Psicopatas domésticos. Eles estão entre nós e nas nossas relações

25 Fevereiro 201710.900

Não sentem empatia ou compaixão. São mentirosos e manipuladores, até nas relações amorosas. Os psicopatas integrados parecem pessoas normais até o destruirem. Este é o alerta de Iñaki Piñuel.

É provável que a palavra “psicopata” o leve para um cenário idêntico ao mostrado no filme American Psycho, com Christian Bale no papel principal. Acontece que nem todos os psicopatas têm um desejo mórbido de tirar vidas, embora haja aqueles que conseguem destruí-las apenas com recurso à violência psicológica e emocional. Iñaki Piñuel chama-lhes “psicopatas integrados” ou “psicopatas domésticos”. O psicoterapeuta, professor universitário e investigador espanhol é o autor do novo livro “Amor Zero — Como sobreviver a uma relação com um psicopata emocional” (editora Esfera dos Livros), que chegou esta sexta-feira às livrarias.

Piñuel, que passou os últimos 25 anos a avaliar e a tratar casos de vítimas de psicopatas integrados, quer alertar as pessoas para o facto de estas personagens narcisistas, mentirosas e manipuladoras estarem entre nós: segundo o especialista, podem ser os nossos vizinhos, amigos e até companheiros. Através de uma linguagem assertiva e um tanto ou quanto alarmista, o também conferencista explica ao Observador que o psicopata integrado não tem sentimentos ou remorsos, é frio e eficaz quando a depredar uma vítima, além de usar a sedução para se aproximar das pessoas que lhe interessam.

O assunto é, para Iñaki Piñuel, muito sério, tão sério que o especialista defende que a única solução para as vítimas destes predadores é o afastamento total, uma vez que, não sendo doentes mentais, os psicopatas não têm cura: “A única opção é sair. Não se trata de uma doença clínica e o problema não tem tratamento: a terapia funciona ao contrário, com o psicopata a aprender muitas coisas novas para manipular mais e melhor as suas vítimas. Eles, os psicopatas, não têm moral, não têm consciência. E não têm a capacidade de sentir compaixão pelas suas vítimas.

O livro está à venda desde sexta-feira, 24 de fevereiro, por 17,90 euros.

Chama-lhes psicopatas integrados ou domésticos. Os psicopatas não estão só nos filmes mas também entre nós. Somos ignorantes quanto à sua existência?
As pessoas normais não sabem que a maior parte dos psicopatas não são aqueles que estão na prisão, não são os assassinos, são os psicopatas a quem chamamos de normalizados ou integrados. O psicopata integrado é uma pessoa integrada na sociedade, que faz uma vida aparentemente normal, à exceção de que não tem emoções, não tem sentimentos de culpa e, portanto, é muito frio e eficaz quando se propõe a depredar uma vítima. Já analisámos, noutros livros, outros tipos de psicopatas, mas não aqueles que estão numa relação.

Escreve que são parasitas progressivos. Em que sentido?
Progressivos porque a sua forma de entrar numa relação é a pouco e pouco, sem nunca mostrar a sua verdadeira natureza. O problema é que a vítima apaixona-se, fica seduzida — porque é isso o que estes psicopatas fazem, eles seduzem. Na segunda fase, que é a fase do desprezo, a pessoa que vive numa relação com um psicopata fica completamente destruída. O problema é que as pessoas não têm informação específica e desconhecem a existência deste tipo de personalidade. Não têm informação que explique como uma pessoa pode ficar destruída sem se dar conta por causa de uma pessoa encantadora, que não precisa de a maltratar fisicamente porque fá-lo psicologicamente. Isso pode gerar um quadro psicológico de stress pós-traumático, são os quadros mais habituais.

Qual é o perfil do psicopata integrado?

  • Não sente empatia ou compaixão
  • Não consegue amar
  • É dono de um narcisismo extremo e maligno
  • É um parasita progressivo
  • Seduz e manipula sem remorsos

Quais são as principais características de um psicopata?
Ausência de emoções reais, falta de empatia, ausência de medo e de ansiedade, maior probabilidade de trair os seus parceiros. Os psicopatas são, sobretudo, pessoas que vivem dos outros, são parasitas. Sabem muito bem como posicionarem-se enquanto objeto de desejo de toda a gente. Têm a capacidade de manipular os outros e, se têm um problema, seduzem ou compram as pessoas que necessitam de ter a seu lado.

