Não é preciso ser um profundo conhecedor do panorama das tascas, tasquinhas e restaurantes tradicionais de Lisboa, para reconhecer o nome Zé da Mouraria, casa centenária no bairro homónimo. Tal como será preciso sê-lo para reconhecer os respetivos méritos: basta passar por lá ao almoço, a única refeição que serve, e ver a multidão à espera de mesa.

Resumindo: o Zé (tratemo-lo assim, que ele não se dá a formalismos) é dos melhores exemplares que a cidade tem no campeonato sub-20€, para comer muito, bem, e à antiga, seja o universalmente aclamado bacalhau assado das sextas e sábados, o arroz de pato solto e cheio de carne das quartas ou os bifinhos ao alho apurados, as iscas tenras ou as espetadas portentosas de todos os dias.

Reveste-se assim de especial importância a notícia que se segue: há um novo Zé da Mouraria em Lisboa. Mais: agora é possível provar tudo aquilo que se descreve no segundo parágrafo não só ao almoço (no Zé original) como ao jantar (neste Zé da Mouraria 2). Fazer as duas coisas no mesmo dia será missão apenas ao alcance dos mais resistentes. Mas o leitor percebe a ideia. Caso não perceba, só tem de ler a resposta a todas as possíveis questões sobre o assunto.

Mas, afinal, quem é esse Zé da Mouraria?

O Zé da Mouraria, pessoa, não existe atualmente. Mas atenção, não quer isso dizer que o nome da casa seja uma farsa. Em tempos, existiu, de facto, um Zé: o galego que abriu a carvoaria original no mesmo local (Rua João do Outeiro), há mais de cem anos. A verdade é que durante a maior parte da sua existência o restaurante chamou-se Zé dos Grelhados. O nome só mudou há 16 anos, altura em que Virgílio Oliveira pegou na casa.

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Virgílio Oliveira, o homem que manda nos tachos (e não só) em ambos os Zé(s) da Mouraria / Hugo Amaral ©

Virgílio? Quer dizer que o dono não se chama Zé?

Exato. Não falta quem lhe chame “senhor Zé”, e ele até nem leva a mal, mas o nome do homem que manda tanto na cozinha do Zé da Mouraria original como na da nova casa é mesmo Virgílio Oliveira. Minhoto criado no Casal Ventoso, Virgílio fez carreira como chef no Algarve, onde abriu diversos restaurantes de hotel. Também cozinhou em Angola, em plena Guerra Civil, antes de voltar a Lisboa para trabalhar no então Zé dos Grelhados que viria a comprar ao antigo patrão uns anos depois. Segundo o próprio, andou “quatro anos a penar até conseguir fazer a casa”. Mas conseguiu fazê-la e bem, recorrendo a uma gama de pratos diários de boa cozinha tradicional em doses reforçadas, sempre para dois ou três, dependendo do estômago. O maior sinal de sucesso são as constantes filas à porta. Aliás, para conseguir almoçar à vontade no Zé da Mouraria original Virgílio recomenda aparecer “lá pelas três da tarde”.

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Um dos vinhos que se servem no restaurante, o Xico Pé Descalço, foi feito por Virgílio. Reconhece-o no rótulo? / Hugo Amaral ©

Com tanto sucesso, porquê um novo restaurante?

“Sempre quis abrir uma casa que servisse apenas à noite, porque sempre tive muitos clientes que queriam jantar.” A resposta de Virgílio é simples e explica na perfeição o porquê do novo Zé da Mouraria. No original só se servem almoços. Quando os clientes pediam, e se se justificasse (para grupos grandes), Virgílio ainda abria a casa à noite, mas acabava por sair caro. Assim, aproveitou este espaço livre, perto do Campo Mártires da Pátria, e concretizou esse desejo antigo. Fez umas obras, estendeu a cozinha à vista dos clientes e abriu no último dia de janeiro.

Então posso aparecer para jantar?

Poder pode, corre é o risco de não ter lugar. É que os quatro anos que Virgílio levou a fazer a casa-mãe aqui não duraram nem quatro minutos. Desde o primeiro dia que o Zé da Mouraria 2 tem tido a casa cheia para jantares, principalmente aos fins de semana. Assim, e tendo em conta que a sala não tem mais de 60 lugares, é essencial reservar e, de preferência, com alguma antecedência.

E o mais importante: o que é que se come?

Se o Zé da Mouraria original é conhecido pelas escolhas diárias, havendo até quem as saiba de cor e salteado, a sequela aposta no mesmo tipo de cozinha e nas mesmas doses generosas, mas com uma diferença: servem-se à carta, porque, conta Virgílio “o cliente à noite não está tão predisposto a pedir pratos do dia”. Mas descansem os fiéis porque, de resto, não há diferenças. Ou seja, os clássicos estão todos na carta: o bacalhau no churrasco, as iscas à portuguesa e os bifinhos ao alhinho, entre outros. Quanto a novidades, fixe estes três nomes — o pescado invulgar, em que Virgílio seleciona vários tipos de peixe, que são marcados na grelha e levados ao forno, o bife à Xico Pé Descalço, feito com o vinho tinto feito à medida (e imagem) de Virgílio ou a espetada selvagem, uma mistura de carnes (pato, perna de peru, cabrito, lombo de porco e vazia) apresentada em dois espetos retorcidos, em forma de gancho, mandados fazer de propósito para a ocasião. Sempre em doses bem substanciais. Tão substanciais, aliás, que por ali os empregados não desejam “bom apetite” aos clientes. Desejam-lhes “boa sorte”. Percebe-se porquê.

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Isto é uma dose de espetadas para duas pessoas. Mas alimenta três, à vontade / Hugo Amaral ©

Nome: Zé da Mouraria 2
Morada: Rua Gomes Freire, 60-62 (Campo Mártires da Pátria), Lisboa.
Telefone: 21 608 4695
Horário: De segunda a sábado das 19h30 às 23.30
Preço Médio: 20€
Reservas: Aceitam