O grito ‘Intifada!’, de incitação à revolução palestiniana contra Israel, já se tinha feito ouvir nos últimos dias, especialmente durante os protestos que se sucederam ao funeral do jovem árabe de 17 anos alegadamente morto às mãos de extremistas judeus. Agora parece mais perto do que nunca. A noite foi violenta na Faixa de Gaza, controlada pelo grupo islamita do Hamas, com o Estado de Israel a lançar uma intensa operação de ataques aéreos em resposta às dezenas de rockets lançados pelos palestinianos.

Ao Twitter não param de chegar relatos e imagens chocantes dos bombardeamentos da última madrugada, que continuaram pela manhã fora, com as palavras de ordem #GazaUnderAttack (Gaza debaixo de fogo ou Gaza sob ataque), do lado árabe-palestiniano, e #ProtectiveEdge (nome dado por Israel à sua operação militar), do lado do Governo israelita.

Durante a noite, o porta-voz do Exército israelita, Peter Lerner, anunciava no Twitter que o Exército acabava de lançar uma operação de proteção, a que chamou, em inglês, de ‘Operation Protective Edge’. O alvo era claro: a fação palestiniana do Hamas, que, disse, está a “aterrorizar Israel”.

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“Estamos a entrar num novo nível e vamos de facto assistir a um intensificar – diria a um intensificar gradual – da pressão sobre o Hamas”, disse o coronel Peter Lerner aos jornalistas em chamada de conferência.

Com a operação em curso está lançado o mote para intensificar a ofensiva, já iniciada nos últimos dias, de ataques aéreos ao território disputado da Faixa de Gaza. O Exército israelita já afirmou a intenção de prolongar o ataque, tendo para isso chamado perto de 1500 soldados na reserva, numa preparação para aquilo que alguns já prevêem vir a ser o terceiro maior conflito israelo-palestiniano dos últimos anos.

Segundo a Al Jazeera, os bombardeamentos aéreos atingiram campos de treino das milícias palestinianas e zonas residenciais (pelo menos duas casas foram atingidas) no sudeste da cidade de Gaza. A BBC faz um balanço da madrugada com 15 feridos graves, incluindo duas mulheres e uma criança. As imagens que circulam na internet e nomeadamente nas redes sociais, no entanto, dão conta de inúmeros feridos, sendo a contabilização difícil de efectuar.

As imagens são de fogo e destruição em Gaza.

Na fronteira da Faixa de Gaza, conta-se no Twitter que as tropas israelitas estão prontas a invadir.

Mas no que diz respeito a uma invasão terrestre na Faixa de Gaza o coronel Lerner rejeitou a ideia: “Não vejo isso a acontecer imediatamente”.

Do lado de Israel apontam-se baterias ao elevado número de rockets lançado pelo Hamas nos últimos meses. O Exército israelita estima que haja mais de 10 mil rockets, entre alguns importados e outros feitos à mão: “um número substancial de armamento de vários alcances capaz de atacar o centro do território de Israel”, segundo o porta-voz das forças israelitas.

https://twitter.com/MaartjeShilo/status/486406643085631488

As culpas pelo escalar do conflito são apontadas a ambos os lados. O Hamas afirma que lançou rockets em resposta à “agressão sionista” de Israel, que, diz, tirou a vida a cinco dos seus soldados no domingo. Israel, no entanto, nega a acusação e justifica a agressão como resposta à ofensiva islamita, que, segundo o New York Times, terá disparado cerca de 80 rockets só na segunda-feira.

O porta-voz das forças de defesa israelitas admite que, durante a noite, o Exército conseguiu atingir 50 pontos estratégicos de infraestruturas do Hamas, mas nega ter matado os cinco militantes islamitas no domingo. Os soldados, segundo Israel, morreram na sequência da explosão acidental de um túnel que tinha sido atingido por um ataque aéreo lançado na quinta-feira.

A BBC diz que não há relatos de baixas no lado de Israel. Mas a ameaça da ofensiva do Hamas pôs o Estado em alerta. As autoridades proibiram ajuntamentos de mais de 300 pessoas e ordenaram nesta terça-feira o encerramento de escolas, jardins de infância e acampamentos de verão num raio de 25 milhas (cerca de 40km) à volta de Gaza. Para lá desse alcance não estão previstas restrições, mas o porta-voz do Exército diz que Israel se está a preparar para “ataques de longo alcance” como os que atingiram Telavive e Jerusalém nos confrontos de há dois anos.

As tensões já se tinham reacendido no domingo, com ataques violentos durante a noite, mas ganharam nova dimensão esta madrugada, com a ala militar do Hamas a classificar a ofensiva como uma “grave escalada” do conflito, que pode “obrigar-nos a alargar os alvos dos nossos ataques para o centro de Israel”. Caso Israel continue com os ataques aéreos, o Hamas já prometeu ampliar o raio dos seus alvos. E deixou clara a ameaça: “Vão pagar um preço elevado”.

Entretanto, continuam os desenvolvimentos no caso da morte dos três jovens israelitas, judeus, na semana passada, que levou à morte por vingança de um outro adolescente palestiniano. No fim de semana foram detidos seis extremistas judeus suspeitos de terem estado envolvidos no assassinato de Mohammed Abu Khdeir, o jovem palestiniano de 17 anos que na quarta-feira apareceu morto numa floresta às portas de Jerusalém Oriental, depois de ter sido queimado vivo.

A investigação sobre a sua morte está a decorrer, acreditando-se ter-se tratado de um crime “devido à nacionalidade”. O primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu já fez saber que vai responsabilizar os culpados e encontrou-se ontem com a família Kdheir para apresentar as suas condolências.

“Vamos levá-los a julgamento e serão tratados ao abrigo da plena extensão da lei”, disse o primeiro-ministro israelita aos pais do jovem, segundo cita a BBC.