Angela Merkel

Angela Merkel não se esqueceu da História

Autor
307

A atitude de princípio de Merkel contra a ocupação russa da Crimeira é uma raridade nas relações internacionais. Putin não é eterno e, quando deixar ou for afastado do poder, a política russa mudará.

Se todos os alemães da República Democrática Alemã, um dos melhores exemplos do “socialismo real”, se tivessem resignado com a divisão do país, não teria existido a sua reunificação. Por isso, não se pode esquecer que a Crimeia continua a ser território ucraniano ocupado pela Rússia.

Esta posição da chanceler alemã Angela Merkel é uma lição de História para os seus adversários políticos que, na luta pelos votos do eleitorado ou por outros interesses, vão ao ponto de esquecer o passado, mesmo que recente.

Christian Lindner, dirigente do Partido Democrático Liberal da Alemanha, e Alexander Gauland, candidato a chanceler pelo partido “Alternativa para a Alemanha”, propuseram que a Europa feche os olhos à mudança do estatuto da Crimeia e, no lugar de continuar a pressionar a Rússia, deve virar-se para a “reorganização das relações” com Vladimir Putin. Esta posição goza de apoio também entre alguns políticos europeus, incluindo portugueses, na esperança de, desse modo, “exportar mais umas garrafas de vinho e azeite” ou até cavalos lusitanos.

Angela Merkel respondeu de forma bem clara a esses políticos numa entrevista ao jornal Frankfurter Allgemeinen Sonntagszeitung: “Eu, por exemplo, ouço dizer que é preciso simplesmente reconhecer a anexação russa da Crimeia. E raciocino assim: o que teria então acontecido se para connosco na RDA existisse a atitude: ‘A Alemanha foi dividida, aqui nada mudará’?” Além disso, ela frisou a coragem daqueles que sempre mantiveram vivo o sonho da reunificação alemã.

(Faço aqui um parêntesis para recordar que o Ocidente, em 1975, reconheceu a zona de domínio soviético a troco de promessas que não foram cumpridas por Moscovo no campo das liberdades democráticas e dos direitos humanos.)

É importante assinalar que a actual chanceler alemã viveu grande parte da sua vida na República Democrática Alemã e lutou para que o seu país voltasse a unir-se. Os políticos visados na crítica viveram e fizeram carreira na República Federal Alemã.

Do ponto de vista da política “pura e dura”, “pragmática”, Lindner e Gauland até podem ter razão, pois o princípio por eles defendido em relação à Rússia certamente seria bem-recebido no Kremlin e premiado com chorudos contratos comerciais e económicos.

Os alemães, e não só eles, têm bem presente o exemplo de Gerhard Schroder, antigo chanceler alemão que, depois de deixar esse cargo, foi trabalhar para a empresa pública russa Gazprom. Recentemente, Vladimir Putin promoveu-o a membro do conselho de directores da Rosneft, a maior petrolífera russa. Escusado será dizer que Schroder é daqueles políticos alemães que aconselham a esquecer a anexação da Crimeia pela Rússia.

Mas Angela Merkel não se deixa levar pelo pragmatismo, que pode dar frutos a curto prazo mas também trazer novas dores de cabeça e problemas maiores, pois, após a anexação da Crimeia, a Rússia já ocupou uma parte significativa do Leste da Ucrânia.

A chanceler alemã conhece bem o Presidente russo e a sua política externa agressiva e demagógica, que foi demonstrada em mais uma “iniciativa de paz” de Putin para a Ucrânia.

A diplomacia russa propôs no Conselho de Segurança da ONU o envio de capacetes azuis para a linha que divide os territórios ocupados por separatistas pró-russos (leia-se, pela Rússia) e as tropas ucranianas para apoiar o trabalho dos observadores da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, mas recusam-se a aceitar a presença de capacetes azuis na fronteira entre a Rússia e a Ucrânia.

O objectivo de Moscovo é claro: deixar aberto o corredor de fornecimento de armas aos separatistas e congelar o conflito, como fez na Transnístria (território da Moldávia).

As autoridades de Kiev não aceitaram a proposta russa e penso que a Alemanha e França, intermediários na busca de uma solução para o conflito, também a recusarão.

A atitude de princípio de Angela Merkel é uma raridade nas relações internacionais. Pode não dar frutos imediatamente, mas eles aparecerão mais tarde. No fim de contas, o Presidente Putin não é eterno e, quando deixar ou for afastado do poder, a política russa certamente irá mudar. A Rússia irá ter de sair do beco para onde está a ser levada por políticos corruptos, arrogantes, mas míopes.

Por isso, a reposição do Direito Internacional na Crimeia e no Leste da Ucrânia poderá tornar-se uma realidade como se tornou a reunificação da Alemanha.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Rússia

Quem esconde carrascos estalinistas e o seu chefe?

José Milhazes
249

Um tribunal de Moscovo recusou novo pedido da família de Raoul Wallengerg, diplomata sueco que salvou do Holocausto dezenas de milhares de judeus, de acesso à documentação sobre o seu destino na URSS.

União Europeia

O pior não aconteceu (nem vai acontecer)

Paulo de Almeida Sande

A vaga de fundo anti-europeia, nacionalista e populista, que se começou a formar nas brumas distantes da velha Albion e parecia ir invadir o continente, afundou-se nas margens sólidas da moderação.

Brexit

O discurso de May causa dúvidas

João Marques de Almeida

Continua por clarificar a questão das garantias jurídicas dos cidadãos europeus que trabalham no Reino Unido. Estarão protegidos pelo Tribunal Europeu de Justiça? May nada nos disse sobre isso.

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site