É fácil identificar um psicopata integrado?
Não, não é fácil porque um psicopata não parece um doente mental (porque não o é), ao invés parece uma pessoa normal e encantadora. Se não conhecermos a existência deste problema teremos muita probabilidade de nos convertermos nas suas vítimas.

Todas as pessoas com um narcisismo extremo são potenciais psicopatas?
Não, mas todos os psicopatas são narcisistas extremos ou malignos. Uma pessoa com um grande nível de narcisismo não é um psicopata, mas é certo que todos os psicopatas são narcisistas extremos.

Uma das coisas que têm em comum os psicopatas criminosos detidos e estes psicopatas domésticos integrados na sociedade é o facto de ambos os tipos serem megalómanos, possuírem um profundo egocentrismo e uma predisposição para endeusar-se. Em suma, um narcisismo extremo e maligno.” (pág. 25)

O psicopata tem noção do que é?
Nem sempre sabem que são psicopatas, mas sabem que são diferentes dos outros. Sabem que não sentem medo, empatia ou compaixão e, portanto, sabem que têm grandes capacidades de fazer com que os outros façam o que eles querem. É uma arte, eles sabem que são capazes de manipular os outros mas nem sempre sabem que a isso se chama “psicopata”.

Sendo ele egoísta por natureza, o psicopata gosta de si próprio?
Sim. Ele tem um narcisismo extremo, precisa de adoração e de seduzir as pessoas, de manipular os outros. Os psicopatas vivem do trabalho dos outros, do dinheiro e da energia dos outros. Consomem a energia das suas vítimas, esvaziam-nas.

"Os psicopatas não podem amar porque amar é dar e eles estão sempre a receber, à procura de conseguir obter mais dinheiro, adoração ou sexo. São parasitas puros. É preciso dizer às vítimas que ali nunca houve amor."

O psicopata manipula o outro porque tem baixa autoestima?
Não. O psicopata tem uma ideia inflacionada de si mesmo, uma grande consideração por si mesmo e um ego que não é real. Precisam constantemente da adoração dos outros.

Um psicopata pode amar?
Não. Ele não ama ninguém, nem os parceiros nem os filhos. Manipulam-nos e seduzem-nos, mas não os amam. Não podem amar porque amar é dar e eles estão sempre a receber, à procura de conseguir obter mais dinheiro, adoração ou sexo. São parasitas puros. É preciso dizer às vítimas que ali nunca houve amor.

Iñaki Piñuel é doutorado em Psicologia, é psicoterapeuta e investigador especializado na avaliação e no tratamento das vítimas de abuso psicológico e de psicopatas integrados.

As vítimas são sobretudo pessoas com valores e consciência moral. Porquê?
São pessoas com valor morais, são boas pessoas. Para os psicopatas as boas pessoas estão sempre dispostas a perdoar, a começar de novo, a ver o outro lado das piores atrocidades. Isto ajuda muito um psicopata.

A verdadeira agenda encoberta ou o que realmente mais quer qualquer psicopata é encontrar alguém que possa explorar emocional, sexual, financeira e/ou socialmente, enquanto não encontrar uma alternativa melhor.” (pág. 27)

A baixa autoestima é um requisito para ser-se vítima de um psicopata?
Muitas vezes as vítimas têm baixa autoestima, mas nem sempre é assim. Há pessoas completamente normais, com uma autoestima normal, que ficam destruídas devido a uma relação com um psicopata — perdem a autoestima e o respeito por si mesmas. O que acontece é que os psicopatas aproveitam-se da vulnerabilidade humana, seja essa uma vulnerabilidade social ou um momento mau na vida de uma pessoa.

No final, as vítimas ficam convencidas de que a culpa é sua?
Claro. Esse é o problema. Os psicopatas utilizam uma estratégia que se chama “jogo da piedade” quando se posicionam como vítimas das suas vítimas. Isto significa que são perfeitamente capazes de simular que são as vítimas, pelo que as vítimas [reais] sentem-se culpadas por serem a causa da rutura. As vítimas sentem-se culpadas por causa do jogo de manipulação, não por serem estúpidas.

