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Tiras verdes, de plástico, erguidas na vertical. Pequenos pedaços de borracha, pretos. Tudo misturado num tapete. Literalmente. E fica-se com relva. Mas artificial. A FIFA vê-a como “a melhor alternativa à relva natural” devido “à sua resistência ao clima e ao uso intensivo”. O Boavista concordará — esta época, o clube será o primeiro a competir na primeira liga com um relvado não natural. Em 2015, no Canadá, haverá outra estreia: por lá se realizará o primeiro Mundial de futebol feminino unicamente em campos de relva sintética.

Seis estádios. Será em meia dúzia de estádios que 24 equipas, entre junho e julho do próximo ano, vão pisar uma “superfície largamente reconhecida como inferior no futebol internacional”. Sim, a crítica cola-se na tal relva artificial. Mas quem o diz? Cerca de 40 jogadoras de futebol.

As mesmas que, a 27 de julho, enviaram uma carta à FIFA, endereçada ao próprio Joseph Blatter, presidente da entidade, a avisarem que, caso a entidade não acabe com o “tratamento discriminatório”, terá de enfrentar uma ação legal. “Caso recusem, voluntariamente, solucionarem a situação dos relvados, os recursos legais estão disponíveis e serão utilizados”, lê-se, no documento.

E não são jogadoras quaisquer. Imagina Lionel Messi a fazer isto? Talvez não. Mas Nadine Angerer, futebolista alemã que a FIFA elegeu como a melhor do mundo, em 2013, ou Abby Wambach, norte-americana que a antecedeu na distinção, em 2012, são duas das signatárias da carta. Ou seja, a coisa é mesmo séria.

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As jogadoras, em suma, pretendem discutir com a FIFA uma solução para garantir que, no próximo Mundial, a bola role em relva natural. “Relegar as mulheres a superfícies de qualidade secundária degride o jogo feminino e todas as pessoas nele envolvidas”, argumentam, recorrendo aos Mundiais de 2018 e 2022 — que se realizarão na Rússia e no Qatar –, para criticarem que, pelo meio, se garante que os homens jogarão em campos de elite durante os próximos anos.

“Isto vai contra o que a FIFA escolheu, em 2013, como a frase do ano para o futebol feminino: ‘A palavra futebol não distingue o masculino do feminino. O futebol é um jogo com 22 pessoas e uma bola, é o mesmo para homens e mulheres.'” – excerto da carta enviada à FIFA, a 27 de julho.

As jogadoras exigiram que a FIFA respondesse até 4 de agosto. Ao Observador, um porta-voz da entidade que gere o futebol mundial apenas confirmou a receção da carta, não revelando, porém, se tinha, ou não, enviado uma resposta. Mas lembrou que, tanto a Associação de Futebol Canadiana, como o comité de organização da prova, “propuseram a utilização de relvados artificiais na competição, o que foi aprovado pela FIFA”.

Não se sabe, portanto, se a entidade enviou uma resposta às jogadoras, nem se o grupo, à falta de reação, já terá decidido recorrer à justiça. As futebolistas são representadas — pro bono, como avançou a Fox –, por quatro advogados de três firmas distintas.

Carrie Serwetnyk, a primeira mulher a ser introduzida no Hall of Fame do futebol canadiano, é uma das apoiantes da iniciativa. “Toda a gente sabe que não haveria absolutamente nenhuma hipótese de os homens jogarem [um Mundial] em relva artificial. Seria um escândalo”, criticou, citada pela Mashable. “Portanto, que mensagem é transmitida quando se pensa que não há problema jogar um Mundial feminino nesta relva?”, questionou.

Nunca uma prova de futebol sénior, masculina ou feminina, se realizou com relvados artificiais. A primeira competição oficial com este tipo de relva decorreu foi o Mundial de sub-17, em 2003, na Finlândia. Dois anos antes, em 2001, a FIFA redigiu um documento, com 103 páginas, onde constam os padrões de qualidade exigíveis a qualquer relvado de material sintético para ser utilizado numa prova gerida pela entidade.

Tudo isto pode mesmo terminar no interior de uma sala de tribunal. Quer acabe lá, ou não, a carta deixa uma garantia — as jogadoras “estão comprometidas a participar no Mundial de 2015”. Só falta saber que relva vão pisar.

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