Pais e Filhos

Filipa Fernandes: “O sono dos bebés mete medo”

2.024

É um dos problemas mais temidos da maternidade: ensinar os filhos a dormir. O papel da mãe é acalmar o bebé, mas nunca ajudá-lo a adormecer, que o diga a especialista portuguesa em ritmos de sono.

Uma criança que não dorme o suficiente fica menos tolerante e desiste mais facilmente dos desafios

AFP/Getty Images

Não sabe o que é dormir uma noite tranquila desde que o seu bebé nasceu? Acorda várias vezes durante a noite para amamentar? E, caso o filho seja mais velho, teme pela hora em que o vai mandar para a cama, porque ele vai fazer fita ou pedir que lhe conte uma ou duas histórias para adormecer? Se sim, é sinal que em sua casa vive uma criança que não dorme nem deixa dormir. O sono mete medo e é um dos maiores desafios da maternidade, garante Filipa Sommerfeldt Fernandes. A especialista em ritmos de sono trabalha exclusivamente com bebés e crianças.

Mas, ao contrário do que se poderia pensar, faz terapia para pais e não para filhos. Ao primeiro curso em Sleep Training pela Universidade de Reading, em Inglaterra, seguiram-se outros: dedicados ao sono, mas também à psicologia infantil e à alimentação nos primeiros anos de vida. Atualmente, Filipa Fernandes dá consultas por todo o país e trabalha numa clínica em Lisboa. Faz ainda palestras e workshops para famílias e profissionais de saúde. E o que promete? Resultados em tempo recorde.

A fada do sono, como alguns pais se sentirão tentados a chamar, estreou-se na escrita com o livro 10 Dias para ensinar o seu filho a dormir. Nele, a autora apresenta um método prático para resolver os problemas de sono de crianças a partir dos seis meses de idade. O plano de ação, diz, é eficaz e permite que a criança aprenda a dormir sozinha. Mas, no processo, é provável que ela vá chorar — é o dever da mãe acalmar e tranquilizar o filho, sem o ajudar a adormecer. Contrariando o que diria Estivill, Filipa Fernandes garante que os pais podem (e devem) estar sempre do lado do seu bebé. E, caso o desejo seja mútuo, pais e filhos podem até dormir na mesma cama.

filipa fernandes,

Filipa Sommerfeldt Fernandes

– De onde surge a necessidade de aprofundar o tema?
Quando o meu filho nasceu nada do que lhe ensinava o ajudava a adormecer. Ensinava-lhe, desde o primeiro momento, a adormecer com a minha ajuda. Primeiro era com a maminha, depois com o colo. Aos cinco meses e meio, ele acordava de hora a hora durante a noite. Eu e o meu marido também acordávamos — só quando tu não dormes é que percebes o quanto custa não descansar; abala a tua vida por completo, a forma de viver a maternidade e o teu relacionamento. Como nunca encarei o facto de os miúdos não dormirem como uma coisa normal, fui procurar ajuda. Mas não a encontrei em Portugal. Ao invés, encontrei um curso de sono das crianças na Universidade de Reading, em Inglaterra. Apliquei no meu filho as coisas que nele aprendi. No fundo, foi a minha cobaia. Funcionou muito bem: trata-se de uma alteração de hábitos e da organização do dia de acordo com a idade da criança. Para mim, o sono é dos pontos mais difíceis da maternidade, para além da educação em conjunto. E é do que mais assusta os pais. Ainda há muita vergonha e preconceito: as mães tendem a achar que a culpa é delas.

– Porque razão o sono é um dos maiores desafios da maternidade?
O sono [dos bebés] mete medo. Muitas pessoas pensam que para o bebé dormir sozinho é preciso deixá-lo na cama e ir-se embora, deixando-o a chorar. Não, nunca. A isso chama-se o método do sono controlado, que é o método Estivill ou o do Ferber, ambos são a mesma coisa. Como mãe, nunca na vida conseguiria aplicá-lo ao meu filho. Não sou nada fundamentalista. Mas mesmo sem se considerar o bebé, só de pensar no sofrimento da mãe ao fazer tal coisa… Acho que não vale a pena.

