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Miguel Judas, jornalista freelancer e guia de viagens, conhece Portugal a pé como ninguém, por ser há anos apaixonado pelo trekking e pelo trail running. Siente que o mais importante não é a partida nem a chegada, o que interessa é o caminho. Lançou há sete anos os 200 melhores percursos de trekking de Portugal. Traz-nos agora "Conhecer Portugal a Pé", com sugestões de percursos por regiões e temáticas para todo tipo de caminhantes, de famílias até atletas. Vamos conhecer locais tão fabulosos e enigmáticos como a cascata da Pedra da Freida, o Corno de Bico, a nossa única salina na serra que já os templários exploravam, a Rota dos fósseis, que tantos estrangeiros atrai, a Mata dos Medos, a Mesa dos Sete Abades, os Sete Vales Suspensos, os morcegos da Lapa da Canada, o Bosque Reliquial de São Simão, a reserva do repouso e silêncio de Porto Muniz e o percurso dos Groos ou Praia do Zorro. Olá, Miguel.

Olá.

E bem-gracias por teres aceitado este meu convite. Bem-vindo ao Observador.

Muito obrigado.

Todos estes nomes ecoaram coisas na tua cabeça?

Sim, por acaso foi engraçado. À medida que eu via estavam a aparecer-me imagens na cabeça.

Exato. É porque há coisas de facto incríveis e tu tens este gosto, esta facilidade e esta missão de nos convidar também a conhecê-los, que é muito giro. Muitos destes caminhos não se fazem sequer de carro, não há hipótese de chegar a estes sítios.

Não, há a hipótese de chegar a um ponto inicial do percurso.

Exato.

Muitas vezes e depois a partir daí faz-se a pé.

Muito bem. Esta paixão pelo desporto, há aqui uma paixão pelo trekking, uma paixão pelo desporto, uma paixão pelo trail running. O que é que veio primeiro? As viagens? O que é que veio primeiro?

Eu acho que na verdade, antes de tudo, veio o jornalismo. Eu comecei a escrever sobre estas temáticas já há muitos anos, acho que há 20 anos. Acho que um dos meus primeiros trabalhos na Visão, onde ainda colaboro, foi um trabalho sobre-

Aqueles percursos, 20 ideias.

Foi uma coisa de percorrer Portugal, não foi a pé, mas fiz muitas coisas a pé. Fizemos o interior. Foi uma grande reportagem na altura, que foi capa, daquelas capas de verão, e fizemos todo o interior. Eram duas equipas, fizemos todo o interior de Portugal e fomos andando por aí.

Ganhaste esse gosto.

Ganhei esse gosto. Depois também já corria, já fazia trail running sem saber que existia trail running, porque sempre que ia para qualquer lado levava umas sapatilhas e corria pelo meio do campo. E sempre gostei de andar a pé e depois mesmo nas viagens, no jornalismo de viagens e enquanto viajante, digamos assim, sempre gostei de andar a pé. Mesmo nas cidades, é daquelas coisas que sou capaz de andar 10 km num dia a pé ou 20.

É o que a gente faz quando está em viagem. Normalmente, quando estamos em viagem, aqui apanhamos o carro para ir para ali, dois quarteirões. E quando estamos em Espinhal, andamos 18 km.

Exatamente.

É verdade. Mas este teu gosto também vem, tu fazias escapadas de mochila às costas pela Costa Vicentina quando eras miúdo, é verdade?

Sim, muitas vezes. Isso era uma das coisas que fazia. Lembro-me de ser miúdo, enfim, adolescente.

Portanto, há cinco anos.

E lembro-me-

Essas escapadas.

Lembro-me, sou alentejano, de trabalharmos no verão ali-

De onde é que tu és?

Perto de Elvas, Vila Boim. É uma freguesia de Elvas, do concelho de Elvas. Com os meus amigos, de irmos trabalhar, apanhar fartos para ter dinheiro para escapar para a Costa Vicentina. Aí não caminhavamos tanto, a ideia era mais acampar, lermos cómics, ir para a praia.

E de facto é um sítio fabuloso para quem gosta de rotas e trekkings. Todo aquele sítio tem várias rotas que atravessam aquela zona, desde Aljezur até Rifana e cá para baixo, todas aquelas praias dos Mil Homens, das Amoreiras, e são praias fabulosas, da Amália e por aí fora, desde Almograve.

Sim.

É uma zona fabulosa para fazer trekkings como tu fazes.

É, e acho que é um claro exemplo de como este tipo de turismo pode criar riqueza.

Pode ser sustentável.

Pode ser sustentável, criar riqueza. Falo, neste caso, no projeto da Rota Vicentina, que é um projeto privado que reuniu operadores da zona, que criaram uma nova época alta no outono e na primavera, numa zona que só vivia no verão. E de repente, tem toda gente que vem do norte da Europa, e eu conheço muito bem essa realidade lá, porque já fiz muitos trabalhos com eles também.

E tudo, desde BTTs, trekkings, não sei quê. Há muitas rotas sinalizadas.

Tem as bicicletas, tem o caminhar, tem depois toda uma logística associada e acima de tudo conseguiram agregar a população à volta do projeto. Ou seja, há também programas com saberes locais, de aprender a fazer o pão, as olaria, toda uma série de coisas que complementam o simples facto de andar a pé.

