Crónica

Terei que me aguentar

Autor
  • Tiago Tribolet de Abreu
4.808

Aguentei o mais que pude (homem não chora, médico não chora), fiquei com ela o mais que pude, dei-lhe festas na cara, enquanto sentia o filho a chorar baixinho atrás de mim.

Ele, deitado na cama da UCI, tinha 86 anos. Ela, sentada na cadeira ao seu lado, tinha 84 anos.

Perguntou-me “então Dr, que me diz?”.

Eu já tinha explicado tudo ao filho, homem grande, alto e forte. Que o gânglio da axila era maligno, o que queria dizer que todos os gânglios dentro do peito, nos pulmões e à volta deles eram malignos também. Que não tínhamos solução e que o seu pai iria morrer mal parássemos os tratamentos que o mantinham artificialmente vivo. E o filho, homem grande, alto e forte, subitamente pequeno e de olhos molhados, a tentar não chorar, perguntou “ai, o que é que eu digo à minha mãe? Ela não vai aguentar”. Disse-lhe se queria que eu tentasse. Encolheu os ombros. E eu lá fui ter com ela, sentada ao lado da cama. E agora ela perguntava-me “então Dr, que me diz?”.

Perguntei-lhe: “e a Sra, o que é que me diz, o que é que pensa sobre isto?”.

Ela disse “penso que ele vendia saúde, e agora… nem para ele nem para ninguém. Que coisa tão velhaca que lhe foi acontecer”.

Com muito jeitinho, expliquei-lhe que eu achava que o seu marido não ia sobreviver, que não ia superar aquela situação, que o seu tempo era curto e o fim estava para breve.

Não chorou alto, não gritou, nem tremeu. Com uma mão, alisava sem fim a colcha da cama, já bem direitinha. Com a outra mão segurou a minha, que lha ofereci. E disse, olhos com lágrimas, dignas, postos nos meus: “terei que me aguentar, não é Dr? Terei que me aguentar”. E não disse mais nada, mão a apertar a minha, mão a alisar a colcha, lágrimas silenciosas a escorrer pela cara.

Aguentei o mais que pude (homem não chora, médico não chora), fiquei com ela o mais que pude, dei-lhe festas na cara, cheio de vontade de lhe dar um beijinho, enquanto sentia o filho a chorar baixinho atrás de mim.

Por fim levantei-me, passei pelo filho e bati-lhe no ombro. Passei pelos enfermeiros, em silêncio a olharem para mim, e fui para o gabinete.

Fechei a porta.

Médico.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Crónica

Meus pais e seus aparelhos eletrônicos

Ruth Manus
219

Parece que todos os aparelhos eletrônicos que os meus pais compram foram vítimas de algum tipo de maldição que tornou seu funcionamento algo absolutamente anormal. 

Crónica

Tire o verbo odiar do seu vocabulário

Ruth Manus
1.693

As pessoas passaram a identificar-se mais pelos seus sentimentos negativos do que pelos positivos. É como se odiar ou não suportar coisas lhes desse mais credibilidade do que amar ou gostar de algo.

Crónica

Ano novo vida velha

Paulo de Almeida Sande

Ao desejar bom Ano não prometer. A vida é o tempo que passa e não contempla fronteiras, de calendário ou outras. A vida é só que o fazemos dela, seja qual for o dia.

Crónica

O Matuto vai ao Barbeiro

Filipe Samuel Nunes
167

O Barbeiro deu o serviço por terminado com umas toalhas quentes embebidas em álcool. E o Matuto ponderou na ironia: Ele só queria cortar o cabelo. Mas as toalhas e o álcool intrometeram-se.

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site