Sandra Oliveira: “As mulheres portuguesas têm andado a ser enganadas no parto”

01 Junho 20173.679

Cesarianas desnecessárias e intervenções médicas nos partos em excesso. Sandra Oliveira, autora do livro "Nascer Saudável", garante ao Observador que as mulheres estão a ser demasiado submissas.

“Fazer um parto que não tenha uma ventosa, que não tenha uma epidural ou uma cesariana é uma chatice. Ganha-se muito pouco.” Sandra Oliveira está sentada à sombra da copa de uma árvore aparentemente sem fim, no Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian. A mulher que se diz uma “ativista na área da saúde e da maternidade” é também a autora de “Nascer Saudável” (editora Chá das Cinco). O novo livro com mais de 400 páginas é o mote da entrevista. Nele, a autora fundamenta com estudos e teorias científicas críticas direcionadas à saúde na maternidade em Portugal, mas também à sociedade que é acusada de não proteger as mulheres grávidas.

Sandra é a fundadora do Bionascimento, uma plataforma de apoio às grávidas, e a única doula em Portugal certificada pela DONA International (doula é a pessoa que acompanha emocionalmente a grávida durante a gestação até ao momento do parto). Em entrevista ao Observador, garante que uma grávida já é mãe e que, como tal, deve ser protegida em todos os contextos, inclusive o laboral. Porque mesmo vivendo no país onde é relativamente fácil pedir a licença de parentalidade, ainda há “pressão das entidades patronais” e “pressão social”.

As críticas não se ficam por aqui: a autora defende que existem demasiadas intervenções no parto, incluindo excesso de diagnósticos, consultas e rastreios durante a fase da gestação. É por isso, diz, que o parto considerado “normal” é cada vez mais “anormal”: “Hoje em dia, com muita frequência dizemos ‘mas isso é normal’. E depois quando vamos a ver, o que é normal é anormal. Para mim o normal é o que é biológico. (…) Temos taxas elevadas de bebés a nascer com ventosas. Isto não pode ser visto por uma mulher como normal. Nascer não é nem precisa de ser assim. Eu sinto que as mulheres portuguesas têm andando a ser enganadas, politicamente enganadas.”

O livro da editora Chá das Cinco está à venda por 17,70 euros.

Antes de passarmos ao livro, é preciso perguntar: o que é uma doula?
A doula surgiu da falta de apoio que existe no parto: desde que o parto passou de casa para o contexto hospitalar que a mulher esteve, durante algum tempo, sem ninguém e sujeita a muitas intervenções — e por intervenções refiro-me à “simples” restrição de movimentos [durante o parto], o que contraria toda a fisiologia e todo o parto biológico, se assim o quisermos chamar. Portanto, desde que a mulher passou para o hospital que foi sujeita a vários tipos de intervenções. A doula não deve ser confundida com a parteira, porque não tem competências técnicas a esse nível. A doula funciona exclusivamente a nível emocional e informativo. O papel informativo acaba por ser uma necessidade gerada pela própria obstetrícia moderna que temos. Se as mulheres não estão informadas, ficam sujeitas ao que o hospital lhes tem para oferecer.

O livro em questão vai além do seu papel de doula mas nasce dessa experiência profissional, certo?
Sim. Basicamente sinto-me como uma ativista nesta área do parto. Encaro isto como uma missão. A área da saúde e da maternidade precisa efetivamente de ter ativistas a trabalhar para que as coisas aconteçam de acordo com o melhor conhecimento que temos. Conhecimento e respeito pelos direitos. Inicialmente, o livro tinha sido pensado para se focar apenas no meu papel como doula, mas quando o comecei a escrever senti que só o papel de doula não iria fornecer às mulheres aquilo que é preciso no contexto nacional — até porque muitas coisas que eu faço enquanto doula ainda não têm fundamento, não são muito fáceis de entender, porque é tão emocional, individualizado e instintivo que, para esta fase em que estamos em Portugal, a maioria das mulheres não iria entender.

