A Parkinson e o Opus Dei na vida de Paulo Teixeira Pinto

07 Novembro 2017956

Paulo Teixeira Pinto tem uma vida de conquistas e também de ruturas, como a morte do filho e o divórcio, a doença de Parkinson ou a saída do Opus Dei. Memórias que relata em biografia. Pré-publicação

Jurista, político, banqueiro, empreendedor, artista. A vida de Paulo Teixeira Pinto passou por várias áreas e experiências, desde a participação num governo de Cavaco Silva até à liderança do então maior banco privado português. Um lado público que foi sempre mediático — reforçado pelo casamento com Paula Teixeira da Cruz, também ela advogada e ex-ministra da Justiça, com fortes ligações à política –, mas também por algumas situações mais invulgares: era conhecida a sua participação no grupo religioso Opus Dei, como também nunca escondeu a sua simpatia pela causa monárquica. Ainda assim, foi sempre um homem discreto e cioso da sua privacidade e da sua família.

Pedaços de vida que juntou agora, aos 57 anos, na biografia De que cor é o medo, escrito pela jornalista Sílvia de Oliveira, com prefácio do cantor Pedro Abrunhosa e que a Bertrand Editora lança esta semana. A apresentação será feita esta quarta-feira, 8 de novembro, pelo advogado e comentador Luís Marques Mendes, na livraria Ferin, em Lisboa, e conta com a presença do próprio Paulo Teixeira Pinto (que assina o posfácio da sua biografia).

Ao longo de 12 capítulos, o livro detalha o seu percurso pessoal e profissional até chegar à liderança do Banco Comercial Português (BCP), em 2005 — só esta etapa ocupa três desses capítulos. É também a partir daí que enfrenta alguns dos maiores turbilhões da sua vida. Primeiro, as mediáticas guerras de poder no BCP, que o levaram a chocar de frente com o anterior presidente executivo, Jorge Jardim Gonçalves. Acabou por deixar o banco, afastado pelo grupo acionista afeto ao fundador, já lá vão dez anos.

Mas foram acontecimentos pessoais que acabaram por ditar uma viragem quase radical na sua vida. Primeiro, a descoberta da doença de Parkinson, depois o choque com a morte de Guilherme, o filho mais novo (que tratava por Guga), e ainda o fim de quase 25 anos de casamento e a saída da Obra. Às ruturas, seguiram-se novas etapas: a criação do grupo editorial Babel, depois de um atelier e museu, a dedicação à poesia e à pintura, a descoberta de um novo amor, a mudança para o Algarve e outros projetos.

De que cor é o medo dedica capítulos separados a dois desses momentos: a descoberta da Parkinson, e como passou a viver com a doença, e a crise de fé que acabou por conduzir à sua saída do Opus Dei, ao fim de 20 anos dedicados à Obra. São excertos desses dois capítulos que pode ler nesta pré-publicação.

“De que cor é o medo”, a biografia de Paulo Teixeira Pinto escrita pela jornalista Sílvia de Oliveira e editada pela Bertrand Editora, é apresentada esta quarta-feira, 8 de novembro, na livraria Ferin, em Lisboa. A apresentação será feita por Luís Marques Mendes

Capítulo VIII

Parkinson

Joaquim Ferreira suspeitou de que Paulo tinha Parkinson antes de o conhecer pessoalmente, antes de o seu professor, João Lobo Antunes, o chamar e lhe pedir para intervir; antes mesmo de o próprio Paulo ter sido confrontado com o diagnóstico, no exame de rotina a que eram submetidos os altos quadros do BCP, na clínica da Universidade de Navarra, em Espanha.

No final de setembro de 2005, Paulo, então já presidente do banco, foi entrevistado pela jornalista Maria João Avillez e este médico, que via a SIC Notícias, detetou sinais da doença — não foram os comuns tremores nas mãos, que levam as pessoas ao médico. No dia seguinte, Joaquim e os colegas comentaram a expressão rígida e o ar triste de Paulo, no Hospital de Santa Maria. Não havia qualquer precisão na sua avaliação, mas para um neurologista que tem como área de eleição, do ponto de vista clínico e científico, a doença de Parkinson, é habitual acertar.

