Casa Branca 2016

Rex Tillerson, CEO da Exxon e amigo de Putin, vai ser o novo secretário de Estado dos EUA

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O Presidente eleito dos EUA, Donald Trump, anunciou esta terça-feira que o diretor-executivo de Exxon Mobil, Rex Tillerson, será o próximo Secretário de Estado. Em 2013, foi condecorado por Putin.

Rex Tillerson foi condecorado por Vladimir Putin com a Ordem da Amizade em 2013

AFP/Getty Images

Donald Trump vai nomear o diretor-executivo da petrolífera Exxon Mobil, Rex Tillerson, como secretário de Estado dos EUA, o cargo mais alto da diplomacia norte-americana. A informação foi confirmada esta terça-feira pela equipa de transição de Donald Trump.

Tillerson não tem experiência diplomática nem governativa, apesar de ser um empresário de sucesso. Além disso, é conhecido por ter relações próximas com Vladimir Putin, que conhece há duas décadas e que lhe atribuiu em 2013 a Ordem da Amizade, a distinção mais elevada que o Kremlin pode atribuir a um estrangeiro.

Donald Trump fez menção à experiência de Rex Tillerson como empresário no estrangeiro, com um tweet onde dizia: “A coisa de que eu gosto mais no Rex Tillerson é que ele tem uma experiência vasta em lidar com sucesso com todos os tipos de governos estrangeiros”.

Em comunicado, a equipa de transição de Donald Trump descreve-o como estando entre “os melhores líderes empresariais e negociadores do mundo”, acrescentando que como diretor-executivo da Exxon tinha 70 mil trabalhadores e 200 escritórios em todo o planeta sob a sua alçada.

O senhor Tillerson sabe como gerir uma organização global com sucesso e navegar a arquitetura complexa dos assuntos internacionais e dos vários líderes internacionais. Como Secretário de Estado, ele vai ser um defensor forte e clarividente dos interesses nacionais vitais da América.”

No mesmo comunicado, é dito que Rex Tillerson será capaz de “reverter anos de políticas internacionais mal pensadas e ações que têm enfraquecido a segurança e a posição da América no mundo”. Numa clara mensagem de crítica à atual administração, de Barack Obama, lê-se ainda no mesmo comunicado que “o povo americano terá outra vez um líder de topo a trabalhar a seu favor, aumentado as perspetivas de paz e prosperidade entre as nações”.

Senado pode bloquear nome de Rex Tillerson

Para entrar em funções, Rex Tillerson terá de ser aprovado no Senado. Numa primeira fase, terá de passar pelo Comité de Assuntos Internacionais, onde há 19 membros — 10 republicanos e 9 democratas. Entre os republicanos, está Marco Rubio, que já criticou esta escolha — no domingo, escreveu no Twitter que “ser ‘amigo do Vladimir’ não é um atributo que espero ter num Secretário de Estado”. Se o senador da Florida e ex-candidato às primárias republicanas vetar Rex Tillerson e for acompanhado nesse sentido por todos os outros democratas, o nome CEO da Exxon é rejeitado e já não sobe ao Senado para votação.

No caso de uma votação do Senado, Rex Tillerson também pode ter um caminho apertado. Na composição do Senado que resultou das eleições de 8 de novembro, os republicanos detêm 52 lugares e os democratas um total de 46. Basta que todos os democratas chumbarem Rex Tillerson e que três republicanos se lhes juntem para o diretor-executivo da Exxon não passar.

Neste momento, corre uma lista de senadores republicanos que tomaram posições públicas que podem indiciar um voto contra a nomeação de Rex Tillerson. São eles Marco Rubio (Florida), John McCain (Arizona) e Mitch McConnell (Kentucky). Ainda assim, uma fonte próxima de Marco Rubio disse ao Politico que o seu tweet não deve ser interpretado como intenção de votar contra a escolha de Donald Trump para liderar a diplomacia dos EUA.

