Doug Lansky, especialista em turismo, dá conselhos a Lisboa: “Mantenham-se esquisitos”

15 Junho 20179.313

Doug Lansky passou 10 anos "sólidos" a viajar. Escreveu milhares de artigos e dez livros sobre turismo, um setor que diz querer "salvar de si próprio". Num passeio por Lisboa deixou vários conselhos.

Cada vez que vira uma esquina e o sol reaparece, pára a conversa, fecha os olhos e gira nos próprios pés na direção da fonte de luz. Interrompe o raciocínio para voltar a pegar no fio como se nunca tivesse deixado escapar a meada. Não estava em Portugal há mais de 10 anos, e, quando esteve, foi só numa passagem rápida em trânsito para outras paragens. Este mês já veio duas vezes, à Conferência de Turismo Sustentável GPA 2017, e à conferência Zoom Smart Cities, onde foi um dos oradores principais. As suas infinitas viagens — já esteve em mais de 150 países — conferem-lhe um ar de autoridade que acabou por aceitar, a custo.

“Em miúdo odiava falar em público, nem nunca fiz parte de clubes de debate, nem fiz peças de teatro — e agora vejo-me perante salas de centenas e centenas de pessoas que acham que eu lhes vou ensinar a aproveitar todas as esquinas de oportunidade do turismo. Só que não vou, mesmo”, começa.

A Avenida da Liberdade está coberta de sombra, está a anoitecer em Lisboa e os candeeiros já estão acesos. Então, Lansky guina pelas ruas onde ainda há calor. “Sou um autêntico adorador do sol”, diz. Está-se a levantar vento também. As flores roxas dos jacarandás voam em remoinhos à volta dos seus pés. Quer saber que árvores são estas e é preciso escrever o nome num papel: “Nem consigo distinguir as letras que poderão formar essa palavra quanto mais fixá-la”. Isto apesar de falar espanhol, francês, italiano, norueguês e sueco.

Doug Lansky é um apaixonado pelas viagens e passou os últimos vinte anos a analisar de que forma o turismo em massa modifica as cidades. Uma indústria importante para a economia, principalmente para a de países do sul, cheios de sol e cheios de dívidas? “Sem dúvida”. Mas, “se não se controlar”, os ganhos para o comércio e para os hotéis “serão muito grandes a curto prazo” e “não se conseguirão manter a longo prazo”.

A média de crescimento, a nível mundial, do número de turistas que visita um país situa-se atualmente nos 4%; em Portugal, a linha do gráfico dispara para os 13% e “não há nenhuma indústria que possa crescer sempre a esse nível e sobreviver sem que a bolha rebente”, diz Lansky. A bolha que rebentará primeiro em Lisboa, antes da imobiliária, diz, é a da “singularidade”. E o que é uma bolha de singularidade? “São os traços distintivos de cada cidade, que se perdem quando todos os bairros começam a ter cafés como os que há em Copenhaga, casas modernas de linhas retas como as de Estocolmo e restaurantes de tapas como os de Barcelona”.

Com a casa cheia, em Évora, Lansky pediu à plateia um exercício:

— Coloque a mão no ar quem considera que o turismo é uma coisa boa?
(“Toda a gente levantou o braço”, diz ele.)
— E agora coloque a mão no ar quem considera que ter seis autocarros de turistas a estacionar em frente à casa que compraram com um esforço de décadas ao pé do rio, e, depois, massas de gente a inundar os restaurantes onde vocês iam passar uma tarde preguiçosa com a vossa família a ler, é uma coisa boa
(“Adivinharam”, diz Lansky.)

Não tirou um curso de jornalismo mas ocupou-se de tudo um pouco no jornal da universidade. Nasceu em Greenwich Village, bem do meio de Nova Iorque, fez estágios no talk-show de David Letterman e na revista New Yorker e depois concorreu a um pedido que o jornal Chicago Tribune publicou na altura: queriam um colunista de viagens. Pouco tempo depois, a coluna de Lansky estava a ser vendida pera centenas de publicações pelo mundo todo.

