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No Zoom, vamos continuar a olhar para o Afeganistão. As sete potências mais poderosas do mundo estiveram reunidas. O Reino Unido convocou o encontro do G7 com o objetivo de convencer o presidente dos Estados Unidos a prolongar a presença militar no país, mas não conseguiu. Joe Biden mostrou-se intransigente e o dia 31 de agosto, daqui a mais ou menos uma semana, é mesmo para cumprir. Diogo Noivo, especialista em segurança e defesa e também consultor de risco político, está conosco no Zoom. Olá, Diogo Noivo, boa tarde. Obrigado por se juntar a nós.

Olá, muito boa tarde.

Diogo Noivo, é mesmo preciso sair até 31 de outubro ou esta data podia ter sido prolongada como pediram vários dos países que estiveram ontem na reunião do G7?

Aparentemente sim. O presidente Biden foi intransigente ao manter a data e insistir na data de 31 de agosto, não obstante pressões do Reino Unido e de França para atrasar a data da retirada. Parece ser que a administração norte-americana está convicta da necessidade dessa data e parece ser também, ou pelo menos é essa a impressão que passa para a opinião pública, que a espécie de ultimato feito pelos talibãs, dizendo que se a retirada não se procedesse de forma completa até 31 de agosto, existiriam represálias. Pelo menos na percepção pública, fica a ideia de que esse ultimato terá tido algum peso. Interessante no G7 também foi o comunicado ou a declaração emitida em cinco pontos, que entre outras coisas estabelece principais condições a cumprir pelos talibãs. Em primeiro lugar, respeito pelos direitos humanos, sobretudo mulheres e crianças. Depois, insiste o G7 que o Afeganistão não pode voltar a ser um santuário de terrorismo ou um foco de terrorismo internacional. E uma terceira condição importante é o combate ao narcotráfico, isto é, os talibãs, o governo talibã, deverá comprometer-se com o combate ao narcotráfico. Ora, essas três condições não são respeitadas no presente e muito provavelmente não serão respeitadas no futuro.

Aliás, temos tido já notícias. Ainda hoje falamos sobre a questão do risco para as crianças. A UNICEF vem falar em 10 milhões de crianças em risco e ontem mesmo falava-se já em execuções sumárias. A ONU falava já em relatos muito credíveis de que estariam a acontecer execuções sumárias.

Sim, a ONU e outros organismos internacionais têm falado em execuções sumárias, têm falado em violências sobre mulheres e crianças, têm falado em violências sobre jornalistas e outras pessoas que trabalham na imprensa, têm relatado buscas casa a casa por afegãos que colaboraram com tropas ou forças internacionais no Afeganistão e, portanto, o respeito pelos direitos humanos pedido pelo G7 não só está a ser violado no presente, como muito provavelmente será violado no futuro. E o mesmo se pode dizer em relação ao terrorismo. As Nações Unidas, outros gabinetes de análise, think tanks, têm insistido bastante e com provas de que a relação entre a Al-Qaeda e os talibãs permanece umbilical. A Al-Qaeda restabeleceu campos de treino no Afeganistão. A Al-Qaeda funcionou como multiplicador de força dos talibãs neste processo que assistimos recentemente de reconquista territorial. A Al-Qaeda apoiou os talibãs com comunicações, com informações e com operações de combate no terreno. Além do mais, o atual poder talibã já nomeou, quer para governo nacional, quer para governos provinciais, gente associada ou pertencente à rede Haqqani. A rede Haqqani é essencialmente uma organização terrorista, jihadista, aliada dos talibãs, aliada da Al-Qaeda. Aliás, a relação entre Al-Qaeda e talibãs estabelecida na década de 90 deve-se em grande medida à intermediação desta rede Haqqani. Portanto, os talibãs continuam a dar provas provadas de que, tanto em matéria de direitos humanos como em matéria de combate ao terrorismo, nada farão e, portanto, as condições exigidas pelo G7 neste momento estão no domínio da ficção. Por último, no que respeita ao combate ao narcotráfico. É sabido há muitos anos que o tráfico de drogas, em particular de ópio, é uma das principais fontes de rendimentos, não a única, mas uma das principais fontes de rendimento dos talibãs, e portanto, também por este lado, olhando para a declaração do G7, ela é largamente inconsequente, porque pede condições que não são, nem vão ser cumpridas, e o G7, em particular os Estados Unidos, não estão disponíveis para as fazer cumprir. Portanto, neste momento, o caos ao qual assistimos no terreno será apenas um prelúdio daquilo que acontecerá.

E hoje chegaram-nos também já imagens, pelo menos do aeroporto, onde continua uma grande confusão, pelo menos para se conseguir gerir aquele fluxo enorme de pessoas que estão a tentar chegar ao aeroporto. Entretanto, voltando um bocadinho à questão da data limite, que é 31 de agosto, eu erradamente há pouco disse 31 de outubro, mas é 31 de agosto, já na próxima semana. Espanha, por exemplo, já veio dizer que não vai conseguir retirar todas as pessoas que estão no Afeganistão e diz-se mesmo que algumas vão ter que inevitavelmente ficar para trás. O que é que pode acontecer depois dessa data? Os talibãs, por exemplo, já disseram também que vão permitir os voos a quem tiver a documentação em dia, digamos assim, mas é possível acreditar também nesta declaração de intenção?

Parcialmente. Espanha disse o que outros países já disseram e os que não disseram, dirão em breve. Até 31 de agosto não será possível retirar todas as pessoas que estão nas listas dos vários países como pessoas que tendo colaborado ou sendo familiares de pessoas que colaboraram com tropas e organizações internacionais. Portanto, isso parece-me mais ou menos evidente que até 31 de agosto não será possível retirar toda a gente. Em relação ao comportamento dos talibãs, nós temos visto já o que é esse comportamento. É também verdade que os talibãs tentarão, sobretudo a liderança política tentará, pelo menos numa primeira fase, limitar as ações de violência na medida em que o governo talibã precisa, ponto um, de algum reconhecimento internacional e ponto dois, o governo talibã precisa de acesso às reservas financeiras, aos fundos do país, coisa que não tem neste momento, porque estão congelados. E, portanto, é normal que pelo menos numa primeira fase, os talibãs permitam a algumas pessoas sair do país. Agora, se não estiverem reunidas as condições de segurança mínimas, não existirão voos comerciais. Voos militares, a partir de 31 de agosto também não existirão e portanto, tudo indica que a situação irá pior.

Muito bem, muito obrigado, Diogo Noivo, especialista em segurança e defesa e consultor de risco político, que esteve conosco no Zoom a ajudar-nos a perceber exatamente quais é que são as principais consequências da reunião do G7. Apesar de vários países terem insistido, Joe Biden mostrou-se intransigente e o dia 31 de agosto é mesmo o último dia possível para retirar civis e militares do Afeganistão.

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