Meses mais tarde, Joaquim e Paulo vieram a ser apresentados por João Lobo Antunes. Infelizmente, o palpite, feito a partir de um ecrã de televisão, estava certo. Paulo pediu ajuda ao amigo João Lobo Antunes, que mais tarde viria a ser o presidente do conselho editorial da Babel. Não são muitas as pessoas por quem tem admiração intelectual e o neurocirurgião era uma delas. Queria o melhor médico para o acompanhar. Este recebe-o no seu gabinete no Hospital de Santa Maria. «Por palavras e pela expressão facial, percebi que o professor João Lobo Antunes me estava a pedir para eu intervir, para dar o meu melhor. Este tipo de pedidos é irrecusável, além de ser a nossa obrigação. E mais, era um sinal de confiança», conta Joaquim Ferreira, à época com menos de 40 anos. Nessa breve reunião, aquele que passou a ser o médico de Paulo ficou surpreendido com a cordialidade e simplicidade no trato de alguém tão seráfico.

A primeira consulta ficou marcada para pouco tempo depois e a pergunta mais difícil foi feita: quais as implicações cognitivas da doença de Parkinson? Ou seja, Paulo queria saber se a sua capacidade de julgamento seria afetada. Tinha, afinal, assumido há menos de um ano a responsabilidade de gerir o maior banco privado português. Uma carga exigente, mais ainda porque se tratava de substituir Jardim Gonçalves, um ator principal na revolução vivida no sector financeiro nacional, o mesmo que, após vinte anos de reinado, disse não se arrepender de nada, nem mesmo de ter nascido. A sua vontade de fazer, nunca pela metade, e de vencer não concebia limitações, muito menos intelectuais.

As chegadas de Paulo ao consultório de Joaquim Ferreira passaram a ser controladas, a sala de espera estava vazia à hora das suas consultas, mas nem assim foi possível evitar alguns telefonemas de jornalistas a tentar obter informação sobre o estado de saúde do presidente do BCP.

No consultório que Joaquim Ferreira partilhava com outro mestre da neurologia, Alexandre Castro Caldas, em Lisboa, as funcionárias já estavam instruídas para a necessidade de discrição máxima. Só a família mais próxima e os médicos sabiam que Paulo tinha Parkinson e assim deveria continuar, também porque o BCP estava cotado em bolsa e não podiam pairar dúvidas ou receios sobre a liderança da instituição.

Além dos aspetos técnicos da doença e de garantir que teria acesso às melhores práticas médicas, havia ainda que acautelar, logo desde a primeira consulta, outros fatores resultantes do facto de Paulo ser uma figura pública. As chegadas de Paulo ao consultório de Joaquim Ferreira passaram a ser controladas, a sala de espera estava vazia à hora das suas consultas, mas nem assim foi possível evitar alguns telefonemas de jornalistas a tentar obter informação sobre o estado de saúde do presidente do BCP. (…)

Na primeira consulta com Joaquim Ferreira, Paulo estava tranquilo, sem mágoa, como se já tivesse arrumado, de forma pragmática, algo com um nome tão assustador. Joaquim Ferreira recorda uma surpreendente aceitação de uma doença progressiva e tratável, mas para a qual não existe ainda uma cura. (…) Um comportamento que não foi muito diferente do que tivera, meses antes, em Navarra, quando foi confrontado, pela primeira vez, com a realidade. Até aqui, Paulo tinha sentido algumas dificuldades em escrever à mão e limitações nos movimentos dos braços. A sua assinatura, cada vez mais pequena, teve de ser atualizada, várias vezes, nos ficheiros notariais, porque não coincidia com os registos — a precisão na execução dos movimentos vai diminuindo —, mas pensou tratar-se, apenas, de cansaço e stresse, quando muito de uma tendinite.

O duro diagnóstico apresentado pelos médicos da clínica espanhola apanhou-o desprevenido, mas não lhe tirou a lucidez. «Negar a realidade é cometer um erro, insistir nessa negação é repetir o erro», diz Paulo. A sua única preocupação foi, imediatamente, a de saber se a doença o iria afetar em termos intelectuais. Na sua opinião, a perda de capacidades físicas é, enquanto existir autonomia, tolerável. «Se me dissessem que sim, teria tomado uma atitude mais radical, porque não poderia manter-me naquelas funções [presidência do BCP]», acrescenta. Como a resposta foi negativa, o seu calendário passou a ser outro.

