas depois também não veio desmentir o líder do Chega depois desta afirmação. André Ventura acaba por explicar que não há nenhum acordo de governo, faz dele as palavras de Luís Montenegro, mas depois nem sequer tem nenhuma oposição por parte do primeiro-ministro. Dá como exemplo as propostas que todos sabemos que vão ter luz verde. Umas já tiveram, por exemplo, na Lei dos Estrangeiros, mas que também houve cedências de parte a parte na questão do IRS e que será incluído no próximo orçamento do Estado a proposta do Chega, o muito provável acordo na questão da Lei da Nacionalidade. Luís Montenegro até pode dizer que não tem parceiros preferenciais, e fê-lo, que não fez acordos, que quer negociar com todos, mas neste último mês não foi possível ver muito mais do que essas conversas com o Chega, ou pelo menos foram essas que acabaram por ter aqui algum espaço. Claro que os temas também são propícios a isso e o facto de ter sido a imigração também ajuda isso.
Deixa-me só acrescentar, se calhar convém também avisar o seu líder parlamentar Hugo Soares de que não existe um acordo de princípios, já que ele na entrevista que deu ao Observador esta semana, não desmentiu a existência desse acordo, ao princípio de acordo ou acordo de princípio, apesar de ter dito que é circunscrito à imigração e ao IRS, que é exatamente o que André Ventura disse, aliás.
Claro, é que André Ventura não disse que houve nenhum acordo de governo, porque isso não existiu. Portanto, acaba por ter razão, tanto que o primeiro-ministro não o vem desmentir. Se André Ventura estivesse a dizer uma coisa absurda, obviamente Luís Montenegro teria de-
Desconhecia.
Exatamente. Sim, disse, mas André Ventura falou depois dele e a seguir essa intervenção não veio sequer corrigir as palavras do líder do Chega.
O acordo do PSD com o Chega, a negociação é como o café, sem princípio. Deixa-me só dizer uma coisa sobre o debate do estado da nação de ontem, que vocês já falaram aqui, tem a ver com o episódio. Era absolutamente escusado. Faz-me lembrar quando Aguiar Branco foi-
O episódio do Aguiar Branco, estás a falar daquilo do Salsão
Foi lançar um drone na Marinha quando era ministro da Defesa. Foi assistir e o drone caiu logo. Não sei se lembram dessa imagem. Para quem nos está a ouvir e não se recorda, eu sugiro que vão ao YouTube e coloquem "drone Marinha Aguiar Branco". Ele assistiu a uma queda e, neste caso, foi ele próprio a fazer de drone.
A Rita está a fazer isto.
O José Pedro Aguiar Branco tem uma posição com que pode-se concordar mais ou menos, que é liberdade total. Ou seja, os deputados podem dizer aquilo que querem dentro do Hemiciclo e depois quem tem que julgar são os eleitores. E põe ali uma regra, que depois acaba por ser uma regra um bocadinho choninhas, que é: qualquer coisa que seja dirigida ao par, ou a um outro. O par não é o presidente da Assembleia da República, mas a um par, a um deputado, já não pode ser.
Ou seja, podia dizer estilo fanfarrão, não podia dizer que André Ventura era fanfarrão.
E isso é um detalhe. Depois, ainda por cima, teve que recuar, porque quando Edite Estrela, que é uma voz avisada na matéria, aliás, é autora do "Saber escrever, saber falar", lhe perguntou porque é que fanfarrão era um insulto, o que é que fez José Pedro Aguiar Branco? Não respondeu. Edite estava no direito de não responder. Fanfarrão não é um insulto tão grande. Já se disseram coisas piores e eu, precisamente hoje, quando estava na sonoplastia a cortar a trilha inicial, vi que efetivamente a oposição mais frouxa do PS e a seguir André Ventura diz: "Ele é mais frouxo ou mais frouxo." Diz mesmo diretamente, nem sequer é a oposição mais frouxa, diz que ele, o homem, é mais frouxo.
Ele também diz na justificação: "Eu nem ouvi isso." Não foi?
Não, ele depois diz que não ouviu, mas a certa altura diz que já ouviu e que já sabe o que é, e que falou sobre a oposição frouxa.
Aguiar Branco fez lembrar um bocadinho aqueles disciplinadores, para não dizer aqui que são pais ou mães, ou o que for, que quando têm várias crianças à frente e há uma que se porta sempre melhor do que a outra, exigem mais à criança que se porta bem.
Exatamente. Ele diz isso, que é tão senhor, que é tão urbano.
O senhor é tão urbano.
Eu gosto tanto do seu trato. E repara, eu acho que o José Pedro Aguiar Branco decide bem 90% das vezes e que não é fácil estar ali. Mas de facto ontem falhou completamente nesta história. Tornou-se a personagem principal. Ele queria acelerar e não queria pedidos de esclarecimento e defesas de honra para acelerar que o debate está danado.
Mas interrompe ali momentaneamente.
Foi ele que promoveu aquilo tudo, levou àquilo tudo e não faz sentido nenhum. O PS está claramente a precisar de ir ao divã.
E aproveitou para cavalgar a boa situação.
Eu vi o Pedro Delgado Alves, o Miguel Costa Matos a bater assim: "Mas está tudo bem? Precisam de ajuda? A nossa bancada é mesmo ali ao lado dos jornalistas, é mesmo ao lado do Partido Socialista." Pareceu que eles estavam, de facto, muitos deles a precisar de ajuda. Agora, eu percebo, a situação do PS é difícil.
E também é uma situação difícil.
O PS teve razão, e deixa-me dizer isto claramente, que na forma podem ter exagerado, mas tiveram razão, porque de facto José Pedro Aguiar Branco foi despropositado na forma como fez a sua intervenção.
Mas, de facto, o ambiente parlamentar não está bom para o PS, porque mesmo na sequência disso, Pedro Pinto faz uma coisa que foi assassina. É sentido figurado, sabemos disso. Que é dizer a dada altura: "O PS tem três ou quatro líderes parlamentares", porque foi Pedro Delgado Alves que falou e a dada altura até diz que fala em nome pessoal para dizer que tem vergonha daquilo que Aguiar Branco tinha acabado de fazer. A fragilidade do PS é tão grande que até no momento em que tem razão, acaba por ser atingido por ter várias pessoas a falarem pelo partido e parecer que ainda não existe ali uma liderança forte.
Muito bem. Foi tema único. Queríamos falar um bocadinho de uma sopa de alcoa, que era a Convenção Liberal, mas como temos que sair.
Temos ter um sábado de service e a segunda parte também dedicada.
E na segunda parte é o Mário Amorim Lopes, que vai ser vice-presidente da nova comissão executiva e temos essa parte dedicada à Iniciativa Liberal. Termina aqui a primeira parte da Vixi Suave.