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Arqueologia

Descoberta das gravuras rupestres recordada 20 anos depois pelo Museu do Côa

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O Parque Arqueológico e o Museu do Côa assinalam 20 anos sobre a descoberta da Arte do Côa, que em 1994 provocou uma polémica cultural e política que ultrapassou as fronteiras nacionais.

Descobriram-se as gravuras do Côa há 20 anos

Marcos Borga/LUSA

O Parque Arqueológico e o Museu do Côa assinalam entre sábado e terça-feira a passagem de duas décadas sobre a descoberta da Arte do Côa, que em 1994 provocou uma polémica cultural e política que ultrapassou as fronteiras nacionais.

Em novembro daquele ano começaram a surgir as primeiras notícias relativas a importantes achados arqueológicos na área que seria submersa pela barragem do Baixo Côa e veio a confirmar-se que se tratava do “maior complexo de arte rupestre paleolítico ao ar livre conhecido” até essa ocasião.

Segundo notícias da época, divulgadas pela agência Lusa, o Conselho de Administração (CA) da EDP anunciou em 30 de novembro de 1994 que só então tivera “conhecimento dos achados arqueológicos de Foz Coa, apesar de ter celebrado um protocolo com o IPPAR para acompanhamento dos trabalhos ali em curso”.

Num comunicado à data emitido pelo CA da elétrica nacional, afirma-se que a EDP só então, através da comunicação social e de uma carta pessoal, tomou conhecimento do importante achado arqueológico.

Ambientalistas, no entanto, contestaram estas afirmações, recordando que um catálogo da EDP já incluía há pelo menos três anos fotos de achados arqueológicos do paleolítico na zona do Côa.

Também em 1994, a Universidade da Califórnia apelou ao então Presidente da República português, Mário Soares, para que fizesse o que pudesse no sentido das gravuras rupestres do Coa não serem submersas devido à construção de uma barragem.

Numa carta dirigida a Mário Soares, a universidade norte-americana considerava que a submersão das gravuras seria um crime contra a humanidade. “Uma tragédia dessas certamente não pode ser permitida”, frisava o documento, assinado por Robert Connick.

Pouco tempo depois, uma petição, assinada por cerca de 11 mil pessoas, era entregue na Assembleia da Republica em defesa das gravuras rupestres de Foz Côa.

As assinaturas foram recolhidas por todo o país pela associação “Olho Vivo”, incluindo nas escolas de Vila Nova de Foz Côa, e a petição pedia “urgência” na discussão do problema pelo Parlamento.

Um outro abaixo-assinado, da própria Escola Secundária de Vila Nova de Foz Côa, em defesa das gravuras rupestres, recolhia mais de 70 mil assinaturas provenientes de praticamente todas as escolas do país.

O abaixo-assinado surgiu de uma iniciativa conjunta dos conselhos diretivo e pedagógico e da associação de estudantes da Escola Secundária de Foz Côa para ser entregue ao então Chefe de Estado, Mário Soares.

No decurso de uma visita a Vila Nova de Foz Côa em março de 1994, que marcou a viragem do processo, Mário Soares disse que as gravuras rupestres da região “realmente não sabem nadar”, numa alusão a uma música dos Black Company então em voga e adaptada pelos opositores à construção da barragem.

A referência do Presidente da República, que sublinhou tratar-se de um problema e de grande complexidade, era uma resposta aos mais de três mil alunos dos ensinos básico, preparatório, secundário e superior que interromperam a passagem da comitiva presidencial, gritando “as gravuras não sabem nadar, a barragem tem de parar”.

Após pararem as viaturas oficiais, os alunos entregaram ao Chefe de Estado a petição contra a suspensão da barragem com cerca de 70 mil assinaturas.

Nas legislativas de outubro de 1995, o socialista António Guterres sucedeu a Cavaco Silva no cargo de primeiro-ministro e o seu governo declarou a suspensão da barragem, enquanto o Vale do Côa, com os diversos “sítios” entretanto identificados ao longo de 17 quilómetros, recebia a classificação de monumento nacional.

Segundo os especialistas, ali se encontrava o maior museu ao ar livre do Paleolítico de todo o mundo, que em 1998 recebe mesmo a classificação de Património Cultural da Humanidade pela UNESCO.

Em julho de 2010 o Museu do Côa (MC) abre as portas, 15 anos depois da polémica e com um investimento de cerca de 17 milhões de euros.

Decorria o ano de 2011 quando foi criada a Fundação Côa Parque para gerir o MC e o Parque Arqueológico do Vale do Côa, com o objetivo de proteger, conservar, investigar e divulgar a arte rupestre.

“Para comemorar a efeméride foi preparado um programa evocativo, do qual se destaca, no dia 29 de novembro, a reabertura ao público da sala D do Museu do Côa, ultrapassados que foram os condicionalismos técnicos que levaram ao seu encerramento”, refere a Direção Regional de Cultura do Norte.

Mantendo o espírito da história que se conta no MC, esta sala continuará dedicada ao chamado coração do “santuário arcaico paleolítico” da Penascosa/Quinta da Barca.

A 02 de dezembro, dia comemorativo da classificação da Arte do Côa como Património Mundial pela UNESCO, as visitas ao Museu e aos sítios de arte paleolítica abertos ao público serão gratuitas para os grupos escolares que agendarem as suas marcações.

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