No livro, começa por escrever que uma grávida já é mãe. A sociedade não olha para a mulher grávida como já sendo mãe?
Não. Das coisas mais difíceis de digerir enquanto mãe foi perceber que o que tem acontecido no parto às mulheres acaba por ser o resultado também da nossa fragilidade ao nível dos nossos direitos como mulheres. Não sou grande defensora de muitos dos princípios que se intitulam feministas, não me identifico com eles. Reconheço que existe uma diferença de géneros a respeitar: esta busca incessante pela igualdade faz com que as mulheres andem numa corrida completamente louca entre aquilo que é ser mãe trabalhadora, mulher amante e mãe. Às vezes não é de todo compatível. Ter filhos não é compatível com muita coisa que a sociedade nos incute. E para ser compatível, muitas vezes temos de nos pôr em último lugar.
Uma das grandes razões que me levou a fazer esta grande mudança profissional [Sandra trabalhava numa multinacional enquanto supervisora numa área de atendimento a clientes] foi a minha filha, foi a grande motivação. Porque eu sempre trabalhei bastante, a minha filha entrava às 07h na creche e saía muitas vezes às 20h, era a primeira a entrar e a última a sair. Isto sempre foi vivido com uma grande angústia, não era algo de que me orgulhasse, apesar de gostar daquilo que fazia. Essa igualdade condiciona muito a gravidez. Não é por acaso que Portugal tem uma das piores taxas de prematuridade da Europa, não é por acaso que temos tantas grávidas com diabetes gestacionais ou com hipertensão. Se olharmos para os países verdadeiramente desenvolvidos da Europa, que protegem a gravidez, vemos que, muitas vezes, as mulheres são retiradas do trabalho dois meses antes da data prevista de parto ou são convidadas a trabalhar a meio tempo… Tudo isto tem, efetivamente, impacto da gravidez.

"Não é por acaso que Portugal tem uma das piores taxas de prematuridade da Europa, não é por acaso que temos tantas grávidas com diabetes gestacionais ou com hipertensão. Se olharmos para os países verdadeiramente desenvolvidos da Europa, que protegem a gravidez, vemos que, muitas vezes, as mulheres são retiradas do trabalho dois meses antes da data prevista de parto."

Isso não acontece em Portugal?
Não. Da minha experiência como doula não posso dizer que as grávidas tenham dificuldade em obter uma licença para poderem ficar em casa, mas sei que sentem muita pressão por parte das entidades patronais, além da pressão social — porque, lá está, “gravidez não é doença”. Há muitas mães a alimentar isto e a vangloriarem-se de que trabalharam até à primeira contração. Quando uma mulher está grávida ela já é mãe. O primeiro trimestre é muito desvalorizado, parece que antes dele a gravidez não conta, mas é exatamente nessa fase que a mãe tem de ser protegida. É no primeiro trimestre que as mulheres andam a cair de sono e enjoadas, mas ninguém as mete em casa para que elas sigam aquilo que o corpo lhes está a pedir, que é descansar e abrandar.

Escreve no livro que, durante a gravidez, a gestação pode ser vista como uma luta por nutrientes entre a mãe e o feto. Como assim?
Há uma “guerra”. Isto não é uma teoria minha, está referenciado no livro, mas cada vez mais se fala disto. Nós somos dos mamíferos que menos protege a mãe de uma gravidez. A mãe está extremamente exposta, fisicamente falando, às necessidades do feto, o que pode levar a fragilidades muito grandes, nomeadamente a patologias. Isto não se vê nos outros mamíferos, porque a placenta deles protege a mãe. A nossa não, o feto leva o que quer, o que a mãe tem e não tem. Se nós, sociedade, não protegermos as mulheres, vamos continuar a ter gravidezes com problemas.

O que seria uma solução para isso, para essa proteção de que fala? A quem compete definir metas e que metas?
Naturalmente que ao nosso Ministério da Saúde. Isto é uma questão de saúde pública porque a neonatologia é uma das áreas da medicina mais caras — quem trabalha em saúde pública sabe disso, o nosso Diretor-Geral da Saúde sabe disso. Se queremos diminuir os custos com aquilo que se gasta na neonatologia temos de proteger as grávidas, não é só proteger os bebés depois de eles nascerem; temos de proteger as grávidas antes da prematuridade.

