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Seja bem-vindo à terceira temporada de "Vozes Circulares". É o podcast do Observador, em parceria com a Associação Smart Waste Portugal, onde damos voz a quem está a transformar a forma como produzimos, consumimos e gerimos os nossos recursos. O sistema de recolha de embalagens de vidro em Portugal já tem mais de 40 anos, mas apesar deste percurso, o vidro continua a ser um dos materiais com maiores dificuldades de reciclagem. Por que isso acontece? O que precisamos de mudar? É isso que vamos tentar saber neste episódio, que conta com o apoio do Super Bock Group. E conosco estão a Graça Borges, diretora de Comunicação Corporativa, Relações Institucionais e Sustentabilidade do Super Bock Group, e também Nuno Vieira, coordenador da plataforma Vidro Mais. Muito obrigado aos dois por terem vindo à Rádio Observador. Nuno, começaria por si. Mais de 40 anos depois desta criação do sistema de recolha de vidros em Portugal, ainda é justo dizer-se que é o calcanhar de Aquiles da reciclagem em Portugal? E quais são os desafios comparados com o papel ou o plástico? É o material mais difícil de reciclar.
Sim, antes de mais, obrigado pelo convite. Eu não diria que é o ponto fraco ou vulnerável da reciclagem em Portugal, mas se tivermos em conta o que é declarado às entidades gestoras, efetivamente, o vidro não apresenta resultados positivos ou não representa um bom desempenho. Isto não se deve à falta de capacidade industrial, porque a capacidade está lá para tratamentos do vidro reciclado, mas sim no sistema de limitações de recolha que temos atualmente. Não é um material controverso como o plástico, como as classes de reciclagem que temos no papel. É um material que por vezes fica no fim de linha, porque por ser inodoro, fica nos vidrões e é sempre a última prioridade por parte dos consumidores.
Graça Borges, os dados mais recentes mostram que Portugal continua aquém das metas europeias, especialmente no caso do vidro. Do ponto de vista de uma empresa como o Super Bock Group, que depende fortemente deste material, como é que olha para este cenário e que responsabilidade e que papel pode ter também este setor na melhoria e no aumento destas taxas de reciclagem do vidro?
Bom, o Super Bock Group olha com alguma preocupação para, de facto, este cenário, que não é um cenário de crescimento das taxas de reciclagem de vidro, mas ao mesmo tempo também com uma forte responsabilidade por todas as embalagens que colocamos no mercado. Sendo a maior empresa de bebidas em Portugal e sabendo que as nossas marcas disponibilizam, quer no território português, quer também nos mercados para onde exportamos maioritariamente embalagens de vidro. Sentimos, de facto, que esta atividade que temos do setor cervejeiro, mas também de outros setores de bebidas, tem uma forte dependência do material vidro e vidro embalagem. Portanto, anualmente temos uma conta, eu costumo dizer, uma conta considerável na aquisição de largas centenas de milhões de garrafas anualmente à indústria portuguesa, que é uma indústria forte no caso do vidro, e por isso olhamos um pouco com esta preocupação, desde logo, porque pagamos mais, ou seja, temos vindo a aumentar o valor que se paga por tonelada de bebida que colocamos no mercado nestas embalagens, mas sentimos que as taxas de recolha estão estagnadas e portanto fica um pouco a questão. Continuamos a pagar, mas quando é que podemos esperar que esse retorno de reciclagem surja? Por um lado, esta preocupação e alguma incerteza, por outro, esta responsabilidade, ou seja, nós sabemos que as empresas têm a responsabilidade alargada do produtor no que toca ao ciclo de vida das embalagens. Temos um foco muito grande em assegurar que elas são desenvolvidas com todos os critérios que permitam a sua eficiência, não só na boa utilização e consumo das nossas marcas por parte do consumidor, mas também num bom fim de vida. E portanto, se temos este cuidado, sentimos que há esta responsabilidade por continuar a cumprir esta responsabilidade, pagar, mas ao mesmo tempo assegurar que este material não é perdido e podemos voltar.
Pode voltar a entrar na cadeia. Nuno Vieira, os desafios não estão apenas nos consumidores. Também existem falhas, pelo que percebi na sua introdução, ao nível da recolha, na logística ou no canal HORECA. Já agora, pode-me explicar que canal é este?
