Festivais

‘Ataque massivo’ de mensagens no primeiro dia do Super Bock Super Rock

Os Massive Attack vieram mostrar aos festivaleiros do Meco um novo espetáculo, feito de propaganda política e tecnologia. Tame Impala e Disclosure deram alguns dos concertos mais aguardados.

Massive Attack

© Fábio Pinto

29 mil pessoas (números da organização) disseram “sim” ao Meco, ao sol e ao rock’n’roll. Mas não só. Se é certo que o rock psicadélico dos Tame Impala fez sucesso, neste primeiro dia Metronomy, Disclosure e Massive Attack foram a prova de que os gostos musicais estão cada vez mais ecléticos, e que os festivaleiros estão prontos a dizer que sim a vários tipos de sonoridades.

O calor convidou à cerveja e o pouco vento fez com que o pó não se tornasse num problema. Também o trânsito parece ter melhorado muito desde 2010, ano em que o Super Bock Super Rock se mudou para a Herdade do Cabeço da Flauta, no Meco. Sobre os chuveiros ouvimos queixas (“a água é fria”, “está tudo sujo”), mas o primeiro dia centrou-se na música e é isso que se quer.

Falta, talvez, um grande cabeça de cartaz ao Super Bock Super Rock. Eddie Vedder a solo não tem o peso dos seus Pearl Jam, os Massive Attack já cá vieram 15 vezes e Kasabian não têm a dimensão de uns Arcade Fire ou Arctic Monkeys. O que faz da 20.ª edição do Super Bock Super Rock um dos melhores festivais de verão de 2014 é o cartaz formado por um conjunto de artistas muito interessantes no seu todo, e de vários estilos.

E também o talento dos escolhidos. Um ataque massivo de mensagens políticas e referências à tecnologia foram um espetáculo dentro do espetáculo que os Massive Attack trouxeram até ao Meco, e que tinha sido apresentado pela primeira vez no festival Sónar de Barcelona, no mês passado. A banda nascida em 1988 foi cabeça de cartaz do primeiro dia e, apesar de o último álbum, Heligoland, já ter sido editado há quatro anos, os britânicos mostraram que ainda são tão relevantes quando competentes.

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Massive Attack

Pouco passava das 23h40, hora a que os Massive Attack subiram ao palco principal, quando começamos a ler no ecrã, atrás da banda, nomes de várias empresas a passar rapidamente – Apple, Intel, YouTube, mas também portuguesas como EDP, BPI e BES. Seguem-se lembranças de Saddam Hussein e da polémica Guerra do Iraque, começada em 2003. Mais para a frente, depois de tocarem, por exemplo, “Safe From Harm” ou o sucesso “Teardrop”, o público começa a rir e a aplaudir as frases em português emitidas no ecrã pela banda: “Todos os votos contam”. O título da notícia “Jovem acusado de ofender bandeira em obra artística” mereceu aplausos. “Passos vendido por 16 euros” e “Garota de Ipanema afinal era do Alentejo” provocaram gargalhadas. Os Massive Attack regressam a Portugal com um novo espetáculo, estreado em junho no festival Sónar de Barcelona, Espanha, e descrito como uma performance áudio e visual, artística e com um discurso político marcado. E foi. Para além de continuar em grande forma, a banda de Horace Andy, Martina Topley-Bird e companhia mostrou compreender o conceito de auudioviual e pô-lo aqui na prática.

O 20.º Super Rock abriu com uma banda da terra. Os Million Dollar Lips são de Sesimbra e atuaram no Palco EDP, às 18h40. Atraíram poucos curiosos e nem a versão que fizeram de “mistify”, dos INXS pareceu despertar os presentes. A poucos minutos de inaugurar, o Palco Super Bock estava tão vazio que chegámos a temer que os Vintage Trouble, que ali atuariam às 9h10, se assustassem. Medo infundado. O palco podia estar às moscas, mas a soul negra de Ty Taylor e as guitarras começaram a chamar gente logo aos primeiros minutos. Elegante, o quarteto parece que viajou da Motown dos anos 60 até ao Meco. O vocalista dança e rodopia, bate e pede palmas. O público parece conhecer pouco repertório da banda norte-americana de soul rock, mas retribui o compasso das palmas. Antes de tocarem “Nobody told me”, Ty não só disse que a banda ia andar pelo recinto como convidou o público a ir ter com eles, para que possam dizer “prazer te conhecer”, disse em português. Não são todas as bandas que fazem isto. E para fazer jus ao nome “Trouble”, Ty Taylor decide subir à torre em frente ao palco, naquela que foi a atitude mais rock’n’roll do festival.

vintage trouble

Ty Taylor decide subir à torre oposta ao palco

De casaco e cachecol, o norueguês Erlend Øye causava estranheza no verão português. “Estou doente”, contou o músico, mais conhecido por ser a metade dos Kings of Convenience. O norueguês veio ao palco EDP trazer-nos a Itália (onde agora vive) de La Prima Estate, acompanhado por dois músicos. Se ainda não é Europa suficiente, Erlend Øye também cantou em inglês e o público ainda ouviu uma música em islandês, tocada por um dos seus músicos sozinho em palco. Estaria Erlend a precisar de descansar a voz? O que é certo é que, quando regressou ao palco cantou “Upside Down” sem máculas e conseguiu mesmo que o público fizesse backing vocais invejáveis. Não conseguiu, no entanto, um concerto inesquecível. Já o vimos fazer melhor.

