Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Seja bem-vindo ao "Vozes Circulares", é o podcast do Observador em parceria com a associação Smart Waste Portugal, onde exploramos os desafios e as soluções que estão a transformar a sustentabilidade e a economia circular no nosso país. Hoje vamos olhar para um tema que entrou definitivamente no vocabulário das empresas: ESG, os indicadores ambientais, sociais e de governação corporativa. Mas afinal, o que significa esta sigla e de que forma está a mudar a própria indústria portuguesa? Este é um episódio que conta com o apoio da AIMAP, no âmbito do projeto Construindo o Futuro. E conosco estão hoje Carla Gonçalves, é responsável do departamento de ambiente da AIMAP. AIMAP é a Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal, e Célia Soares, diretora de operações e qualidade da Silambos, uma marca que muitos portugueses conhecem e que está também presente neste episódio. Muito obrigado às duas por estarem conosco. Começaria aqui pela Carla. Carla, quando falamos do setor metalúrgico e metalomecânico, de que universo de empresas é que estamos a falar e também qual é que é hoje já o peso deste setor para a economia portuguesa?
Quando falamos do setor metalúrgico e metalomecânico em Portugal, estamos a referir-nos a um setor com universo muito alargado, pois inclui mais de 23 mil empresas, emprega cerca de 260 mil trabalhadores. É um setor muito heterogêneo porque integra um conjunto muito alargado de atividades industriais e com uma enorme diversidade de produtos e serviços. Nós costumamos mesmo dizer que é cliente e fornecedor de si próprio. Por quê? Porque é uma alavanca de muitos outros setores, que tem características muito particulares, em virtude de grandes partes das atividades que o compõem produzem bens de suporte à sua própria produção, como máquinas e ferramentas, peças técnicas para outros tipos de indústria transformadora, também a produção de embalagens metálicas, gruas, pontes rolantes. Também é um grande produtor de bens transacionáveis e duradouros para consumo final, como louça metálica, caixilharia, cutelarias, torneiras, carrinhos de bebê, automóveis, iluminação, eletrodomésticos, uma panóplia muito grande de produtos. Esta heterogeneidade é uma das grandes forças do setor, sem dúvida, porque cobre praticamente toda a cadeia de valor industrial. Já na vertente econômica, o setor assume hoje um papel absolutamente central na economia portuguesa e destaca-se relativamente a estes indicadores, pois é um setor que gera 43 mil milhões de volumes de negócios, 10 mil milhões de euros de VAB, 2.1 mil milhões de euros de investimento e, sem dúvida, é o principal setor exportador. É responsável por mais de 30% das exportações de bens, que corresponde a 24.2 mil milhões de euros, ou seja, é absolutamente estruturante e competitividade para o nosso país, sem dúvida.
Célia, no caso da Silambos, para quem não conhece a empresa, o que será difícil no nosso país, que percurso é que têm feito e como é que a sustentabilidade também entrou na estratégia da vossa organização?
Ora bem, pra quem não nos conhece, eu vou fazer aqui um resuminho. Nós fomos fundados em 1951, em Oliveira de Azeméis. Mantemo-nos no mesmo local. Somos uma metalomecânica pura e dura. Fazemos louça metálica, principalmente em aço inoxidável, ou seja, panelas, tachos, frigideiras.
E as panelas de pressão, não é?
Era aí onde eu ia chegar, e as panelas de pressão. Nós fomos responsáveis por produzir a primeira panela de pressão em Portugal nos anos 60 e ainda somos bastante conhecidos por isso.
Ainda é muito usada na culinária portuguesa.
Eu espero que sim. Ainda há muita gente que desconhece as vantagens da panela de pressão, até nestas questões de sustentabilidade, de poupança de energia e de poupança de tempo na vida corrida que temos.
Os nutricionistas são muito fãs de panelas de pressão.
Com certeza, são só vantagens. Mas eu sou um bocadinho suspeita.
Falemos um bocadinho da sustentabilidade, como é que entrou também na vossa estratégia. É um tema incontornável hoje em dia para qualquer empresa.
Sim. Ora bem, de facto, quando começamos a ouvir a palavra, começou a traduzir temas que nós já trabalhávamos há muito tempo na Silambos. Mas podemos dizer que foi formalizada, digamos assim, começou a ser formalizada em 2010, com o registro da nossa marca Ecocook.
Ok.
Essa marca nasceu na tentativa de nós informarmos os nossos consumidores de quais eram as nossas preocupações e as nossas práticas, principalmente ao nível ambiental, mas que depois sentimos necessidade também de definir o seu conceito de marca em diferentes pilares. Passando para a parte da responsabilidade social, a Silambos é uma empresa familiar, desde sempre. É gerida pela família Campos e tem um forte enraizamento local e uma pertença grande à comunidade. Sempre privilegiou o princípio de gestão do fator humano e da estabilidade laboral, e orgulhamo-nos de ter uma proximidade muito grande com a comunidade local, com as ações que fazemos com as associações locais. A Silambos é uma empresa muito presente na comunidade.