Sim, é verdade. O HORECA significa hotéis, restaurantes e cafés e efetivamente, os desafios estão atualmente na recuperação das embalagens exatamente nestes canais. A taxa de separação de embalagens de vidro são muito baixas e para dar aqui alguns números, atualmente um lar português consome aproximadamente 63 quilos de vidro, pelo que um vidrão é mais que suficiente com a boca que existe atualmente, colocar unidade a unidade para esta quantidade é perfeitamente adequada. Se pensarmos que alguns desses canais HORECA poderão consumir até duas toneladas ou mais de vidro por ano, estes vidrões não estão adequados para essas necessidades e por isso, naturalmente, muito vidro é perdido Ou não reciclado devido exatamente a não olharmos com atenção ou com algum carinho para este setor e para as dificuldades que seguramente eles têm no final, especialmente de um dia de trabalho. Se acrescentarmos a este tema o verão, um verão em que há maior intensidade e maior consumo de vidro, conseguimos observar que a situação agrava-se mais e provavelmente os vidrões que temos atualmente não estão adequados. Mais tarde vou falar aqui algumas iniciativas dentro da plataforma Vidro Mais, que tentamos responder efetivamente a essa necessidade. Para lhe dar também um número que acho que é muito importante, atualmente 60% do vidro consumido é nas casas, nas famílias, e 40% no canal HORECA. Mas a reciclagem é oposta.
Inversa.
Inversa, exatamente. Significa que 60% do vidro que é consumido no HORECA não é reciclado atualmente. Realmente, para sermos mais efetivos e termos uma visão mais eficiente de todo o processo, nós temos que focarmos em iniciativas específicas do canal HORECA.
Já vamos conhecer um pouquinho melhor algumas dessas iniciativas. Graça Borges, o Super Bock Group tem vindo a apostar há vários anos na circularidade como parte da sua estratégia. Como é que essa visão se traduz concretamente na gestão de embalagens de vidro, no vosso caso?
Eu começaria por dizer que, de facto, aquilo que refere é real, ou seja, o grupo sempre teve esta preocupação de circularizar os recursos que utiliza e, portanto, obviamente que no caso das matérias-primas agrícolas, que são utilizadas na produção, no caso da água, etc. Portanto, há sempre e houve sempre esta prática quase contínua de assegurar que os recursos se mantêm em utilização ou são reaproveitados o mais tempo possível. Isto também é verdadeiro nas embalagens e nomeadamente no caso das embalagens de vidro. Se calhar começava por dizer que, embora tenhamos estado a falar aqui da reciclagem, que há um foco muito grande da empresa desde sempre. Aliás, a empresa nasceu em 1890 com a utilização apenas de embalagens retornáveis. Ou seja, esta ideia de que uma embalagem de vidro, que é um material muito nobre para preservar aquilo que é qualidade, quer das águas minerais, quer da cerveja, de facto são embalagens que duram muitas rotações, portanto, muitas vidas e como tal usam menos material. Mas também há esta preocupação em assegurar que nos processos de inovação e desenho das embalagens de vidro, há o cuidado em se utilizar o QB de material, neste caso de vidro, para uma nova garrafa, e assegurar, como eu dizia há pouco, que no seu fim de vida, ela pode ser inteiramente reciclada. Portanto, este é, no fundo, um foco grande na eficiência, na qualidade do produto e na continuidade dos materiais que são usados no caso das embalagens de vidro.
Graça Borges, estava aqui a recordar-me que o Super Bock Group tem exemplos concretos de medidas já implementadas. A redução do peso das garrafas, por exemplo, a incorporação de vidro reciclado. Consegue-se medir o impacto destas iniciativas em termos ambientais e também em termos operacionais para a própria empresa?
