Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Quando na terça-feira à tarde o grupo extremista do Estado Islâmico (EI) do Iraque divulgou na internet um vídeo de propaganda anti-EUA onde James Foley é morto às mãos de um jihadista, a internet e nomeadamente as redes sociais tentaram reagir rapidamente contra a propagação daquelas imagens explícitas e chocantes. Mas nem sempre foram bem sucedidas. E deixaram a nu as dificuldades das empresas como o Twitter ou o YouTube de monitorizar a publicação individual de conteúdos terroristas ou imagens violentas.

O vídeo, cuja veracidade ainda não foi confirmada, apareceu no YouTube ao fim da tarde e, numa questão de minutos, vários utilizadores do Twitter começavam a alertar para a sua existência. Muitos foram os que encorajaram outros a não partilhar as imagens ou a não divulgarem links para lá. Mas muitos foram os que o fizeram.

Menos de uma hora depois da publicação no YouTube, a empresa que o tinha produzido (a al-Furqan Media, afecta ao Estado Islâmico), removeu-o. Mas o mesmo vídeo depressa voltou a ser publicado por outro utilizador diferente e voltou a permanecer acessível durante mais meia hora. Segundo a revista Foreign Policy, a empresa voltou a removê-lo  mas não suspendeu a conta do utilizador, que depressa voltou a republicar as imagens. Foi o Twitter que acabou por suspender a conta do utilizador quando este incluiu um link para o vídeo na sua página.

Mas esta política do Twitter de suspender as contas de quem partilhava o vídeo ou o link, por ser conteúdo explícito de violência e terrorismo, tornou-se polémica quando a empresa suspendeu temporariamente a conta de utilizadores que queriam informar a comunidade sobre o crime cometido, nomeadamente um jornalista norte-americano, Zaid Benjamin, correspondente da Radio Sawa em Washington, que estava a usar aquela plataforma para reportar o caso.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

https://twitter.com/zaidbenjamin/status/501876155990167552

Zaid Benjamin foi aparentemente o primeiro jornalista a chamar a atenção para a morte de James Foley, mas nunca publicou o link direto para o vídeo. Tweetou numerosas mensagens de análise ao sucedido e de respostas a questões colocadas por seguidores, assim como imagens de algumas partes do vídeo (não do momento da execução). Mas a sua conta foi suspensa. Depois de ter recuperado o acesso, afirmou que tinha perdido 30 mil seguidores durante o tempo em que esteve bloqueado.

Segundo o Washington Post, questionado sobre o facto de não terem sido só as contas de membros do Estado Islâmico a serem bloqueadas, mas também de jornalistas, um porta-voz do Twitter limitou-se a dizer que a empresa “não comenta sobre contas individuais, por motivos de privacidade e segurança”.

Pouco depois, era a família de Foley que pedia à comunidade cibernética para não divulgar as imagens “gráficas” que estavam a circular.

https://twitter.com/ABCNews24/status/501891876069208064

“Reporto a partir do Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria. Muitas perguntas, nenhuma resposta”

Era assim que se descrevia James Foley na sua conta pessoal no Twitter, que deixou de ser atualizada no dia 22 de novembro de 2012, altura em que foi dado como desaparecido às mãos da guerra civil síria. A trabalhar na altura para a AFP e o Global Post, entre outros meios de comunicação, o jornalista norte-americano era, segundo descrevem alguns colegas de profissão, como o jornalista Max Fisher da Vox, “dedicado à busca da verdade e da compreensão”.

“Acredito que o jornalismo de primeira-linha é importante, porque sem estas fotografias, vídeos e relatos em primeira-mão não podemos contar realmente ao mundo o quão mau ele consegue ser”, disse em 2011, depois de ter sido capturado na Líbia.

Num texto de homenagem a James Foley, o colega Max Fisher lembra como o jornalista ajudou a organizar o funeral de um colega, Anton Hammerl, morto na Líbia em 2011. Foley não morreu mas foi preso, e só foi libertado seis semanas depois. Depois do cativeiro, numa entrevista que deu ao Boston Globe não quis fazer com que a história girasse em torno da sua pessoa – “não queria ser definido como aquele que foi capturado na Líbia em 2011”, lembra Fisher, que o descreve como uma pessoa que tinha “uma generosidade infalível” e que “via humanidade entre o terror da guerra”.

A sua urgência de relatar as atrocidades dos piores cenários de guerra levou-o a colaborar com a agência de notícias France Press, onde relatou em vídeo momentos-chave como a luta do exército sírio pelo controlo da cidade de Alepo, em setembro de 2012:

Ou uma reportagem, realizada também na Síria, sobre “encontrar o amor em tempo de guerra”:

https://www.youtube.com/watch?v=lJvo8Xe1D18&feature=youtu.be

Além das fotografias que tirava nos cenários de guerra, escrevia para o jornal norte-americano Global Post, a partir da Líbia, do Afeganistão e da Síria. O seu último trabalho para o jornal de Boston foi sobre a crescente frustração perante a guerra contra civis na cidade de Alepo.