Aos 24 anos foi atropelado em Banguecoque e teve que interromper o que viria a ser uma década de viagens. Antes do acidente comprou um daqueles cartões falsos de jornalista que se vendem nas ruas — não só de jornalista como de tudo o resto, até de embaixador — e quando estava no hospital fartou-se de olhar para aquilo. De volta à América, a fantasia foi-se solidificando numa possibilidade e, quase de repente, “no único caminho possível”. Voltar a casa não trouxe nenhuma daquelas sensações que normalmente associamos ao regresso: conforto, familiaridade, descanso. “Num minuto passei de Indiana Jones, do tipo que passou tanto tempo a viajar, perdido em sítios exóticos, inatingíveis, para homem adulto desempregado no Minnesota: foi muito doloroso”, conta. Leia a entrevista completa.

Hoje é muito mais barato e muito mais frequente viajar. Isso é bom porque muito mais gente tem a possibilidade de conhecer outros países. Mas nas suas conferências diz que não é sustentável. Porquê?
Porque não é. Quem fica com a maioria dos lucros de um aumento tão rápido do número de pessoas que visitam uma cidade são os Mariotts e os Continental, os Expedia, os Booking e os Starbucks deste mundo. Alguns nem pagam impostos nos locais onde estão, mas os que pagam, mesmo assim pagam uma taxa para hotelaria ou restauração que é a mesma cobrada a um outro restaurante ou hotel muito mais pequeno. Utilizam os recursos da cidade, criam filas para lugares e serviços que os locais também precisam de usar e tudo isto sem regulamentação. Também o turismo, para não se perder numa espiral de consumo ‘até à medula’ dos recursos das cidades onde existe, precisa de ser regulado. O turismo internacional está a crescer muito mais depressa do que a população. Entre 1950 e 2013, o turismo cresceu mais de 4000% enquanto a população cresceu 190%.

Doug Lansky com o cauteleiro do Largo Trindade Coelho D.R.

E como é que isso se faz? Com limites à entrada de pessoas? Limites à taxa de frações destinadas ao arrendamento turístico? Aumento dos preços?
Tudo isso, mas sem radicalismos. Até porque cada medida tem que ser estudada face à realidade, à necessidade e à abundância ou não de espaço e recursos, indicadores que não são iguais em nenhuma cidade do mundo. É possível colocar um limite ao número de cruzeiros que atracam nos portos de uma cidade, ou ao número de autocarros, aos voos diários ou aos quartos de hotel disponíveis. Mesmo que um aeroporto possa receber por dia um milhão de pessoas, isso não significa que a cidade tenha capacidade para receber assim tanta gente. Em Barcelona, por exemplo, limitaram o número de hotéis que podiam construir e o número de Airbnb no centro da cidade.

Nas TEDTalks, em Estocolmo, disse que, por vezes, os próprios turistas não sabem o que querem. Como assim?
Isso mesmo, porque a minha pesquisa diz-me que 75% de nós quando vamos marcar um quarto de hotel quer que ele tenha piscina e ginásio — mas também sei que apenas 25% das pessoas usa, de facto, essas regalias. Queremos isto, ou achamos que queremos isto, mas acabamos por fazer coisas totalmente diferentes quando chegamos aos sítios. Agimos de forma contraditória enquanto turistas, porque agimos assim em muitas outras áreas da vida, esta não é diferente. Há montes de razões que nos levam a viajar: ou vamos visitar família, ou o nosso editor pede-nos que entrevistemos alguém na Grécia, ou então vamos em trabalho, mas também podemos ficar dois dias de férias, por exemplo. Se nos perguntarem porque é que fomos, ficamos um pouco perdidos. Isso cria uma base de dados muito errada. Por exemplo, naqueles questionários que nos entregam nos aviões antes de aterrarmos, no qual nos perguntam porque é que estamos a visitar aquele país, normalmente só aparece “trabalho” ou “lazer” e isso deixa de fora as pessoas que estão a visitar familiares, que são um dos grupos que mais dinheiro deixam nos países que visitam.