"Quando uma mulher está grávida ela já é mãe. O primeiro trimestre é muito desvalorizado, parece que antes dele a gravidez não conta, mas é exatamente nessa fase que a mãe tem de ser protegida. É no primeiro trimestre que as mulheres andam a cair de sono e enjoadas, mas ninguém as mete em casa para que elas sigam aquilo que o corpo lhes está a pedir, que é descansar e abrandar."

Porque é que acha que não se assume que a mulher grávida já precisa de proteção?
Isto é uma questão de consciência política. Nós não precisamos de inventar a roda. Os países nórdicos já o fazem — aliás, muitas vezes as mães podem estar com as crianças até aos sete anos em regime de part-time sem perderem os empregos. As pessoas também têm responsabilidade naquilo que defendem e isso vê-se bem nos comentários quando sai algum artigo deste género, nota-se bem o nível de informação que os portugueses têm. Nós não temos noção do que é defender a família ou os valores de família, talvez porque até há relativamente pouco tempo vivíamos numa ditadura. Se calhar ainda estamos debaixo desse estigma, do que é viver numa ditadura e não pensarmos muito pela nossa cabeça. Mas a verdade é que não precisamos de inventar a roda, somos um país supostamente com poucos recursos e se quisermos rentabilizá-los temos de atuar na prevenção. Isso passa por proteger a gravidez, por proteger a mulher no seu ciclo ativo. Ou seja, a mulher tem de ser protegida no trabalho, seja trabalhando menos horas ou não estando a trabalhar de todo.

"Nós não temos noção do que é defender a família ou os valores de família, talvez porque até há relativamente pouco tempo vivíamos numa ditadura. Se calhar ainda estamos debaixo desse estigma, do que é viver numa ditadura e não pensarmos muito pela nossa cabeça."

Por falar em custos, no livro escreve que os orçamentos na gravidez e no parto são dos mais elevados.
Os países ricos europeus — os países nórdicos — perceberam nos anos 1970 que, estando num período pós-guerra mundial, tinham taxas de natalidade baixas mas curiosamente estavam a gastar mais com a maternidade, com o serviço de saúde de apoio à maternidade, e quiseram perceber porquê. Houve uma transferência dos partos em casa para os partos hospitalares, o que poderia implicar mais custos, mas sendo isto uma área biológica, em que a maior parte das mulheres pode parir sem ter doenças, porque é que isso implicava mais custos? Este grupo de países nórdicos questionou-se sobre o facto de estarem a gastar tanto dinheiro, coisa que em Portugal nunca se fez, até porque não se tem os números. Sabemos os números das cesarianas mas, por exemplo, não sabemos os das induções. Não sabemos quanto é que gastamos em epidurais, por exemplo.

Se há realmente estes custos tão grandes, quem é que beneficia com isso?
Quem é que beneficia? Vou abstrair-me de responder porque acho que a resposta é óbvia, mas seguramente o Estado não beneficia, as mulheres não beneficiam e, portanto, quem beneficia é quem vende as coisas, quem pratica e que tem salários, sobretudo no setor privado, com base nas intervenções. Fazer um parto que não tenha uma ventosa, que não tenha uma epidural ou uma cesariana é uma chatice, ganha-se muito pouco.

"Fazer um parto que não tenha uma ventosa, que não tenha uma epidural ou uma cesariana é uma chatice, ganha-se muito pouco."

O que responderia a um médico que argumentasse dizendo que há mais custos porque também há mais conhecimento científico?
Vou dar um exemplo: a monitorização contínua. Temos todos os hospitais muito bem equipados com o conhecido Cardiotograma — CTG –, mas não há fundamentação para isto. Qual é a argumentação utilizada? É “não temos recursos humanos suficientes”. Portanto, entramos aqui numa pescadinha de rabo na boca: como não temos recursos humanos suficientes, vamos usar equipamento. Como vamos usar mais equipamento, temos mais intervenções e mais cesarianas. A questão que se tem de fazer — a mesma que os países nórdicos já fizeram — é: termos mais recursos humanos custa mais ou custa menos? Neste momento temos enfermeiros especialistas desempregados. Se os empregássemos, em princípio teríamos uma menor taxa de cesariana, poderíamos ter as mulheres monitorizadas de forma intermitente, o que é recomendável, e possivelmente ainda poupávamos dinheiro ao Estado.