Então imagino que Quando se começa a falar de ESG, estes critérios ambientais, sociais e de governação, olharam para isso também como uma oportunidade e não tanto como um desafio, ou as duas ao mesmo tempo?
Tenho que dizer que a primeira é uma oportunidade. E depois quando começamos a traduzir as métricas e as questões no chão de fábrica, aí é que começa o desafio. Porque nós sozinhos não fazemos nada, nós temos que traduzir aquilo que vem na nossa estratégia e integrá-la no nosso dia a dia, no nosso chão de fábrica, e aí é que está o grande desafio. Mas é um desafio tanto competitivo, mas organizacional, que nos traz muitas vantagens e que nos tem trazido vantagens organizacionais. Tem sido positivo.
Carla, quais são hoje os principais obstáculos para as empresas deste setor, o setor da AIMAPA, para avançarem cada vez mais rapidamente nesta área do ESG. Falamos de investimento, falamos de conhecimento, há aqui também ainda obstáculos burocráticos a ultrapassar?
Eu posso dizer que um bocadinho de tudo. De um modo geral, podemos dizer que as grandes empresas, a dificuldade é mínima. Isto porquê? Porque já todos, quase, têm toda a informação organizada e distribuída pelos vários departamentos. Já não podemos dizer a mesma coisa para as PMEs e para as microempresas.
Essas têm mais dificuldade.
Muito mais. Já existem muitos obstáculos. Começamos logo por, principalmente, as microempresas, como é que vão iniciar todo o processo, como é que vão reunir toda a informação, como é que vão separá-la por temas, pelos vários pilares, pelo ambiente, pelo social, pela governaça. Também a falta de recursos e a falta de equipas dedicadas, também a falta de conhecimento técnico e competências internas, o excesso de regulamentação e a complexidade da mesma, também dificuldade em interpretar todas estas normas. Existe também, por parte das empresas, dificuldade em recolher dados e garantir a qualidade desses próprios dados e consistência dos mesmos, assim como também medir, monitorizar e reportar. Mas a maior dificuldade é, sem dúvida, as empresas tentarem integrar o ESG no modelo de negócio. Eles não podem ver o ESG como um projeto paralelo. Ele tem que estar integrado na estratégia da empresa, sem dúvida. Também a pressão da cadeia, dos vários stakeholders. Estamos a falar relativamente a bancos, que sempre precisam de informação de ESG para empréstimo de capital. Estamos a falar também dos vários stakeholders na cadeia, os seus clientes a nível internacional são muito exigentes e também exigem dados sobre ESG para se investirem. E por fim, eu acho que a mais importante é a falta de recursos financeiros. Isto porquê? Porque existem custos de implementação e existe o investimento inicial. O ESG implica novas tecnologias, implica consultoria especializada, formação mais técnica, a própria adaptação dos processos e estes custos, evidentemente, que são frequentes e também é um travão à adoção de ESG, sobretudo aquelas empresas que têm margens muito reduzidas.
Já vou querer saber que tipo de apoio também presta a AIMAPA a essas empresas, mas Célia, voltando aqui à Silambos, na prática, implementar critérios ESG implica, de facto, mudanças reais nas empresas. Como é que foi o processo na Silambos? E dentro destes três pilares, o ambiental, o social e a governação, algum foi mais exigente e difícil de implementar na vossa organização?
O processo não foi, o processo ainda está a ser. É um caminho que nós estamos-
É um working progress.
Exatamente, é um caminho que nós estamos a percorrer. E não estando a querer repetir, mas esta transição e esta formalização só teremos sucesso se for de facto integrada no dia a dia da empresa.
E envolvendo as várias equipes, imagino.
Com certeza. Não podemos fazer nada sozinhos e isso é completamente chave fundamental para o eventual sucesso que nós queiramos atingir com estas práticas e dinâmicas da empresa. Eu diria que os três pilares, digamos assim, têm todos um grau grande de complexidade, mas aquele em que nós sentimos, e ainda hoje, mais dificuldade, digamos assim, é o pilar ambiental. Porquê? Primeiro, porque a legislação é muita, é muito complexa, carece de muito tempo de interpretação, carece de muito investimento para adaptação, por isso é algo tecnicamente complexo. Da parte social, não na perspectiva de interação com a comunidade, mas olhando para dentro, é uma mudança cultural e fazer mudanças culturais requer tempo e requer paciência.
E encontra resistências.
Sempre. E nós somos uma metalomecânica. E muitas pessoas excelentes, sempre com vontade, mas que também têm algumas limitações e que nós temos que ter a paciência para compreender que estas questões são o melhor para a empresa e para nós e até para a nossa vida, porque nós usamos muitas vezes o exemplo de como fazemos em casa para trazermos para a empresa, e aí os filhos são fundamentais, porque os filhos ajudam nessa parte.
De colaborar.
Onde as escolas, exatamente, trazem. Na questão da governação, é um teste à organização da empresa, porque nós somos uma PME e que no seio das suas tarefas do negócio, do nosso core, do nosso dia a dia, temos de integrar a recolha de dados, o tratamento de dados, o reporte dos dados, e sem perder a agilidade que precisamos para o dia a dia também, para a produção e para gerar o valor que precisamos.