Paula Teixeira da Cruz e Paulo Teixeira Pinto estiveram juntos durante quase 25 anos até se divorciarem, em outubro de 2008

Paulo, que tinha viajado com o médico do BCP e a então mulher, Paula Teixeira da Cruz, voltou a Lisboa e ainda foi trabalhar nessa tarde. Sem noção do que aí vinha, parte para a fase final por que passam as pessoas com Parkinson, a da aceitação. Muitos pensam que o problema está no mensageiro e, por isso, vão mudando de médico até terem uma boa notícia. Não foi o seu caso. Além de João Lobo Antunes, ouviu apenas outro amigo, Luís Costa, que também era médico em Santa Maria e veio a estar com o seu filho, no fim.

Era com Parkinson que tinha de viver e decide, por isso, retomar a sua vida normal, sem aparentes mudanças, a não ser a sensação comum a todos os que vivem com uma doença incurável: «É um pouco como os gauleses dizem na banda desenhada. O céu vai acabar por nos cair em cima “mas amanhã não será a véspera desse dia”», explica. Acima de tudo, para Paulo, «não se desce da cruz», aguenta-se.

À época, Paulo ainda rezava e a primeira imagem que lhe veio à cabeça foi a de João Paulo II, que também teve Parkinson. O Papa, que nunca desistiu de fazer o sinal da cruz, mesmo quando os tremores lhe dificultavam a vida, era para si um exemplo de força e dignidade.

O pudor e a contenção, que lhe são próprios, vêm mais uma vez ao de cima e também em casa o assunto foi engavetado. Os filhos só ficaram a saber umas semanas mais tarde e mesmo Paula, sempre mais extrovertida, só puxava o assunto quando os efeitos secundários da medicação se faziam sentir. Na fase inicial, Paulo foi submetido a violentas doses de dopaminérgicos e a tratamentos experimentais. Havia que conter quanto antes os sintomas da doença e atrasar a perceção da mesma. Um banqueiro não se pode dar ao luxo de assumir vulnerabilidades. Com o corpo cheio de adesivos, sente as primeiras tonturas e vómitos, sono repentino e perdas súbitas de consciência. Transtornos que só foram eliminados, mais tarde, com a afinação da dosagem dos medicamentos e que acabaram por ser substituídos por outros, provocados pela própria doença, como a perda do olfato. Deixou de sentir o cheiro do jasmim e das damas-da-noite no jardim da sua casa, em Santa Catarina da Fonte do Bispo, no concelho algarvio de Tavira.

Com o corpo cheio de adesivos, sente as primeiras tonturas e vómitos, sono repentino e perdas súbitas de consciência. Transtornos que só foram eliminados, mais tarde, com a afinação da dosagem dos medicamentos e que acabaram por ser substituídos por outros, provocados pela própria doença, como a perda do olfato.

Paulo decidiu continuar como presidente do BCP, logo que o médico lhe deu uma resposta tranquilizadora à sua difícil pergunta. Joaquim Ferreira confirmou, logo na primeira consulta, que, dadas as características da doença de Parkinson que ele tinha, não antecipava qualquer alteração cognitiva relevante que implicasse limitações na capacidade de tomar decisões. E deu-lhe um horizonte de 10 anos de autonomia absoluta. Esse tempo já passou, mas o prognóstico é positivo, considerando a evolução da doença nos anos mais recentes. «Do ponto de vista médico, as coisas têm corrido bem», garante Joaquim Ferreira. Mesmo os problemas de saúde que tem tido não estão relacionados, na sua maioria, com a doença de Parkinson. A doença está equilibrada e tem sido relativamente fácil de controlar. (…)

Os dramas que viveu, concentrados em pouco tempo e logo após o diagnóstico, em Navarra, são momentos marcantes da vida e, como tal, interferem na forma como a doença se manifesta. Mas também neste caso Paulo manteve a sua reserva natural e não abordou com o médico nenhuma das ruturas que sofreu. No caso de Paulo, como houve uma coincidência temporal dos problemas, foi difícil isolá-los e retirar conclusões, do ponto de vista clínico. «Não precisava de saber mais nada, apenas que aquela pessoa que estava à minha frente tinha um fator de sofrimento adicional. A única coisa de que me apercebi foi da morte do filho. De todas as outras, não me apercebi de nada que fosse óbvio», conclui Joaquim Ferreira.