Sim, consegue. Aliás, eu diria que é um fator muito importante, até para provar o valor da circularidade. O que posso referir é que, por exemplo, nos projetos que nós designamos habitualmente de lightweight, ou seja, reduzir a gramagem das embalagens, ainda que mantendo a sua resistência e a qualidade para acomodar os produtos, nos últimos 15 anos, tiveram de facto impactos muito significativos. Nós estimamos que a redução em termos de matéria-prima virgem para a produção, ou melhor, fruto destes projetos de redução de gramagem nas garrafas, permitiram evitar a utilização de quase 50 mil toneladas da tal matéria-prima virgem, portanto, os vários materiais que depois dão origem ao vidro. E isso tem naturalmente uma consequência em termos das emissões. Nestes 15 anos, estimamos que cerca de 80 mil toneladas de CO₂ equivalente foram evitadas. Só para terem uma noção, isto é cerca de 24% das nossas emissões totais do ano de 2024, de acordo com o que temos no nosso relatório de sustentabilidade. Ou seja, de facto, estes projetos permitem obter toda esta eficiência, que é pela utilização menor de materiais, logo mais competitivo. Portanto, também há aqui este lado da competitividade, que é importante nos negócios, em todo lado, mas também pelo impacto ambiental ao utilizar menos energia e menos materiais. Estamos a evitar caminhões, estamos a assegurar que há menos emissões, quer na produção, mas também no transporte.
Só para acrescentar aqui um número que acho que também é interessante. Por cada tonelada de vidro reciclado que incorporamos num forno de vidro para produzir novas embalagens, conseguimos evitar aproximadamente 200 quilos de CO₂. Eu acho que é um número muito relevante, além de que, se não nos esquecemos que o vidro, se não for colocado num forno, ele é infinitamente reciclável, tem essa vantagem que é única nos materiais. Também tem outra diferença que é, eu consigo, ao colocar num forno, não vou colocar num aterro. E nós realmente hoje temos um problema crítico de aterros. E por isso, o reforçar a reciclagem e a colocação no local certo uma embalagem de vidro utilizada é essencial.
Mas por que isso não acontece tanto assim? O que está a falhar para que tantas embalagens de vidro acabem por não chegar ao vidrão? Há aqui um problema de literacia da população em geral, também?
Eu diria que face às taxas de reciclagem que temos atualmente em Portugal, nós estamos a falar de 52% de reciclagem do vidro recolhido nos vidrões, depois temos também o vidro não urbano que sobe a taxa para 57%, eu diria que teremos vários problemas para resolver. Embora eu diria que não iria diretamente para a literacia. Eu acho que os portugueses já sabem muito bem como reciclar vidro, não têm dúvidas nenhumas onde é que devem colocar as embalagens de vidro, por isso que eu penso que falta informação.
Acho que até pode acontecer noutros materiais mais do que no vidro. Creio que é dos mais antigos na consciência portuguesa do sítio onde o colocar.
O icónico vidrão, que todos nós conhecemos.
O que acontece é erros que fazemos na reciclagem. No vidro colocamos, por exemplo, cerâmicos, pratos, copos, isso devemos evitar, colocar lâmpadas, espelhos também. Há vários erros, que chamamos as contaminações, que são indesejáveis, mas eu penso que o problema efetivamente não está na literacia, na sensibilização da população, porque ela conhece muito bem desde novos e há muitas campanhas que são feitas nas escolas pelos próprios professores no primeiro nível, depois várias entidades, das quais a plataforma Vidro Mais é uma delas, de sensibilização. Mas eu diria que o grande ponto é a execução, ou seja, é a implementação de iniciativas específicas neste canal HORECA para resolver os problemas, porque nós não queremos acabar com o HORECA, como é óbvio, porque o HORECA tem que continuar a existir e a crescer para o interesse de Portugal. Já agora, outro dado interessante é que Portugal é o maior produtor per capita de vidro de embalagem da Europa. Eu acho que tem um fator de exportação. A indústria vidreira em Portugal tem um fator de exportação muito significativo e, como tal, para reforçar e para crescer, nós temos que ir realmente ao terreno e implementar ações específicas no HORECA.
Nuno, fale-me também um bocadinho do projeto-piloto "Mais Vidro Mais Porto". Que solução é esta e se de alguma forma é possível escalá-la para um nível nacional.