“Vemo-nos em breve”, disse ao público Joe Mount, dos Metronomy, banda de três senhores de fato branco e uma senhora como dona da bateria, que também canta sozinha quando tem de ser. O grupo britânico tem sido catapultado para o sucesso sobretudo desde que lançou o quarto álbum, Love Letters, este ano. E foram eles a conseguir a primeira enchente do festival, que ainda assim estava longe de lotar o espaço. Entre canções como “The Look” e “The Upsetter”, os Metronomy fizeram a transição do dia para a noite, mas talvez não tivesse sido má ideia terem começado mais à noite. É que, exatamente uma hora depois do início, às 21h30, e já sem luz natural, o fim do concerto é declarado com “Heartbreaker”. Fazer isso quando o concerto começava mesmo a aquecer é partir o coração dos fãs.

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Kevin Parker e cores psicadélicas. São os Tame Impala, claro.

Depois de Metronomy veio o fenómeno número dois da noite, de seu nome Tame Impala. Há três anos, a banda australiana estreava-se em Portugal na mesma morada, mas um bocadinho mais ao lado, no palco secundário. Em 2011 os Tame Impala ainda só tinham Innerspeaker para mostrar e eram um nome a manter debaixo de olho. Com a chegada do segundo álbum, Lonerism, em 2012, a banda tornava-se numa certeza para muitos e, no regresso a Portugal, em 2013, teve o palco principal do Optimus Alive à disposição. O Meco também lhe deu o palco principal e ainda bem que assim foi.

Kevin Parker e companhia arrancaram ao som de “Can You Feel the Love Tonight”, música de Elton John imortalizada no filme “O Rei Leão”, agarraram nos instrumentos e partiram para hora e meia de percurso psicadélico. A primeira música tocada pela banda no Meco foi “Be Above It”, também a primeira música de Lonerism, aqui bem prolongada instrumentalmente. Ouvir os Tame Impala ao vivo não é igual a colocar o CD no leitor. Os arranjos instrumentais fazem com que ouvir “Solitude is Bliss”, “Why Won’t You Make Up Your Mind?” ou “Elephant”, mistura dos dois discos, se transforme numa viagem de cuja estrada não dá para tirar os olhos (neste caso os ouvidos, porque no palco não existem artifícios para a vista, apenas o habitual ecrã que parece emitir animações semelhantes às do Windows Media Player). Aos primeiros acordes de “Feels Like We Only Go Backwards” há uma explosão de contentamento por parte do público, que terminaria muito em breve com o final do concerto. Ainda houve tempo para ouvir uma “Apocalypse Dreams” alongada, com o baixo a aparecer em força (e uns falsetes algo tremidos). O palco principal voltou a ser-lhes entregue e os Tame Impala voltaram a provar que o merecem.

O terceiro fenómeno deste primeiro dia são os Disclosure, duo composto pelos irmãos Guy e Howard Lawrence que, logo após a edição do primeiro álbum, Settle, em 2013, foi logo nomeado ao Grammy de melhor álbum de eletrónica. A pontualidade britânica falhou (provavelmente devido a problemas técnicos) e o concerto começou 20 minutos mais tarde, às 02h15. Ainda havia muitos resistentes em frente ao Palco Super Bock, mas em vários locais do recinto alguns já dormiam encostados às grades dos palcos ou deitados debaixo de árvores. Os que estivessem perto do palco principal iriam acordar muito em breve. Com a entrada dos Disclosure (“F For You”) o som fazia tremer as paredes mais próximas. Só que pelas 02:50 o som foi-se a meio de “White Noise” e o concerto esteve interrompido durante uns minutos para resolver a falha técnica que cortou abrutamente o momento. Os Disclosure voltaram em força, depois de se desculparem, mas a quebra não ajudou ao ambiente, já de si aquém do que os Disclosure mereciam. “Help me lose my mind”, com voz (gravada) de Hannah Reid, dos London Grammar, seguida do êxito “Latch”, fecharam o concerto, às 03h30.

O experimentalismo de Panda Bear, o rock de Jake Bugg e uma tenda Antena 3 a rebentar pelas costuras para ver Frankie Chavez foram outros momentos do primeiro dia do Super Bock Super Rock que fomos assinalando no Twitter com a hashtag #ObsFEST. As portas para o segundo dia do festival abrem às 16h00 e não há como perder Eddie Vedder (que vai dar no Meco o único concerto a solo em toda a Europa, à 01h), Cat Power (00h), Woodkid (23h10 e Legendary Tigerman (21h20).

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