Escrevo-vos com a memória fresca de uma tarde passada nas vinhas de Stellenbosch, a menos de uma hora da Cidade do Cabo. É uma paisagem que qualquer português reconheceria sem esforço, encostas ordenadas, filas de cepas a perder de vista, adegas caiadas de branco ao fundo. E, como em tantas encostas do Douro ou do Alentejo, uma inquietação que ninguém diz à primeira taça, mas que aparece sempre à segunda. O mundo está a beber menos vinho, e ninguém sabe ao certo quando isso para.

Comecemos pelos números, que neste caso são de arrepiar. Segundo a Organização Internacional da Vinha e do Vinho, o consumo mundial caiu 2,7% em 2025, para 208 milhões de hectolitros. É o valor mais baixo desde 1957. Desde 2018, a queda acumulada chega aos 14%. Nove dos dez maiores mercados do planeta recuaram, incluindo os Estados Unidos, o maior de todos, que perdeu 4,3%. E a superfície mundial de vinha encolheu pelo sexto ano consecutivo, para sete milhões de hectares.

Reparem no que esta última frase significa, porque é a mais grave de todas. Quando o consumo cai, arranca-se vinha. E vinha arrancada não é uma linha num relatório, é uma encosta que muda de cara, uma família que deixa de ter rendimento e uma aldeia que perde a razão de existir onde está.

A pergunta seguinte é a mais interessante, porque a resposta fácil está errada.

A tentação é dizer que os jovens de hoje não sabem viver. Poupo-vos a esse sermão, primeiro porque não me compete, segundo porque os dados dizem outra coisa. O que está a acontecer não é decadência, é substituição. As gerações mais novas bebem menos álcool no total, é verdade, mas sobretudo distribuem-no de outra maneira. Segundo o instituto IWSR, um em cada dois consumidores de vinho declara moderar ativamente o consumo, e os mais novos mostram muito menos lealdade a uma categoria de bebida, saltando entre vinho, cerveja, destilados e opções sem álcool consoante a ocasião. Junte-se o preço, porque uma cerveja é mais barata do que uma garrafa, e junte-se a saúde, que hoje pesa na decisão de quem tem vinte e cinco anos como não pesava na de quem tinha vinte e cinco em 1990.

Ou seja, o vinho não perdeu uma geração por antipatia. Perdeu a exclusividade que tinha à mesa, e está a competir, pela primeira vez em séculos, num mercado onde o cliente experimenta tudo e não se casa com nada. É um problema comercial, não é um problema moral, e tratá-lo como o segundo é a maneira mais garantida de não o resolver.

E agora a parte que vos vai agradar, e que por acaso é verdade.

Entre os dez maiores mercados mundiais, houve um, e apenas um, que cresceu. Portugal. O consumo português subiu 5,6% em 2025, para 5,6 milhões de hectolitros, o maior volume alguma vez registado pela OIV neste país. Enquanto França, Itália, Estados Unidos e Alemanha recuavam, Portugal bebia mais vinho do que em qualquer momento da sua história estatística, e continua a ser, de longe, o país do mundo que mais vinho bebe por habitante, cerca de 62 litros por ano, contra perto de 40 em França e em Itália.

Não vou fingir que sei explicar inteiramente o caso português, e desconfio de quem finja. Haverá turismo, haverá uma cultura de mesa que resistiu melhor do que noutros sítios, haverá preço acessível num país onde o vinho bom nunca foi artigo de luxo. Mas há uma leitura que me parece sólida, e é a que interessa a quem vive disto. Portugal não vendeu apenas litros, vendeu região. Vendeu Douro, vendeu Alentejo, vendeu Vinho Verde, vendeu castas que não existem em mais lado nenhum. Num mercado onde se bebe menos, ganha quem tem identidade, porque quando alguém reduz o consumo não corta na garrafa que lhe diz alguma coisa, corta na que é apenas líquido dentro de vidro.

Houve, porém, outro país que contrariou a tendência, e esse conheço-o por dentro. O Brasil registou em 2025 o maior crescimento proporcional de todos os mercados analisados pela OIV, quase 42%, e tornou-se o décimo segundo maior mercado de vinho do mundo, a caminho de ultrapassar a China. O número impressiona, até se fazer a conta que um contabilista faz sempre, dividir pelo número de pessoas. Mesmo depois deste salto, o brasileiro bebe entre dois e três litros de vinho por ano. O português bebe mais de sessenta. Dito de outra forma, o Brasil, com mais de duzentos milhões de habitantes, consumiu no ano passado 4,4 milhões de hectolitros, menos do que os 5,6 milhões de Portugal, com os seus dez milhões. O Brasil não é um país que bebe muito vinho, é um país enorme que começou agora a bebê-lo. Crescer 42% sobre quase nada continua a ser pouco, e é precisamente aí que está a oportunidade, porque um mercado de duzentos milhões de pessoas com consumo por habitante ainda residual é o tipo de espaço que não existe em mais lado nenhum do mapa. Para o vinho português, que já tem no Brasil um dos seus principais destinos de exportação, é talvez o dado mais importante de todo o relatório.

