O ex-ministro da Defesa, Júlio Castro Caldas, apontou esta quarta feira o conflito de interesses de uma antiga empresa do Grupo Espírito Santo (GES) no negócio dos submarinos alemães e respetivas contrapartidas negociadas com o Estado português.

Questionado pelos deputados Mariana Mortágua (BE), João Ramos (PCP) e José Magalhães (PS) sobre eventuais pressões e o envolvimento da ESCOM, então pertencente ao GES, mas entretanto vendida à Sonangol (petrolífera de Angola), Júlio Castro Caldas declarou que aquela empresa era consultora do consórcio germânico que construiu os navios, tendo procuração para tal.

A parlamentar bloquista Mariana Mortágua reforçou tratar-se de um “duplo interesse” do BESI (Espírito Santo Investment Bank), “financiador do Estado” e ao mesmo tempo “do mesmo lado do grupo que vai receber esse financiamento”, além de, “eventualmente interesses (do GES) nas outras empresas portuguesas que iriam receber as tais contrapartidas”.

“Era a ESCOM, o dr. Horta e Costa (Miguel Horta e Costa é o administrador executivo da empresa). Enquanto fui ministro era quem se correspondia, quem representava, com mandato, como um banco de financiamento. O interesse da ESCOM era o interesse do BESI”, disse o ministro da Defesa Nacional entre 1999 e 2001, no segundo Governo chefiado pelo socialista António Guterres.

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Para o antigo ministro, “há conflito de interesses” e “não venham os banqueiros dizer que há ‘chinese walls’ (fronteiras) nas suas empresas. O tempo e a história vão demonstrar o que fazem todos esses baralhos de cartas, essa despersonalização de empresas”. A ESCOM, cuja atividade se centra em Angola, sobretudo no imobiliário e na exploração de diamantes, entre outros ramos, foi consultora do German Submarine Consorcium, ao qual o Estado português adjudicou, em 2004, o concurso para dois navios submergíveis, cujo primeiro viria a ser entregue em 2010, com custos superiores a 800 milhões de euros, mas com contrapartidas previstas, pelo menos, de 100%.

Na audição, o ex-ministro afirmou também que “os lóbis económicos são muito difíceis de controlar” durante um processo de discussão de compra de armamento e que a não execução do contrato de contrapartidas dos submarinos foi “um desastre industrial”.