É muito engraçado, porque este teu livro, este que eu tenho aqui, o "Conhecer Portugal a Pé", e o anterior também, já fazes questão de dizer: "Há este património, há esta Basílica Menor do Santo Cristo", nunca tinha ouvido falar nisso. E então são pontos que apetecem. Eu tive a sorte de conhecer alguns, Pintões das Junias, até mesmo para ir a pé, e aquilo é fabuloso. E conhecer assim alguns recantos que as pessoas de carro não conseguem chegar lá mesmo.

Exato.

E é muito engraçado porque descobres uns recantos que fazes questão de dizer mesmo a parte patrimonial e artesanal, tu dizes: "Isto vale a pena, já agora que estão aí, conheçam isto". É muito giro.

Sim, esse é o meu lado, de certa forma, mais jornalístico, porque eu acho que fazer um livro destes para as pessoas-

Agora só desporto

...é, para as pessoas que já são os habituais praticantes destas atividades, eu acho que não é necessário. Muitos deles já têm esta informação, muita informação está disponível na internet. Eu lembro que no meu primeiro livro, uma das críticas, houve pessoas que fizeram essa crítica, naqueles comentários de internet, era que faltavam mapas ou que faltavam uma série de coisas. Mas esse tipo de coisas estão disponíveis na internet. Eu acho que este livro é mais para a pessoa, é um guia. Na verdade, é um guia, é um livro que as pessoas quando vão para qualquer lado do país podem levá-lo e folhear.

E dá-se a localização, os graus, a georreferência. Isto é possível chegar lá com o telemóvel, quem tenha GPS consegue?

Sim, já me disseram que às vezes aquilo não batia certo, mas isso acontece, mas é ali um erro.

Vai ter outra cascata ao lado.

Às vezes não bate certo com o ponto mesmo inicial.

É levares um bom GPS.

Mas neste caso, e neste e no outro livro, eu forcei-me também por pôr Percursos que estavam sinalizados, ou seja, são oficiais, estão sinalizados, as pessoas facilmente chegam lá, mas às vezes pode haver uma falta de manutenção ou outra.

Sim. Isso quer dizer que isso é uma seleção tua. Tu dizes: "Nem todos eu fiz. Isso são coisas que estão referenciadas e eu conheço a grande maioria deles." Isso quer dizer que há uma seleção feita por ti, do teu gosto pessoal, e quer dizer que de lado ficaram outros 200, se a gente quisesse, se tu conseguias fazer outros volumes.

Sim, o primeiro livro, o critério era mais a quantidade. Apesar de neste livro ter mais percursos do que no outro, porque este acaba por ter 250 ou alguma coisa assim. O outro tinha 200 e era mais a quantidade, e aquilo que estava feito de norte para sul, com algum nas ilhas, este já tem mais ilhas.

Sim. Açores e Madeira.

Sim, Açores e Madeira. Mas tinha esse lado da quantidade. Neste caso, há um critério editorial que é meu. Optei por dividir por norte, centro, sul e ilhas, e depois dentro dessa divisão, optei por criar categorias.

A família, o desafiante.

Com história.

Com som da água.

Som da água, vista de mar. Até vista de mar, porque eu acho que é um luxo que temos pra quem gosta de caminhar, especialmente pra estrangeiros, principalmente as pessoas da Alemanha, da Suíça. Obviamente, têm muitos trilhos nos Alpes, mas não têm trilho junto ao mar. E nós temos isso e é importante também referir.

Muito curioso. A tua vida, como tu disseste, foi muito de jornalista.

E continua a ser. É a minha atividade principal.

E é isso que eu estava a dizer, tu escreves sobre muitas coisas, desporto, sociedade, ambiente, economia. Hoje em dia, mais cultura. Tu bates todos os festivais, corres tudo.

Sim, cultura, mais música e viagens. Hoje em dia são assim as áreas em que me especializei.

A Visão, estou a pensar aqui nas Invasões e na Volta ao Mundo, onde também já passaste. O Diário de Notícias, claro, o Jornal de Negócios, aquelas revistas Sustentável, MO Magazine, que tu fizeste várias coisas.

Sim, agora estou num projeto novo.

Diz.

Chama-se Green Effect.

Já estás na net a falar disso.

Já.

Que é um site que é-

É um site de literacia e fact checking ambiental sobre ambiente e sustentabilidade. É um novo projeto.

Isso é bom pra combater algumas ideias mais fundamentalistas.

E alguns mitos que se criam.

Isso é importante.

E é uma daquelas áreas que uma pessoa até se orgulha trabalhar nela.

Tu és daquelas pessoas, eu olho pra ti, Miguel Judas, e penso que tu és uma pessoa daquelas que ama o que faz, portanto, tu não trabalhas um único dia da tua vida. Deve ser tão prazeroso e tão gratificante o que tu fazes. E também música, porque tu fazes o que tu adoras também, com música também gostas, vê-se nos teus artigos.

Não mudava.

Isso é muito bom.

Agora dá trabalho, há dias que sai um pão.