Paulo confia no seu médico, mas não entrega a vida nas mãos de Joaquim Ferreira. Faz todas as perguntas, mas não delega decisões, o que existe é uma relação de confiança e de partilha.

Discutiram já opções terapêuticas mais invasivas, como a cirurgia cerebral para aplicação de um chip, que beneficia, sobretudo, doentes com grandes flutuações ao longo do dia, de fases muito bloqueadas a uma agilidade frenética e incomodativa, como é o caso de Michael J. Fox. A reação de Paulo não é, para já, entusiástica, mas a hipótese pode ser encarada à medida da evolução da doença. Neste momento, segundo o neurocirurgião, a grande vantagem é um conhecimento seguro da mesma, o que deixa antever que, nos próximos anos, esta se mantenha com as mesmas características. (…)

Para Joaquim Ferreira, «se o ritmo de progressão se mantiver lento, diria que o Paulo poderá manter um nível de autonomia parecido durante vários anos». Não se nota em Paulo nenhum medo de morrer, o que desarma quem o trata, pela tranquilidade com que fala do fim. O médico não tem qualquer dúvida em afirmar que se trata de alguém estoico, não só em relação à dor, mas em relação à vida.

«Ele é alguém diferente da média, sim», confirma o médico Joaquim Ferreira. Desde logo, porque não transmite tanta fragilidade. A firmeza manteve-se mesmo nos momentos mais dramáticos. Uma das consultas ocorreu cerca de uma semana depois da morte do filho, Guga, no final de 2008, mas Paulo não faltou ao compromisso.

Joaquim Ferreira ficou surpreendido, aquela não seria, seguramente, uma das suas prioridades naquele momento. Embaraçado e sem saber o que dizer, o médico foi, nesta circunstância, salvo pelo doente: «Aquilo que de pior pode acontecer a alguém, que é perder um filho, já me aconteceu. Só me resta continuar», disse-lhe Paulo. Até hoje, foram as únicas palavras que os dois trocaram sobre o assunto.

«Não precisava de saber mais nada, apenas que aquela pessoa que estava à minha frente tinha um fator de sofrimento adicional. A única coisa de que me apercebi foi da morte do filho», conclui o médico Joaquim Ferreira.

Capítulo IX

Opus Dei

Quando as suas angústias espirituais começaram e pensou, pela primeira vez, em deixar o Opus Dei, já estava doente, mas ainda não sabia. Hoje, admite a possibilidade de ter sido o seu coração, ou antes, o seu cérebro, já em défice de dopamina, a prepará-lo para uma revolução de vida, a de passar a viver sem Deus, no qual acreditara, devotamente, desde que se conhece.

Paulo admite que a mudança de perceção da fé e da existência de Deus possa, afinal, ter resultado já de um processo químico no cérebro imposto pela doença de Parkinson. Assim como os neurologistas conseguem identificar a área do prazer, ou a da dor, também a propensão para o metafísico pode estar na mesma caixa de comandos. E, nesse caso, a explicação para a improvável crise de fé seria bem mais apaziguadora.

Mas a resposta é, afinal, mais complexa. A doença de Parkinson pode resultar em alterações comportamentais e traços de personalidade particulares, sim, diz o seu neurocirurgião, mas, geralmente, só em fases mais avançadas; e os medicamentos podem precipitá-las. No entanto, na fase pré-clínica, antes de os sintomas serem visíveis — a crise de Paulo começou quando ele ainda não sabia, sequer, que estava doente — essa probabilidade é muito menor. «Claramente, numa fase inicial, acho altamente improvável que a crise de fé tenha sido provocada por algo relacionado com a doença», frisa Joaquim Ferreira. Obviamente, há coisas indeléveis, que não se conseguem medir.

Quer tenha sido já uma reação química, uma consequência de factos marcantes da vida ou mera coincidência, este católico, que já em pequeno ia à missa todos os domingos, deixa de ver as coisas tão claras e fica, subitamente, sem escolha. Não admitia «ter um menu do tipo acredito nisto, não acredito naquilo», como na história que lhe foi contada, uma vez, por um sacerdote: «Um católico não praticante seria como um ciclista não pedalante e não há ciclistas que não pedalam».

