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Amanhã vai ser outro dia. Amanhã vai ser outro dia. Amanhã vai ser outro dia. Hoje você é quem manda.

Ora, Jair Bolsonaro manda, mas já sentiu esse poder mais firme. Na pior semana da pandemia no Brasil, Jair Bolsonaro fez uma remodelação governamental. Entra na segunda metade do seu mandato, criticado por todos os setores da sociedade brasileira, sobretudo pela gestão da crise sanitária. Trezentas e vinte mil pessoas morreram devido à Covid-19 e na última semana o Brasil registou 2500 mortes por dia. Mas não foi só no Planalto que houve alterações. As Forças Armadas também mostraram bem a sua posição. Em reação à admissão do Ministro da Defesa, os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica bateram com a porta em sinal de protesto. De tal forma que o Supremo Tribunal Federal não escondeu a surpresa e afirmou que Bolsonaro está a tentar politizar as Forças Armadas. Esta é a primeira vez que três comandantes deixam os seus cargos ao mesmo tempo, por discordância com o Presidente da República. Bom dia, Henrique Reisler, jornalista correspondente da Rede Bandeirantes em Portugal. Obrigada por se juntar a nós.

Muito bom dia, obrigado por vosso convite e todos os ouvintes da Rádio Observador.

Jair Bolsonaro está neste momento sem saber que fuga é que há de apagar primeiro.

Na verdade, como eu comentei convosco há poucos dias, a situação brasileira está quase como uma tempestade perfeita, ou seja, é muito difícil de fazer uma radiografia, uma foto do que está acontecendo. Por um lado, um problema de gestão brutal da pandemia, onde houve uma troca de, se eu não estou enganado, quatro ou cinco ministros ao longo do último ano, portanto, falta de gestão clara na questão da saúde do Brasil, que já é uma saúde imensamente deficiente, apesar de ter o sistema único de saúde universal e gratuito, como um dos bons modelos mundiais, mas sempre com uma carência muito grande. Por outro lado, temos também que perceber que pela Constituição brasileira e por uma negativa do Supremo Tribunal Federal, o governo federal não pode fazer a gestão da pandemia em termos nacionais.

Como é que isso funciona?

Funciona na seguinte questão: cada cidade e cada conselho tem a gestão. Como por exemplo, Lisboa pode fazer uma gestão, Sintra pode fazer outra gestão e Cascais fazer outra gestão. E o governo do primeiro-ministro António Costa não pode interferir nisso, mas tem que dar recurso pra esses conselhos. Ou seja, isso está a acontecer. O governo federal está a dar recursos, imensos desses recursos estão a ser desviados. No Brasil, isso já se chama de "covidão", ou seja, uma corrupção brutal por parte de presidentes de Câmaras, governadores, que não estão a usar bem os valores sendo enviados pelo governo federal e, por outro lado, uma carência brutal de gestão e de saúde pública no Brasil. Aí se junta essa questão política, ou seja, o presidente Bolsonaro desde o início alinhado com o presidente Donald Trump, ele é contrário a essa narrativa, praticamente unânime em termos mundiais, sobre a questão do lockdown. O Bolsonaro é contra isso. Obviamente, está a mudar o seu discurso. No início ele achou que fosse uma gripezinha, ou seja, uma pequena gripe. Já mudou o seu discurso, mas ele é contrário ao lockdown, ou seja, está também a ter choque com os presidentes de Câmara e com os governadores. Portanto, essas mudanças também têm ligação com isso. Ou seja, o governo federal gostava de ter o controle, que na minha opinião, independente de ser Bolsonaro ou qualquer presidente, um governo federal deve ter um controle numa questão de pandemia. Por isso que ele está agora a tentar passar junto ao Congresso, um projeto de motivação nacional, que o próprio Lula fez isso também na sua época, em questão de guerra.

Uma questão de emergência nacional.

E essa emergência nacional seria em situações ou de guerra ou de pandemia, que é uma novidade para as democracias ocidentais, que os governos pudessem fazer a sua gestão. Portanto, essa mudança também em termos das Forças Armadas, tem ligação com isso pra tentar alinhar a esse discurso do governo ir contra a um clamor de presidentes de Câmaras e governadores, de fazer os seus lockdowns regionais. Portanto, é um grande quebra-cabeça político e uma grande oposição que surge contra as atitudes do presidente Bolsonaro.