Sandra Oliveira é também a fundadora do Bionascimento, uma plataforma de apoio às grávidas.

Nos últimos 30 anos a nossa taxa de mortalidade diminuiu muito. Ainda assim, a Sandra critica o excesso de procedimentos médicos aplicados antes e durante o parto. Na sua opinião, são feitos procedimentos médicos em demasia?
Sim. Eu sou crítica, por exemplo, do facto de termos no nosso sistema nacional de saúde enfermeiras especialistas, muito embora as mulheres tenham sempre de ir a um médico. Tenho acompanhado mulheres noutros países — já tive a possibilidade de estar no Reino Unido e no Canadá, um país de referência a este nível porque em dez anos conseguiu revolucionar toda a saúde pública na área de apoio à maternidade — e o que vejo é o excesso que nós temos de diagnósticos, de consultas, de rastreios, coisa que lá não acontece.

Como é que acontece, por exemplo, no Canadá?
No Canadá as mulheres têm à disposição a verdadeira figura da parteira. Se as mulheres optarem por serem vigiadas pelas parteiras, elas não são vistas por um médico — aqui, a parteira corresponde à enfermeira especialista em Portugal. O que verifico nestes países é que as mulheres saudáveis vão uma ou duas vezes a um médico obstetra, mas não são vigiadas por um médico obstetra. Isto é uma questão de gestão dos recursos humanos de saúde pública. Nos nossos centros de saúde as mulheres são avaliadas pela enfermeira especialista para fazer coisas essenciais mas, depois, têm sempre de ir ao médico — eu não entendo o porquê.

Mas talvez uma mulher grávida se senta insegura ou receosa em não passar por essa triagem…
Claro. Porque nós temos na figura do médico o topo do melhor cuidado para a nossa saúde, o que é verdade. Quando estamos doentes precisamos de ir ao médico, mas no que toca a uma gravidez, quando ela é saudável, o estudos dizem-nos que quando vamos ao médico estamos a aumentar os nossos riscos.

Em que sentido?
Estamos a aumentar, por exemplo, a probabilidade de termos uma indução. Os médicos têm muito receio de um parto natural, estão sempre à procura da patologia. Têm receio porque eles não sabem acolher o parto natural, acham sempre que a mulher é um problema para o bebé. Isto não é assim que funciona, caso contrário já estávamos extintos. Um médico pode ter uma prática perfeitamente alinhada com aquilo que se chama Evidence-Based Practice, que procura reunir três coisas essenciais: a experiência do profissional, o melhor conhecimento e fundamento que existe e a opinião e decisão do utente. No nosso modelo biomédico a opinião e a decisão [do utente] não existe.

"Um médico pode ter uma prática perfeitamente alinhada com aquilo que se chama Evidence-Based Practice, que procura reunir três coisas essenciais: a experiência do profissional, o melhor conhecimento e fundamento que existe e a opinião e decisão do utente. No nosso modelo biomédico a opinião e a decisão [do utente] não existe."

Escreve que os médicos devem ser vistos como uma boa fonte de informação, mas não a única. Os utentes devem responsabilizar-se pelo próprio conhecimento?
Sim, isso é uma obrigação nossa.