Porquê?
Nos inquéritos que conduzi para os livros que escrevi descobri que as pessoas que se deslocam para visitar familiares ou amigos têm um maior impacto na economia do país anfitrião do que aquelas que simplesmente ficam nos hotéis e acabam por poupar muito, porque já gastaram no hotel. Se ficarmos com um amigo poupamos no alojamento e temos mais dinheiro disponível para ir às compras por exemplo, ou para fazer uma viagem à volta da cidade e acabarmos por ir a restaurantes mais pequenos, familiares, que esses amigos conhecem. Além disso, normalmente, os familiares ou amigos com quem ficamos também vêm sair connosco.

"Eu penso que (plataformas como o Airbnb) têm que ser reguladas de alguma forma. Porque não estamos a falar de cabeleireiros ou lojas de decoração. Abrem e fecham e está tudo bem porque não essenciais à vida de uma comunidade. Mas casas é diferente: as pessoas terem que sair da sua cidade porque há outras a chegar, não para ficar mas sim para usufruir da cidade a prazo, é um fenómeno que não é de hoje, que é difícil de travar, mas é uma consequência séria do turismo em massa que deve ser analisada pelas autoridades".
Doug Lansky, jornalista de viagens e especialista em turismo

Em Portugal, e isto não é de agora, o turismo é visto como um setor essencial, uma espécie de balão de oxigénio sazonal para muitas localidades que sobrevivem, se não exclusivamente, pelo menos maioritariamente dessa presença estrangeira. Mas, pelas suas conferências, parece-me que não considera o turismo um barco salva-vidas.
De facto, uma das coisas que mais foco nas conferências é a necessidade de termos atenção ao crescimento do turismo. A primeira coisa que me dizem quando chego a um país normalmente é “No ano passado crescemos isto tudo” e apontam para gráficos e outros documentos, mas nunca ninguém põe a mão no ar para me questionar, ou para se questionarem a eles mesmos: “Hey! Será que temos capacidade para ter assim tantas pessoas cá dentro?”. Claro que podemos sempre construir mais hotéis, alargar a capacidade dos aeroportos, autorizar mais Airbnb mas isso não é equivalente a crescimento sustentável. É apenas crescimento.

Aqui em Portugal fala-se muito disso: se os proprietários de prédios ou apartamentos devem ou não ser autorizados a destinar toda a área da casa, ou todo um prédio, para alojamento turístico. Acha que deve existir alguma regulamentação?
Eu penso que tem que ser regulado de alguma forma. Porque não estamos a falar, por exemplo, de cabeleireiros ou de lojas de decoração. Abrem e fecham e está tudo bem, porque não são essenciais à vida de uma comunidade. Mas com as casas é diferente: as pessoas terem que sair da sua cidade porque há outras a chegar, não para ficar mas sim para usufruir da cidade um tempo, é um fenómeno antigo, até certo ponto difícil de travar, mas é uma consequência séria que deve ser analisada pelas autoridades. Eu acredito em regulamentação para o Airbnb. Mas não há ainda nenhuma cidade que tenha uma legislação madura em relação a isso.

É o que se passa com todos os setores quando começam…
Exatamente. Lança-se um novo produto, um novo setor e estica-se a corda quase até partir e depois os governos têm que entrar no jogo. Medicamentos, por exemplo. Ou comida. Durante muito tempo produziram-se medicamentos e produtos de alimentação sem qualquer regulamentação e um dia alguém notou que havia gente a morrer por culpa disso e passou a existir controlo. É uma coisa natural. O que se passa com o turismo, de forma muito resumida, é isto: uma cidade, ou vila, começa a receber turistas, os restaurantes ficam um pouco mais cheios e os hotéis começam a ter mais reservas, a ter um pouco mais de lucro. Depois, quanto mais pessoas vêm, as companhias internacionais, que conhecem bem a indústria, descem como abutres sobre esses sítios e tomam conta dos negócios. Chegam as H&M e as Zaras e as páginas de reservas de tudo em “pacote”, que deixam de fora os restaurantes pequenos e as lojas pequenas. As cidades têm que aguentar com o consumo dos seus recursos: a água, as ruas, o sossego, mas não há retorno para todas as pessoas.