Claro, isso não é em questão. E tens deadlines, tens coisas, tens que correr com isso. Sempre gostaste muito isso também, de correr contigo. Mas és também, desde há alguns anos, líder de viagens nesta landscape. Que é muito curioso, porque lideras viagens ao sul de Itália, por exemplo, tens estes sete dias em Nápoles, com Capri e com estas Ischia, as ruínas de Pompeia, o Vesúvio. Essas viagens, ficam já a saber que a próxima vai ser maio e outubro do ano que vem.

Exatamente.

E também Cabo Verde, onde vais nove dias, vais pra Terra da Morna, em Furna, vais pra São Nicolau também, já este ano, em dezembro, ainda vais voltar.

Essa é uma viagem de trekking.

Mas é importante, nestes quatro destinos que eu te vou dizer, tens sempre trekkings. Deves ter no Uzbequistão também?

Não, o Uzbequistão é mais cultural, é mais a Rota da Seda, as cidades patrimônio mundial.

Muito bem, que é nove dias esta viagem que tu fazes. E visitam Samarcanda, que deve ser um sonho também, Bucara e por aí fora. E o Irão, tu acabas de chegar do Irão. Aliás, esta viagem estava marcada e tu chegaste do Irão e adiamos pra hoje. Eu disse: "Se puder ser logo a seguir, porque eu queria que isto estivesse fresco", porque tu gostas muito de lá ir, gostas muito do Irão, és apaixonado pelo Irão, como eu sou. E por isso tive a sorte de lá há um ano, nesta altura, e de facto é um país completamente fascinante, é uma surpresa.

É um dos meus países favoritos no mundo.

E Miguel, eu já aqui tive dois convidados, fotógrafos, que fizeram um livro sobre o Irão, e quando eu começo a falar da hospitalidade daquele povo, um deles começa a chorar e eu percebi que havia ali, ainda bem que eram dois, porque o outro compensou aquele silêncio sepulcral que eu fiquei admirado, e de facto traz muitas saudades boas a um país que tem um povo único, de hospitaleiro, que tiram selfies contigo e perguntam de onde é que vens, o que é que já viste, o que é que te falta ver, onde é que gostavas de ir. Hospedam-te em casa deles se quiserem. É impressionante. No entanto, não é nada a ICMágica que nós fazemos. Porque uma coisa é o governo deles e outra coisa é o povo na rua.

Sim, e eu acho que às vezes há uma, como é que eu hei de dizer isto?

Diz, como te vier na alma.

Não há um preconceito, há falta de informação.

Claro.

E aqui eu falo enquanto jornalista também. Acho que às vezes há preguiça da nossa parte. Não é bem preguiça, acho que nós às vezes recebemos as coisas e não escavamos pra tentar perceber como é que realmente são.

Fact checking.

E há, de facto, um esforço, digamos assim, se calhar do governo iraniano, de passar uma imagem que não corresponda à realidade do seu povo.

Mas negativa, então, pro mundo inteiro. Se calhar amiga pros outros xiitas.

Sim, se calhar negativa pro mundo inteiro, mas demonstra que se calhar o país é outra coisa.

Pronto, eu quando lá estive também, a única coisa que me fez muitas coisas boas, e depois de patrimônio, percebes tudo aquilo, aqueles mausoléus dos reis, do Ciro, é uma coisa que enche a alma que nem Petra, é uma coisa impressionante. E por isso é uma coisa que eles fazem questão de dizer: "Nós somos uma república islâmica, não somos um Estado islâmico." Eles não gostam de um Estado islâmico, e é engraçado.

Sim.

E dizem: "Nós temos um parlamento, as mulheres guiam e são deputadas." Agora, de facto, tem um governo com aquele conselho dos superiores. E isso é que me fez impressão lá, a desesperança. Nossa guia, por exemplo, que é muito bem casada e com um bom regime, era guia freelancer, o marido era veterinário do Estado, até viviam bem, mas não querem ter filhos porque não vale a pena ter filhos num país assim. Isso fez muita impressão. Isso é que me fez muita impressão. Não vale a pena, pra quê? Há partidos da oposição, mas não podem fazer nenhuma lei que o Conselho Superior não aprove. Portanto, não adianta votar, sequer.

É um país muito interessante também a esse nível.

É muito estranho isto.

Eu vou lá desde há cinco anos regularmente.

Sorte.

E evoluiu muito. A sociedade evoluiu muito nos costumes, numa série de aspectos que não passam cá para fora. Eu ano passado estava lá quando foi essa questão. E hoje em dia a realidade já é outra completamente diferente, para melhor.

Isso é boa notícia. Gosto disso.

Hoje nas grandes cidades muitas mulheres já nem sequer usam nada na cabeça.

Desculpa, dizias o rabo de cavalo, aquela coisa assim?

Já nem isso.

Isso é bom. Houve um pequeno avanço. Eu lembro também dos cafés que tu falas. Eu estive em cafés, só amigas à conversa umas com as outras, todas animadas, e eu pensei: isso é um café só de mulheres e amigas. Não. Cafés chá maravilhoso, muito hospitaleiros sempre, muito simpáticos. Os cafés normais na rua a falar do governo, eles falam.

Sim, e criticam o governo.

É uma imagem que a gente tem.

Nós temos uma imagem completamente medieval. Achamos que as mulheres andam vestidas de preto na rua.

E que não podem andar, brincar.