Acha que há um endeusamento da figura do médico?
Claro, da mesma maneira que existe do professor e do advogado. Lá está, isto se calhar tem que ver com o chapéu que ainda vestimos da ditadura. Temos de sair desse registo e temos de nos responsabilizar. O professor António Vaz Carneiro [diretor do Centro de Estudos de Medicina baseada na evidência da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e da Cochrane Portugal] referiu no lançamento do meu livro — por acaso não refere no prefácio — que a quantidade de estudos que saem diariamente é de tal ordem volumosa que é impossível um médico manter-se atualizado. Mas um utente que seja alvo do interesse próprio de uma determinada situação tem toda a capacidade de estar atualizado. Os médicos — e neste caso englobo enfermeiras, fisioterapeutas e afins — são formados numa perspetiva de poder, de que eles é que sabem. Estão redondamente enganados. Nos dias de hoje é extremamente difícil alguém poder dizer que o que sabe é o mais atualizado e o melhor que se tem a nível de conhecimento, porque a produção de conhecimento é tão rápida que é muito mais fácil um utente localizar a informação do que um profissional de saúde — e, segundo os estudos, as mulheres grávidas são as principais procuradoras de informação. Acho muito importante que as mulheres estejam conscientes desta necessidade de informação porque não é só o corpo delas que está em causa.

Numa era de fake news, em que fontes de informação podemos confiar?
Há muita informação na internet que não faz sentido nenhum e, por isso, eu fiz questão de no livro partilhar aquilo que conhecemos e sabemos ser a melhor fonte de informação, que é a biblioteca Cochrane — é cientificamente a mais credível que temos, é a única que tem a preocupação de ter tudo praticamente disponível, existem outras mas não são gratuitas. A Cochrane está disponível e tem muitas coisas em português. Esta é a principal, mas há outras que refiro no livro.

Acha que, de um modo geral, as mulheres têm pouco a dizer sobre a sua própria gravidez?
A grande maioria das mulheres não está informada, julga-se informada mas não está. Pela minha experiência, as mulheres que procuram uma doula são pessoas que já se questionavam e que sentiam que deviam saber mais. A maior parte das pessoas restringe-se ao que os profissionais de saúde dizem ou que o curso de preparação para o parto diz. Isso não pode ser. Mas tudo isto tem que ser com muita conta peso e medida, caso contrário caímos no outro extremo: em vez de vivermos a gravidez, vivemos para a gravidez e ela passa-nos ao lado porque levamos os dias todos a pesquisar e a pesquisar. Daí que procurei facilitar o trabalho, tentei cingir-me àquilo que era realmente importante para uma grávida.

Sandra Oliveira é a única doula em Portugal certificada pela DONA International.

Há algum tipo de preconceito associado à pessoa que se questiona e que vai à procura de mais informação?
Sim. Quando muitas mulheres chegam informadas aos profissionais de saúde, o que recebem é “mas quem sabe disto sou eu”. Isto é uma questão que temos de mudar nas nossas escolas, logo desde crianças. A minha filha tem 16 anos e já sabe pesquisar e questionar. Temos de instigar as pessoas a questionar, não a ouvir, a estarem sossegadas e sentadas numa sala de aulas com um método expositivo sem se sair dali. Também sabemos que isso está errado porque isto da educação e da saúde anda lado a lado. Se nós, cidadãos, fossemos incentivados a questionar, não levávamos os anos de atraso que levamos. Isto é uma bola de neve. Nós não questionamos, não reagimos, não agimos. As coisas vão andando, assim, à mercê de quem está politicamente no poder.

"Se nós, cidadão, fossemos incentivados a questionar, não levávamos os anos de atraso que levamos. Isto é uma bola de neve. Nós não questionamos, não reagimos, não agimos. As coisas vão andando, assim, à mercê de quem está politicamente no poder."

No livro fala também de uma visão masculina do parto. Isso existe na nossa sociedade?
Existe. Olhando para a história do parto, muito do que de errado se tem feito vem da figura masculina, como deitar as mulheres e restringir os seus movimentos, o que é uma das maiores atrocidades que se podem fazer a uma mulher. As mulheres não têm noção disto, mas é uma atrocidade. Elas acham isto normal. Para mim é revoltante. Nós é que parimos, o corpo é nosso, mas os homens é que implementaram a metodologia de nos deitarmos para parir. As mulheres quando pariam entre mulheres, quem estava com elas respeitava minimamente e só intervinha quando a coisa ficava minimamente complicada — até as parteiras faziam atrocidades às mulheres para tentar salvar um bebé. Não vou dizer que as mulheres não eram vítimas de violência obstétrica há muitos anos, eram. Quando uma mãe estava aflita com um parto obstruído fazia-se de tudo. A verdade é que a figura masculina tem aqui um papel muito triste na forma como se tem prestado cuidados no parto. Como é que alguém achou que, estando uma mulher deitada, ia ser mais fácil para um bebé sair? Claro que depois temos como maior causa de cesariana trabalhos de parto estacionário. Com muita frequência ouvimos as mulheres dizer “eu não dilatei”. Pois claro, esteve deitada, como é que haveria de dilatar?

