Cerca de 3,4 milhões de crianças estavam infetadas com VIH no final de 2011, sobretudo transmitidas pelas mães, seja durante a gravidez, parto ou aleitamento. Destas, 91% vivem na África subsariana. Até 2015 a Organização Mundial de Saúde (OMS) quer acabar com os novos casos de infeções pediátricas por VIH. Os tratamentos antirretrovirais em grávidas foram um dos temas do segundo dia da 20ª Conferência Internacional sobre Sida, a decorrer em Melbourne, Austrália.

O tratamento com antirretrovirais pode justificar-se caso a mãe seja seropositiva (tenha infeção) ou caso a mãe seja seronegativa mas o pai esteja infetado (casal serodiscordante). No Hospital Nacional do Quénia, em Nairobi, um grupo de 24 mães que ficaram infetadas durante a gravidez ou após o parto, entre 2011 e 2013, foram tratadas eficazmente com antirretrovirais, que lhes reduziram as cargas virais no sangue de forma significativa nos primeiros três meses, afirmou John Kinuthia, investigador neste hospital.

Mas um dos problemas encontrados por outra investigadora, Tamsin Phillips, da Escola de Saúde Pública e Medicina Familiar da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, é o incumprimento dos tratamentos. A África do Sul é o país onde a prevalência de VIH na infância é mais elevada em todo o mundo e um dos países onde a taxa de jovens mães (abaixo dos 24 anos) é mais elevada. Os investigadores verificaram que 24% das mulheres falharam pelo menos um dos tratamentos diários, entre os 14 e os 56 dias, e 32% das mulheres abandonaram o tratamento depois dos 56 dias. A falta de interesse e as falhas no tratamento acontecem sobretudo no período pós-parto.

Correr o risco

Antecipando a conferência internacional, uma equipa do Instituto de Investigação Médica do Quénia publicou, na revista The Journal of the American Medical Association, os resultados sobre o efeito do tratamento antirretroviral na gravidez. Os investigadores verificaram não haver uma diferença significativa nos abortos espontâneos entre os tratamentos utilizados: TDF (tenofovir disoproxil fumarato); FTC+TDF (entricitabina/tenofovir disoproxil fumarato) e placebo (comprimido inerte, realizado apenas na primeira campanha 2008-2011).

perdas na gravidez

Nelly Mugo e a respetiva equipa não conseguiram chegar a conclusões definitivas com este estudo e defendem que precisam aprofundar a investigação. Verifica-se que ainda há falta de investigação sobre o efeito do tratamento com antirretrovirais em grávidas. Ainda no âmbito da conferência internacional, uma equipa testou o efeito de medicamentos antirretrovirais com e sem zidovudina (AZT) no risco de defeitos cardíacos congénitos. Angela Scheuerle, da Tesserae Genetics, nos Estados Unidos, revelou que não havia diferenças significativas entre as crianças cujas mães tinham sido expostas aos diferentes tipos de medicamento. O trimestre da gestação em que a criança era exposta ao AZT também não apresenta diferenças significativas.

A OMS recomenda a toma diária de antirretrovirais para todas as pessoas que estejam infetadas com VIH, mesmo que estejam grávidas ou amamentar para reduzir o risco de contágio da criança. Quanto às mulheres seronegativas grávidas, ou que pretendam vir a estar, a equipa de Nelly Mugo defende que estas devem tomar conhecimento das vantagens e desvantagens de tomar antirretrovirais para terapia preventiva.