Não podem nada, não podem fazer nada. E não é verdade.

Os cafés à noite vão passear para os parques com as amigas e com a família toda, sentar às pontes.

Teerão e Isfahan são cidades super cosmopolitas, que poderíamos sentir completamente em casa, sem qualquer choque cultural que não seja o da hospitalidade, que nós não estamos habituados a ser tão bem tratados por estranhos.

Não estamos mesmo. E eu senti que é uma coisa tradicional deles, é da alma deles. Eu lembro que estive em Damasco já há 15 anos, antes das guerras de ISIS, e eles diziam-me: "Tu gostas de cafés?", também muito tolerantes, até a religião. Visitaste o bairro arménio, sabes o que é, as igrejas, fazem questão de mostrar o tesouro real. Nunca roubaram um diamante ao chá, é o tesouro que eles mostram com muito orgulho, apesar de ser república islâmica, é muito engraçado. Mas eu lembro de já em Damasco tinham dito: "Tu gostas de estar em cafés e conversar conosco, vais adorar Teerão, porque eles lá também fazem uma vida. Bagdá não", disseram eles, "mas Teerão vais gostar". E eles disseram que este regime é um bocado apertado e que sem liberdade, é verdade, não podem viajar quando querem, esse tipo de coisas, mas dizem eles: "Pior são os nossos vizinhos". Eles pensam no Iraque, pensam no Afeganistão, e estão piores que nós. Se calhar isto segura-nos de estar numa situação ainda pior. É complicado.

Eu este ano em Isfahan cheguei a ir visitar uma sinagoga, porque há uma comunidade judaica grande na cidade, tal como em Teerão, e o guia que eu tinha na mesquita, tive um guia, que por acaso era aquele rapaz, e ele disse: "Ah, mas querem ir visitar?" Então fomos e bebemos lá uns cafés com umas pessoas da comunidade judaica.

Contaste uma vez também que ias a passar à frente de uma mesquita e foi com os amigos, puxaram-te para dentro da mesquita. Pensaste: "Meu Deus, agora vão puxar-nos para dentro da mesquita", mas era para contar coisas e explicar o que é que eles fazem.

A única situação que eu tive que senti insegurança no Irão foi a primeira vez que lá fui. Estava num café e saí. Aí foi uma surpresa, porque eu lembro que estava num café completamente ocidental, a ouvir boa música.

Rock psicadélico.

Um rock psicadélico, uma coisa assim. E eram duas da manhã, porque eu ia sozinho numa daquelas imensas avenidas de Teerão e passou uma mota com dois tipos que quando me viram fizeram impressão de marcha e eu pensei: no último dia era um bocado chato acontecer aqui qualquer coisa, mas pensei: o que é que estes tipos querem? E basicamente abrandaram e gritaram "Welcome to Iran" e seguiram a vida deles.

Estamos a falar também de seres líder de viagens, Miguel, de teres trazido este livro chamado "Os 200 Melhores Percursos de Trekking em Portugal", um livro que tu editaste há sete anos na Saída de Emergência, onde diz que o mais importante não é a partida nem a chegada, o que interessa é o caminho. Falas de Portugal ser um mundo por descobrir, com 561 quilómetros de comprimento, 218 de largura e 2351 de altitude. Estamos a falar do pico, obviamente, e que apesar de não ser um território muito grande, é uma coisa muito curiosa e que já Orlando Ribeiro, um grande geógrafo, dizia naquele livro do Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico. Nós não somos um país muito grande, mas temos uma variedade de paisagem extraordinária e isso também é uma coisa que descobres nos vários percursos que fazes em todo o país.

É, e eu acho que é um dos grandes trunfos do país e é uma surpresa também para quem nos visita. E eu tenho alguns amigos estrangeiros que também gostam destas atividades. Lembro-me especialmente de um amigo meu, que é um grande amigo meu americano, que todos os anos regressa cá. E que faz sempre uma das atividades dele, neste caso, é corrida de trilho.

E faz sempre um diferente?

Faz sempre uns diferentes, vai sempre visitar uma região diferente, mas também vai sempre aos Açores.

Ah, é? Tem uns fixos. Eu percebo, porque eu também tenho uma paixão especial pelos Açores e desde aqueles trilhos na Ilha de São Jorge ou nas Flores, que vês aquelas coisas, as cascatas todas. Tu tens neste livro também algumas referências.

Sim, Açores para mim é casa também. É daqueles sítios.

Onde voltas sempre.

Volto sempre, tenho muitos amigos e sou quase açoriano.

E é muito engraçado que esta coisa da caminhada aumentou quase 20% face aos últimos anos, então depois da pandemia. E de facto já é uma das atividades preferidas de quase 6 milhões de portugueses. São números recentes. É impressionante.

E houve um grande investimento também por parte de operadores turísticos, há pouco falei da Rota Vicentina, mas há outros casos, e acima de tudo as autarquias.

As câmaras e freguesias também apoiam imenso.

As autarquias investiram muito nesta, porque perceberam que também é uma maneira de trazer pessoas, atrair pessoas e com isso depois também cria-se riqueza.