E há ainda a outra face, a da produção, que me toca de perto porque vivo no meio dela. Escrevo estas linhas longe de casa, mas casa é a Serra Gaúcha, no Rio Grande do Sul, a região que concentra a esmagadora maioria do vinho brasileiro. Foi colonizada a partir de 1875 por imigrantes italianos que trouxeram as cepas na bagagem e plantaram vinha em encostas que ninguém mais quis, e ainda hoje o setor vive de cerca de quinze mil famílias, quase todas de agricultura familiar, em pouco mais de quarenta mil hectares de uva. Não é um negócio de grandes grupos, é um negócio de apelidos, tal como no Douro.

E vive um momento raro. Em 2025, o Rio Grande do Sul colheu 957 mil toneladas de uva, mais 36% do que no ano anterior, segundo o instituto oficial de estatística brasileiro, e a produção nacional de vinho saltou 38%. Em 2026, a vindima voltou a ficar acima da média histórica, estimada pelos serviços agrícolas estaduais em cerca de 905 mil toneladas, e com uma qualidade que os produtores da Serra não hesitam em classificar como histórica, com uvas a atingir graduações que raramente se viam. Duas colheitas excecionais seguidas, depois das cheias devastadoras de 2024, não são coisa pequena para quem vive da terra.

Mais a sul, na fronteira com o Uruguai, fica a outra promessa, a Campanha Gaúcha. É uma paisagem completamente diferente da Serra, planície aberta, solos arenosos, muito sol e amplitude térmica. Terreno plano quer dizer vinha mecanizável e custos mais baixos, e é ali que muitas vinícolas brasileiras estão a apostar nos vinhos finos. A região obteve em 2020 a sua indicação geográfica, o que quer dizer que o Brasil está a fazer, com muito atraso, o mesmo caminho que Portugal fez em 1756 no Douro, o de dizer ao mundo que um vinho vale também pelo sítio de onde vem.

E é precisamente aqui que o contraste com a África do Sul se torna instrutivo, porque este país está do outro lado da mesma equação.

A África do Sul é hoje o sétimo maior produtor mundial de vinho, à frente do Chile, da Alemanha e, note-se, de Portugal. Mas a sua vinha encolhe há dez anos consecutivos. A produção de 2024 foi a mais baixa desde 2005. O consumo interno caiu. As exportações recuaram 4,7% em rands no ano passado, para 9,8 mil milhões de rands, aproximadamente 490 milhões de euros, com o segmento de vinho a granel a cair mais de 13%. E levou ainda uma tarifa de 30% à entrada nos Estados Unidos, que fez cair 28% as vendas para aquele mercado. O número que mais me impressionou, porém, é outro, e é humano. O país tinha 4360 produtores de uva em 2005. Em 2020 restavam 2693. Perdeu quase metade num quarto de século.

Ora, o que estão os sul-africanos a fazer perante isto? Exatamente aquilo que a lógica manda e que custa uma geração a executar. Estão a sair do volume e a entrar no valor. A estratégia tem nome no setor, premiumização, e significa deixar de competir pelo litro barato exportado a granel, onde qualquer país com câmbio favorável os bate, e passar a competir pela garrafa com origem, com casta identificada e com história para contar. Trocar quantidade por margem. É doloroso, porque deixa gente pelo caminho, e é provavelmente a única saída.

Ponham os três casos lado a lado e a lição aparece sozinha. A África do Sul aprendeu a sair do granel porque o mercado a obrigou. O Brasil está a aprender a dar nome às suas regiões porque o mercado interno finalmente o permite. E Portugal já sabe fazer as duas coisas há dois séculos e meio, o que é uma vantagem enorme, desde que não a confunda com uma garantia.

Porque convém não confundir sorte com estratégia. O consumo interno português cresceu num ano em que o mundo inteiro recuou, e isso é notável, mas o mercado de um país de dez milhões de pessoas não sustenta sozinho um setor que vive de exportar. A pergunta que os produtores portugueses devem estar a fazer, e que eu faria se fosse contabilista de uma adega do Douro, é esta. Quando esta onda de consumo interno passar, e as ondas passam sempre, o que é que fica? Ficam marcas que o consumidor estrangeiro reconhece e procura pelo nome, ou ficam litros à espera de comprador? E já agora, está alguém a olhar a sério para os duzentos milhões de brasileiros que começaram agora a beber vinho e que falam a mesma língua?

Termino com a parte que não cabe em estatística nenhuma, e que é a razão de este assunto mexer com os portugueses mais do que a economia explicaria.

Uma vinha não é uma fábrica. Uma fábrica que fecha deixa um edifício vazio que um dia se converte noutra coisa. Uma vinha arrancada deixa uma encosta nua, e com ela vai-se um saber que demorou gerações a acumular e que ninguém recupera com um subsídio. O Douro tem a mais antiga região demarcada do mundo, de 1756, e é paisagem classificada pela humanidade inteira. As encostas da Serra Gaúcha, à sua escala, contam a mesma história, a de famílias que plantaram onde mais ninguém queria e ficaram. Nada disso se replica, por muito bom que seja o vinho que se faça noutro sítio.

É por isso que este debate não é sobre bebidas. É sobre territórios que existem porque alguém, há séculos ou há gerações, decidiu plantar ali. Se o mundo vai beber menos, e vai, então a única resposta possível é garantir que, do pouco que se beber, uma parte generosa venha dessas encostas. Não por proteção, nem por saudade, mas porque são as únicas que ninguém consegue copiar.

Um brinde a isso, com moderação, como manda a nova geração, e sem ironia nenhuma.