A sua separação do Opus Dei começou em 2004, ainda sem saber que estava doente, e antes de conhecer a mulher que o levou ao divórcio de Paula Teixeira da Cruz, e só foi formalizada no dia 19 de março de 2006, após o diagnóstico de Parkinson, mas muito antes da maior tragédia da sua vida, a morte de Guga.

Vinte anos de Opus Dei depois, com 45 anos e já presidente do banco, Paulo escolhia uma realidade incomparavelmente mais difícil, a de iniciar um percurso sem Deus e passar a viver sem fé, ou pelo menos deixar de a ter «na sua integralidade», com a tranquilidade de que esta «é uma certeza». Ainda hoje, pensa que a fé não é um mérito, nem a sua falta é defeito ou culpa de alguém. É um dom.

E viver assim, de outra forma, era mais do que deixar de ir à missa, diariamente, e largar uma série de obrigações religiosas, era também cortar relações com a misteriosa e poderosa Ordem, uma espécie de família, na qual tinha sido admitido aos 25 anos e da qual poucos se atrevem a sair.

Se pudesse escolher, preferia não ter tido essa quebra de fé, mas, como em quase tudo na sua vida, não há espaço para o meio-termo, não há «relativamentes». Decide dizer a verdade e correr os riscos da insubmissão.

Não se tratou de um ato sem precedentes. No início dos anos noventa, teve um primeiro abalo, mais uma vez a perceção das coisas tornou-se difusa. Não questionou a existência de Deus, como agora, mas custava-lhe entender se todas as peças da engrenagem subjacente à ideia de fé faziam sentido na sua leitura. A sensação era a de ter visto e ter deixado de ver, uma experiência de perda. Um pouco como agora. Mas entre as duas crises houve uma diferença substancial. Na primeira, sentia angústia, que acabou por passar, agora era quase que um efeito anestésico em relação à privação, como se a perceção de não estar onde devia lhe causasse, apenas, indiferença.

Também não se tratou de um ato administrativo, tomado de um dia para o outro e, talvez por isso — porque durante um ano e meio tentou, «de coração aberto», ainda que sem êxito, sossegar, no seio da Prelatura, as interrogações que o atingiam — tenha conseguido sair da Obra sem zangas e inimizades. Paulo garante não ter sido pressionado a ficar, mas sim aconselhado a não desistir, a continuar a lutar, atos que fazem parte do trabalho da direção espiritual. Esta era conduzida por um sacerdote e um membro da direção do Centro de Montes Claros, que frequentava habitualmente, localizado junto à Católica, em Lisboa. O processo passava por encontros semanais, que podiam durar 15 minutos ou uma hora. No seu caso, não eram longos. Este tipo de interferências não faz parte do feitio de Paulo, que diz que se fossem sobre outro tema que não a fé, jamais teria consentido tais conversas.

O fundador do BCP, Jardim Gonçalves, também fazia parte do Opus Dei, mas o contacto com Teixeira Pinto em iniciativas da Obra era raro. Já no banco os dois entraram em choque numa guerra de poder que acabou por afastá-los

Enquanto esteve na Obra, foi membro de corpo inteiro. Andava sempre com um crucifixo, que guardava no bolso ou pousava em cima da mesa de trabalho. Uma espécie de alerta para o lembrar de Quem estava próximo. E todos os dias, ao meio dia, rezava o Angelus, uma oração dedicada a Nossa Senhora. Só se estivesse a falar em público é que não tirava meio minuto para a rezar. Já estava no BCP quando passou o seu aniversário — 10 de outubro — a caminhar sob chuva, até Fátima, para lá estar no dia das aparições. E, em 2000, parte, pela primeira e última vez, em peregrinação à Terra Santa, para celebrar o ano do Jubileu. A viagem, em vez de o ajudar no processo do reforço da fé, acaba por ter um impacto negativo. Custou-lhe a realidade concreta e absurda das pessoas, naqueles sítios sagrados, doeu-lhe chegar a Belém, Nazaré, ou Jerusalém e ver uma dureza e agressividade impensáveis. «Quase não é uma presença cristã, aquilo é quase tudo palestiniano. O berço da cristandade é, basicamente, feito de templos e pessoas que não partilham o cristianismo», conta.

Vem desiludido, apesar dos momentos tocantes e intensos que o emocionaram, a si e às outras mais de cem pessoas que iam nesta peregrinação. Não com a fé, mas com a realidade. «Trouxe uma proximidade e uma certificação daquilo em que acreditava, mas, ao mesmo tempo, um choque por ver como estão maltratados e desvalorizados os lugares-chave e santos da história do cristianismo», relembra.

