Entrevista

Eimear McBride: “Pensei que seria uma escritora falhada durante toda a minha vida”

Durante nove anos, Eimear McBride tentou publicar o seu primeiro livro. Os editores recusavam: culpavam a linguagem, ou diziam que não sabiam vendê-lo. Até que um teve coragem. E os prémios chegaram.

"Os autores mais celebrados são homens [risos]. E ninguém lhes pergunta coisas como: 'Que tal é ser escritora e mãe?'"

Eu acho o teu rosto o melhor que há. Quando éramos nós éramos nós éramos novos. Quando eras pequenino e eu uma menina. Era uma vez. Vou lembrar-te lembra-te bem. Agora. Não nessa altura. E eu ajoelho-me sobre a tua cama tranquila. Beijo a tua cara. Saio do quarto. Eu vou. Dormir. Tal como tu.

Não é fácil ler o romance de estreia de Eimear McBride, Uma Rapariga é Uma Coisa Inacabada (no original A Girl Is a Half-Formed Thing, publicado em Portugal pela Elsinore). Não tem frases lineares, tem incontáveis pontos finais e constantes mudanças de cena. Por vezes, é difícil seguir a história desta rapariga e da relação que tem com o seu irmão, um rapaz mais velho que tem um tumor cerebral, dentro de uma família profundamente católica e disfuncional. Por não ser fácil, várias editoras fecharam a porta à escritora. Nem a ajuda de um agente literário lhe valeu.

O que lhe valeu foi a entrada de uma nova editora no mercado, a Galley Beggar Press, mais afoita, disposta a arriscar num livro que poderia não vender. O risco compensou e a reação superou as expectativas. “Eimear McBride é uma espécie em vias de extinção: um génio. O leitor ousado irá perceber que tem nas mãos um livro a sério, vivo, um livro como nenhum outro”, disse Anne Enright, vencedora do Man Booker Prize. Publicações como o The Guardian, a New Yorker e o New York Times não pouparam nos elogios. A irlandesa foi comparada a James Joyce e a Samuel Beckett. E venceu prémios como o Baileys Women’s for Fiction, Goldsmiths e Kerry Group Irish Novel of the Year.

Ler é totalmente o oposto de ver televisão, não é uma experiência passiva. A pessoa escolhe um livro, senta-se e depois começa a trabalhá-lo, a lê-lo. Porque é que uma pessoa disposta a fazer isso não quereria retirar desse esforço algo que valha a pena?”, questiona Eimear, em entrevista ao Observador. De pele branca e cabelo ruivo, Eimear McBride foi uma das convidadas do Festival Literário da Madeira, assim como o tradutor português do livro, o poeta Daniel Jonas. Que reconheceu que traduzir Uma Rapariga é Uma Coisa Inacabada também não foi um desafio fácil.

“Andei numa escola de teatro e trabalhei o método de Stanislavski, a que recorriam o Robert De Niro e o Marlon Brando. É o método russo para se criar um personagem e vivê-lo em plenitude”, explica Eimear, em relação ao estilo de escrita que usa. Sem ter andado na universidade, e sem conhecer as regras da literatura, pegou no método dramático que conhecia para criar as suas personagens.

Diz que os entrevistadores e críticos homens lhe perguntam mais sobre o estilo, próximo do modernismo, e que as mulheres querem saber mais sobre a história. Há elementos autobiográficos, como o sofrimento por que passou ao crescer num lar profundamente católico, e a morte do irmão. Foi, aliás, essa morte que fez com que Eimear nunca mais quisesse pisar um palco como atriz. Em alternativa, dedicou-se à escrita, o sonho de criança. Não queria escrever a sua história pessoal, mas após sucessivas tentativas de contornar o tema, rendeu-se. A história passa-se a oeste da República da Irlanda, embora a família da rapariga venha da Irlanda do Norte. O retrato que a autora faz dos dois países não é propriamente elogioso.

Em junho chegará a Portugal o seu segundo romance, Os Pequenos Boémios. Desta vez, não lhe faltaram propostas para publicar.