"As pessoas que se deslocam para visitar familiares ou amigos têm um maior impacto na economia do país anfitrião do que aquelas que simplesmente ficam nos hotéis e acabam por poupar muito porque já gastaram no hotel. Se ficarmos com um amigo poupamos no alojamento e temos mais dinheiro disponível para ir às compras, por exemplo, ou para fazer uma viagem à volta da cidade principal e também acabamos por ir a restaurantes mais pequenos, familiares, que esses amigos conhecem".
Doug Lansky, jornalista de viagens e especialista em turismo

Estamos em frente a uma loja onde se consegue ver como se faz um pastel de nata. Lansky pergunta se há várias. Há várias. Ele decide comprar um pastel em cada uma delas, até ao Príncipe Real. Pergunta a um dos funcionários de um dos cafés onde pára por um sítio para jantar que seja de uma família portuguesa.

Alguns prédios da Baixa ainda estão em mau estado — persianas partidas e estáticas a meio da janela que já só têm os caixilhos, quebradiços. As paredes a escamar, as portas cheias de correntes e cadeados ou então cobertas de tijolo para ninguém entrar. Lansky pergunta se há muitos assim. Já houve mais. Pergunta quem investiu na sua renovação, se portugueses se estrangeiros. Ambos. Diz que esteve a ver o nosso salário médio e os preços das casas na zona. Mas não acredita que as pessoas deixassem de investir no centro de Lisboa se o governo impusesse limites à exploração turística. “É possível cobrar rendas altas na mesma, só não precisam de ser absolutamente impeditivas. É normal que qualquer proprietário queira fazer lucro num mercado em crescimento e isso é possível, mesmo que não se alugue apenas a turistas”, diz.

Chegamos às ruas adjacentes à Rua Augusta, que reconhece da curta visita que fez antes, e diz: “Um dia o centro de Lisboa será igual ao centro de Londres, ao centro de Estocolmo, ao centro de Amesterdão, ao centro de Nova Iorque, porque estas multinacionais que por aqui vão despontando são iguais em todo o lado e a beleza ou a diversidade dos edifícios originais não vai chegar para distinguir estas ruas de outras em outras capitais igualmente antigas”.

Mas como é que se pode controlar a fixação de grandes lojas, se há as leis de livre comércio, a União Europeia — não seríamos acusados de protecionismo?
Cada cidade tem o direito de fazer o que bem quiser para proteger os seus sítios históricos. Detestava ver estas ruas maravilhosas cheias de multinacionais e é assim que vai ser se não houver uma política de proteção, porque essas lojas têm muito dinheiro para pagar as rendas astronómicas que se pedem. Podemos dizer: ‘Este sítio é histórico, não teremos aqui multinacionais, simples’. Podemos tê-las em outros locais.

"Toda a mística da Grande Muralha da China é que, num dia sem nuvens, consegues estar lá e ver 150 quilómetros para cada lado e achas incrível mas se fosses lá e conseguisses ver toda a extensão da Muralha, se não soubesses que há muito mais para lá do nevoeiro, não ias dar-te ao trabalho de lá ir. É o mesmo com os fjords noruegueses. São lagos em montanhas, dos quais a Suíça têm centenas, mas a Suíça não conseguiu tão bem criar essa mística à volta dos lagos".
Doug Lansky, jornalista de viagens e especialista em turismo