Enquanto esteve na Obra, foi membro de corpo inteiro. Andava sempre com um crucifixo, que guardava no bolso ou pousava em cima da mesa de trabalho. Uma espécie de alerta para o lembrar de Quem estava próximo. E todos os dias, ao meio dia, rezava o Angelus, uma oração dedicada a Nossa Senhora. Só se estivesse a falar em público é que não tirava meio minuto para a rezar.

Nesse mesmo ano, em 2000, escreve um livro, intitulado Querer Crer, como se adivinhasse o que o esperava poucos anos mais tarde. Paulo admite que as pessoas se habituem, deixem de se questionar e percam a audácia de serem consequentes.

Quando entrou para o Opus Dei tudo era claro para si, a Obra era uma forma de otimizar a vida com fé. As missas e os sermões na igreja, diferentes do que queria ouvir, faziam-no sentir, várias vezes, que estava a perder tempo. Precisava de mais. No Opus Dei, gostava de tudo, do ambiente, da forma como era feita a meditação, da densidade intelectual e espiritual — os sacerdotes da Obra são todos doutorados e muito preparados, do ponto de vista intelectual —, até à carga emocional dos cantos litúrgicos. Tudo lhe parecia bonito, mesmo em termos sensitivos, com uma dimensão quase encantatória. «Lembro-me de ver toda a gente a cantar em latim. Depois, com os anos, também aprendi», lembra Paulo.

Também se deslumbrou com os retiros, onde se cruzou um par de vezes com Jardim Gonçalves, com os momentos de silêncio e, sobretudo, com o compromisso, demasiado alto, que lhe era pedido. Chegou a recear não conseguir corresponder à vocação de santidade, mas acabou por ser atraído pela ideia do apostolado através do trabalho, pela tentativa de se cristianizar e evangelizar, não com megafone aos gritos, mas com o resultado da sua profissão.

«Deus quer pessoas que o amem, não quer atadinhos», defende o amigo de infância Manuel Guerra Pinheiro. Na opinião do advogado, que o levou a conhecer o Opus Dei, as almas místicas, mais sensíveis ao sobrenatural, como a de Paulo — e a de Guga —, são mais suscetíveis a crises de fé. Por isso, não se pode, nem deve, julgar ninguém, até porque, nesta situação, recuperar a tranquilidade é das coisas mais difíceis.

Para Paulo, existem sobre o Opus Dei muitos mitos infundados. Aliás, sempre achou um absurdo a suposta vertente do secretismo do Opus Dei. Repudia a ideia, que garante ser falsa, de os membros da Ordem estarem envolvidos numa cumplicidade suspeita. «Nunca dei explicações na Obra sobre como decidia enquanto secretário de Estado, professor ou presidente do BCP. Como não falava de temas profissionais, não iria admitir que alguém me fizesse isso», garante.

Quando exerceu funções públicas, no Governo de Cavaco Silva, fez questão de assumir que era do Opus Dei. Não porque estivesse obrigado a tal, mas para evitar juízos precipitados. À pergunta, feita pelo jornalista do Expresso, nuns termos de «fala-se que é próximo…», Paulo respondeu com a mesma tranquilidade com que assume que é monárquico: «Não sou próximo, sou do Opus Dei.» Paulo sai sem problemas. «Dizia-se que não se conseguia sair, só com escândalo. Eu não tenho a noção de ter perdido amigos», garante. (…)

A influência que a Ordem exerceu na sua vida adulta e no seu crescimento, enquanto homem, foi enorme. As exigências do exame diário, que implicava, em doses sucessivas, missa, oração, meditação, terço, exame de consciência (este ao fim do dia) resultaram em fases muito duras, sobretudo, a partir do momento em que as suas funções no BCP se complicaram. Mas as virtudes e a generosidade dão trabalho, segundo acredita, e o Opus Dei ajudou-o a tornar-se melhor pessoa. Paulo cita a frase do Evangelho «Quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que fez a direita», para dizer que abomina a propaganda do bem, mas aceita contar um episódio que lhe aconteceu quando ainda era presidente do BCP. Muita gente lhe pedia coisas, das mais exorbitantes, como emprego e subsídios, às mais simples, como pequenas ajudas financeiras. Não se lembra do nome da pessoa, do presidiário que lhe escreveu a pedir que o banco lhe pagasse as propinas da universidade. Nunca chegou a saber porque estava preso, mas mandou-lhe o dinheiro, a título pessoal. «Ainda hoje, ele está convencido que foi o BCP a pagar-lhe os estudos, mas eu não ia levar isso ao relatório de contas do banco», explica Paulo.