Ao longo dos nove anos em que tentou suscitar o interesse dos editores, quais eram os motivos que eles apresentavam para não publicarem o romance?
Alguns simplesmente não gostavam, outros não compreendiam a linguagem. Havia editores que gostavam do livro, achavam-no novo, aventureiro, mas diziam-me que não sabiam como vendê-lo. E os que quiseram publicá-lo foram travados pelo departamento de marketing, que recusava.

Vários prémios e vendas depois, pode concluir-se que os editores estão a subestimar os leitores?
Sim, absolutamente. É óbvio para mim que há leitores por aí que estão abertos a diferentes tipos de escrita e a trabalhos mais arriscados. Acho que a indústria livreira atravessou um período muito difícil, talvez por ter visto o que aconteceu ao mercado discográfico por causa do aparecimento da Internet, e temer que lhe acontecesse o mesmo. Por isso não quiseram correr riscos, preferindo dar aos leitores o que eles achavam que eles queriam ler: beach novels [normalmente thrillers e romances de amor]. Tudo o que tivesse sucesso era reproduzido e vendido com capas parecidas. Acho isso cínico. Durante muito tempo não tive sorte mas, quando o meu livro foi publicado, fui muito afortunada porque acho que os leitores estavam fartos daquela estratégia. Queriam algo novo. E, quando chegou, as pessoas aderiram em peso.

Acha que há uma década os leitores estavam menos preparados para um livro como o seu e que, só quando isso mudou, foi mais fácil publicar? Ou teve a ver com a editora que decidiu fazer a aposta, já que era nova e tinha acabado de se lançar no mercado?
Talvez estejam ambas corretas. Em meados dos anos 1980, talvez, a experimentação passou a ser carta fora do baralho. A mudança vê-se quando livros como este têm sucesso, ganham prémios e vendem exemplares aos milhares. Aí, as editoras perceberam que os leitores são aquilo que é suposto serem: pessoas interessadas, engajadas. Porque ler é totalmente o oposto de ver televisão, não é uma experiência passiva. A pessoa escolhe um livro, senta-se e depois começa a trabalhá-lo, a lê-lo. Porque é que uma pessoa disposta a fazer isso não quereria retirar desse esforço algo que valha a pena? Foi um erro começar a tratar os leitores como se fossem iguais a quem vê TV. E atenção, eu também vejo. Deem aos leitores a oportunidade de serem o que são! Isto irrita-me, enfurece-me, porque eu também sou leitora. E não sou idiota, não quero ler só beach novels.

Há muitos autores por aí, quiçá muito bons, que se calhar nunca publicaram um livro. Ou desistiram. Ao longo dos nove anos em que tentou que a editassem, alguma vez pensou em desistir?
Eu desisti de tentar que me publicassem, pu-lo na gaveta. Mas não parei de escrever, até comecei o meu segundo romance. Agora que ando pelo mundo e conheço muitos escritores, tenho visto casos semelhantes ao meu, que esperaram 10 anos até verem o seu livro publicado. Que lutaram, que foram maltratados pela indústria. Há muitas editoras que não apoiam os escritores. Se têm um sucesso, ótimo. Se o próximo livro não vende tanto, eles não ficam do lado do seu escritor, como acontecia antes. Se és um editor, deverias estar a construir uma obra no seu todo.

Agora, parece que cada livro é um tudo ou nada, e não é assim que a escrita funciona. Ser escritor não é escrever um livro, é criar um corpo de trabalho durante toda a vida. É progredir. Alguns livros vão ter um impacto grande nos leitores e outros não, mas até isso pode mudar ao longo da vida, porque há livros ignorados durante anos que, mais tarde, ganham enorme importância para o público. Escrever é um jogo longo. E muitos editores começaram a jogar curto.

