“Gin Tónico, por favor”. Quantas vezes já realizou este pedido num bar ou num restaurante? Talvez muitas, caso seja adepto ou adepta da tendência que está a assolar o país. Mas a verdade é que o gin tónico nem sempre foi uma moda em Portugal e raras eram as vezes em que era bem servido. Os erros eram constantes, como entornar a garrafa de gin para dentro do copo e “roubar” espaço à água tónica. Em dois anos tudo mudou, de tal forma que, este sábado, celebra-se o dia do gin em Portugal e no mundo. Mas há outras datas a assinalar, como o dia nacional do gin tónico, agendado para 21 de junho.

Por volta das 17h00, o Sky Bar Tivoli, em Lisboa, vai receber a sexta edição do World Gin Day, um evento que celebra a bebida um pouco por todo o globo, isto é, em mais de 50 países. O espaço foi escolhido pela marca The London Nº1 e a festa está garantida até às 01h00. Será uma (boa) oportunidade para a apreciar a “arte” em questão que, ao que tudo indica, não quer arredar pé de terras lusas.

Mas porque motivo o país se rendeu à bebida destilada, conseguida a partir de cereais como milho, trigo e cevada e, posteriormente, aromatizada com “botânicas” (com a presença obrigatória do zimbro)? Miguel Somsen, dos Gin Lovers, explica ao Observador que, até há dez anos, era difícil encontrar um gin tónico bem servido. Não em Portugal, mas no mundo. “É um cocktail, tem regras e obedece a números precisos, tal qual uma receita. Por essa razão, a “cocktelaria” é muitas vezes equiparada à pastelaria”, diz, evidenciado que foi a negligência dessas “regras” que destronaram o gin no mercado, progressivamente substituído por destilados como vodka ou whisky.

Como é que o gin tónico saltou a fronteira, rumo a Portugal? O Gin Club, que agora se chama The Gin House, localizado no Porto, foi um dos primeiros impulsionadores.

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A revitalização do gin, mais propriamente do gin tónico, é recente e data de 2007 e 2008. A vizinha ibérica foi responsável por conceder-lhe uma lufada de ar fresco. Tudo aconteceu nas cozinhas de Madrid e de Barcelona: como eram muito quentes, os chefs, ao final do dia, bebiam água tónica em copos grandes. Foi uma questão de tempo até alcançarem a fórmula perfeita para o gin tónico, o que deixou muito pouca gente indiferente. “Foram os chefs que começaram com a cultura ao usar muito gelo e preferir copos grandes”.

E como é que o gin tónico salta a fronteira, rumo a Portugal? Em termos de comércio foi uma realidade demorada, mas o certo é que a bebida começou a difundir-se, num primeiro plano, a norte. O Gin Club, que agora se chama The Gin House, localizado na Invicta, foi um dos primeiros impulsionadores. Em Lisboa, esse cargo foi ocupado pela Taberna Moderna, que, ao comando de Luís Carballo, lembrou-se de servir o gin como parte integrante da refeição.

Para Somsen, um bar que, hoje em dia, não tenha gin ou gin tónico para venda está condenado ao insucesso. O grande problema no país, para o jornalista, é a falta de formação que existe no mercado. “Os clientes, às vezes, sabem mais do que os bartenders. A maior revolução que precisa de ser feita é ao nível do serviço”. E é, sobretudo, com esse intuito que o conceito Gin Lovers é formado, em março de 2013.

Além de jantares harmonizados com gin, a Gin Lovers promove também workshops com quatro horas de duração.

Inicialmente era apenas um grupo de amadores que se juntava nas suas casas para saborear o gin. Ao criar o primeiro dia nacional do gin tónico, no ano passado, o sucesso foi tal que, atualmente, são uma sociedade responsável por um site, uma aplicação móvel e pela revista Zest, dedicada ao gin. A publicação é trimestral e está disponível online (há edições impressas para colecionadores). Além de jantares harmonizados com gin, a Gin Lovers promove também workshops com quatro horas de duração e tem uma carta de gin no wine bar Vestigius.

Os bares que servem a bebida em destaque são muitos e quem a procura também. Mas talvez a evidência mais importante que a eleva a tendência é o surgimento de marcas portuguesas no mercado. Primeiro veio a Big Boss e, depois, a NAO (gin envelhecido em pipas de vinho do Porto). A Templus, que se diz ser o primeiro gin biológico da Península Ibérica, não tardou muito a chegar e foi precedida pela Sharish, proveniente de Monsaraz. Para breve poderá estar ainda uma quinta marca. Quase apetece dizer que a bebida tem alma nacional.

Posto isto, qual é o futuro do gin tónico em Portugal? Miguel Somsen explica que a questão é recorrente. Por esse motivo, tem a resposta na ponta da língua: “É uma bebida que está a dar. Está na moda e a moda renova-se, não desaparece. O gin terá de se renovar, caso as pessoas queiram continuar a bebê-lo. É, realmente, uma bebida com muita vida”.