Uma cortina de duche esverdeada separa a pequena sala de estar da casa de Rosa da cozinha e do pequeno anexo com uma porta de madeira que serve de casa de banho. Talvez tivesse sido comprada para um dia isolar um chuveiro ou uma banheira. Mas nesta casa do Bairro da Serafina, um bairro social no centro de Lisboa, nunca se tomou banho desta forma.

“Tínhamos um grande alguidar e esfregões para espalhar o sabonete”, diz Rosa, 90 anos, deitada numa pequena cama individual da qual não se consegue levantar sozinha há cerca de três anos. As pernas que já não mexem e os problemas de coluna deixaram-na acamada e a precisar de apoio domiciliário diário. Mas não para de falar, entusiasmada com a visita. Junta as mãos em concha e diz: “Tirávamos a água do alguidar com uma vasilha”. Levanta os braços, como se estivesse a verter um recipiente imaginário: “Deitávamos a água pelas costas abaixo”. Era assim que Rosa, o marido e os quatro filhos faziam a higiene diária.

Rosa é uma das mais de 156 mil pessoas que, de acordo com o último recenseamento feito em 2011 pelo Instituto Nacional de Estatística, não têm instalação de banho ou duche em casa. Esta quarta-feira celebra-se o Dia Mundial do Saneamento. Em Portugal 44 mil pessoas vivem sem água canalizada, mais de 55 mil não têm retrete, mais de 81 mil vivem sem autoclismo.

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O lavatório de loiça da casa de Rosa – Foto: André Correia

No exterior da casa de Rosa há dois pequenos barracões, abandonados. Um servia de quarto das crianças. O outro tem um aparelho sanitário e um lavatório em ferro e loiça, antigo e partido em várias partes. Nenhum deles está ligado a uma fonte de água. No chão e em cima de pequenos bancos estão espalhados vários jarros, alguidares e bacias, que fazem as vezes das torneiras e do autoclismo. As paredes estão esburacadas e revelam pedaços de tijolo. O mesmo acontece no chão, coberto por azulejos de diferentes estilos e cores. Em algumas zonas, a cerâmica foi arrancada, restando apenas o cimento. Apesar da degradação, há uma preocupação estética subtil que dá algum conforto ao espaço. A retrete azul combina com a cor das paredes e de parte dos azulejos. Um banco também azul, mas escuro, personaliza o espaço.

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Foto: André Correia

O barracão mantém-se conservado desta forma apesar de não ser utilizado há algum tempo. Cabe às auxiliares de ação direta tratarem da higiene de Rosa, que já não consegue deslocar-se à sua casa de banho. Quando tinha forças para isso, as auxiliares sentavam a idosa na retrete e era aí que lhe davam banho. Como não existe esquentador, e até há pouco tempo não havia uma cafeteira elétrica, aqueciam-se panelões com água no fogão. Depois passaram a fazê-lo numa cadeira da sala de estar, cobrindo o chão com cobertores. Agora, viram Rosa na cama e limpam-lhe o corpo com toalhas.

No Bairro da Serafina, onde a maior parte das casas se encontra em muito mau estado, restam apenas duas situações de falta de saneamento básico. Além de Rosa, Nelson, um sem-abrigo que ocupou uma das casas do bairro, também se encontra nestas condições. “Os utentes que não tinham saneamento nem condições foram abrigados no centro de dia”, diz Ana Cristina Oliveira, auxiliar que presta apoio domiciliário no bairro. Rosa recusou deixar a casa onde vive há mais de 50 anos e onde criou os filhos. “Quis ficar no cantinho dela”, diz a auxiliar.

Em 2050, pode não correr água das torneiras lisboetas

A cidade onde Rosa vive sem duche ou autoclismo é a mesma cidade que continua a usar água potável para as descargas da sanita. Livia Tirone só sabe explicar esta situação – quando há cerca de 1,2 mil milhões de pessoas em todo o mundo sem acesso a água de qualidade em todo o mundo – de uma forma. “A única resposta para isto é que somos todos loucos”, diz esta arquiteta bioclimática que estuda o futuro da água na Europa e a forma como as cidades podem repensar o ciclo hidrológico.

“Enquanto o nosso país não conseguir criar condições para que a água da descarga da sanita seja uma água não potável, somos todos criminosos”, insiste a investigadora, criticando a ausência de um sistema de distribuição de água que forneça águas com diferentes qualidades para usos diferentes. Um cenário ideal e possível para a reutilização da água seria este: a água utilizada no duche e na lavagem de mãos é a mesma que serve para descarga da sanita.“A água que utilizamos em casa pode ser, facilmente e sem custos, canalizada para as sanitas. 30% do nosso consumo doméstico é descarga de sanita e 30% é duches e lavagens de mãos”, diz Livia Tirone ao Observador.

Mas a arquiteta não se fica pelas mudanças nas habitações familiares e pensa que é possível estendê-las a cada bairro e a cada cidade. “É preciso repensar o ciclo da água na cidade”, diz. Como? “Por exemplo, recolhendo a água da chuva e utilizando-a para lavandarias”. Esta simples proposta tem vantagens económicas e práticas porque, como diz a investigadora: “A água da chuva é mais macia e não precisa de tanto amaciador”.  

Para que estas mudanças ocorram é necessário, no entanto, que haja uma mudança geral e de fundo que envolva as entidades distribuidoras de água. “Uma mudança de paradigma”, diz Livia Tirone, em que se veja a água não como um recurso passível de ser vendido, mas como um serviço a ser prestado. “Hoje compro água e a entidade que me fornece a água recebe tanto mais quanto mais água eu utilizar. A mudança ocorrerá quando conseguirmos que as entidades que fornecem água tenham interesse em dar um bom serviço, mesmo que não estejamos a consumir mais recursos”, diz a arquiteta.

“Esta revolução vai acontecer e temos de nos preparar para ela”, segundo Livia Tirone. Sob pena de aumentarmos o risco de stress hídrico. O que é o stress hídrico? “É abrir a torneira e não sair água. Pode não ser todo o dia ou todos os dias, mas o facto de isso acontecer algumas vezes é inaceitável porque já ninguém tolera que possa faltar água”.

Apesar de em Portugal serem poucas as regiões que assumem este stress hídrico, a investigadora diz que, de acordo com os mapas europeus sobre o fenómeno, Portugal está numa zona que pode “sofrer severamente” com essa situação. Um cenário que está mais próximo do que aquilo que imaginamos. Lisboa, por exemplo, pode ter stress hídrico já em 2050.