Sim. Nós pretendemos com a plataforma Vidro Mais agregar o conhecimento de uma cadeia de valor do vidro através das várias entidades, desde as indústrias, as entidades de recolha de vidro, as marcas, os municípios e depois também a academia a ajudar-nos também a identificar iniciativas inovadoras e diferenciadoras, fazer diferente do que é feito hoje para aumentar a taxa de reciclagem. Nós já temos um portfólio de várias iniciativas que temos desenvolvido ao longo dos anos com o objetivo de testar e verificar algumas soluções que realmente funcionam, outras que não funcionam e até é uma aprendizagem, não dizemos que foi tempo perdido em testar. No meio dessas iniciativas, eu diria que esta já é a terceira versão, de digitalização dos vidrões, de certa forma, é tentar criar aqui uma interação, uma comunicação com os utilizadores através de um sistema que permite o utilizador fazer um login através de uma aplicação do telemóvel ou então utilizar um cartão, que é o cartão orgânico, que está a ser feito na cidade do Porto. Aquela zona da Boa Vista, todas as pessoas têm esse cartão orgânico, conseguem comunicar com o vidrão, dizer: "Eu estou a utilizar este vidrão", e o objetivo é depois criar uma interação que permita aumentar a taxa de reciclagem para um determinado valor. Se o conseguimos atingir, vamos fazer doações a instituições de solidariedade.
No fundo, também é criar aqui, de alguma forma, o valor do gesto. Ou seja, não é só a literacia, mas premiando de forma indireta. Ou seja, o meu gesto de devolver, neste caso, a estes ecopontos, vai permitir que algumas instituições daquela zona venham a beneficiar com isso.
Claro. Nós estamos neste momento a fazer uma campanha porta a porta de sensibilização para dar conhecimento para que servem os dispositivos, embora exista alguns posters, alguma publicidade já presente, quer nos bares e restaurantes ali e também nos próprios vidrões. Nós agora estamos a fazer o segundo passo da iniciativa, que é irmos às escolas que estão ali na zona. Há quatro escolas naquela zona de implementação, escolas públicas, onde vamos fazer uma minicompetição entre escolas, de forma a ver quem é a escola que consegue reciclar mais vidro e a partir daí também, além das instituições de solidariedade, o nosso objetivo, e se realmente formos aceites pelas escolas, também é importante, é tentar criar aqui algum contributo positivo para a própria escola.
Muito bem. Só para terminar, Graça, não sei se me consegue deixar aqui uma ideia final para esta nossa conversa. Se pensarmos aqui nos próximos anos, qual é que seria a prioridade número um para Portugal também deixar de ver o vidro tanto como um problema e passá-lo a vê-lo cada vez mais como uma oportunidade?
Bom, só uma é difícil, mas eu vou dar o meu melhor. Eu diria, desde logo, esta questão da responsabilização de todos aqueles que estão envolvidos nesta cadeia de valor, ou seja, não interessa apenas pagar pela responsabilidade que as empresas têm. Se depois não conseguimos atingir as metas, não é suficiente apenas, por exemplo, hoje em dia incorporarmos nas nossas garrafas de vidro 59% de casco de vidro, o R vidro, como eu costumo chamar, portanto, vidro reciclado. Aliás, nota esta, que acho que também é importante, todas as embalagens de vidro em Portugal começaram a ter, muito antes das embalagens de plástico, vidro reciclado incorporado, mas não se fala disso, fala-se muito mais do R PET, não se fala tanto do R vidro. E, portanto, esta responsabilização de todos aqueles que estão envolvidos nesta cadeia, desde a criação das embalagens de vidro até que elas são devolvidas ao ecoponto para voltarem a ser uma garrafa, de facto é, se calhar, para mim, eu diria, a grande prioridade.
Muito bem. Muito obrigado à Graça Borges e também ao Nuno Vieira por esta conversa. Fica claro que o vidro, apesar de todas as suas vantagens, continua a ter também grandes desafios no que à economia circular diz respeito, mas também é uma oportunidade clara para fazer melhor, pelos vistos, com mais colaboração, inovação e envolvimento, quer dos cidadãos, quer daqueles que pertencem a esta cadeia de valor. Este foi o "Vozes Circulares", podcast "O Observador" em parceria com a Associação Smart Waste Portugal, hoje com o apoio do Super Bock Group. Junte-se a nós no próximo episódio. Continue a acompanhar as vozes que estão a transformar o futuro.