Nomeação surge debaixo da sombra de interferência russa nas eleições

A nomeação de Rex Tillerson pouco depois de 17 agências de segurança norte-americanas terem emitido um comunicado onde dizem estar “confiantes” de que o Kremlin esteve por trás da fuga de emails divulgados pelo site WikiLeaks e que afetou o Partido Democrata e a campanha de Hillary Clinton. Em julho, o site de Julian Assange tornou públicos emails trocados pela diretora do Comité Nacional Democrata, demonstrando que esta, que deve tomar uma posição neutra numas eleições primárias, favoreceu a campanha de Hillary Clinton e prejudicou a de Bernie Sanders. Em outubro, a um mês das eleições, a conta de email do reitor de campanha da candidata democrata, Ben Podesta, foi alvo de uma invasão que resultou na partilha a conta-gotas de mais de 30 mil de mensagens trocadas entre ele e a sua equipa. Algumas destas mensagens foram usadas contra a campanha de Hillary Clinton.

“A Comunidade de Intelligence dos EUA (USIC) está confiante de que o Governo russo dirigiu as recentes entradas em emails de pessoas e instituições dos EUA, incluindo de organizações políticas norte-americanas”, lia-se num comunicado do Department of Homeland Security e do gabinete do diretor da Natioanl Intelligence. “Acreditamos que, tendo em conta a amplitude e sensibilidade desses esforços, só os agentes mais graduados da Rússia é que poderiam ter autorizado estas atividades.”

Perante esta acusação, invulgarmente frontal tendo em conta que parte de órgãos estatais, Donald Trump preferiu desvalorizá-la. “Eu acho que é ridículo”, disse numa entrevista à Fox News esta segunda-feira. “Eu acho que é outra desculpa, não acredito nela. Eles falam de tudo, todas as semanas há desculpas novas, e nós tivemos uma grande vitória no Colégio Eleitoral, como se sabe.”

“Eles não têm ideia se é a Rússia, se é China… Até pode ser alguém deitado na sua cama, em qualquer lado”, acrescentou o Presidente eleito dos EUA.

O botão de reset que não funcionou

A escolha de Rex Tillerson por parte de Donald Trump é até agora a prova mais evidente de que o próximo Presidente dos EUA se prepara para apostar numa alteração das relações diplomáticas entre os EUA e a Rússia, atualmente marcadas pela aplicação de sanções mútuas desde 2014. O primeiro passo nesse sentido foi dado por Washington D.C., depois da anexação da Crimeia por parte da Rússia.

Nos primeiros anos na Casa Branca, Barack Obama tentou aplicar uma política de reset (recomeço) com Moscovo. Essa política deu lugar um momento insólito, quando Hillary Clinton (que foi Secretária de Estado durante o primeiro mandato de Barack Obama) apresentou um botão vermelho com a palavra “Reset” em inglês e a suposta tradução correspondente em russo. “Fizemos um grande esforço para termos a tradução correta”, disse Hillary Clinton. Sergei Lavrov, que já na altura era ministro dos Negócios Estrangeiros, disse-lhe que a palavra não estava bem traduzida. Em vez de “recomeço”, dizia “sobrecarregado”.

Desde então, as relações entre a Rússia e os EUA estiveram longe de melhorar. Começaram mesmo a piorar, com dois episódios que até hoje se arrastam a ajudarem de forma decisiva nesse sentido: a anexação da Crimeia por parte da Rússia e a continuação da guerra no leste da Ucrânia, onde tropas independentistas apoiadas por Putin lutam contra os ucranianos; a guerra na Síria, onde a Rússia dá apoio militar e logístico ao regime de Bashar Al-Assad, algo que tem sido até agora criticado pelos EUA e que tem levado a um impasse no Conselho de Segurança da ONU.

Além disso, em junho de 2013 a Rússia deu asilo a Edward Snowden, antigo agente da NSA, que denunciou os métodos daquela agência de segurança norte-americana ao jornalista Glenn Greenwald. Na altura, os EUA exigiram a extradição de Edward Snowden à Rússia, que respondeu negativamente ao pedido.

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