Exatamente. É incrível, porque Portugal, de facto, tem centenas de quilómetros de trilhos. Só a Costa Vicentina são uns 450. É impressionante. Impressionante como esta mesma Condé Nast Traveler, que diz que a Costa Vicentina faz parte destes trilhos mais bonitos, que está no top seis dos mais bonitos do mundo. É impressionante.

Sim, a Rota Vicentina é considerada um dos melhores trilhos do mundo.

A Via Algarviana, esta tem 300 quilómetros também. Tu nunca fizeste isto seguido todo, pois não?

A Via Algarviana eu já fiz algumas partes a caminhar, em reportagem.

Isto é uma coisa que atravessa o Algarve de Oeste a Leste.

A Via Algarviana eu já a fiz toda porque há uma prova de corrida um bocadinho absurda, que são 300 quilómetros Há quem faça a solo. Eu nunca a fiz a solo, mas faço por estafeta, ou seja, somos quatro pessoas e fazemos um quarto de cada vez. Eu no ano passado fiz 82 km, fiz a terceira etapa.

Meu Deus. Isso é seguido?

É seguido, sim. E à noite, neste caso foi à noite.

Ainda por cima. É verdade que ainda há um Portugal, ao ler este teu livro e ao ver, ao folheá-lo, apercebi-me disso, há um Portugal ainda muito pouco explorado pelos portugueses.

Há, mas é cada vez mais explorado. A pandemia, de certa forma, com todo o mal que trouxe, um aspecto positivo que teve foi esse, as pessoas viraram-se para dentro, tiveram que viajar cá dentro. Eu lembro-me, por exemplo, há uma Amazônia que eu gosto muito, que é a Serra da Lousã.

E tem o Talasnal e tem aqueles baloiços, que até metes moda nas câmaras.

Aliás, foi um dos primeiros sítios onde se fez esses tais baloiços.

Mas isso leva as pessoas a pôr no Instagram, isso chama pessoas.

Sim, chama pessoas e as pessoas querem ir só para tirar fotografia. Agora há em todo lado, em Passadice e tudo isso.

Então fizeste isso, começaste por aí.

Mas a Lousã, eu lembro-me na altura da pandemia e dou-me bem com muitas pessoas lá e tenho alguns contactos também na câmara. Já vou lá há muito tempo, tanto correr como caminhar, em reportagem. E eu lembro-me de uma pessoa me dizer que não havia lugar em agosto ou em julho, num desses anos da pandemia, que eles não conseguiam dar resposta pela procura que tiveram. E a Lousã não é propriamente aquela serra, não é a Serra da Estrela ou Gerês, que está logo no que toda a gente lembra.

Está no centro, Aldeias do Xisto.

Mas está no centro e tem as praias fluviais, há ali muitos trunfos turísticos, mas que realmente as pessoas redescobriram nessa altura e encheram e esgotaram tudo aquilo.

É bom sinal.

E a partir do momento em que isso acontece uma vez, depois a coisa replica-se ano após ano.

O que é essencial levar numa volta destas, além de água e um cantil de água?

Isso depende da extensão do percurso, do nível de dificuldade do percurso. Um percurso desses que eu tenho aí que são familiares, eu acho que água e alguma comida e uns sapatos confortáveis.

Levas dasquelas barrinhas energéticas ou não?

Isso quando vou fazer as tais ultramaratonas acima da distância da maratona, aí sim.

Meu Deus!

Aí sim.

O que quer dizer acima da distância da maratona? Mais de 42 quilómetros?

Mais de 42 km.

E que fazes às vezes?

É uma chamada ultramaratona.

E estou agora a tirar exemplos do livro anterior, do "200", que fala, por exemplo, da rouca, Passadiços do Paiva. Já ouvi dizer que nos Passadiços do Paiva já tem que se reservar.

Sim, esse é um daqueles casos.

Agora tem que se reservar. E houve até alguma destruição com incêndios, mas já tudo reposto.

Sim, aquilo já foi reposto várias vezes.

Começa no Espinho, que eu lembro-me disto muito bem, são 17 km, de dificuldade baixa, quer dizer, que pode-se ir em família.

Sim.

Tem este o rio mais selvagem de Portugal, o Paiva, claro, e onde passam na ponte pedonal, ou não?

Agora sim, na altura quando eu escrevi isso ainda não existia a ponte.

Vale a pena.

Na verdade, devo confessar que ainda não fui à ponte, que entretanto não voltei lá.

Eu quando fui lá ia ser à loucura, havia três meses, não deixaram atravessar. E tem a nova Rota dos Fósseis, é outra coisa também muito famosa. É aquele dos trilobites, não é?

Sim. Esse é um trilho que se pode fazer, aquilo demora pouco tempo.

É três quilómetros? Penha Garcia, tem um castelo ali interessante.

Exatamente, dá para ver o castelo, dá para ver a aldeia, passa-se pelo rio.

Eu fiquei muito curioso com isto, ver os fósseis, os trilobites vêem-se mesmo na rocha.

Vê-se mesmo na rocha e é uma coisa que se faz muito bem com crianças, por exemplo. E é uma paisagem completamente diferente de tudo, porque depois aquilo tem o vale do rio e tem o lado também da aldeia.