No Largo do Carmo, Lansky pergunta sobre o 25 de Abril, reconhece a praça de um livro. Há tuk-tuks e guias turísticos com grupos de jovens a contar a mesma história, com mais ou menos detalhes, que Lansky acabou de relatar segundo os livros que leu. Mas há também um grupo de rapazes jovens, com dezenas de garrafas de cerveja pousadas num dos bancos de pedra do Largo, onde eles já não se conseguem sentar por serem tantas. É a despedida de solteiro de um deles, entende-se pelas promessas rocambolescas que os amigos lhe fazem para a noite que se aproxima. Atrás da mesa que Lansky escolheu, de onde possa fotografar os jacarandás, estão mais quatro italianos, a cantar, ou a tentar cantar, êxitos de Pavarotti. Passamos a entrevistados. Lansky pergunta: “Vocês não se cansam desta feira?”

As pessoas dos bairros mais centrais queixam-se um pouco do barulho e também do lixo no dia seguinte de manhã, principalmente durante o fim-de-semana. Também é algo que, na sua opinião, “estraga” as cidades?
Não. Bom, depende. Se a bebida e o divertimento foi muito acessível, o que por vezes é, vamos ter um tipo de turismo que perturba um pouco o resto da população. Já ouvi em algumas conferências sobre turismo que uma das soluções poderia ser tornar a bebida mais cara. Haveria menos turistas, mas os que viessem gastariam mais. Talvez isso resultasse numa clientela mais ‘selecionada’ mas há um problema: é que os preços também aumentariam para a população residente. É uma das coisas que acontece em áreas turísticas e que se torna um problema para a população: há certos restaurantes que estão fora do alcance dos habitantes.

"Fui falar numa conferência e os organizadores enviaram uma pessoa ao aeroporto para me ir buscar e, no caminho, eu comecei a perguntar pelas principais atividades, o turismo, e tudo mais, mas que outras coisas é que as pessoas faziam e ele disse: 'Nós não fazemos coisa nenhuma'. E eu perguntei: 'Como assim não fazem coisa nenhuma? O senhor está a trabalhar, agora, está a guiar'. E ele disse que só fazia aquilo como extra, que se reformou cedíssimo porque toda a gente em Dubrovnik simplesmente aluga as suas casas no Airbnb e chega como rendimento para o ano todo".
Doug Lansky, jornalista de viagens e especialista em turismo

Vive em Estocolmo, onde é bastante caro comprar álcool ou mesmo jantar fora. Isso reduz a concentração de turistas?
É muito caro. Muito caro. Há muito turismo na mesma, mas as pessoas recebem muito mais. De qualquer forma, é mesmo muito caro sair para jantar, então o que fazemos é organizar jantares em casa e beber umas cervejas e depois sair. Temos muitos turistas que nos vêm visitar e perguntam “Como é que vocês suportam estes preços?”. Não suportamos, não saímos assim tanto. As pessoas acabam por beber menos, tanto nós como os turistas.

Falou há pouco, quando aqui chegamos e viu os grupos de turistas, que tinha um episódio sobre Dubrovnik, na Croácia, para nos contar.
Sim. Fui falar numa conferência e os organizadores enviaram uma pessoa ao aeroporto para me ir buscar e, no caminho, comecei a perguntar pelas principais atividades, o turismo, e tudo mais, que outras coisas é que as pessoas faziam e ele disse: ‘Nós não fazemos coisa nenhuma’. E eu perguntei: ‘Como assim, não fazem coisa nenhuma? O senhor está a trabalhar, agora, está a guiar’. E ele disse que só fazia aquilo como extra, que se reformou cedíssimo porque toda a gente em Dubrovnik simplesmente aluga as suas casas no Airbnb e isso chega como rendimento para o ano todo. Disse que faz dinheiro durante cinco meses para o resto do ano. Algumas pessoas ficam nas suas casas com os hóspedes, mas muitas passam esses meses numa caravana ou em casa de familiares a 50 ou 60 quilómetros. Basicamente, estão todos a arrendar no Airbnb. Dubrovnik é a Disneyland. As pessoas mais velhas estão um pouco chateadas com isto, mas os mais jovens acham normal, é isto que eles conhecem. A sociedade não deve ter tantas pessoas reformadas como Dubrovnik. Não se pagam impostos, acaba o bolo da segurança social. O que é que acontece se ninguém trabalhar, simplesmente o dinheiro aparece? Seria interessante ver se as pessoas nestes locais, como no Dubai, estão mais deprimidas do que as outras.

