A poluição pode ser uma nova oportunidade para a indústria da beleza, isto é, os grandes nomes que operam no mercado da cosmética. Os efeitos da poluição existente no ar, que se podem verificar na pele na forma de envelhecimento prematuro, estão entre os principais problemas que a indústria de cosmética quer ver resolvidos. A preocupação parece ser real e geral.

Às prateleiras de estabelecimentos estão a chegar novos produtos que prometem dar conta do recado, ao combater os efeitos nocivos e melhorar a proteção natural da pele. A ideia passa por atrair novos consumidores e “convidá-los” a gastar mais dinheiro, visto que os produtos deste tipo exigem, por norma, preços mais elevados. A tendência dita global é oriunda do continente asiático, onde a qualidade do ar é um motivo de preocupação maior e tem um papel relevante na rotina diária de cuidados de pele.

A dermatologista Manuela Cochito considera que este é um tópico de preocupação crescente em solo nacional. “A poluição em ambientes com toxicidade e o próprio stress aumentam os radicais livres na pele, isto é, a toxicidade ao nível das células que aceleram o envelhecimento da pele”, explica ao Observador. O problema é de cariz estético, assegura a dermatologista, embora a poluição no ar seja também responsável por reações alérgicas, entre outros sintomas.

A poluição presente no ar pode assumir duas formas: gás e partículas não visíveis a olho nu, diz o Wall Street Journal num artigo publicado no final de setembro. As partículas representam a maior preocupação da indústria, visto que até há pouco tempo pensava-se serem muito grandes para quebrar a barreira da pele, diz o cientista Frauke Neuser da Procter & Gamble, citado pela publicação.

Posto o problema, qual a solução? Manuela Cochito, que tem consultório no centro de Lisboa, questiona a eficácia de cremes com capacidades antienvelhecimento, cujas fórmulas são compostas por antioxidantes — que podem ser, a título de exemplo, vitamina E e C. Os estudos em torno da questão são contraditórios, diz, e por isso inconclusivos.

“Ainda não há uma unanimidade, uma certeza científica”, esclarece, lembrando que este tipo de produtos existe no mercado vai para mais de dez anos, apesar de uma tendência emergente que se reflete em ambos os lados da balança: existe a oferta e existe a procura. “Já se falava de antioxidantes, mas agora está mais na moda por poder, supostamente, dominar o envelhecimento”.

Marc Toulemonde, gestor global da SkinCeuticals, da L’Oréal, disse ao jornal norte-americano que esta é uma “grande oportunidade”. E não é o único a pensar assim visto que outros nomes na indústria traçam um futuro previsível, com base na cada vez maior consciência dos consumidores em relação aos perigos da poluição. “Acreditamos que a poluição é o próximo UV [raio ultravioleta]”, disse.

“As empresas estão a lançar cada vez mais produtos no mercado, como um combate a médio e longo prazo do envelhecimento cutâneo”, explica a dermatologista portuguesa. “Haverá cremes que vão buscar antioxidantes com mais provas dadas, depende muito da formulação do produto. É uma tendência, uma linha, e poderá ser uma área de investigação científica nos próximos tempos. Mas, de momento, carece muito de estudos científicos válidos, além daqueles apresentados pelos próprios cremes”.

A Estée Lauder, a título de exemplo, criou o primeiro produto do género em 1995. Dois anos mais tarde, participava no estudo internacional SU.VI.MAX (Supplementation, Vitamin and Mineral and Antioxidant), com o objetivo específico de determinar o papel das vitaminas antioxidantes, conta Alexandra Moreira, relações públicas da marca em Portugal, ao Observador.

Os conhecimentos adquiridos no estudo foram implementados no produto original de 1995, este que se tornou “no primeiro produto [da marca] de cuidados de pele que comprovadamente ajudava a prevenir os sinais prematuros do envelhecimento causados pelo meio ambiente, ao utilizar uma combinação exclusiva de antioxidantes que combatia os danos provocados pelos radicais livres”. Em setembro último, a marca lançou mais dois artigos ao nível do contorno dos olhos que, avança a RP, “refletem avanços na área do combate aos danos provados pelo meio ambiente e, especificamente, pela poluição”.

Alexandra Moreira afiança que é mais fácil, para quem compra, compreender os riscos associados à exposição solar, pelo mero facto de os efeitos serem mais visíveis quando comparados com os que remetem para a poluição presente no ar.

O certo é que a indústria da cosmética precisa do impulso, até porque o volume de vendas tem diminuído nos últimos anos no mercado norte-americano, explica o WJS. Em Portugal, o cenário varia. Segundo o Euromonitor International (líder mundial em pesquisa e estratégia para mercados consumidores), a venda de produtos premium diminuiu.

O agravamento da situação económica em 2013, e a necessidade geral de reduzir despesas financeiras, influenciou uma mudança de comportamento ao nível dos consumos. Ou seja, os portugueses passaram a preferir produtos de massa em vez dos premium, o que beneficiou os supermercados e os vendedores diretos — as vendas baixaram em valor mas continuaram a crescer em volume. Trocado por miúdos, as pessoas compraram produtos em maior quantidade, embora mais baratos.

Incertezas científicas à parte, Manuela Cochito adianta que há outras formas de prevenir os malefícios associados à poluição: “Ingerir alimentos saudáveis, como frutas e verduras, ou tentar ter no ambiente de trabalho o maior número de plantas para diminuir os níveis de poluição”.