Isso apetece imenso, que eu acho imensa piada. E isto pertence ao Geoparque Naturtejo, é uma coisa até classificada. Impressionante, fiquei muito impressionado com isto, deste-me umas ideias maravilhosas. "Conhecer Portugal a pé", então. Eu adorei, porque a editora é Desassossego, que pertence ao grupo da Saída de Emergência. Não pode ser a melhor editora para estes livros. O nome é Desassossego, quer dizer, tu tens que sair daqui, levantar do sofá e ir percorrer. E depois Saída de Emergência, também tem a ver com invasões, com saídas, e eu acho imensa graça. Muito bem escolhido este apoio que dá o Escort Real e esta duríssima editora, Saída de Emergência, este grupo. Portanto, aqui é para todos os caminhantes, são estas sugestões. Isto é para todos, como diria o Papa. Toda a gente pode fazer. Entre crianças.

A ideia deste livro foi exatamente essa.

Ser muito abrangente a nível de público.

Ser muito abrangente, sim. Não só em termos de paisagens, de percursos e geograficamente também, mas acima de tudo, de ser um livro que tivesse propostas para todos. Ou seja, para quem quer ter um desafio. Aliás, este livro começa cada uma das regiões com uma grande rota. Já implica, se calhar, outra logística para fazer na totalidade.

Mas são 200 km.

Sim, para fazer na totalidade.

Mas está bem classificado. Tu pões baixa dificuldade, alta dificuldade, que é mais puxada. Isso é bom para as pessoas saberem quanto tempo demora, quantos quilómetros são.

Quantos quilómetros são, sim.

E depois esta é de 8 km, pode-se fazer em dois, dois dias. Essas alternativas, isso é sempre bom. Achas que é preciso alguma preparação? Muitas não, depende, se forem aquelas de alta.

Eu costumo dizer que isto basicamente é pôr um pé a seguir ao outro, por isso não precisa de grande . Acho que é uma coisa natural. Mas eu sei que às vezes não é assim tão natural para algumas pessoas, mas acho que é isso, é começar.

Tu, de facto, és um viajante, és líder de viagens também. Temos mesmo um dos países mais bonitos do mundo, dos que tu conheces?

Temos um país muito bonito.

Faço mesmo muitos trekkings, por exemplo, em Espanha?

Já fiz provas.

Estilo Picos da Europa e essas coisas.

Já fiz algumas provas. Fiz em Andorra.

Provas mesmo? E vais a perder?

Sim, mas ir a correr não quer dizer que não se aprecie.

Não desfrutes. Tu não paras para ver uma capela pré-românica.

Não, mas se calhar paro para apreciar. Não vou ganhar é aquilo.

Vais concorrer.

Sim. A ideia é chegar ao fim não muito maltratado, o que também é quase impossível, e beber uma cerveja no fim.

Deves perder 1 kg ou 2 cada vez que fazes um coisa dessas. Bolas!

E dói tudo.

No dia a seguir.

E durante.

E durante, meu Deus! Muito boa a ideia das regiões: norte, sul, centro e ilhas, é mais ou menos óbvio. Mas esta questão dos temas da Grande Rota, quando começas, trilhos com história, para toda a família, desafiantes, com vista para o mar, ao som da água. Isto é muito engraçado, porque esta divisão está muito gira e realmente apela muito. É bom poder escolher com base nisso. Mostras algumas fotografias de algumas cascatas e coisas que as pessoas não fazem ideia. E há umas que são as figas do Ermelo, das maiores da Europa, 200 metros. A pessoa não tem noção do que isto é.

Cascata da Maia, em Santa Maria, também.

Também é muito grande, aí em Santa Maria. Quando não vais como líder, partes à descoberta. Tu vais às vezes descobrir trilhos que nunca fizeste e tiras notas e fazes fotos?

Sim, fotos sim. As notas hoje em dia já se tiram do telemóvel também.

Mas gravas?

Então, escrevo. Normalmente, quando estou sozinho, faço-o a correr.

A correr, mesmo?

A correr, sim. Aí sim, vou parando.

E acidentes? Nunca te aconteceu espalhares-te e ir por um precipício abaixo?

Não, já caí uma, duas vezes em provas.

Mas isso não é a mesma coisa.

Mas relance.

Eu penso que será correr algum desses terrenos e depois pode estar húmido, podem estar escorregadios, e raízes e coisas que a pessoa não está à espera. Às vezes deve ser mais ou menos complicado. Este livro também inclui alguns destes percursos, desta reportagem que tu fizeste. E reportagens que ainda vais fazendo na Visão, ainda aparecem coisas tuas com ideia. O Minho, não sei o quê.

Sim, de vez em quando aparecem umas coisas. Costumo fazer todos os anos, desde 2017, a edição especial Açores da Visão, que sai anualmente. Fiz também a da Madeira durante um par de anos.

Este género de livros, como aquele do Afonso Reis Cabral, o "Leva-me Contigo", que fez a Estrada Nacional 2, a mais comprida de Portugal, 740 km, é do género de livro que também apoias, gostas, te diverte e tem muito a ver com coisas que tu conheces por ser.

Sim.

Só que aqui é pela estrada e tu foges um bocadinho das estradas.

Sim, eu tento fugir da estrada.

De propósito?

Se bem que, na verdade, eu também gosto de me perder às vezes de carro pelas estradas. Eu sou muito adepto também da road trip, por isso.

Ok.

