Não é ordinarice, é um jogo de palavras: como funciona a difícil arte do insulto

04 Fevereiro 2018151

Há uma precisão na escolha do que se diz. E é isso que transforma um insulto num momento potencialmente memorável. Carlos Maria Bobone recorda os mecanismos históricos deste fenómeno.

Todos os ofícios têm as suas técnicas e os seus truques. Se até o roubo – que mais do que um engenho consiste em roubar o produto do mister dos outros – tem direito a uma Arte de Furtar (injustamente atribuído por tanto tempo ao Padre António Vieira) então mais direito têm outros assuntos, menos marginais, à sua arte.

Um dos temas que merece a descrição dos seus truques próprios, das suas manhas corporativas e dos labirintos da sua actividade é a arte do insulto. Toda a gente já foi vítima de um insulto: ou o mandaram exercitar o aparelho reprodutor, ou lhe atribuíram uma semelhança, agravada por um aumentativo, com um animal de pasto, ou ofenderam com um simples engano na profissão da doce mãe; ainda assim, nem todos os insultos ofendem da mesma maneira. A maior parte dos insultos assentam numa mentira, para mais conhecida do visado. Ele conhece a sua orientação sexual, as suas capacidades cognitivas, se não for muito distraído sabe até que órgão reprodutor esconde debaixo das calças; é precisa uma verdadeira habilidade, então, para conseguir ofender com um engano flagrante, ou com um exagero óbvio.

Há um jogo literário, uma precisão na escolha das palavras, que não tem que ver nem com a sua ordinarice nem com a verdade daquilo que dizem, capaz de tornar um insulto memorável. É por isso, então, que vale a pena conhecer bem os mecanismos do insulto.

Há uns anos, uma editora brasileira juntou uma série de aforismos de Schopenhauer e chamou-lhes “A arte de insultar”. O título é tanto mais significativo quanto sabemos que o filósofo escreveu uma “Arte de ter sempre razão”. O insulto aparece assim como um complemento perfeito da discussão. Depois de colear pelos meandros da lógica em duelo animoso com um inimigo, Schopenhauer desfecha um golpe de misericórdia, gratuito e violento; ou, metido em sarilhos, enquanto procura ganhar tempo para um novo argumento, distrai o oponente com uma violentíssima ofensa. O insulto pode ser tudo isto, desde uma manobra de diversão ao coroar da humilhação. Enquanto se obriga o adversário a rebater uma mentira óbvia, ele está longe das grandes questões em debate; quando já se provou a superioridade dos argumentos, o insulto final é a prova dos nove da domesticação: o adversário já nem reage, dando o seu consentimento tácito à ofensa proferida.

Para Luiz Pacheco, o insulto era uma espécie de garante de marginalidade

O insulto, porém, pode não ser apenas um aparte numa discussão mais vasta; há casos conhecidos de desfile de impropérios como posição filosófica; se não quisermos usar o exemplo literário de Luiz Pacheco, para quem o insulto era uma espécie de garante de marginalidade, uma forma de oposição ao respeitável, temos também o caso do Manifesto Anti-Dantas. A etnia trocada ao pobre Dantas, mais do que uma questão rácica, implica a desconsideração suprema pela sua obra: o Dantas nem merece crítica, apenas ofensa.

A ordinarice não chega

Ora, o caso do Manifesto é importante porque mostra bem até que ponto o insulto é uma arte. Não basta carregar na linguagem; o Manifesto, sem grandes cargas latrinárias ou sexuais, pesa sobre Júlio Dantas como o mundo não terá pesado sobre os ombros de Atlas. Há um jogo literário, uma precisão na escolha das palavras, que não tem que ver nem com a sua ordinarice nem com a verdade daquilo que dizem, capaz de tornar um insulto memorável. É por isso, então, que vale a pena conhecer bem os mecanismos do insulto.

Se começarmos, como manda a escolástica, do geral para o particular, o primeiro tipo de insulto é a imprecação. A imprecação podia ser confundida com o simples vernáculo, se não fosse uma espécie de ofensa ao destino. Os mais frequentes são o soltar de uma sonora expressão latrinária, ou a forma apassivante da função sexual; ninguém sabe bem quem é o destinatário de tão grosseiras jeremiadas, se o interlocutor está simplesmente a descrever bem alto a situação em que se encontra com uma simples palavra, ou se quer que o acontecimento se cubra daquilo que ele enuncia; não há dúvida, porém de que se trata de um insulto a alguma coisa.

Qualquer das situações é estranha: seria o mesmo que, quando acontecesse alguma coisa do nosso agrado, em vez de a descrevermos, ou de expressarmos o contentamento com um inócuo “boa!”, o expressássemos com a menção aleatória de algo que evocasse a bondade. O glutão a quem saísse a lotaria, havia de gritar “croissant”, ou “coma-se”, da mesma forma que grita as palavras sobejamente conhecidas quando a desventura o leva a ingressar no mundo dejecto-reprodutivo. A irritação não permite o refinamento artístico, pelo que esta acaba sempre por se tornar uma forma imprecisa e grosseira de insulto. Com pouca imaginação – as imprecações variam muito pouco -, vagas, não ofendem verdadeiramente ninguém.

