Importa mesmo saber quem é o autor de um texto? Em parte, a ética da autoria diz o contrário. Pense numa experiência recorrente. Apresentarem-lhe um texto não assinado de comentário a uma questão política controversa e actual. O texto corrobora a sua opinião sobre o tema. Depois, pedem-lhe para identificar o autor do texto e, na sua cabeça, ocorrem-lhe nomes de pessoas da sua “tribo” ideológica. Ao arriscar um nome, é surpreendido com a revelação: o autor é, afinal, da “tribo” ideológica oposta. A sua situação de desconforto reflecte uma exigência ética: não mudar de opinião agora que sabe quem é o autor. O que conta é o conteúdo do texto e não fazer julgamentos ad personam.
Esta é a regra de ouro daquilo a que no século XVIII se chamava “República das Letras”, isto é, um espaço público de debate e troca de ideias em que o compromisso racional com a verdade deveria regular as conversas e depoimentos que republicanamente aí tinham lugar. Era o lugar da discussão “desinteressada” e valorizada pelo conteúdo das ideias. Não pelo prestígio ou desprestígio do autor – não pela autoridade do autor. Essa idealização fazia sentido. Afinal de contas, que valor tem para nós saber a opinião de uma pessoa em particular quando comparado com o valor intrínseco e incalculável de se alcançar a verdade sobre as coisas – ou, para não ofender ninguém – uma perspectiva luminosa ou esclarecedora sobre as coisas?
Outros problemas podem aparecer, como o de Homero – o nome que se atribuiu a quem quer que tenha cristalizado por escrito as tradições orais que contavam a história de Troia e de Aquiles, ou o regresso a casa de Odisseu, sabendo que as duas histórias não foram quase certamente escritas, ou sistematizadas, pela mesma pessoa. Isso importa para o leitor da Ilíada ou da Odisseia, que Homero nunca existiu ou que não era a mesma pessoa? Além disso, para regressarmos aos nossos tempos de fragmentação e dissolução, houve quem discernisse na literatura a tendência para o desvanecimento voluntário do autor – a sua morte.
E se a morte definitiva do autor tivesse chegado pelas mãos da máquina? E se a Inteligência Artificial tivesse desferido o derradeiro golpe na autoria tornando-se um super-autor, uma fonte de textos escritos instantaneamente sobre todos os assuntos. Tal acontecimento teria consequências sobre múltiplos aspectos da nossa vida, mas afectaria radicalmente a comunicação social. Na verdade, essa mudança radical já começou há algum tempo. Quantos dos textos assinados por pessoas de carne e osso e publicados nos nossos jornais são na verdade parcial ou integralmente produzidos pela IA? A proporção é maior do que se pensa, e cresce todos os dias.
Recentemente, três grandes jornais da anglofonia, e de alcance mundial, foram chamados a pronunciar-se sobre este problema. Comecemos pelo Financial Times. A 13 de Agosto de 2026, Ricardo Hausmann, um professor de economia da prestigiada Universidade de Harvard, uma instituição estritamente dependente da noção de autoria, publicou um artigo crítico das tarifas aduaneiras de Trump: “Trump is taxing the dark matter that pays America’s way”. Poucas horas depois da publicação, o jornal acrescentou o seguinte aviso mesmo no início do artigo propriamente dito: It has come to our attention that AI was used to condense a longer draft of this column prior to submission to the FT and our own editorial involvement. The FT editorial code of conduct specifically prohibits the use of AI in the writing process.
Ficámos a saber que esta publicação proíbe o uso (parcial? integral?) da IA no “processo de escrita” dos conteúdos que publica. Segundo o FT, a autoria (humana) deve ser considerada absoluta e a sua integridade protegida a todo o custo. Não importa quais os benefícios para o aperfeiçoamento da opinião humana, a IA põe em risco o próprio sentido da publicação de informação e de opinião. Mas não explicou porquê.