Escreve também que com frequência assistiu a “desconhecimentos agudos do parto”. Como assim?
Como doula assisto a isso com muita frequência. Estamos a falar desta liberdade de movimentos, dos barulhos, das luzes. Uma das coisas que mais me custa é quando uma mulher chega a um hospital em trabalho de parto e a primeira coisa que tem é perguntas. Isto contraria qualquer princípio básico da fisiologia do parto, que tem muito de neurológico. Porque a maior parte das hormonas são produzidas no cérebro, são produzidas pelo hipotálamo que deveria de estar sossegadinho, mas não, está-se a estimular. A mulher chega e a primeira coisa que se faz é um questionário enorme que já poderia estar online e que poderia ser preenchido previamente — não é impossível, é só pensar-se nas soluções.

"Como é que alguém achou que, estando uma mulher deitada, ia ser mais fácil para um bebé sair? Claro que depois temos como maior causa de cesariana trabalhos de parto estacionário. Com muita frequência ouvimos as mulheres dizer “eu não dilatei”. Pois claro, esteve deitada, como é que haveria de dilatar?"

Isso também está relacionado com aquela sua ideia de que os quartos onde são feito os partos são demasiado “hospitalares”?
Desde que o parto passou para o hospital que passou a ser visto como um evento clínico. Mas antes de ser um evento clínico, o parto era (e é) um evento social e familiar. Enquanto isto não for visto assim na sociedade portuguesa nós não vamos mudar nada. Nos países desenvolvidos, as mulheres levam consigo para o parto quem querem e quem querem não é naturalmente 50 pessoas, estamos a falar de países civilizados. Uma das razões que me levou a ter o meu último parto em casa foi porque a minha filha de oito anos queria assistir ao parto. Isto era muito complicado em Portugal, o que não faz sentido nenhum. A maior parte das pessoas não entende isto. É um problema do atraso que levamos. Mas o atraso que os portugueses levam não se justifica que os políticos levem, lamento. Os políticos têm a responsabilidade de nos nivelar com os melhores países que existem, é para isso que lhes pagamos. Eu posso aceitar que os portugueses comuns não tenham informação, agora os políticos?

Isto está relacionado com o que a Sandra escreve no livro, de que o parto “natural” não é o mesmo que parto “normal”?
Hoje em dia, com muita frequência dizemos “mas isso é normal”. E depois quando vamos a ver, o que é normal é anormal. Para mim o normal é o que é biológico. Quando comecei este caminho, uma das analogias que mais gostei de ler foi uma que relacionava o obstetra com o agricultor. A verdade é que ao longo dos tempos temos percebido pela agricultura que passámos por um excesso de pesticidas e, agora, queremos todos o biológico. No parto é igual: nós tirámos o parto de casa porque efetivamente havia mais hemorragias, mais infeções, etc. Passou-se para o hospital e aí passou-se à história de termos mulheres presas com coletes de forças; as pessoas se calhar não têm noção disso, mas a mulher já pariu assim. A mulher que gritava era histérica, quando em casa ela fazia os sons que queria, naturalmente. Passar uma cabeça por onde passa sem se gritar… não sei porque é que nós mulheres temos de conseguir isto. Temos de fazer essa desconstrução na sociedade, o normal está a ser completamente anormal. Temos taxas elevadas de bebés a nascer com ventosas. Isto não pode ser visto por uma mulher como normal. Nascer não é nem precisa de ser assim. Eu sinto que as mulheres portuguesas têm andando a ser enganadas, politicamente enganadas. Para mim a responsabilidade é dos políticos e não dos médicos.