O verdadeiro artista do insulto sabe que o palavrão, mais do que uma verdadeira ofensa, é uma banalidade argumentativa. Que insulto pode haver em “filho da…”, quando sabemos que o oponente está a laborar num lamentável engano sobre o ofício da nossa progenitora? 

Da mesma forma, as acusações habituais perdem força pela banalidade da forma e pela consciência de que o uso daquelas palavras é apenas um procedimento padrão. O verdadeiro artista do insulto sabe que o palavrão, mais do que uma verdadeira ofensa, é uma banalidade argumentativa. Que insulto pode haver em “filho da…”, quando sabemos que o oponente está a laborar num lamentável engano sobre o ofício da nossa progenitora? Um lutador verbal mais benevolente poderia até elucidá-lo “lamento que o saiba apenas neste contexto, mas a minha mãe de facto é professora e a pouca apetência para horários nocturnos não lhe permite trabalhos posteriores ou passatempos de qualquer tipo após o horário laboral”.

Quando alguém diz “vai-te f…”, quão insultuoso pode ser isto? A menos que o adversário seja capado ou tenha, no máximo, um voto involuntário de castidade, não insulta ninguém. E além de parecer pouco esperto estar a jogar no risco e apostar numa destas possibilidades remotas quando se insulta alguém trata-se, nesse caso, apenas de uma recomendação mais desastrada. Uma espécie de gaffe de etiqueta, como quando se pergunta a um cego se está a ver aquilo que estamos a dizer: só alguém muito maldoso o toma por insulto.

“Parido de um sapo” e outros que tais

O insulto, nestes termos padronizados, ofende mais pela falta de empenho na ofensa do que pelo conteúdo. Quando somos insultados desta maneira, não merecemos a atenção de um insulto personalizado, o espírito oponente não se ocupou do nosso caso tempo suficiente para maturar um insulto que realmente revelasse o veneno que corre pelas nossas veias.

Há, portanto, formas melhores de insultar, formas novas, dizeres lapidares que atormentariam até o derradeiro sono dos nossos inimigos, formas obscenas que, a falta de quem os ouvisse num salão, encantariam numa prisão, formas artísticas de celeridade verbal, remoques que trariam certamente uma posição social elevada na Babilónia, capital do pecado.

Gil Vicente na primeira barca, é dono de uma linguagem tão baixa que mesmo as profundezas do Inferno se consideraram superiores a ele

É certo que, se queremos insultar, se pode recorrer a espaços aos palavrões mais comuns: trata-se de uma espécie de vénia à tradição; as asneiras do mundo latrinário e sexual são aquelas que se mantêm desde a Idade Média pelo menos, o que significa que já adquiriram pelo menos o estatuto de Clássico. Mas não devem, isso não, ser o corpo principal do insulto. Devemos aprendê-lo com os mestres do passado: o parvo de Gil Vicente na primeira barca, é dono de uma linguagem tão baixa que mesmo as profundezas do Inferno se consideraram superiores a ele. É, por isso, um dos mestres mais autorizados no assunto. Na sua ladainha insultuosa, tem os palavrões clássicos, sim, mas mesclados com outros originais, como se fossem apenas uma ponte necessária para o ritmo, ou um bordão de oratória. Vai de cara de Judeu, vai de parido de um sapo, e vai de tudo mais quanto insulte, de tal maneira que as palavras ganham significado.

O palavrão, por outro lado, ganhou importância à medida que perdeu significado. Veja-se o caso deste trecho tirado de um livro quatrocentista:

“Nam sera puta das filhas de Isrraael nem putanheiro dos filhos de Israel nem offereçeras merçe de puta nem preço de cam em a cassa do senhor Deos teu porque abominaçam e çugidade he açerqua do senhor Deos teu.”

Esta passagem grosseira, capaz de fazer peito aos Vilhenas mais atrevidos, é tirada de uma tradução medieval da Bíblia. Se um padre moderno lesse isto, teria provavelmente de o fazer com uma mão a segurar o Livro e com outra imposta sobre a cabeça para absolver a sua mente do que via; na Idade Média, porém, procurava-se, dar às coisas os seus nomes, de tal forma que a linguagem baixa era atribuída às baixezas com maior sentimento. Não se quer que as filhas de Israel sejam mais hábeis no trânsito ou menos velhacas nas relações com os nossos amigos como nós queremos quando lhes chamamos aquilo que está posto acima; querem mesmo que não sejam aquilo, e por isso dizem-no. O insulto é hoje, estranhamente, a palavra com menos significado. Daí que o palavrão se torne, ao mesmo tempo, uma palavra proibida mas com pouco valor insultuoso.

Pode usar-se da ironia como quem mostra sem o dizer a burrice daquilo que o adversário disse. Esta é uma forma que, bem usada, pode ser muito humilhante.