Mas mesmo na road trip gosto de fugir dos circuitos típicos e entrar pelas mais secundárias.

Como é que consegues fazer isso quando estás nas aldeias do xisto? Aí todas as aldeias secundárias já devem estar pejadas de turistas.

Sim, mas há sempre uma ou outra aldeia mais escondida, que dá para descobrir.

Fala-me de alguns desses segredos que tu gostas particularmente. Por exemplo, a Garganta do Loriga, isto nunca tinha ouvido falar, e na Serra da Estrela, em Saia, e tu dizes que é quase um dos tesouros da nossa serra, como tu lhe chamas, a Suíça portuguesa.

Sim. E que termina numa das mais bonitas praias fluviais do país.

Ali em cima, mas deve ser gelada a água.

É gelada, super gelada.

Como aquelas poças no Gerês. Que se a gente acha lindo, e as cascatas e pontes romanas, depois a gente mergulha e sai congelado. Completamente. Falávamos também da Rota dos Fósseis, Pitões das Júnias, a Mata dos Medos. Isso é aqui perto de Almada.

Isso é aqui, em Almada.

E que vale imenso a pena este percurso, as pessoas não fazem ideia que isto existe.

Esse percurso é daqueles percursos curtos, que tem um centro de interpretação, que merece ser visitado e depois à volta, que eu não digo aí, porque não estão marcados, há uma série de percursos que uma pessoa pode se perder, entre aspas, por ali, porque não dá para perder, porque estamos numa zona urbana, mas que mesmo nessa zona urbana muito densamente povoada e numa das praias mais concorridas da Grande Lisboa, conseguimos ter ali uns momentos de paz só por andar nuns trilhos no meio da floresta, com vista para o mar.

Uma floresta que no cima foi mandada plantar no século XVIII, por D. João V.

Exatamente.

Não fazia ideia que isto existia. Mais de 300 hectares, é uma grande floresta.

É enorme.

Impressionante. Esta Rota dos Olhos d'Água do Alviela também é extraordinário, com esta gruta da Lapa da Canada, onde também já vi lá os morcegos. É muito curioso, e é Ciência Viva, fantástico. Vale muito a pena visitar. Isto é ao pé do Canhão do Alviela.

Sim.

É um exemplo também de vir com a família e são 2 km, é curtinho.

Sim, esse é curtíssimo. O bom desses percursos mais pequenos é que dá para fazer e depois explorarem um bocadinho mais à volta. E quando digo explorar, pode ser um restaurante como o tal Centro Ciência Viva ou passar um bocadinho na praia fluvial. Há sempre coisas para fazer à volta.

Isso é engraçado, tu tens aqui essas referências, isso é giro, a pessoa vai vendo e vai descobrindo isso. Estas minas de sal também nunca tinha ouvido falar disto, nem de Rio Maior, e é uma coisa extraordinária. Nós temos também deste sal explorado no meio da serra, temos a 30 km da costa, 100 metros acima do nível do mar, desde os templários que estas minas únicas de sal-gema são exploradas. E depois vai dar a uma corrente onde a água é sete vezes mais salgada que o Atlântico.

Exato.

Isso é impressionante. Tudo isso por causa daquele sal todo ali concentrado. Este cento de coisas, como é que tu descobres isto? Vais a passear ou já tinhas referências na net ou alguém tinha alguns recantos?

Nesse caso das salinas de Rio Maior, já tinha feito uns trabalhos lá há muitos anos, acho que para a Invasões.

Trabalhos jornalísticos.

Jornalísticos, para a Invasões e para a Visão também. É uma zona que eu também conheço bem, essa zona aí à volta Nís, Caldas da Rainha, Rio Maior, aquela zona do Oeste, conheço muito bem.

As levadas da Madeira, por exemplo, também é um mundo. Tu aqui dizes que são 3100 km com a Levada do Rai, Levada do Oeste.

Sim, há muitas que foram reconquistadas pela natureza e que estão completamente engolidas e que vão sendo redescobertas. Na Madeira tem havido esse trabalho nos últimos anos.

Pela parte do parque nacional.

Sim, e mesmo pessoas que têm empresas de caminhadas, que vão explorando por conta própria esses caminhos e os caminhos reais.

Porque há levadas que tu passas dentro de túneis, com água a cair. É impressionante e são quilómetros e quilómetros.

A Madeira, eu acho que nos últimos anos até, houve um investimento também por parte da Associação de Promoção da Madeira e da Associação de Turismo da Madeira, acho que é assim que se diz, de promover a Madeira como um destino de turismo na natureza.

Como é que é possível não ser, quando 80% é classificado pela UNESCO?

Eu acho que é dos sítios mais selvagens que nós temos em Portugal.

E há sítios que tu passas lá, como sabes, e que tu vais olhar para aquilo e fotografas aquilo e parece que estás no Havaí, porque são montanhas verdes com aqueles tijs e aquelas árvores gigantescas, que tu tens umas fotografias muito bonitas.

Sim, a zona dos tijs. Há lá árvores que são anteriores à povoação, ou seja, têm 600 anos.

Eu lembro-me de fazer isso há 20 anos com guardas do parque, esses trilhos, e a descobrir árvores. "Olha, esta nunca tínhamos visto, vamos medi-la, vamos fotografá-la". Ainda há coisas por explorar, é impressionante.

