O ébola apanhou desprevenidas não só as autoridades de saúde, mas também as pessoas. Em países onde a pobreza e os baixos níveis de educação atingem uma grande parte da população, é mais difícil de lhe fazer chegar a mensagem correta e a probabilidade de ser enganada aumenta. Curandeiros e gurus prometem a cura milagrosa, mas mesmo alguns governantes parecem acreditar mais na crença do que nas equipas médicas. Do outro lado, estão aqueles que nem sequer acreditam que o ébola existe.

Usar água do mar, óleo de orégão ou esfregar-se com sal são algumas das mezinhas propostas. Embora não tenham qualquer efeito no tratamento do ébola, também não causam danos às pessoas. Pior é quando são usados produtos tóxicos. Tal como nos casos de outras doenças sem cura, há empresas e curandeiros a tentar enganar as pessoas com a promessa de cura, revela El País.

A entidade reguladora de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês para Food and Drug Administration) já instou várias empresas a retirar os anúncios enganadores das páginas da internet onde apregoavam ter a cura para o ébola ou uma solução para travar a propagação. Numa carta à administração da empresa de óleos essenciais Young Living, a FDA cita várias frases reveladoras do embuste, como: “O vírus ébola não consegue sobreviver perante a classe de medicamentos que contém óleos essenciais de casca de canela e orégão.” Também a empresa dōTERRA foi notificada por fases como: “Alguns dos principais usos para os orégãos incluem pé de atleta, [fungo] cândida, aftas, vírus ébola, parasitas intestinais, [bactéria] MRSA, micose, infeção por estafilococos, infeções virais, verrugas e tosse convulsa.” O problema destas empresas é que não há qualquer prova científica do que afirmam.

Com a escassez de medicamentos cientificamente aprovados para tratar todas as pessoas infetadas, algumas organizações tentam convencer a Organização Mundial de Saúde que têm a solução para o problema. Josep Pàmies, líder da associação Dolça Revolució, diz que certas plantas que têm sido descartadas há décadas têm o poder para curar o ébola e tem andado a distribuir a “cura” gratuitamente. Também os grupos de ozonoterapeutas têm publicitado que a exposição ao ozono mata o vírus numa terapia aplicada através do reto. Outras propostas são ainda mais perigosas e chegam a pôr a vida das pessoas em risco.

A dispersão das mezinhas é potenciada porque é cada vez mais difícil para as populações acreditarem nos médicos. As pessoas que são levadas de casa para os centros de saúde acabam muitas vezes por morrer, com a agravante de que a família não pode cumprir os rituais fúnebres. Os cidadãos não percebem que lavar os corpos dos entes queridos como manda a tradição é uma das principais fontes de contágio e não querem ver os corpos ser levados por “fantasmas” – os médicos com os fatos de proteção.

O medo dos “fantasmas” e a crença de que o ébola não é uma doença, mas o resultado de uma feitiçaria, faz com que as pessoas procurem refúgio em casa ou nas igrejas. Os próprios padres e governantes fomentaram a crença de que rezar ajudaria a expurgar os pecados e a expulsar o ébola. “Peço a todos os liberianos que façam três dias de jejum e oração nacionais para pedir a Deus que tenha misericórdia, nos perdoe os nossos pecados e nos ajude a curar a nossa terra”, disse a Presidente da Libéria Ellen Johnson Sirleaf. Os líderes religiosos liberianos apregoavam ainda que o ébola era um castigo de Deus contra a homossexualidade.

Com o agravamento do surto, a Libéria disse aos cidadãos que era preciso muito dinheiro para travar a doença e a Guiné-Conacri cancelou um projeto de mineração de ferro. Os cidadãos não acreditavam que fosse por causa de uma doença, mas uma forma de corrupção para extorquir dinheiro das ajudas internacionais. E continuaram a negar a existência da doença por muito tempo, dificultando o trabalho das equipas médicas, até com a invasão e destruição de centros de quarentena.