A verdade é que o Brasil tem aqui também uma forma diferente de lidar com a sua economia, uma economia muito informal. Bolsonaro, e há que lhe dar esse crédito, dizia que o confinamento iria levar muitas pessoas à fome.

É importante perceber que no Brasil existe imensa pobreza, as próprias favelas, onde as pessoas trabalham hoje pra comer amanhã. Então eu acho que a grande questão de países chamados de terceiro mundo, notadamente Brasil, Índia, África do Sul, países do Sudeste Asiático, mesmo da América Latina como um todo, têm uma carência de uma economia de escala. Só para os vossos ouvintes terem uma ideia. Com o lockdown do ano passado e com lockdowns regionais, estaduais, a cadeia econômica do Brasil está imensamente atrasada. Só pra ter uma ideia Um amigo de São Paulo comprou uma cozinha e demorou quatro meses pra entregar. Se a construção civil do Brasil hoje vai comprar cimento, não tem a pronta entrega. Se vai comprar um carro, uma carrinha, não tem a pronta entrega. Portanto, essa observação do Bolsonaro, na minha opinião, nesse ponto, é importante. Ou seja, como fazer um combate à pandemia, que está em números alarmantes, ao mesmo tempo a não deixar que a economia sofra com fome, miséria, problemas emocionais, questões da própria segurança nacional. E aí vem todo o movimento político com essa mudança do STF em relação ao ex-presidente Lula. Portanto, o Brasil vive uma tempestade perfeita, que não se sabe qual é o dia de amanhã, como essa música do Chico Buarque de Holanda, que abriu a nossa entrevista.

A questão militar, agora vamos chamá-la aqui à conversa. Três ramos das Forças Armadas saem ao lado do Ministro da Defesa, contra a admissão do Ministro da Defesa e contra Jair Bolsonaro. O que isso pode querer dizer pra Bolsonaro, que sempre esteve tão próximo do exército?

Na verdade, o Bolsonaro tem uma quantidade importante de ministros do ramo militar. O próprio vice-presidente Mourão é militar. Eu tenho lido e conversado com imensos amigos. O Brasil, apesar de ser uma democracia nova, ela ainda está relativamente bem estabilizada. Eu não acredito, sob hipótese alguma, de golpe militar. O Bolsonaro acredito que não faria esse tipo de aventura, porque o STF não permitiria, a população brasileira não está pronta pra isso, ou seja, ninguém está a pensar em golpe militar. O que existe, sim, é uma oposição crescente contra o Bolsonaro. O Bolsonaro está se mostrando um gestor completamente inepto, ou seja, um gestor que não está conseguindo fazer essa grande composição política e, principalmente, um gestor que tem uma dificuldade brutal de comunicação. Portanto, se unem algumas poucas qualidades do Bolsonaro contra já um início de uma campanha eleitoral que vai acontecer daqui a um ano e meio, portanto, outubro de 22. Portanto, como eu disse, é uma tempestade perfeita, é um momento imensamente difícil e que impacta o quê? A economia, a saúde, a pandemia e necessariamente trazer pobreza cada vez maior pra um país já com crise, com total instabilidade.

Vê aqui alguma divisão entre os generais sobre o radicalismo de Jair Bolsonaro? Acha que isso é visível aqui? Eu li ontem que fala-se na maior crise militar desde 77. Isso é exagerado?

Eu acho que podemos considerar que exista divergência de opinião, que isso, em termos de democracia, é algo importante, ou seja, a democracia exige uma pluralidade de opiniões. Peço desculpa.

Não, é difícil, é uma palavra difícil.

Mas eu não acredito em nenhum tipo de ruptura. O exército tá deixando muito claro desde sempre. O exército não vai se envolver mais na questão política. O que está a existir, sim, é uma grande ebulição. O Bolsonaro, por outro lado, não está a dar dinheiro pra imprensa, ou seja, a comunicação social do Brasil, notadamente Rede Globo.

Isso nota-se na Rede Globo.