No Governo de Cavaco Silva, fez questão de assumir que era do Opus Dei. Não porque estivesse obrigado a tal, mas para evitar juízos precipitados. À pergunta, feita pelo jornalista do Expresso, nuns termos de «fala-se que é próximo…», Paulo respondeu com a mesma tranquilidade com que assume que é monárquico: «Não sou próximo, sou do Opus Dei.» 

A sua crise de fé foi sendo partilhada, dentro da Ordem, desde logo, através da confissão, que no Opus Dei ocorre com uma frequência semanal, e por quem o acompanhava, espiritualmente, mas também com quem esteve com ele desde o começo, como o seu amigo Gonçalo Portocarrero de Almada, que o entusiasmou, aos 25 anos, a pedir a admissão à Ordem.

Foi este sacerdote quem batizou os seus netos [os três filhos de Catarina], que acompanhou o seu filho Guga, quando este morreu, e já o tinha batizado. Pessoa mais próxima de Paulo era impossível, e, apesar de tudo, a amizade de décadas manteve-se. «Não é comum sair do Opus Dei ao fim de vinte anos, mas não é caso único. Mantemo-nos amigos e rezo para que isto se ultrapasse, seja uma má temporada e que, em breve, ele se possa reencontrar na sua fé», garante o padre.

Paulo ainda tentou mantê-la, porque não queria ser precipitado, nem ser vítima de alguma circunstância ocasional. Hoje, está seguro de que não houve um interruptor para a saída, de que esta não foi motivada por nenhum facto marcante da vida que lhe tivesse causado revolta, ou descrença. «Não se põe termo a uma coisa de décadas de um momento para o outro. Aconteceu qualquer coisa?», questiona-se o padre Gonçalo.

Acontecimentos dramáticos foram algo que não lhe faltou durante a fase em que questionou a sua vida cristã. Além do diagnóstico da doença de Parkinson, de supetão, em 2005, num exame de rotina a que eram submetidos os altos cargos do BCP, em 2006 Paulo conhece Mónica. Mesmo depois de ter deixado o Opus Dei, os momentos de rutura sucedem-se a uma velocidade impiedosa. Em 2008, com poucos meses de intervalo, dá-se o divórcio de Paula Teixeira da Cruz, com quem tinha estado casado mais de 24 anos, e o pior deles todos, a morte súbita do seu filho, então com 22 anos. (…)

A sua separação da Opus Dei começou em 2004, ainda sem saber que estava doente, e antes de conhecer a mulher que o levou ao divórcio de Paula Teixeira da Cruz, e só foi formalizada no dia 19 de março de 2006, após o diagnóstico de Parkinson, mas muito antes da maior tragédia da sua vida, a morte de Guga.

Todos os anos, no Dia de São José, os membros da Ordem são chamados a dizer se querem continuar. Paulo podia, simplesmente, ter chegado a esse dia e ter ficado calado. A sua saída seria automática. O silêncio corresponde à saída tácita. Podia ter optado por não dizer nada, mas preferiu fazer tudo às claras. Até porque, nesse dia de março de 2006, o que disse já não era surpresa para os que o acompanhavam. Não houve um corte radical, não foi uma decisão inesperada para quem o conhecia. Já em março de 2004, e novamente em 2005, admitira que não estava certo de que fosse capaz de pedir a renovação. (…)

Só a partir de 19 de março de 2006, os rituais começaram a desaparecer. Acabaram as idas diárias à missa. Enquanto presidente do BCP, aproveitava muitas vezes a cerimónia das 13h40, celebrada numa pequena capela situada na Rua da Conceição, perto da sede do banco, na Baixa de Lisboa. E foram acabando aos poucos também outros hábitos de uma vida, como o rezar o terço, os momentos de oração da manhã e da tarde, a leitura do Evangelho, ou os exames de consciência, todos eles realizados todos, mas todos os dias.

