João van Zeller está há muitos anos ligado à Escócia por razões familiares e por ter a paixão do golfe. Encontra-se por estes dias na região, em St. Andrews, e tem seguido com interesse e paixão as campanhas para os dois referendos de dia 18: o sobre a independência da Escócia e o que está a dilacerar os sócios do mais antigo e prestigiado clube do golfe do mundo, o Royal & Ancient Golf Club of St. Andrews (R&A), que terão de decidir se vão ou não permitir que mulheres possam entrar para sócias. Tem vindo a escrever um diário cujas últimas páginas, daqui até ao dia do referendo, partilhará com os leitores do Observador. 

 

De St Andrews, na Escócia, por João van Zeller, 16 de Setembro de 2014

Um agricultor amigo aqui de St Andrews disse-me hoje não poder revelar que vai votar NO até ter as colheitas todas despachadas, o que acontecerá no dia do próprio voto. Porquê? Se o fizer, destroem-lhe o crop. A verdade é que, regressando ontem de Gleneagles a St Andrews através da incomparável beleza da paisagem rural escocesa, com as searas já todas colhidas, enroladas e prontas para entrega, só vi as letras YES no meio dos campos. As concorrentes letras NO que replicavam as do YES e se multiplicavam por aquelas verduras há oito dias, foram impiedosamente abatidas pela calada das noites. A ruralidade parece ser decisivamente YES.

E hoje, 48 horas antes do dia D, vai haver um blitz na campanha pelo YES, com a distribuição de 2,6 milhões de panfletos e 300 novos e enormes posters espalhados pelos locais mais estratégicos da Escócia. São os panzers a avançar, e a fazer desaparecer pelo caminho, tal como na ruralidade, os cartazes pelo NO. Os de Salmond que já lá estavam, lá ficaram. Talvez não seja tão relevante assim, mas nesta frente de batalha o armamento do NO parece bem ligeiro: entre hoje e amanhã, apenas vão distribuir 1,5 milhões de panfletos, sem tentar repor o que lhes foi vandalizado. Aqui o No, Better Together parece vacilar.    

As sondagens têm a agulha desnorteada. Nesta recta aberta para o dia da votação, hoje acontece mais um sobressalto, e importante. Um dos principais brokers da City, a IG, acha que a possibilidade da vitória do NO é substancial. Os investidores, através de um processo de trade “binário” estão a colocar nas suas decisões de investimento um peso maior no NO.

Por outro lado, a Société Générale aconselha prudência aos clientes nas acções de 20 empresas com um importante volume de negócios na Escócia, já que um YES irá causar uma caída das cotações. As empresas da lista estão ligadas sobretudo ao retalho, e também incluem o Lloyds Bank e o Royal Bank of Scotland, cuja sede é na Escócia. Para memória futura é interessante registar os nomes da lista: BAE Systems, Lloyds Banking Group, Royal Bank of Scotland, Diageo, Pernod Ricard, J Sainsbury, Tesco, WM Morrison, Standard Life, British Sky, BG Group, Technip, Hammerson, Intu Properties, Marks & Spencer, Next, Sage Group, BT Group, Centrica, SSE.

E, quanto à fuga dos bancos escoceses, pulam por aí histórias, possivelmente mal contadas, de gente a querer levantar somas substanciais em notas, tendo muita dificuldade em o conseguir, falando-se também num aumento substancial das contas abertas por escoceses nos bancos em Inglaterra, em particular naqueles que estão próximos da fronteira com a Escócia. E é de supor que não é apenas por os bancos escoceses estarem a anunciar, off the record, que a Escócia, no caso do YES vai sofrer um aumento muito substancial do custo das transacções bancárias. No ar sente-se um impulso para ir ao banco escocês levantar as poupanças, com receio do YES.

Mas não são só os bancos a alarmar com a subida de preços. A BT e a Vodafone também não se acanham em prever aumentos substanciais no caso do YES ganhar.

Também é assustador verificar as previsões dos Hedge Funds em relação à libra: não a querem. Só no último mês, despacharam o equivalente em libras a 100 biliões de dólares, dando a entender que a acelerada corrida já em curso contra a libra poderá transformar-se em mergulho num abismo no caso de luz verde para o YES. As implicações serão instantâneas, ou quase: desvalorização da libra e subida clara das taxas de juro. Como se isso fosse pouco, Robert Jenkins, ex-membro do Comité de Política Financeira do Banco de Inglaterra e Professor do London Business School, acha que o YES pode desencadear um colapso dos mercados, a nível mundial.

É realmente surpreendente que este tumulto esteja a acontecer no Reino Unido (não, não é apenas na Escócia!), quando a OCDE anuncia que a economia das Ilhas está a adiantar-se na corrida do crescimento económico, se comparada com as principais economias do mundo. O crescimento do PIB do Reino Unido para 2014 está previsto ser de 3,1 (1,8 em 2013). O dos Estados Unidos, 2,1 (2,2 em 2013). Neste clima de enriquecimento da nação há uma sensação de hara-kiri com o colapso em que pode redundar a economia do Reino Unido no caso do YES. Causa calafrios.

O que não é surpreendente é o que se está a passar no mercado imobiliário. Da mesma forma que uma amiga minha vendeu a casa antes que seja tarde, a previsão é que os preços das casas caiam cerca de 30.000 libras em média se o YES vencer. No caso do YES, a queda do valor do mercado imobiliário escocês pode andar à volta dos 85 biliões de libras. O maior agente imobiliário do mundo, CBRE, declarou-se impossibilitado de conduzir avaliações imobiliárias no caso de sexta-feira a Escócia ficar independente. Neste cenário periclitante, as causas deste ambiente são as incertezas: quanto à fiscalidade, às taxas de juro, e à moeda que pode vir a surgir.

Por outro lado, o receio do voto YES que paira no ar levou a que os investimentos dos escoceses em ouro físico, nos últimos 15 dias, aumentasse 42%. É o que diz o site Bullionvault.com, a maior plataforma do mundo para negociação de ouro ou prata. E a trepidação vai em crescendo, quando se sabe que o sector financeiro escocês está em cheque: emprega 100.000 pessoas, administra mais de um trilião de dólares de activos, gerando 10 biliões de dólares anuais para a economia escocesa.

Muitas senhoras que apreciam a moda sabem quem é Vivienne Westwood. É uma designer de moda famosíssima, com inclinação para a extravagância, e para o uso do tartan escocês nas suas criações. Apesar de lá nascida, não tolera a Inglaterra, onde critica o deficit democrático e as injustiças sociais. Vestida de tartan, a sua celebridade vai ajudar ao YES, sobretudo junto da classe média onde ela se celebrizou por ter introduzido as arrojadas modas Punk e New Wave.  Ontem, durante o London Fashion Week, Vivienne Westwood afixou nos seus manequins que desfilavam pelas passerelles um pin de fundo azul, com a palavra YES. Mas num mercado caro e sofisticado como é o da moda, pouco afim a este tipo de agressividade, no seu negócio o tiro pode sair-lhe pela culatra. Além de que os dois mais famosos designers escoceses, Christopher Kane e Jonathan Saunders, são frontalmente NO, Better Together.

E hoje, no meu diário, registo mais uma ironia. O roqueiro Bob Geldoff, celebrizado pela sua música e pelo seu generoso activismo anti-pobreza, acorre da sua secessionista Irlanda a clamar pelo NO, Better Together, numa manifestação de centenas de milhares de pessoas, ontem, em Trafalgar Square.

No vetusto R&A, Royal & Ancient Golf Club of St Andrews,  parece que YES, Myladies, está em vantagem. Vacilam 260 anos da história do clube.