– O livro começa com o capítulo “Uma conversa franca sobre o sono”. O que não sabemos sobre o sono?
É natural que, quando alteramos hábitos, as pessoas o sintam. Os bebés são pessoas. Às vezes achamos que não, que são seres estranhos que têm de dormir no meio da sala, com a televisão ligada, e que têm de ter frio quando nós temos frio. As pessoas acham, muitas vezes, que os bebés são uma extensão sua. Não são. Quis desmistificar isso. É provável que quando mudas a forma de vida de uma pessoa, que ela chore. Por isso, aquilo que proponho é que fiques ao lado do teu filho o tempo todo, para o acalmares. O teu trabalho como mãe é acalmar e tranquilizar, mas não adormecer. É esse o ponto fulcral.

– Quais são os sinais de sono entre os mais pequenos?
Há muitos. Esfregar os olhos e as bochechas, pegar nas orelhas. Depois, há aqueles sinais que são mesmo muito óbvios: as crianças ficam irritadas, chateadas. Mas, nessa fase, já perdeste a janela de oportunidade. Os bebés não ficam a morrer de sono de repente. Deve-se deitar uma criança quando ela começa a ter sono para, então, conseguirmos colocá-la na cama de forma tranquila. Quando uma criança dá os sinais todos de sono e ainda está acordada, ela vai ficar irritada e vai ser mais difícil adormecê-la. Mas, atenção, uma criança a partir de um ano e meio não fica cansada, mas sim ligada à corrente. Há pais que nesta fase acham que o filho ainda não está com sono. A verdade é que já está cansado de mais.

– O que é preciso ter em conta no sono de uma criança?
Primeiro, as necessidades de sono diurnas. É muito importante o quanto eles dormem durante o dia. Um bebé de três meses precisa de dormir grande parte do dia e, com nove meses, já só precisa de duas sestas. Se tu não o deixares dormir o suficiente, chegas ao final do dia com um bebé cansado de mais. E, obviamente, um bebé agitado não adormece tão facilmente sozinho. Também é importante ter em conta as necessidades nutricionais da criança. Não podes deitar um bebé se ele tiver fome. Na introdução dos sólidos, há muitas mães que fazem sopas que não têm batatas ou arroz, isto é, não têm uma base de hidratos. O que acontece é que o bebé até come bem, mas não em termos de necessidades calóricas. Ele não vai ingerir o suficiente durante o dia. Por isso, à noite, é natural que ele tenha um “ratinho” de fome. E o que é que a mãe vai fazer quando ele acordar? Dar-lhe comida. É uma pescadinha de rabo na boca. É muito importante avaliar o dia todo e, depois, proporcionar rotinas boas para a criança. É preciso proporcionar os momentos certos. No fundo é isso que faço: não faço terapia para bebés, faço terapia para pais.

– Porque é que as crianças não querem ir para a cama?
A cama é o sinal de que o teu dia está a acabar. Estás a divertir-te e a descobrir coisas novas e, de repente, mandam-te parar. Aliado a isso há o escuro, que mete medo. Mas os miúdos a partir dos dois anos de idade têm um imaginário muito fértil — é muito fácil mostrar-lhes que a cama é um lugar bom e mágico. É muito giro quando os pais vêm [ao consultório] com miúdos de quatro anos, ou mais, que nunca dormiram. Perante isso, digo-lhes coisas que parecem tão tolas, que puxam pela imaginação dos mais pequenos, e que funcionam tão bem. No entanto, o imaginário serve para coisas boas e coisas más

– Os bebés podem dormir na cama dos pais?
Não sou fundamentalista. Se todos dormirem bem, não vejo mal. Pessoalmente, não gosto. Não gosto de dormir com um bebé ao lado, tenho medo de o magoar. E, pela minha experiência, os miúdos que dormem com os pais são muito mais inseguros. A coisa mais importante que podes dar ao teu filho é a sensação de segurança, mesmo que não estejas lá fisicamente. Mas se deixas a criança dormir contigo, há que o permitir até ela deixar de querer.

– Isso pode afetar a relação de um casal?
Eu acho que afeta. Tenho muitos clientes que me dizem isso, que não há espaço para os pais. Tenho casos de clientes que querem perceber como podem ter os filhos a dormir num espaço próprio.