"Uma das coisas que eu gostava de desenvolver, é incluir nas páginas onde se marcam voos ou hotéis uma janelinha que aparecesse com o "estado" de cada atração turística para os dias que escolhemos viajar. As pessoas podem vir na mesma, ninguém as impede de vir, mas seria possível saber, por exemplo, quais os museus, as catedrais, as exposições, os concertos que estão esgotados nessa altura e, assim, seria possível espalhar um pouco mais a concentração sazonal".
Doug Lansky, jornalista de viagens e especialista em turismo

E como, afinal, se resolve o problema de ter demasiados turistas?
Bom, não sei tudo. Há ideias, há coisas. Por exemplo. Imaginem que eu tenho uma casa e alguém me pergunta: “Quantas pessoas é que cabem na tua casa?”. E eu digo: “Bom, se for uma festa de pé, em que toda a gente está a beber de copos de plástico e a comer umas batatas fritas talvez cem pessoas”. Ok. “Então e se quisermos fazer um jantar?”, bom “se quisermos fazer um jantar-buffet podemos ter 25 pessoas”. E a pessoa pergunta: “Então e um jantar bom, com três pratos, sentados?”. Assim, diria eu, “já só posso colocar 12”. As cidades precisam de pensar assim em vez de pensar em quantas pessoas podemos enfiar dentro de um hotel ou dentro de um apartamento. As pessoas vêm aqui à procura de experiências e é preciso pensar naquilo que lhes podemos oferecer. Ninguém viaja porque lhes apetece mesmo muito andar de avião. As pessoas vêm cá para andar de bicicleta, ou ver um museu, ou fazer uma visita a uma vinha. E quando essas coisas estão cheias, o que é que vêm cá elas fazer?

Doug Lansky em Hong Kong a explicar como "consertar" o turismo D.R.

Mas como é que isso se resolve?
Bom, uma das coisas que eu gostava de desenvolver é incluir nas páginas onde se marcam voos ou hotéis uma janelinha que aparecesse com o “estado” de cada atração turística para os dias que escolhemos viajar. As pessoas podem vir na mesma, ninguém as impede de vir, mas seria possível saber, por exemplo, quais os museus, as catedrais, as exposições, os concertos que estão esgotados nessa altura e, assim, seria possível espalhar um pouco mais a concentração sazonal. Não queremos uma situação em que uma família gaste centenas de dólares para ir ao Peru e depois não podemos ir ao Machu Picchu.

Fala também muito da necessidade de proteger a marca. Como é que se protege uma marca que é um país, ou uma cidade?
Há muito marketing. Mas o melhor ataque é a defesa. Protege o teu produto. Mantém os teus jardins arranjadinhos, limpa as tuas ruas, pede mais dinheiro por cada estadia no hotel, podes ter menos pessoas, mas vais ter mais dinheiro e vais manter a singularidade da cidade, os seus recursos, não só a população vai ficar mais satisfeita, os turistas também. Há um exemplo terrível nos Estados Unidos neste momento. Os Parques Nacionais estão a fazer cem anos, mas ninguém consegue lá chegar porque está tudo cheio. Então o que acontece é que as pessoas chegam nos seus carros, não conseguem estacionar, continuam parque adentro dentro dos seus carros, e saem. É triste, mas o marketing ainda não cessou. Estamos aqui neste café ‘fofinho’, quantas pessoas é que é possível acomodar de forma sustentável?

