Vaias e protestos à porta da sede da Organização das Nações Unidas (ONU). A presença do primeiro-ministro de Israel gerou uma forte polarização na Assembleia-Geral. Antes de começar a discursar, cerca de 77 delegações abandonaram a sala. Benjamin Netanyahu respondeu: “Se ainda houver cobardes morais que não abandonaram o salão, por favor façam-no agora”. Era o início de um discurso duro, em que o chefe do Executivo defendeu as operações militares israelitas e assegurou: acusar Israel de genocídio é a “maior mentira do século”.

O primeiro-ministro israelita começou o discurso a lembrar os ataques ao programa nuclear do Irão em junho de 2025. “Devastar as instalações nucleares do Irão foi difícil, mas foi uma das decisões mais fáceis que tomei enquanto primeiro-ministro. Se não o tivesse feito, estaríamos todos mortos”, referiu. Benjamin Netanyahu chegou a oferecer um dispositivo que permite aceder à rede de satélites Starlink — que permite o acesso à internet — à delegação iraniana, criticando a falta de liberdades em território iraniano.

Sobre o 7 de outubro, Benjamin Netanyahu recordou o “dia negro”: “Os nossos inimigos esperavam que caíssemos. Não caímos. Rugimos e lutámos como leões.” “Nos últimos três anos, os nossos soldados heroicos lutaram dia e noite numa guerra com sete frentes”, salientou, referindo-se ao Irão, ao Iémen (Houthis), Líbano, Gaza, Cisjordânia, entre outros.

O primeiro-ministro israelita defendeu o prolongamento dos combates contra o Hamas e o Hezbollah. Na Assembleia-Geral, mostrou um pager, numa referência a um ataque em setembro de 2024, que matou nove libaneses e feriu cerca de três mil que usavam o aparelho. Esta ação marcou o início da ofensiva terrestre em território do Líbano.

As acusações de genocídio de vários países — e das próprias Nações Unidas — motivaram uma forte resposta do primeiro-ministro israelita. “Tenham vergonha por distorcerem os factos, por inverterem vítima e agressor, por cuspirem na verdade”, afirmou. Netanyahu elencou várias ações das autoridades israelitas, como autorizar a entrada de duas toneladas de comida na Faixa de Gaza ou a distribuição de vacinas para questionar: “Que Estado genocida faz isto?”.

Outra das críticas que fez questão de responder foi a que acusa Israel de levar a cabo uma política colonialista. Recordando que Israel está reduzido a “um pequeno pedaço de terra” apesar da presença judaica noutros territórios, Benjamin Netanyahu lembrou que, “nas vésperas da Guerra dos Seis Dias [de 1967]”, o país não estava na Cisjordânia, Gaza e Montes Golã. “Estávamos num pequeno pedaço de terra. Ainda estamos”, refere.

Benjamin Netanyahu defendeu-se das acusações de colonialismo e alegou que o termo foi criado pelo Reino Unido e França. “Por amor de Deus, eles inventaram o termo ‘colónias’. Colonialismo? Poupem-nos”, atirou o primeiro-ministro israelita.

Na Cisjordânia, o primeiro-ministro fez questão de criticar a violência dos colonos israelitas, mas desvalorizou-a, assinalando que são apenas “um punhado de jovens delinquentes juvenis, cerca de 150 em número, que atiram pedras e cortam oliveiras”. “Eu não apoio isso. Não vou defender o vigilantismo. Somos um país de leis, então colocámos a nossa agência de segurança interna sobre eles”, defendeu. No entanto, concedeu que “talvez duas ou três” pessoas morreram vítimas de ataques de colonos e comparou com “os milhares de ataques terroristas contra colonos pacíficos”.

Erdoğan, Mamdani e Qatar. Netanyahu não poupou os inimigos

São muitos os inimigos públicos de Benjamin Netanyahu. Em Nova Iorque, na ONU, o chefe do Executivo atacou duramente o mayor de Nova Iorque, Zohran Mamdani. Acusou o democrata de espalhar antissemitismo e de fazer com que a comunidade judaica seja “ameaçada” na cidade e noutros pontos do globo. Além disso, alegou que Mamdani apoia militantes do Hamas.

“Senhor Mamdani, você tentou impedir-me de vir cá. Tentou silenciar-me. Não pode silenciar-me, nem pode silenciar a verdade”, desafiou Benjamin Netanyahu, defendendo que Israel está a “prevenir” o genocídio em Gaza. Em resposta, mais tarde, o mayor nova-iorquino acusou o primeiro-ministro israelita de “repetir mentiras sem fundamento”: “Nenhuma mentira pode mudar o facto de que ele [Netanyahu] continua a ser objeto de um mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional sob alegações de crimes de guerra e crimes contra a humanidade”.

Outro alvo no discurso do primeiro-ministro foi a Turquia, liderada por Recep Tayyip Erdoğan. “O mais recente país a tornar-se um grande propagador de mentiras antissemitas é a Turquia”, destacou o líder israelita. Benjamin Netanyahu acusou ainda o líder turco de deter “o recorde mundial” de prisão de jornalistas e líderes da oposição, negar o genocídio na Arménia, ocupar “ilegalmente o norte de Chipre, membro da UE”, de querer apoderar-se da Síria — país que faz fronteira com Israel —, de violar “regularmente os direitos da Grécia, membro da NATO”, e de querer governar Jerusalém.

“Não, senhor, não vai. Este é o nosso país, a nossa cidade, a nossa capital eterna”, sinalizou Benjamin Netanyahu, referindo-se a Jerusalém. “Tiranos de todo o mundo tentam ameaçar-nos. Pretendem minar a nossa determinação com a sua campanha de mentiras. Mas, em última análise, como no campo de batalha, o povo judeu prevalecerá”, disse. O Qatar foi outro dos alvos: o chefe do Executivo acusou o emirado de espalhar notícias falsas no Ocidente sobre Israel.

Num discurso polarizado, Benjamin Netanyahu teceu duras críticas às manifestações que estão a ter lugar em Nova Iorque. “São falsos manifestantes dos direitos humanos. Organizaram comícios em massa? Greves de fome? Protestaram à porta da missão iraniana junto da ONU? Falaram, já agora, pelos cristãos perseguidos no Irão e em todo o Médio Oriente? Não. Não, não o fizeram, porque são falsos manifestantes dos direitos humanos”, atacou.