Poucos dias depois, o Wall Street Journal publicava um artigo de opinião de um famoso investidor dos mercados financeiros globais, Stanley Druckenmiller, intitulado “Let the Bond Market Speak”. Mais uma vez, os leitores denunciaram o uso da IA na elaboração do texto. Mas, desta vez, o próprio autor, sem pergaminhos universitários a defender, apressou-se a confirmar que tinha, de facto, recorrido à IA. Com uma honestidade ou inconsciência desarmantes afirmou publicamente que não sabe escrever bem e que usou a IA tal como usa uma calculadora para fazer cálculos matemáticos rapidamente. E concluiu com esta sentença sintomática: “O meu nome está na peça. É a minha mensagem”. Isto é, Druckenmiller dizia que o texto reflectia as ideias dele, e era irrelevante se quem as tinha escrito era o próprio ou a máquina. Restava apenas acrescentar: para o leitor, importa a correcção ou adequação das ideias ou o nome do autor (humano, ou artificial)?
O que disse o WSJ? Pela pessoa do seu editor de opinião, Paul Gigot, soubemos que a posição do jornal era a de que o critério decisivo de publicação era se reflectia a “opinião genuína” do “autor”. Em caso afirmativo, era até supérfluo avisar os leitores do jornal que o texto que liam fora elaborado com recurso à IA. Daqui se seguia paradoxalmente que a questão da autoria do texto era irrelevante desde que o conteúdo do mesmo reflectisse com exactidão as ideias do “autor” que, no passo anterior, era considerado dispensável. Mais, se o texto reflectisse as ideias do autor e desde que o autor tivesse autoridade (reconhecida) para apresentar ideias próprias valiosas. A circularidade da justificação acaba por se tornar óbvia. O que o WSJ valorizava era a autoridade do autor mais do que o conteúdo dessa mesma autoria.
Finalmente, o Economist. Na última edição semanal, o editorial trazia o título “não deixem a IA matar o autor”. Reconhecendo a excelência actual, e sobretudo potencial, da escrita de IA, a publicação advertia para o perigo de deixar a autoria (humana) desvanecer-se. Ignoremos as pieguices do editorial segundo o qual aspiramos sempre a identificar o autor das palavras que lemos porque, aparentemente, só apreendemos “sentido” se soubermos a origem humana do texto; ou que o esforço e a dor de escrever merecem alguma forma de recompensa (porquê, exactamente?). O ponto da publicação inglesa é o de que, se confiarmos à máquina a nossa escrita, será também o nosso pensamento que morrerá, na dupla dimensão da capacidade cognitiva e da libertação da criatividade/originalidade. No final, o editorial não tem muito a recomendar além da proibição tácita do uso da IA nos artigos que o Economist publica. Mas não sem deixar uma comparação histórica ominosa que pretende funcionar como ameaça: a invenção da impressão “pôs em marcha” guerras religiosas na Europa moderna (palavra de honra!), e o rádio “anunciou” o fascismo (palavra de honra!).
Faltou, porém, a esta publicação inglesa liberal usar um argumento liberal que foi, de resto, invocado nas diatribes contra o anonimato usado nas guerras literárias do século XVIII: o da responsabilidade pessoal. Se há algo que exigimos nos textos que lemos na comunicação social, é a responsabilidade da autoria. Com ajuda da IA ou sem ela, a ética da comunicação pressupõe responsabilidade. Conhecemos as excepções que abrimos, e que devemos abrir, para a sua ocultação. As consequências abertas pela responsabilização pública do autor (para que ele responda pelo que escreve), e a necessidade de salvaguardar o que é preciso ser dito – ou escrito – em contextos adversos com as excepções à responsabilização, faz parte dos dilemas antigos da questão da autoria. Não podemos deixar que o aparecimento da máquina-autora, com o seu projecto de assassinar o autor, destrua simultaneamente a riqueza criativa desse dilema.