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Falta menos de uma semana para o primeiro jogo do Mundial de Futebol 2014 no Brasil. São 12 as cidades que recebem os jogos do campeonato, mas a festa será vivida em todo o território brasileiro. Entre nativos e estrangeiros, o Ministério do Turismo do Brasil prevê que haja 3,7 milhões em trânsito pelo país, indica o Diário da Manhã. Com o aumento da circulação de pessoas é provável que aumente a incidência de certas doenças.

A cidade de Campinas, no estado de São Paulo, onde a seleção portuguesa vai ficar instalada durante o mundial, tem sido palco de um surto de dengue desde o início do ano, isto faz com que a doença seja mais falada na comunicação social em Portugal, mas não é a única merecer atenção.

Há ainda outras doenças a considerar, segundo o estudo coordenado por Mary Wilson, investigadora na Escola de Saúde Pública de Harvard, nos Estados Unidos – a larva migrans cutânea, a diarreia do viajante, o vírus chikungunya ou as doenças sexualmente transmissíveis. A investigação centrou-se nas doenças detetadas em 1.600 pessoas, depois de regressarem do Brasil, entre 1997 e 2003. Duas em cada cinco pessoas tinham larva migrans cutânea.

Com a ajuda de Jorge Atouguia, diretor clínico da Clínica de Medicina Tropical e do Viajante e professor no Instituto de Higiene e Medicina Tropical, o Observador dá-lhe a conhecer as principais doenças e as formas de prevenção. Como nem todas as áreas apresentam o mesmo risco, a consulta do viajante permitirá definir quais os riscos que corre durante a viagem que pretende fazer.

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Doenças transmitidas por mosquitos

A principal preocupação no Brasil, dentro das doenças transmitidas pela picada dos mosquitos, é a propagação do vírus da dengue. Deve preocupar-se principalmente quem já teve a doença. Jorge Atouguia explica que após a primeira infeção a pessoa fica imune àquele tipo de vírus, mas se for infetada com um dos outros quatro tipos está mais susceptível, podendo ter manifestações hemorrágicas graves.

Além de serem vetores da dengue, os mosquitos Aedes albopictus e Aedes aegypti também podem transmitir o vírus chikungunya. Sendo uma doença menos grave do que a dengue, mas muito difícil de distinguir, o médico recomenda que se dê prioridade ao dengue. Até porque a chikungunya é mais comum nas Caraíbas.

Aedes aegypti também é vetor da febre amarela, endémica em áreas onde estão localizados quatro dos 12 estádios.

Quanto à malária, causada por um parasita que usa os mosquitos Anopheles como vetor, o risco é maior na Amazónia, sobretudo junto às linhas de água. Os mosquitos Anopheles picam principalmente durante a noite, enquanto os Aedes picam durante o dia.

Em todos os casos a recomendação é o uso de roupas claras, largas e que cubram a maior parte do corpo. Na pele que fica exposta e sobre a roupa é aconselhado o uso de repelente, os mosquitos podem tentar picar através da roupa.

Doenças transmitidas pela água e alimentos contaminados

Nas áreas onde existem problemas de saneamento é necessária uma atenção adicional no consumo de água e alimentos. A recomendação é que só se consuma água engarrafada e que os alimentos sejam bem cozinhados. Apesar da fervura eliminar uma série de vírus e bactérias, convém garantir que os alimentos não estão estragados.

A diarreia do viajante causada pela água e alimentos contaminados pode fazer o doente ir mais vezes à casa de banho, mas trata-se com uma boa hidratação e um antidiarreico. Quando as diarreias são acompanhadas de febre, dores no corpo e naúseas o caso é mais grave, as toxinas e bactérias podem ter entrado na corrente sanguínea. “Estas diarreias são tanto mais frequentes quanto mais quente, húmido e pobre for o local”, diz Jorge Atouguia.

Entre as doenças causadas por água e alimentos contaminados pode referir-se a febre tifóide (provocada pela bactéria salmonela) ou a poliomielite. Para prevenir a entrada de uma doença que já erradicou, as autoridades do Brasil vão controlar a entrada de pessoas que venham de países onde a poliomielite é endémica.

Doenças de pele

Embora a Escola de Saúde Pública de Harvard aponte a larva migrans cutânea (CLM, na sigla em inglês) como a doença mais frequente entre os doentes estudados, não constitui um risco grave para a saúde humana. “É mais grave do ponto de vista psicológico do que físico”, refere o médico, referindo-se às marcas deixadas na pele pelo parasita.

O parasita Ancylostoma braziliense e Ancylostoma caninum aloja-se no duodeno (parte do intestino) dos cães e dissemina os ovos com as fezes deste. Quando as larvas entram em contacto com a pele do cão perfuram-na, entram na corrente sanguínea e, depois de uma passagem pelos pulmões, chegam aos intestinos.

Quando os cães deixam os dejetos na praia, a larva pode entrar em contacto com os humanos e perfurar a pele, mas fica tão confusa por não reconhecer o hospedeiro que, depois de andar de um lado para o outro, acaba por morrer. Sente-se comichão e ardor, pode até notar-se o rasto deixado pela larva, mas as marcas acabam por desaparecer.

Para quem não quer ter um parasita a viajar-lhe por baixo da pele, usar sandálias na praia e deitar-se sempre em cima de uma toalha parece ser o suficiente.

Doenças sexualmente transmissíveis

Segundo a Scientific American, um em cada cinco estrangeiros envolve-se numa relação sexual fortuita e metade desses não usa preservativo, potenciando a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis. A melhor forma de prevenção é o uso de preservativos. E a marca moçambicana Jeito criou uma edição divertida e apropriada ao mundial, lê-se na TSF. “Atenção às cabeçadas. É preciso ter Jeito para o futebol”, dão mote à campanha dos preservativos verdes e amarelos com sabor a caipirinha.