"Temos taxas elevadas de bebés a nascer com ventosas. Isto não pode ser visto por uma mulher como normal. Nascer não é nem precisa de ser assim. Eu sinto que as mulheres portuguesas têm andando a ser enganadas, politicamente enganadas. Para mim a responsabilidade é dos políticos e não dos médicos."

Acha, por exemplo, que muitas das cesarianas são injustificadas?
Claro que são. Entram no bolo do trabalho de parto estacionário ou da distocia [parto difícil]. É aquilo que eu digo sempre: sem liberdade de movimentos, sem respeito pelo que é biológico, claro que vamos para a cesariana. Não sei porque é que as pessoas se espantam tanto com a taxa de cesariana.

Mas também escreve que as mulheres automaticamente pensam que cesariana é um sinónimo de segurança…
Acho que todas nós ficamos confortáveis em saber que estamos num país onde as cesarianas acontecem facilmente. Eu fico feliz em estar num país assim, não gostaria de parir em África. Há intervenções que são necessárias e que fazem todo o sentido, não podemos ser cegos nas nossas defesas. Daí que o meu foco é o parto hospitalar — é onde a maior parte das mulheres estão a parir e onde os bebés estão a ser sujeitos a intervenções desnecessárias. Nem sequer existe uma monitorização das falhas, não há uma aprendizagem. Estou a acompanhar um caso surreal, de um bebé que foi registado num hospital público português sem o nome da mãe e essa mãe morreu. Isto aconteceu em Portugal. Sabe-se de quem é o filho, mas não se quis registar o nome daquela mãe porque morrer uma mãe num hospital é muito complicado. A verdade é que nós [mulheres] temos tido uma posição muito submissa no parto. Nós mulheres, estamos submissas no parto. Compete-nos a nós, mulheres adultas, proteger os nossos bebés. Não somos só mães quando eles nascem. Temos de nos proteger para protegermos os nossos bebés.

"É aquilo que eu digo sempre: sem liberdade movimentos, sem respeito pelo que é biológico, claro que vamos para a cesariana. Não sei porque é que as pessoas se espantam tanto com a taxa de cesariana."

É possível que, muitas vezes, as mulheres temam a ideia de um parto natural por desconhecimento?
Muitas vezes as mulheres não têm noção do impacto que o parto natural tem na nossa saúde. Um parto natural é quando o parto decorre com normalidade. Não é suposto chegarmos a uma triagem e uma das primeiras coisas que nos fazem ser um toque vaginal, quando não há fundamento nenhum para o toque vaginal. O toque vaginal pode ser um excelente recurso para aferir a posição do bebé, mas não deveria ser aplicado por rotina. As mulheres foram incutidas a ter muito medo da dor. A dor tem sido o mote para muitas das intervenções, quando as mulheres que parem com dor, de forma biológica, percebem que a dor é uma coisa fantástica e que nos mune o cérebro de hormonas. Gostava que um dia houvesse possibilidade de se fazer investigação em neurociências na área do parto, acho que iríamos ser surpreendidos.

Mas a dor é mesmo uma aliada?
A dor, como eu explico no livro, funciona como a nossa bússola, até para quando eliminar a dor, porque eu não sou apologista de que temos de ir com os partos até ao fim com dor quando eles já estão a ser traumáticos. Acompanho muitas mulheres onde sou a primeira a sugerir a epidural.

Acha que se romantiza muito a maternidade?
Sim. Esta questão biológica que nos é passada e a ideia de que gravidez não é doença acaba por ser um contrassenso. Isto é uma evolução de mentalidades. As mulheres de hoje não trabalham como se trabalhava antigamente, no campo e a apanhar sol. Nós hoje não nos mexemos, a maior parte das mulheres estão quietas, sentadas numa loja ou num escritório. Quantas são as mulheres grávidas que durante todo o dia não apanham sol? Ninguém pensa nisso.

Escreve também que a nossa alimentação, mesmo antes de estarmos grávidas ou de conceber, pode afetar futuras gerações…
A epignética, uma ciência relativamente recente, tem-nos vindo a mostrar que aquilo que fazemos hoje vai condicionar as gerações futuras e não só a dos nossos filhos. Sim, isto dá-nos uma maior responsabilidade.

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