Segundo percebi, as vítimas de traumas familiares podem voltar a ser vítimas, agora nas mãos dos psicopatas?
Sim. As pessoas que vêm de famílias disfuncionais — onde houve violência, divórcios, morte de um dos pais, adição ou drogas — são mais frequentemente vítimas de psicopatas. Para um psicopata é uma grande oportunidade. Essa vulnerabilidade aumenta a probabilidade de se ser alvo de um psicopata, porque o psicopata aproveita a insegurança de uma pessoa para se apresentar como o salvador, como a resposta às orações da vítima de uma família disfuncional que, por fim, acredita que encontrou o amor da sua vida. O psicopata utiliza essa máscara para se apresentar como o salvador. É uma construção. Os psicopatas não são, regra geral, vítimas. E uma das técnicas dos psicopatas é a utilização abusiva do poder durante muito tempo.

10 sinais de que o seu parceiro/a pode ser um psicopata

  1. Apresenta uma simpatia e encantos superficiais
  2. De repente, passam a ser almas gémeas
  3. Aposta num forte magnetismo emocional e sexual
  4. Bombardeia-o de amor no início da relação
  5. Culpa-o de tudo
  6. Mente permanentemente
  7. Faz um contacto visual hipnótico
  8. Manifesta frieza e falta de emoções
  9. Mostra-se arrogante e orgulhoso
  10. Aborrece-se facilmente

 

Entre a vítima e um psicopata estabelece-se um vínculo traumático viciante. Porquê é que é tão difícil desatar estes laços emocionais?
O maltrato é aditivo porque gera um mecanismo de repetição. A vítima que é maltratada interioriza os maus-tratos e sente-se culpada por isso. A vítima sente-se responsável pelo problema, acredita que não é boa/bom companheira/o ou boa/bom mãe/pai e é absolutamente ignorante do processo de manipulação do psicopata. Quanto mais tempo durar a relação, menos provável é a capacidade de a vítima cortar com o psicopata. É, por isso, um vínculo aditivo. A vítima esquece-se das coisas más e apenas se recorda da fase do namoro e da sedução. Todo o contacto com um psicopata gera mais sofrimento, mais danos para a vítima e, sobretudo, mais oportunidades para o psicopata.

Quais as técnicas de manipulação mais usuais de um psicopata?
A manipulação através da sedução e o bombardeamento amoroso. Numa primeira fase bombardeiam as vítimas de amor. Depois usam a culpabilização. A terceira técnica é a triangulação: falam de terceiras ou quartas pessoas — que alegadamente se interessam pelo psicopata — de modo a criar competição com a vítima. Em suma, todo o tipo de estratégias que procurem manipular e criar nas vítimas um mecanismo de adição.

Como é que se sai deste buraco negro?
Primeiro é preciso compreender que este não é um problema de casal, não é um divórcio, estamos perante uma pessoa que é predador humano, um lobo com pele de cordeiro. É muito importante que a vítima compreenda isso. E é muito importante reconhecer os danos psicológicos nas vítimas — são danos do tipo stress pós-traumático, que precisam de ser tratados com técnicas específicas. É um problema muito especial, não é um problema de casal nem de maus-tratos físicos, até porque é rara a vez que os psicopatas maltratam fisicamente as suas vítimas (não precisam de o fazer). A vítima precisa de saber que não tem culpa — e não digo isto para animá-la, digo porque é verdade.

"Primeiro é preciso compreender que este não é um problema de casal, não é um divórcio, estamos perante uma pessoa que é predador humano, um lobo com pele de cordeiro. É muito importante que a vítima compreenda isso." 

A forma como escreveu o livro e fala sobre assunto parece um pouco agressiva…
Este é um problema muito grave. Uma das piores situações que o ser humano pode atravessar na vida é o estar casado ou junto com um psicopata. O problema é grave por ser tão desconhecido. As pessoas não identificam o problema, pensam apenas que estão perante um mal entendido, um problema de comunicação ou uma pessoa difícil. Não, estamos perante um psicopata e o psicopata é alguém que não tem cura, não há esperança para ele. A única opção é sair. Não se trata de uma doença clínica e o problema não tem tratamento: a terapia funciona ao contrário, com o psicopata a aprender muitas coisas novas para manipular mais e melhor a suas vítimas. Eles, os psicopatas, não têm moral, não têm consciência. E não têm a capacidade de sentir compaixão pelas suas vítimas.

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