Ao longo desses anos, e depois de ouvir tantos nãos, mudou alguma coisa na história, ou tornou a linguagem mais acessível?
Não. Eu escrevi o livro em seis meses, em três rascunhos, e não voltei a olhar para ele durante nove anos. Quando finalmente surgiu a hipótese de ser publicado, tive de olhar para ele outra vez porque já não me lembrava da história [risos]. Aí, cortei cerca de oito mil palavras. Não cenas, apenas palavras. Poder publicar tornou aqueles anos, de certa forma, suportáveis. Era muito embaraçoso ter de dizer sempre em festas que não tinha conseguido publicar [risos]. Sempre que me falavam em reescrever, dizia que não, porque sabia que o livro estava bem tal como estava. Mesmo que não fosse publicado, era assim que devia ser. Mudá-lo seria traí-lo.

Isso é admirável. Num momento de insegurança, nem todos se manteriam firmes.
Eu também estava insegura! As pessoas hoje devem pensar que eu me sinto vingada, porque sempre soube que este seria um livro de grande sucesso. Não sabia, de todo. Pensei que seria uma escritora falhada durante toda a minha vida. E é muito difícil viver com esta ideia. Mas se és um artista, fazes o que tens a fazer. Não pode ser outra coisa, pelo que não se trata de escolher, de ser nobre e manter-me firme. É o que é, porque a obra não poderia ser diferente. Se é admirável? Eu não o recomendo [risos]

Não se veem livros escritos assim, como o seu. Pode explicar-me o processo de escrita, o que quis passar ao leitor com ele?
Eu não frequentei a Universidade, nem fiz nenhum curso de escrita criativa. Por isso, não conhecia as regras. Mas andei numa escola de teatro e trabalhei o método de Stanislavski, a que recorriam o Robert De Niro e o Marlon Brando. É o método russo para se criar um personagem e vivê-lo em plenitude. Quando passei para a escrita, isso era o que eu conhecia em termos de criação. E o meu interesse estava sobretudo nos personagens. Então, usei esse método para criar toda a vida íntima da personagem. Não é só o que ela está a pensar, é tudo o que está a acontecer no corpo dela ao mesmo tempo — o que está a sentir, a pensar, as reações, o que diz. Tal como acontece no corpo de um ator. Então, já que não podia usar o corpo, tentei transmitir isso através da linguagem.

Ou seja, é a sua perceção interior de tudo o que pensamos, sentimos e observamos, e tudo acontece ao mesmo tempo.
Bom, claro que é a tradução da forma como eu percebo o mundo. Como poderia ser de outra forma? Não posso escrever a partir de outra perceção que não a minha mas, para mim, a vida não acontece como uma frase linear. Neste momento, eu estou a falar contigo e a pensar no que estou a dizer, a pensar que a minha garganta está um pouco seca e a considerar beber um pouco de água, mas a lembrar-me que não posso beber muita água porque depois vou precisar de ir à casa de banho. Estou a olhar pela janela e a pensar que o tempo está agradável, que tenho saudades da minha filha… Todas estas coisas estão a acontecer neste preciso momento. Os seres humanos conseguem fazer tudo isto ao mesmo tempo, não funciona: “Agora estou a falar. Agora, estou a pensar que vou beber um copo de água. Depois, olho lá para fora para ver se a chuva já parou.” Não, tudo acontece em simultâneo. Foi isso que tentei transmitir através da linguagem e, para que resulte, tenho de mudar a linguagem.

Sendo a sua perceção interior, a escrita saiu-lhe fluída, ou seja, sabia exatamente onde colocar um ponto final e mudar a sensação? Ou parou para pensar em cada palavra, em cada ponto?
No primeiro rascunho eu tentei deitar cá para fora a experiência. Nos outros dois rascunhos, já deixei o olho do escritor entrar, até para ver o que estava bem e o que era preciso editar. O primeiro manuscrito era tudo sobre muita coisa, então fui retirando até ter o necessário para o leitor, para que ele perceba o essencial.

Um dos escritores que também esteve na Madeira, o brasileiro Marcelino Freire, faz exatamente o contrário da Eimear em termos de pontuação. Só usa vírgulas. Ele descreve a sua escrita como uma forma de reza cantada.
É engraçado. Eu praticamente não usei vírgulas no meu livro. O ponto final foi a minha forma de demonstrar que está a acontecer algo de diferente. Que isto não é a história habitual, contada de forma tradicional. E só por mudar a pontuação já se consegue uma indicação forte disso mesmo. Colocas um ponto final no sítio errado e o leitor sabe imediatamente que se está a passar uma coisa diferente no texto.