Mas a saída da Opus Dei, em março de 2006, e o fim das inúmeras obrigações de um supranumerário não lhe trouxeram o alívio que muitos podiam julgar. Não se sentiu livre sem as obrigações religiosas, porque nunca as entendeu como um peso, mas como uma forma de devoção. «O fundador do Opus Dei [Josemaría Escrivá de Balaguer] dizia uma coisa com alguma piada. Havia o cumprimento das ordens e o “cumpro e minto” das ordens. O cumprir sem vontade nunca existiu para mim», conta Paulo. Por isso, não sentiu como se um peso lhe saísse de cima. Continuou a viver sabendo que estava a trabalhar para melhorar e garante nunca ter carregado remorsos nem mágoas às costas.

E acabaram as penitências, que também as fez. Mas nada de cilício. «Respeito quem o queira fazer, não estou a censurar, mas acho que não contribui nada. Não o fiz por ter medo, foi por não achar necessário, porque o amor a Deus não precisa disso», defende.

De resto, diz existirem muitas tolices e imbecilidades sobre o Opus Dei. A mortificação mais pesada que fez, porque quis, foi, uma vez, passar a Quaresma inteira sem uma gota de álcool e sem fumar uma cigarrilha, a sua «sobremesa». Foi doloroso, porque admite, sem vergonha, que prefere ficar sem comer do que ser privado deste seu vício. Mas, afinal, as virtudes dão trabalho.

Claro que nem tudo era perfeito — nem para Paulo que foi, enquanto lá esteve, um supranumerário de coração e por convicção. Nunca obedeceu ao conselho de não perder tempo a ler certos livros, por exemplo, as obras do Nobel da Literatura, José Saramago. O Opus Dei tem um índex de livros a evitar, porque são considerados provocadores e inimigos da fé. «Não me passava pela cabeça que alguém me dissesse o que podia ou não ler», exclama. Leu-os todos, incluindo o Evangelho Segundo Jesus Cristo.

Outra coisa que ainda hoje o incomoda na Obra é a separação que existe entre homens e mulheres. Nos colégios, nos retiros e até nas simples meditações. Esta desconfiança plena de que os homens e as mulheres não podem ter proximidade a não ser para constituir família é também, na sua opinião, um absurdo. O plano de vida da Opus Dei, que sempre tentara cumprir com convicção e devoção, deixava de ser agora, o plano da sua vida. (…)

Nenhum dos filhos se juntou ao Opus Dei, apesar de terem andado em colégios da Obra. Guga estava mais próximo de outro movimento religioso, o CL — Comunhão e Libertação. A filha sublinha, aliás, que a religião nunca foi um peso em casa e que raramente se falava ou sentia a presença do Opus Dei nos momentos em família. As convicções religiosas de Paulo nunca a incomodaram, nem o pai condicionou as suas escolhas, quando chegou a hora certa de as fazer. (…)

E agora, depois do católico do Opus Dei, o que será Paulo Teixeira Pinto? Alguns já contam que se tornou maçon. Uma ideia que o leva à gargalhada. Contida, como sempre. Uma risada por onde se consegue vislumbrar o seu proeminente ego. «Eu?! Essa é, de facto, espetacular, porque se dizem as coisas mais absurdas. Essa, de facto, nunca tinha ouvido», ri-se.

Mas a verdade é que o rumor pode ter sido, afinal, instigado pelo próprio, porque é o próprio que admite ter sido «provocador em excesso». O professor José Adelino Maltez, que foi seu colega na Faculdade de Direito de Lisboa e que pertence à maçonaria, publicou, há dois anos, um livro, uma espécie de obra master sobre a maçonaria e a história da maçonaria em Portugal. Surpreendentemente e para criar alguma provocação, convidou Paulo para apresentar o livro. E Paulo, ainda mais surpreendentemente, disse que sim. «Por isso, se calhar alguém achou… Portanto, eu não fazia mais nada, saía do Opus Dei para ir para a Maçonaria. Um delírio…», brinca.

Equívoco desfeito, o que é agora Paulo Teixeira Pinto? «Não sou um católico. Se calhar a melhor definição para a situação em que me encontro é a de errante», afirma. Diz estar numa situação parecida à de Pascal: «Eu não tenho a certeza se existe Deus ou não, mas vivo como se Ele existisse.» (…)

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