Não sei, mas vai dizer-nos…
Muito poucas, até se tornar mais um café igual a dezenas, pressionado a mudar o menu para uma coisa mais saudável ou mais ‘brunch’ ou mais ‘internacional’. A razão para que as pessoas viajam, e eu não me canso de repetir isto, é porque querem ter uma experiência que não podem ter perto de casa. Eles querem alguma coisa diferente. Então o que é que fazemos? Damos-lhes as mesmas coisas que têm em casa, o conforto das marcas que conhecem, dos grelhados americanos, os sushis caríssimos, e todas essas coisas. Estas pessoas viajam à volta do mundo para aqui chegarem, gastam fortunas e saem do avião e ficam assim a olhar e pensam: “Hã? Isto é parecido com a minha cidade!”. O turismo não é uma start up. Estamos nisto a longo prazo. Nós queremos que estes sítios estejam aqui daqui a cem ou trezentos anos. Temos que olhar para isto da mesma forma que normalmente se olha para um parque natural, para uma reserva natural e temos que ser protecionistas, é assim. Há um número de pessoas ‘ideal’ e a dificuldade é encontrar esse número.

Doug Lansky com a filha num lago da Suécia, em 2015 D.R.

Há países que são “melhores” nisto de preservar o que têm ou todos cometem o mesmo erro?
Todos até certo ponto mas, por exemplo, a França. Eles não tem todas as melhores praias do mundo ou o melhor clima do mundo. O que eles têm é a identidade de se ser francês, a forma de vida. Eles têm aquela atitude um pouco protecionista da sua identidade e as pessoas vão lá para estar perto isso. E os portugueses têm que proteger o que é português. Mas acontece em todo o lado. Há outro exemplo: Glacier Bay, no Alasca. Os cruzeiros não podem ir até aos glaciares e são os funcionários do parque natural que vêm falar sobre a importância da preservação da área. Os passageiros não chegam a desembarcar. Também é preciso ver que tipo de impacto têm os turistas. Em geral, os viajantes de cruzeiros gastam muito pouco dinheiro em terra mas há casais que gastam 700 euros por dia entre jantares e compras. Será justo que fiquem os dois nas mesmas filas?

Mas o crescimento do turismo acabou por dar emprego a muita gente, quer na área de hotelaria, quer no arrendamento de casas, ou então como guias turísticos ou como motoristas. Não é apenas normal que se queira manter este crescimento?
As pessoas deixam-se intoxicar pelo crescimento e só querem mais e mais, só que isso do crescimento infinito não existe. Há uma altura em que pára. Se as pessoas vêm cá para ver coisas que já não existem, vão deixar de vir. Receber bem as pessoas não é só aumentar o número de camas disponíveis. É dar alguma coisa diferente, é criar uma marca. Por exemplo. Toda a mística da Grande Muralha da China é que, num dia sem nuvens, consegues estar lá e ver 150 quilómetros para cada lado da Muralha e achas incrível, mas se fosses lá e conseguisses ver toda a extensão do muro, se não soubesses que há muito mais para lá do nevoeiro, não ias dar-te ao trabalho de lá ir. É o mesmo com os fiordes noruegueses. São lagos em montanhas, dos quais a Suíça tem centenas, mas não conseguiram estabelecer essa mística à volta dos lagos. Tem que existir uma história por trás da marca, todas as marcas mais inteligentes têm essa história. E tens que manter as tuas tradições durante muito, muito tempo, por mais estranhas que sejam. Se tiveres um colega no jornal que passa a vida com o dedo no nariz, ao princípio toda a gente vai dizer: “Olha aquele maluco com o dedo no nariz”, mas depois de dois anos, as pessoas vão falar dele como uma marca, uma espécie de personagem falada por Lisboa inteira. As cidades não devem perder as suas tradições, mesmo as mais estranhas. Mantenham-se esquisitos, é o meu primeiro e último conselho.

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