Carla, já aqui falamos um bocadinho de PMEs. Estas sentem, de facto, que o tema pode ser um pouco mais complexo. Há aqui um apoio que é prestado pela AIMAP a estes associados que ajuda nesta transição?
Sim, trata-se de um tema bastante complexo. Quando saiu a primeira norma em 2020, era uma norma bastante complicada. Recentemente, em 2025, saiu uma nova norma, que é uma norma voluntária de reporte de ESG. E aí, sim, já vai ajudar um bocadinho as PMEs a fazer um reporte de ESG menos exigente e mais intuitivo. A AIMAP tem realizado várias ações de capacitação, webinars, seminários, para dar apoio às nossas empresas associadas. Também temos as nossas newsletters ambientais.
Transmitindo informação.
Informação, sim. Também publicamos as nossas newsletters ambientais, onde tem bastante informação atualizada. Nos últimos três anos realizamos um projeto muito giro, que se chama Carbon Free Guide For Metal, e dentro desse projeto, que era um roteiro de descarbonização do setor, criamos duas ferramentas de apoio, sendo uma para o cálculo da pegada de carbono da empresa, que é muito útil para as nossas empresas e é grátis, e também outra para o cálculo do roteiro da descarbonização. Atualmente, no âmbito de uma candidatura ao SIAC Qualificação, que temos um projeto Construindo o Futuro, como já referiu, existe um dos eixos que é mesmo o ESG. E aí nós já realizamos várias ações de informação, realizamos focos grupo com várias empresas do setor para tentar perceber se a sigla já faz parte do seu vocabulário, qual é a maturidade nas empresas sobre a ESG, se já tinham indicadores para reportar, se já havia reporte. Ao fim e ao cabo, para tentar perceber quais são as dificuldades.
Uma radiografia do setor.
Isso mesmo. E tentar perceber realmente o que é que nós poderíamos fazer por eles. E neste momento estamos a desenvolver uma ferramenta muito importante, numa plataforma online gratuita, e esta ferramenta é para quê? Para as empresas tentarem identificar qual é o seu nível de maturidade a nível de ESG, e depois de identificado, nós tentarmos fornecer-lhes um plano de medidas, de ações e de recomendações práticas para que as empresas consigam implementar melhor a ESG e que estejam num nível melhor de maturidade. E como hoje, a nossa participação aqui no podcast.
Também serve para isso.
Evidentemente, no Rádio Observador, juntamente com uma empresa do setor, é um exemplo claro do trabalho que desenvolvemos, que apoiamos e que prestamos aos nossos associados.
Muito bem, estamos a ficar aqui próximos do nosso final de programa. Célia, queria ainda perceber muito rapidamente se já conseguem medir os ganhos de competitividade que estes critérios ESG estão a impactar na Silambos. E se de outra forma também o consumidor e o mercado está cada vez mais atento a isto e revela já uma preferência por empresas que de facto pratiquem e tenham estes indicadores em linha de conta.
Muito resumidamente então. Na nossa perspetiva, o ESG é um investimento com retorno em dois pilares, que é na perspetiva da otimização da organização, porque para nós termos os dados e tratá-los, ora decidimos melhor baseado em dados e promovemos a melhoria nessa perspetiva, e é um escudo competitivo, porque principalmente nos mercados internacionais e em clientes como sendo as grandes superfícies, que são clientes importantes para nós, o facto de nós conseguirmos evidenciar rapidamente quais são as nossas métricas, mantém-nos e abre-nos portas nessa perspetiva. Quando trabalhamos para as outras marcas, a Silambos também fabrica muitas peças para outras marcas.
Já existe essa preocupação entre os parceiros também?
Também já existe. Depende do parceiro, claro.
Da origem geográfica também, se calhar?
Do segmento.
Ok.
Mais do segmento do que propriamente da origem geográfica. O que nós temos vindo a notar é que o escrutínio vem em todas as direções, e uma das direções importantes é do consumidor, até com questões, usam as nossas redes sociais para nos questionarem de onde é que vem o aço, se faz mal.
A origem.
Exatamente. Como é que nós produzimos, etc. Imensas questões. Mas também do ponto de vista dos clientes, que já falei, e até do ponto de vista dos fornecedores, aqui mais numa relação de nós a pedirmos, porque temos aqui de demonstrar e trabalhar em toda a cadeia de valor, de influenciarmos os nossos fornecedores também a seguirem o mesmo caminho que pretendemos seguir.
Célia Soares, Carla Gonçalves, muito obrigado por esta conversa. Um episódio que mostra que o ESG já não é apenas uma tendência ou uma sigla, é uma transformação profunda na forma como as empresas se organizam e competem também entre si. Este foi o Vozes Circulares, podcast do Observador, em parceria com a Associação Smart Waste Portugal. Este episódio contou com o apoio da AIMAP. Junte-se a nós. No próximo programa continue a descobrir tudo sobre sustentabilidade e economia circular.