Depois deste ano a escrever e a fazer apresentações sobre liderança, não posso (não devo) fazer aqui um exercício decorativo final apenas para efeitos de Natal. Foi um ano duro, denso, exigente para muitos. E um ano que expôs fragilidades, acelerou decisões, cansou pessoas e deixou claro que muitos líderes estavam preparados apenas para o conforto, não para a adversidade. O problema não é novo. Apenas ficou mais difícil de esconder. E isso acontece ano após ano.

Chegados a este Natal, a pergunta certa não é o que correu mal, mas o que precisamos, urgentemente, de oferecer, e de exigir, às lideranças. Não como presentes simbólicos, mas como kit de sobrevivência e de relevância.

Primeiro: Carácter. Não o carácter proclamado em discursos, mas o que se vê quando ninguém está a olhar. Coerência entre o que se diz e o que se faz. Coragem para decidir quando não há consenso. Capacidade para assumir erros sem procurar bodes expiatórios. Sem isto, a liderança é apenas gestão de curto prazo suja por patine moral.

Segundo: Lucidez. Num mundo saturado de espuma várias e poeiras densas, o líder tem de saber separar sinal de distração. Menos reação, mais pensamento. Menos modas, mais critério. A liderança do futuro, já o devia ser no presente, exige clareza estratégica, leitura fria dos dados e capacidade de dizer “não” a muita coisa, precisamente para poder dizer “sim” ao essencial.

Terceiro: Exigência. Não confundir empatia com permissividade. As pessoas não precisam de líderes simpáticos; precisam de líderes justos. Que puxem por elas, que definam padrões altos, que não normalizem a mediocridade em nome de um falso conforto emocional e de uma segurança psicológica que nunca existirá como acham as cabeças das pessoas que a querem (não na sua práxis). Equipas crescem quando sentem que alguém acredita que elas conseguem mais.

Quarto: Responsabilidade. Liderar é assumir o peso das decisões e das consequências. É proteger a equipa nos momentos difíceis e dar-lhe palco nos momentos de sucesso. É compreender que liderar não é ter razão, é responder pelo impacto.

Por fim: Humanidade. Mas sem ingenuidade. Líderes que escutam, que compreendem contextos pessoais, que respeitam limites. Mas que não abdicam da missão, dos resultados e da essência das coisas. Humanidade não é abdicar de tudo; humanidade é sinal de maturidade.

Se tivéssemos de escrever uma cartinha ao Pai Natal da liderança, seria curta e grossa: menos ego, menos vitimização. Mais carácter, mais lucidez, mais exigência, mais responsabilidade. Leu bem. Menos ego e vitimização. Tudo o resto a subir, mais, mais e mais.

Porque, depois deste ano, ficou claro: o que nos falta não é talento. É liderança à altura do tempo que vivemos. E essa, ao contrário das presentes, não se embrulha. Constrói-se. Exige-se. E pratica-se todos os dias.