– Como se lida com uma criança que diz que “não” quando lhe mandam ir dormir?
Como é que lidas com uma criança que não quer lavar os dentes? Vais deixar que os dentes fiquem podres? Então porque não dizer ao filho que este tem de ir dormir e que quem manda lá em casa é a mãe e o pai? Por isso é que corre tudo bem quando os miúdos na escola, mas não em casa não. É uma questão de educação. É a forma como nós lidamos com os nossos filhos e como eles lidam connosco que muda tudo. Tu comportas-te como te permitem. Os pais são muito autoritários, menos no sono. Não sei se por medo, por ser de noite, se por ser uma altura em que estamos separados deles. Raramente encontro miúdos com problemas fisiológicos. É quase sempre uma questão relacional.

– A longo prazo, o que pode acontecer a uma criança que durma mal nos primeiros anos de vida?
A tendência dos miúdos que não dormem bem, ou que não descansam horas suficientes, é terem um aproveitamento escolar diferente do que podiam atingir. Além disso, são menos tolerantes, reagem menos bem às frustrações e desistem mais facilmente. No fundo, é como nós quando estamos cansados de mais e não temos muita paciência para aprender.

-O método que é apresentado funciona em dez dias?
O título é perigoso: há pessoas que podem dizer que, no caso delas, demorou 14 dias. Mas, na grande maioria, funciona em menos tempo.

– Em que consiste?
A primeira coisa a a fazer é perceber se as necessidade de sono diurnas e nutricionais foram cumpridas. Tens de ter a certeza que o teu filho está bem, que não está doente ou numa fase de mudança  — como começar a ir para a escola. Feito isto, é preciso ajustar o horário de deitar para uma boa hora, como 20h30, se for possível para a tua família. Dás-lhe jantar e levas a criança para o quarto, ainda com claridade. Não queremos a sala porque esse é o espaço social da casa e também o mais agitado. Durante 20 a 30 minutos brincas em família, pai, mãe e filho.
Segue-se um banho para o bebé ir mais descontraído para a cama. No quarto agora escurecido, vestes o bebé, pões o creme e a fralda. Pegas num boneco e contas uma história ou cantas uma música — o importante é teres um sinal quando o deitas na cama. Apagas a luz e sentas-te perto dele. Não há problema se ele te estiver a ver. Depois ou o bebé fica calmo, sinal de que vai adormecer sozinho, ou começa a ficar agitado. Caso a última opção aconteça, começas por dizer “shiuu, a mamã está aqui”. A partir do momento em que ele se acalma, tens de te afastar novamente. Vais fazer isto quantas vezes for preciso. Durante a noite é normal que ele acorde. O teu trabalho é o mesmo. Três ou quatro dias depois, vês resultados.

O grande problema aqui é o acessório, a muleta. A ajuda pode ser o colo ou a “maminha” da mãe. Tu és a muleta e, como os ciclos de sono são curtos, o bebé acorda e procura por ti. Se não te vê, chora. A partir do momento em que ele adormece sozinho, há uma tendência: quando despertar durante a noite vai perceber que está tudo igual e, então, readormece.

– A proposta funciona com todas as crianças?
O método funciona em miúdos dos seis meses aos quatro e cinco anos. Mas também pode ser usado nos bebés muito pequenos. A única coisa que muda é que não vale a pena deixá-los chorar. Não se deixa chorar um bebé pequeno.

– O que acontece quando as criança começam a dormir bem?
Não quero generalizar, mas das coisas que mais me dizem é “o meu filho parece outro”. As mães dizem sempre: “O meu filho é maravilhoso e querido, mas… precisa de muita atenção, é muito irritável”. Quando as coisas funcionam bem, a criança consegue entreter-se sozinha, fica mais segura e não está sempre a berrar ou a gritar. Acho que, a longo prazo, isso é capaz de se notar. No adolescente e, depois, no adulto. Hoje em dia há muito aquela moda de os miúdos serem hiperativos e, sinceramente, acho que muitos deles andam cansados.

– Qual a diferença entre pesadelos e terrores nocturnos?
São duas coisas completamente diferentes. Os pesadelos são sonhos assustadores, há algo que os despoleta. Obviamente que tens de tranquilizar o teu filho, até porque ele consegue lembrar-se e contar o que aconteceu. O terror noturno é inconsciente, os miúdos estão a dormir. São coisas assustadoras para os pais, porque parece que os miúdos estão possuídos. Gritam e choram, mas estão a dormir. É muito difícil acordá-los e eles não se lembram de nada quando acordam. O pesadelo é muito mais assustador para uma criança. O terror noturno é uma fase de desenvolvimento, passa naturalmente.

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