O psicólogo Kelly M. Flanagan está convencido de que a ideia feita de que os problemas dos casais começam na falta de comunicação não passa disso mesmo. De uma ideia feita. Para este terapeuta, os verdadeiros problemas são outros, e vêm de trás. “Podemos ensinar os casais a comunicarem um com o outro numa hora”, diz. “Mas controlar os problemas que geraram as discussões demora uma vida inteira”, continua. Por isso, o psicólogo apresenta uma lista de nove problemas que devem merecer a nossa atenção, através de terapia individual – a que dá mais ênfase do que à versão de casal – e da meditação. A versão espanhola do Huffington Post publicou a lista.

1. Casar com alguém por gostarmos daquilo que a pessoa é. Esta noção, aparentemente inofensiva, acarreta os seus danos. Porque, como explica Flanagan, as pessoas mudam. E aquilo de que gostamos nas pessoas pode mudar também. O conselho? “Casar com alguém pela pessoa que ela quer ser”. Desta forma, é possível passar a vida a acompanhar o seu desenvolvimento e o crescimento.

2. O casamento não significa o fim da solidão. “Estar vivo significa estar só”, escreve o psicólogo. Não compreender isto implica não perceber que a solidão que por vezes sentimos não se deve ao nosso parceiro, e que não é possível colmatá-la com outra pessoa. “O casamento deve ser um lugar onde os seres humanos partilham a experiência da solidão, criando momentos em que essa solidão se dissipa”, escreve.

3. O peso da vergonha. Todos sentimos vergonha, apesar de passarmos muito tempo a fingir que não. É por isso que, de acordo com o psicólogo, não sabemos lidar quando alguma atitude do nosso parceiro desencadeia em nós este sentimento. A atitude imediata é culpar o outro pela nossa vergonha. Mas a vergonha vive em cada um, não sendo criada por algo ou alguém exterior a nós, só podendo ser resolvida individualmente.

4. O ego vence. Nos primeiros anos de vida, o ego funcionava a nosso favor, protegendo-nos de ataques emocionais e de abandonos inconscientes ou conscientes das figuras protetoras. Mas quando queremos envolver-nos com alguém e ser vulneráveis, o ego é um muro, de acordo com este psicólogo. Como se derruba esse muro? “Basta sermos abertos em vez de estarmos na defensiva, perdoar em vez de querer vingança, pedir desculpa em vez de atribuir culpa, demonstrar vulnerabilidade em vez de força e delicadeza em vez de poder”, escreve Flanagan.

5. A vida é caótica. No casamento e na vida. Se a nossa relação não correr de forma perfeita, culpamos o nosso parceiro. “Tens de deixar de apontar o dedo e começar a entrelaçar os dedos. Só assim seremos capazes de caminhar e superar o caos da vida juntos. Livres de culpa e vergonha”, aconselha este especialista.

6. A empatia não é fácil. Pela própria natureza, a empatia não pode ocorrer de forma simultânea entre duas pessoas. De acordo com Flanagan, há sempre alguém que tem de dar o primeiro passo e essa pessoa não pode ter a certeza de que o seu gesto será retribuído.

7. Preocupamo-nos mais com os nossos filhos do que com a pessoa que nos ajuda a criá-los. Esta afirmação pode ser polémica para alguns, mas Flanagan defende que os filhos nunca devem ser mais importantes do que o casamento, mas também não devem estar abaixo. Porque, continua o psicólogo, se os filhos se sentirem mais importantes vão usar esse poder para criar divisões em casa. Se sentirem que são menos importantes farão tudo para terem atenção. “A família implica um trabalho contínuo e constante para encontrar o equilíbrio”, escreve o psicólogo.

8. As lutas de poder escondidas. A maioria dos conflitos entre casais é motivada por negociações relativamente ao nível da ligação entre os parceiros. Os homens precisam geralmente de mais distância. As mulheres querem um maior envolvimento. O psicólogo aconselha a formular explicitamente a pergunta: “Quem decide quanta distância mantemos entre nós?”. Isto porque, diz, se a questão não for formulada será sempre um motivo de discussão.

9. Já não sabemos como alimentar o interesse por um objeto, uma atividade ou por uma pessoa. Para lutar contra este problema do mundo moderno, onde a nossa atenção está sempre a ser posta à prova, Flanagan aconselha a prática da meditação. “Dar atenção a uma coisa, insistir nessa atenção mesmo quando nos distraímos e voltar a fazê-lo é uma arte essencial”, escreve. “É imprescindível para a sobrevivência de um casamento”.