Foi com este abastardar da linguagem, no entanto, que surgiram novas possibilidades de ofensa muito sérias e interessantes. Num artigo sobre o léxico obsceno na prosa medieval Portuguesa, José Barbosa Machado compara-a com a prosa oitocentista para mostrar como Eça ou Camilo pouco ou nada usavam do calão. Precisamente por este estar convertido num pronto-a-vestir para qualquer rixa, aprimoraram a arte do insulto mais elegante. Ora, estas formas também oferecem grande proveito ao ofensor. Daí que não queríamos deixar de referir algumas das principais.

A ironia

Pode usar-se da ironia como quem mostra sem o dizer a burrice daquilo que o adversário disse. Esta é uma forma que, bem usada, pode ser muito humilhante. Consiste em fazer o outro aperceber-se, pela mera repetição daquilo que ele disse, do absurdo das suas palavras. Nunca se diz o que é que está errado, muda-se simplesmente o tom (versão mais grosseira) ou o sujeito (versão mais refinada). A simples mudança do sujeito é melhor porque esconde uma segunda acusação: a de que o outro interlocutor tem tal conta de si próprio, que a simples passagem de palavras que são absurdas nas bocas dos outros para a sua própria boca é suficiente para passar a ideia a genial. Tem como defeito o facto de não criticar propriamente aquilo que ataca – é possível, por um tom irónico em tudo, desde um “claro, vamos ajudar todas as criancinhas que apareçam”, a “sim, é realmente melhor ser bom aluno do que divertir-me na escola”. Como explicava Rilke nas suas Cartas a um jovem poeta, a ironia nunca toca o fundo das coisas; o tom pode dar um ridículo miudinho, mesmo às melhores ideias, mas não as destrói, causa apenas uma comichão.

A linguagem inesperada

Quando Camilo chama a uma das suas personagens “barregã de padre” está a fazê-lo num dos poucos casos em que é justificado o uso de um palavrão tradicional. No entanto, a expressão é muito mais ofensiva de uma forma inesperada. Pode dar azo a que se carreguem mais os contornos e não possibilita o piloto automático dos ouvidos perante a odisseia dos insultos. Tem como desvantagem o facto de, nos casos mais arrojados, se poder o insulto tornar inútil pela incompreensão. Se em vez de recorrer ao habitual ladrão, usarmos a etimologia de larápio e chamarmos a alguém Rufus Antonius Lucius Appius, poderíamos também chamar-lhe “círculo quadrado” que o resultado era o mesmo: nenhuma das coisas teria significado.

O elogio excessivo

Esta forma está entre a ironia e o sarcasmo. Pode ser feita em modo directo, como, depois de um espectáculo, tecer loas épicas aos seus executantes, ou em forma indirecta. P.G. Woodehouse é mestre na segunda. Quando as suas personagens tratam as mulheres por “old partner for sickness and healthness”, conseguimos perceber um tom vagamente insultuoso.

P.G. Woodehouse, um mestre do sarcasmo

Mr. Collins, em Orgulho e Preconceito, é um exemplo involuntário do primeiro caso; os seus elogios são tão rebuscados, tão torcidos e empolados, que a falta de sinceridade é notória. Este tipo tem também um segundo insulto subentendido. É que o elogio desmesurado de algo pode fazer ver que não se acreditava nas capacidades do outro. Como defeito, tem o facto de se tornar facilmente uma simples ironia grosseira.

O excesso de explicação

Quando a senhora que vive num palácio da rua da Junqueira fala com o empreiteiro que lhe caia as paredes e ordena que “das 10 às 11 não trabalhem. Estou a tomar banho, que é um uso que se dá à água e ao sabão para tornar o corpo mais limpo”, insulta-o de todas as maneiras possíveis. Pelo cheiro que deita, pelo conhecimento que tem, e por parecer julgar que ele não tem inteligência suficiente para perceber o reparo. É uma forma de condescendência mais cómica, que pode ser muito ofensiva.

Há certamente, mais tipos; o eufemismo pode conseguir mais do que o uso directo do insulto, um bom sarcasmo é muito democrático – consegue ofender todos – e o próprio insulto grosseiro e malcriado, desde que visual, também pode arrasar um ego.

Convém, no entanto, que não construa nenhum. Aquele que lançou um bom insulto, não pode repousar sobre a sua reputação. A arte do insulto, diz-nos a experiência, é uma arte do efémero. Tirando os habituais, de foro íntimo, a experiência diz-nos que o calão, a linguagem popular e os insultos, não tendem a subsistir. Do discurso do parvo de Gil Vicente, quantos insultos e imprecações usamos? “Eramá”, “Pêro Vinagre”, “beiçudo”, “rachador d’Alverca”, “entrecosto de carrapato”, “neto de cagarrinhosa”, “furta-cebolas”…Mesmo os oitocentistas “que ferro”, ou “fadista!”, já são hoje pouco usados, tal como grande quantidade do calão insultuoso que se encontra no Dicionário de Calão de Albino Lapa. A linguagem popular tende a perecer mais do que a erudita, e o calão vive mais das modas do que qualquer outra linguagem. É que o insulto e o calão tratam de emoções fortes, que não se podem compadecer com palavras já feitas.

É por isso que é tão necessária e difícil a arte de insultar.

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