Marcelino Freire, ossos de um escritor marginal

Não pinta um retrato muito bonito da Irlanda. Como é que o livro foi recebido lá?
Não é lisonjeiro [risos]. Quando o livro saiu, eu fiquei bastante preocupada sobre se as pessoas iam ficar ofendidas, por causa da questão dos abusos sexuais e da influência da Igreja na sociedade. Mas como o livro se passa nos anos 1980, essa é uma Irlanda que já não existe. As coisas mudaram e o livro é apenas testemunha de algo que aconteceu no passado.

Não encontrei nenhuma referência ao ano em que a história se passa. Nem nomes, tirando os dos apóstolos e afins. No início e no fim do livro, sublinha que a personagem tem um nome, e que ter um nome é importante. Mas nunca chega a dizê-lo.
Não há detalhes, tal como não há nomes nem locais. Porque eu queria aproximar o leitor à personagem. Se eu dissesse que ela se chamava Mary e que a história se passava em 1988, o leitor estaria consciente de que não era ele, que este é o ano 2017 e que vive em Portugal e não na Irlanda. Isso cria uma distância entre o leitor e o personagem, e o que eu quis foi aproximá-los. Mas para a rapariga é importante ter um nome, porque tem a ver com o seu estado de inacabada, com o facto de a sua identidade poder ficar completa quando ela puder dizer o seu nome. Mas ela nunca o diz, porque nunca chega a completar-se.

Notou se o livro foi mais lido por mulheres do que por homens?
Bom, acho que há mais leitoras do que leitores no geral. Nos festivais literários, 75% da audiência costuma ser de mulheres.

Mas os painéis costumam ser constituídos maioritariamente por escritores homens.
Pois, os autores mais celebrados são homens [risos]. E ninguém lhes pergunta coisas como: “Que tal é ser escritora e mãe?”. Esse tipo de coisas. Já me perguntaram isto e é muito cansativo. Mas o livro teve muitos homens a apoiá-lo. E muitos das críticas literárias que saíram estavam assinadas por homens. Acho que tem a ver com o facto de o livro estar ligado ao modernismo, por reafirmar o modernismo. Acidentalmente, acho que me deixaram entrar no seu clube privado de rapazes, porque o modernismo é muito visto como um fenómeno masculino. Mulheres só tivemos a Virginia Woolf, de resto todos os escritores mais importantes eram homens.

Muitas das críticas escritas pelos homens não queriam falar do conteúdo da história, mas sim do estilo e da forma. Já quando eram mulheres a entrevistar-me, elas queriam falar muito mais sobre do que falava a história. Para mim, ambos são importantes. Mas foi interessante ver quem perguntava sobre o quê.

O sorriso de Eimear pelo prémio Baileys Women’s Prize for Fiction. A espera compensou. © Stuart C. Wilson/Getty Images

O segundo romance, Os Pequenos Boémios, já saiu no Reino Unido e sai agora em junho, em Portugal. O estilo de escrita mantém-se?
Começa no mesmo estilo e evolui ao longo da história, porque a personagem muda. Desta vez, à medida que ela avança, ela forma-se. Não quero fazer spoilers, mas… [risos]

Está de alguma forma relacionado com o primeiro?
Há algumas parecenças. A rapariga do novo livro sonha com a rapariga deste. Era importe para mim não fazer de conta que aquelas parecenças não estavam ali. Mas esta nova história passa-se em Londres, em 1994, e a cidade é muito importante para a história, é quase como uma personagem extra.

A Eimear não estava a viver em Londres em 1994?
Estava sim! É absolutamente baseado nas minhas memórias, tomei essa decisão desde o início. Então, não fiz pesquisas, usei as memórias que tenho. Se elas estão corretas ou não, isso não sei. Mas a história passa-se nesse mundo.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: socoelho@observador.pt

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site