Natal

História do Pai Natal em dez takes mais um (o da Coca-Cola)

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A tradição do Pai Natal é nova em Portugal, mas no mundo anglo-saxónico recua até à de São Nicolau. E não foi de um dia para o outro que se criou a iconografia do trenó, das renas e do manto vermelho.

Texto originalmente publicado a 24 de dezembro de 2014

1. Século XII

Antes do Pai Natal, Santa Claus em inglês, houve São Nicolau. E São Nicolau, em holandês, dizia-se Sinterklaas (de Sint Nikolaas), o que explica a expressão vulgarizada nuns Estados Unidos onde Nova Iorque antes de ser Nova Iorque era Nova Amesterdão.

Quanto à tradição de São Nicolau, ela tem origem num bispo que viveu no século IV em Mira, na Anatólia, Turquia. Esse bispo ficou conhecido por deixar prendas (colocava moedas nos sapatos que eram deixados à porta das casas) e por ajudar os mais pobres.

No imaginário antigo, São Nicolau era visto a pairar, num grande cavalo branco, sobre os telhados, procurando descobrir que crianças se portavam mal ou portavam bem. Nessa sua visualização, surgia em formas muito semelhantes à do lendário Odin, uma divindade pré-cristã dos povos germânicos do norte da Europa.

São Nicolau terá morrido num 6 de dezembro, e essa data foi durante muitos séculos celebrada na Europa medieval, mas hoje já só na Holanda é que se mantém a tradição de ser um dia de troca de presentes.

2. Século XVII

As raízes do Pai Natal também podem ser traçadas até uma figura do folclore britânico, já chamada Pal Natal (Father Christmas) ou “Velho Pai Natal” (Old Father Christmas). Também podia ser tratado usando os títulos ingleses: Sir Christmas ou Lord Christmas. Ao contrário do moderno Pai Natal, este não apreciava especialmente crianças nem era conhecido por distribuir prendas. Mas já tinha barbas longas e um barrete.

Aquando da guerra civil, que levou à breve instalação de uma república, os puritanos que tomaram o poder aboliram o feriado do dia de Natal, considerando que este refletia uma “superstição católica”. Foi uma abolição que durou poucos anos.

3. 1810

E como, onde e quando é que a tradição do britânico Father Christmas se fundiu com a do holandês Sinterklaas? O onde parece ter sido, ou começado por ser, Nova Iorque, a cidade americana com raízes holandesas. O quando, tudo indica que foi no início do século XIX, depois da guerra da independência. John Pintard, o fundador, em 1804, New York Historical Society, tentou promover São Nicolau como santo patrono da cidade, sem grande sucesso mas deixando um legado importante: um desenho, encomendado para a primeira celebração do “dia de São Nicolau”, em que ao lado da figura do bispo grego do século IV aparece a primeira representação de uma lareira com longas meias penduradas para acolher os presentes.

4. 1822

O próximo passo na construção da mitologia do Pai Natal pode ser associado ao poema de Clement Moore A Visit from St. Nicholas, mais popularizado como The Night Before Christmas. É nesse poema que de alguma forma se funde a tradição de São Nicolau com a da tradição germânica de Odin. É nesse poema que o velho bispo surge pela primeira vez a conduzir um trenó voador puxado por oito renas. Foi também Clement Moore que imaginou pela primeira vez a entrada pela chaminé com um saco cheio de presentes para as crianças, com os quais enche as meias penduradas ao lado da lareira. O poema termina com a famosa expressão “Happy Christmas to all, and to all a good-night”.

5. 1863

Mas se assim começamos a perceber a origem da atual mitologia em torno do Pai Natal, qual a origem da iconografia com que habitualmente se apresenta? Como é que o simpático bispo da Anatólia se transformou no velho bonacheirão de longas barbas brancas e manto vermelho e branco? O mito urbano mais comum é que isso se deve à Coca-Cola e às suas campanhas de publicidade, iniciadas nos anos de 1940 com ilustrações de Haddon Sundblom. Na verdade não passa mesmo de um mito urbano. O Pai Natal, tal como hoje o conhecemos, começou a ganhar forma bem antes, talvez em 1863 nos cartoons de Thomas Nast para a Harper’s Weekly. Já aí vemos o velho de barbas, com toda a sua parafernália, mas o manto e as calças ainda não são vermelhos, antes replicam as cores da bandeira dos Estados Unidos.

6. 1864

Falta então o vermelho, pois quase tudo o resto já está nos desenhos desta época, que mostram quase sempre o velho sorridente no seu trenó, com as suas renas e o seu saco de presentes. Durante algum tempo, porém, as cores variaram, podendo o Pai Natal ser representado de amarelo, de verde, de azul…

7. 1881

Thomas Nast não deixou de desenhar o Pai Natal até que, em 1881, numa ilustração hoje famosa, parece ter chegado à forma que ele assumiu desde então. Está lá tudo, incluindo as folhas de azevinho, já lá está também o manto vermelho. Só há, verdadeiramente, um pormenor que não passaria nos dias de hoje: o Pai Natal tem um cachimbo na mão, está a fumar. Intolerável.

8. 1902

Se o Pai Natal de Thomas Nast é praticamente igual aos da atualidade, o Pai Natal do desenhador australiano Frank A. Nankivell é igualzinho. Não fosse a companhia que o acolhe nesta capa da revista Puck, e podia estar a sair de uma caixa de chocolates ou da montra de um grande armazém.

9. 1914

Entretanto, o que nascera com uma tradição americana que fundia heranças holandesas e britânicas começou a tornar-se comum em todo o mundo. No início do século XX começamos a encontrar ilustrações em que o velho das barbas não só surge tal como hoje o conhecemos, como se torna conhecido de povos que antes até tinham tido pouco contacto com a tradição cristã do Natal, como os japoneses.

10. 1920

É quase impossível citar a tradição americana do Santa Claus sem referir um dos grandes ilustradores do século passado, Norman Rockwell. O seu trabalho foi feito sobretudo para o Saturday Evening Post e os seus pais natais, com uma forma incrivelmente humana, antecipam os que Haddon Sundblom começaria a criar uma década mais tarde para a Coca-Cola.

11. 1931

Chegam finalmente os anúncios da Coca-Cola com os seus pais natais de Haddon Sundblom. Na verdade, se a marca não pode reivindicar a criação da imagem moderna do Pai Natal, mesmo assim a influência dos desenhos de Sundblom no imaginário coletivo de como é o Pai Natal é indiscutível. A encomenda da marca ao ilustrador foi que imaginasse um verdadeiro Pai Natal, não um homem vestido de Pai Natal. Os anúncios começariam por ser publicados no Saturday Evening Post, mas depressa chegariam a outras publicações, como a National Geographic. No que toca a impacto, a encomenda teve sucesso, está bem de ver.

Nota: Para a elaboração deste artigo utilizou-se sobretudo material da The Public Domain Review.

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