Eu tive a sorte de atravessar a Madeira a pé, digamos assim, de uma ponta a outra, com um guia local.

Desde São Lourenço até...

Exatamente. Com um guia local. E a verdade é essa.

A rota dos cumes também faz isso. Faz aquele Pico Ruivo.

Faz a zona da montanha mesmo. E fiz isso para a Visão. Na altura, era a reportagem principal da edição especial da Madeira e o próprio guia que ia comigo dizia isso, que muitas vezes ele sai para o campo para explorar e que descobre coisas novas em sítios da Madeira que nunca foram pisados pelo homem.

É impressionante ainda ter isso. É uma ilha.

É uma ilha. Nós nos Açores, os Açores é aquela imagem da natureza viva, mas nos Açores já não é isso. Há, se calhar, na Terceira, umas zonas que se calhar nunca ninguém lá pisou, porque é impossível entrar, na zona da Terra Brava, mas o resto não. A Madeira é que é mesmo aquela natureza.

Todo o interior.

Todo o interior, aquela natureza virgem.

Aquela floresta relíquia, aquele bosque relíquia, só que aqui é uma floresta grande. E é incrível, porque nos sítios do mundo onde ainda há esta laurissilva, é a maior área de todas. Há um bocadinho nas Canárias, há um bocadinho em Cabo Verde.

Há um bocadinho nos Açores, também em alguns sítios.

Sim, mas ali é a grande pujança de uma área que nunca mais acaba. Impressionante isto. E depois há outras coisas aqui em Portugal. Diz-me outra coisa, por exemplo, Redonhor. Eu não sabia essa história e achei muita piada. Redonhor é aquela aldeia que é atravessada pela fronteira.

Exato.

Portanto, o povo de cima é espanhol, Redonhor de Castilla, e embaixo é, e ainda falam uma língua própria e tudo.

Sim.

E que é a única aldeia que a gente tem que a fronteira corta a meio.

Corta, sim, corta a meio, mas eles ainda hoje não se chateiam muito com isso.

Mas é meia espanhola, meia portuguesa. Muito engraçado este Parque Natural de Montezinhão. Realmente é também um percurso. Isto é muito recôndito, é muito no interior de tudo.

Há sim zonas muito recônditas. Eu acho piada a essas.

Tens de conhecer mesmo para ir lá e dar com aquilo e gostar.

Esse parque natural, por exemplo-

Montezinho, não é?

É lindíssimo, é daqueles sítios que vale mesmo a pena conhecer, porque ainda depois está tudo muito virgem. Não sei se a palavra será a correta.

Sim.

Mas mesmo em termos turísticos, para o bem e para o mal.

No sentido em quê?

Muitas vezes podem faltar algumas infraestruturas. Eu vejo isso também enquanto líder de viagens. As pessoas estão cada vez mais exigentes e às vezes não conseguem sair da sua bolha de conforto.

Exato.

E eu acho que é importante as pessoas quando viajam, seja em Portugal, ou seja no estrangeiro, esteja independentemente do destino, estarem abertas a-

A não ter o conforto que tem no seu sofá.

Exato, a alguma novidade, chamemos-lhe assim.

Desculpa não dizer desconforto, foi algo incómodo.

Sim.

O que ganha compensa isso tudo.

É isso, eu acho que é isso. Eu dou o exemplo do Irão. Há um momento em que nós vamos dormir a uma aldeia do deserto, com um tipo fantástico, o Masihyar.

Mesmo no deserto?

Mesmo no deserto.

Com dromedários à porta, é isso?

Sim. Ele tem uma criação de dromedários que são dele, são como animais de estimação, ele não lhes toca.

Que giro.

E é um tipo que é músico, que é artista. Mas isto tudo para dizer o quê? Que nessa casa, que é uma casa típica do deserto, no meio do deserto de Dasht-e Kavir.

Em Dasht-e Kavir?

É quase, soa assim.

É o nome.

Soa assim. Que é um dos maiores desertos do mundo, o 23º, creio. Nós dormimos no chão. Há uma casa de banho partilhada, há uma série de coisas, mas depois estamos em casa de pessoas que nos servem, que cozinham para nós.

Que vos apaparicam.

Ou seja, pesando na balança, ok, durmo no chão, mas toda a gente me diz quando lá vai que é a noite que dormem melhor, mesmo dormindo no chão. Portanto, temos alguns hotéis bons na viagem, mas depois aquela é que fica na memória.

O nosso tempo voou. Miguel Judas, quero-te agradecer muito a tua disponibilidade, mas já agora dizer que a tua próxima viagem ao Irão é em abril do ano que vem, mas provavelmente já está esgotada. Mas põe esta landscape para não perder. Tu és um belíssimo guia de viagens e para nós todos podes ser também um belo guia de viagens graças a estes livros, este "Conhecer Portugal a Pé", que saiu agora, "Desassossego" e também o dos 200 trilhos que tu escolheste no livro anterior, que ainda está à venda com certeza. Quero agradecer muito esta tua disponibilidade.

Eu é que agradeço.

Corra bem esta tua descoberta que tu tens feito. Bem-haja por ter vindo.

Muito obrigado. Eu é que agradeço.