Um por 22,8 milhões de euros. O outro, por 10,5 milhões. Era dinheiro, e muito, que entrava nos cofres do Benfica. E era a primeira vez que os adeptos encarnados ouviam falar na Meriton Capital Limited, nome do fundo que, em janeiro, adquiria a totalidade dos direitos económicos de Rodrigo e André Gomes. Ao todo, gastou 45 milhões. Em junho, ambos os jogadores já estavam no Valência, por ordem de Peter Lim, dono do tal fundo de investimento e da empresa que o controla. A mesma que, esta quinta-feira, chegou a acordo para comprar o clube espanhol.

Ou seja, está desbloqueado o processo que, segundo a imprensa espanhola, mantinha pendente a transferência de Enzo Pérez para o Valência, por uma verba entre os 25 e os 30 milhões de euros. “Se Peter Lim comprar o Valência, é fácil o Enzo vir”, chegou a dizer Nuno Espírito Santo, treinador da equipa ché, na passada semana. Esta quinta-feira, porém, em entrevista à Benfica TV, o presidente do clube, Luís Filipe Vieira, assegurou que “não há acordo nenhum com o Valência, nem com clube algum”.

E há mais: os rumores dizem que os passes de Bernardo Silva, Ivan Cavaleiro e João Cancelo, jovens que os encarnados emprestaram ao Monaco, Deportivo da Corunha e Valência, também já foram comprados pelo mesmo fundo que tirou Rodrigo e André Gomes do Benfica. Contas feitas, se tudo se confirmar, esta história pode acabar com a calculadora a mostrar que um multimilionário da Singapura gastou 120 milhões de euros a contratar jogadores que pertenciam aos quadros do Benfica.

Mas, afinal, quem é Peter Lim?

Primeiro que tudo, é filho de um pescador. Da infância, sabe-se que nasceu em 1963, algures na Singapura, e pouco mais. Entre o fim da adolescência e o arranque da idade adulta, Peter Lim decidiu partir rumo à Austrália. Aterrou em Perth, cidade onde se licenciou em Finanças e Contabilidade, na University of Western Australia. Isto enquanto ganhava uns biscates como cozinheiro, empregado de mesa e até taxista.

Em 1991, com 28 anos, surge o primeiro capítulo da fortuna que, hoje, lhe permite piscar o olho aos jogadores do Benfica — decidiu investir 7,4 milhões de euros da Wilmar International, na altura uma pequena empresa, dedicada ao negócio do óleo de palmeira. Em março último, os cerca de 5% do capital que Lim detém na empresa valiam pouco mais de um milhar de milhão de euros, de acordo com a revista Forbes.

O resto não é história. É acumular fortuna. Uns anos depois, Lim investiu na FJ Benjamin, entidade que detém ações em marcas de roupa como a GAP, Guess ou Givenchy. Fez o mesmo na Thomson Medical, empresa que tem clínicas de saúde espalhadas um pouco por toda a Ásia. Detém ações na McLaren, equipa que compete na Fórmula 1, sendo proprietário de 70% do capital da FASTrack Iskandar, um consórcio que já investiu quase 755 milhões de euros na construção de um circuito, na Malásia, que deverá estar concluído em 2016.

A loucura pelo futebol

Através da Rowsley, empresa da qual tem 29,9% das ações, Peter Lim adquiriu a RSP Architects, Planners & Enginners, o maior escritório de design da Singapura. Usando a mesma entidade, o magnata investiu cerca de 800 milhões de euros no projeto Iskandar, um empreendimento urbanístico que será construído numa das regiões mais importantes, a nível económico, na zona do Pacífico asiático.

São negócios e mais negócios. Em suma, a Forbes avaliou a fortuna de Peter Lim, hoje com 61 anos de idade, à volta dos 1,7 mil milhões de euros, listando-o entre as 800 pessoas mais ricas do mundo. Ou seja, o singapurense tem muito dinheiro. E, sobretudo, gosta de futebol.

Em 2010, muito antes de se interessar pelo Valência, Peter Lim já tentara comprar o Liverpool. Na altura, a oferta de 224 milhões de euros foi rejeitada pela direção do clube inglês. O empresário, aliás, até é proprietário de uma cadeia asiática de bares e cafés dedicados a apoiar o Manchester United. Até que, em 2014, o Valência embrulhou-se em problemas, fruto das dívidas que foram contraído ao longo das épocas anteriores.

Peter Lim viu uma janela de oportunidade a abrir-se. E interessou-se. Em dezembro, o magnata chegou a acordo com a Fundácion, que detinha 70,04% das ações do Valência, para a compra da posição maioritária da entidade no capital social do clube. Feito isto, restava a Lim negociar com o Bankia, banco espanhol que era o principal credor da dívida do Valência. E fê-lo através da Meriton Holdings Limited, empresa registada em Hong Kong, desde 2009, detentora do Meriton Capital Limited, o tal fundo que comprou os direitos económicos de Rodrigo e André Gomes.

Esta quinta-feira, Peter Lim chegou a acordo com o Bankia para fechar a compra do Valência. Para o conseguir, o magnata teve de desembolsar perto de 140 milhões de euros — que o banco espanhol exigia como garantia financeira para autorizar a operação. Cerca de 94 milhões de euros da dívida serão pagos pelo singapurense até 2018. O diário Las Provincias escreveu que Lim pagará 16 milhões agora, enquanto os restantes 72 milhões de euros serão pagos em prestações.

Agora, é esperar o que o Valência poderá fazer em relação a Enzo Pérez, agora que o clube já é propriedade de Peter Lim.