O investimento da PT no mercado português atingiu no terceiro trimestre deste ano o valor mais baixo em dez anos. As contas da Oi, a operadora brasileira que passou este ano a integrar as operações da PT Portugal, mostram uma queda superior a 40% do investimento em Portugal face ao terceiro trimestre de 2013. Quando comparamos os primeiros nove meses do ano, o investimento está a recuar mais de 30% em euros.

Nos primeiros nove meses do ano, o mercado nacional recebeu de cerca de 218 milhões de euros, o que equivale ao valor mais baixo investido pela PT em Portugal desde 2004, segundo a consulta realizada pelo Observador aos relatórios e contas da operadora. A mesma conclusão vale para o investimento do terceiro trimestre, 59,4 milhões de euros, que só tem paralelo com o montante aplicado no terceiro trimestre de 2004.

O relatório da brasileira Oi atribui esta evolução negativa a menores investimentos em projetos de tecnologias de informação e em sistemas de informação. É igualmente referida uma queda dos investimentos em infraestruturas e tecnologia, depois da forte mobilização de recursos financeiros realizada nos últimos anos nas redes de banda larga, bem como menores investimentos relacionados com clientes.

O fim de um ciclo de grandes investimentos na rede para a expansão do acesso à internet ajuda a explicar a tendência de queda do investimento que poderá apoiar-se ainda no recente acordo de partilha de infraestruturas com a Vodafone. Mas isso não explica tudo.

Investimento está a cair desde 2011

O fenómeno não é novo, desde 2011 que o investimento da PT em Portugal tem vindo a cair. No entanto, esta quebra acentuou-se muito em 2014, ano em que foi concretizada a fusão com a Oi, que levou a uma secundarização do mercado português face ao brasileiro.

O movimento acentuou-se com a perda de força da PT SGPS e dos acionistas portugueses, depois de conhecida a aplicação de 897 milhões de euros da operadora na Rioforte do Grupo Espírito Santo. Os danos colaterais desta operação levaram à queda de Henrique Granadeiro em Portugal e de Zeinal Bava no Brasil, tendo despromovido a posição da PT no grupo que resultaria da fusão com a Oi.

Mas o maior dano foi mesmo a PT Portugal que deixou de ser estratégica para a empresa brasileira. Apesar de fortemente endividada, a Oi quer fazer compras para se manter relevante num dos maiores mercados mundiais de telecomunicações. Para isso, precisa do encaixe da alienação da operação portuguesa que foi valorizada em 7400 milhões de euros na proposta da Altice. A oferta, à qual se associaram os CTT, assegurou aos franceses negociações exclusivas.

A Portugal Telecom tem sido uma das maiores investidoras no mercado português, assumindo uma importância crescente nos últimos anos, quando outras empresas nacionais mobilizaram recursos para a internacionalização. Nos últimos cinco anos, a operadora investiu, em média, mais de 500 milhões anuais em Portugal. Mas perante a incerteza acionista e estratégica que rodeia a Portugal Telecom fica a pergunta: O que se segue?

A administração de Armando Almeida tem a difícil tarefa de tentar lançar um novo ciclo para uma das grandes empresas nacionais que vive a sua maior crise. Esta terça-feira ficar-se-ão a conhecer as grandes linhas do plano para a PT, numa apresentação aos quadros e sem direito a perguntas de jornalistas. Uma grande focagem na redução de custos e na otimização dos investimentos recentes, com forte aposta comercial junto dos clientes, serão eixos obrigatórios da estratégia de Armando Almeida.

Mas, ao contrário do que sugerem as palavras do novo presidente, para quem independentemente do novo acionista o foco deve estar no cliente, a PT não poderá desenhar um novo rumo convincente antes de ficar clarificado quem irá mandar na empresa. E este é um processo que ainda pode demorar algum tempo.