Está a receber quinhões mínimos, portanto, existe também um movimento de oposição, também porque os governos federais sempre mantiveram a comunicação social no Brasil. Portanto, é muito difícil cá em 10 minutos, ou mesmo que tivéssemos duas horas, a conseguir fazer um encadeamento de um imenso jogo político, um imenso jogo econômico, dentro do momento muito sério da pandemia. Portanto, o que eu acho que falta no Brasil, eu sempre digo isso, o Brasil deveria trabalhar com uma visão de Estado e não de governo. Ou seja, a questão da pandemia é uma questão de Estado. O que o Estado brasileiro, não é o Bolsonaro, é o Estado brasileiro. Portanto, eu acho que existe um foco errado há imenso tempo. O que acontece, acarreta nessas crises, nessas instabilidades e, infelizmente, eu não acredito que isso vá mudar muito nos próximos momentos, porque existe um grande e um perigoso acirramento político no Brasil.

Falávamos há bocado, o Henrique falava dessa questão da Globo e do financiamento, enfim, o financiamento do Estado brasileiro à imprensa e, neste caso, à televisão é muito grande e muito importante, mas Jair Bolsonaro tem a sorte de ter a Rede Record com ele.

O que eu falo da Rede Globo é que a Rede Globo é notadamente, imensamente competente em termos de jornalismo técnico, mas está a fazer uma grande oposição. Sempre se diz no Brasil que os presidentes do Brasil, desde a redemocratização, passaram pelos estúdios da Rede Globo. Portanto, a Rede Globo, sempre como uma das principais redes mundiais, está a perder recursos muito importantes. Portanto, o Bolsonaro rompe com vários desses paradigmas da política. E outra questão, acho que é imensamente importante cá preencher nesse nosso debate. O Bolsonaro está na mão do centrão. O que é o centrão, pra perceberem? É um conglomerado de partidos sem nenhuma ideologia. E a ideologia principal do centrão é estar no poder e ser grande parte desses políticos corruptos. O presidente Lula esteve alinhado ao centrão, o presidente Fernando Henrique Cardoso esteve alinhado ao centrão, o presidente Temer esteve alinhado ao centrão e Bolsonaro durante um ano e tal não esteve alinhado ao centrão. Aí começaram a falar do impeachment do Bolsonaro.

Isso foi prejudicial.

E ele teve que imediatamente se unir ao centrão. Portanto, o centrão hoje está dentro do Palácio do Planalto, que é uma coisa imensamente perigosa, porque são gajos que querem poder. O Bolsonaro hoje está numa linha imensamente tênue entre aclamação popular de formadores de opinião, com o centrão, que já tem um histórico imensamente negativo. E com todo esse embate com o Supremo Tribunal Federal, que também está a fazer um grande jogo político.

E a mesma, e agora, Henrique, e a mesma questão de Lula da Silva, e a mesma questão de Sérgio Moro, mas só lhe posso dar um minuto pra falarmos desta questão. É que no meio disso tudo, Bolsonaro ainda tem de lidar com Lula da Silva, sem a acusação que tinha, pelo menos num Estado.

Não, na verdade, não é sem acusação. A acusação se mantém, tudo se mantém, somente vai mudar de vara. Possivelmente, sai de Curitiba, ou vai a Brasília, mas também tem esse medo. Isso vai ao plenário do STF. E o plenário do STF pode derrubar a ação monocromática do juiz Faquim, como em relação à segunda turma da questão do juiz Sérgio Moro. Portanto, muitas águas podem rolar e o Bolsonaro, ao fim e ao cabo, está a se mostrar uma personalidade inquieta, uma personalidade sem condições psicológicas de ter um cargo da importância de uma presidência brasileira. Portanto, o Bolsonaro mostra que não tem gestão e não tem um equilíbrio emocional pra gerir esse momento tão importante do Brasil. Mas eu não acredito, de forma alguma, de rompimento institucional e eu não acredito, de forma alguma, em impeachment do Bolsonaro. Vai se manter assim até o final de 22. E como eu disse também quando comentamos há dias atrás, apesar de tudo isso, Bolsonaro ainda tem um grande capital político e possivelmente estará no segundo turno nas eleições de 22. Portanto, é um momento crítico, complicado, instável, como tem sido a histórica brasileira ao longo, infelizmente, das últimas décadas.

Obrigadíssima, Henrique Reisler, por ter estado conosco neste espaço do Zoom a analisar essa tempestade perfeita que se está a abater sobre o Brasil.

Muito obrigado. Um abraço.

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