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É muito interessante, porque esta descoberta afeta principalmente as neurociências. O que acontece? A maneira como nós classicamente estudávamos o cérebro era através da eletrofisiologia, ou seja, utilizávamos pequenas agulhas que eram espetadas no cérebro para estimular algumas redes neuronais, para se perceber de que maneira aquelas redes neuronais modulavam o comportamento do nosso organismo e que levava ao comportamento humano, ou de que maneira algumas doenças podiam ser moduladas por esses estímulos. Acontece que com esta descoberta da channelrhodopsin e a sua aplicação na neurociências, conseguimos controlar agora um canal iônico em neurónios utilizando luz. Isso significa que conseguimos estimular o cérebro através da luz, em vez de utilizar estas agulhas. Ou seja, existe uma maneira menos disruptiva de começarmos a compreender de que maneira é que o cérebro funciona. Ao mesmo tempo, conseguimos perceber que patologias é que podem ser moduladas através da ativação de algumas redes neuronais agora utilizando luz em vez de eletrofisiologia, o que nos abre também caminhos para desenhar melhores tratamentos que permitam depois controlar algumas destas redes neurais ou de algum modo mitigar comportamentos ou doenças que não queremos, como por exemplo, a depressão, a ansiedade.
E acha que estamos mais perto de conseguir travar doenças do cérebro?
Desculpa, podes repetir novamente?
Travar doenças ligadas ao cérebro.
Sim, eu acho que há dois pontos aqui que são muito interessantes. Uma é que conseguimos perceber fundamentalmente melhor a maneira como o cérebro é estruturado e que redes neuronais existe. Portanto, fundamentalmente compreendemos melhor os animais, os seres humanos. Atenção, porque existe aqui uma coisa muito interessante: estes canais iônicos só se aplicam a animais neste momento. Por quê? Porque precisam ser modificados geneticamente para incorporar estes canais iônicos que são controlados por luz. Mas ao fazê-lo, conseguimos também ao mesmo tempo compreender que existe alguma homologia entre os cérebros destes animais que nós modificamos em laboratórios com aquilo que acontece no cérebro humano. Portanto, conseguimos fundamentalmente compreender melhor o cérebro. Ao mesmo tempo, também conseguimos compreender de que maneira alguns comportamentos são modulados. Por exemplo, uma experiência muito interessante que está a ser feita neste momento é o estudo do medo nos ratinhos. Em vez de assustá-los, consegue-se começar a compreender que neurónios estão associados ao medo, colocando estes canais iônicos que são sensíveis à luz nestes ratinhos. E o que acontece é que com luz consegue-se efetivamente estimular aquelas redes neuronais, o que significa que com luz vemos uma reação de medo nestes ratinhos. Portanto, ao fazer essa relação, consegue-se perceber exatamente quais são os neurónios que estão efetivamente associados a este tipo de comportamento. O impacto aqui é, por exemplo, em ratinhos, é muito difícil de estudar a ansiosidade ou a depressão, porque são comportamentos muito complexos que é difícil de visualizar em ratinhos. Mas ao estudar o medo, que é algo muito visceral, que se consegue ver muito facilmente em ratinhos, consegue-se aos poucos começar a compreender de que maneira é que ao mesmo tempo conseguimos chegar a outras redes que estão ou super estimuladas ou pouco estimuladas, que podem estar associadas a comportamentos que são mais importantes para nós humanos, que queremos depois aprender a modular.
E o que acha que podemos esperar nos próximos anos graças a esta investigação e também devido a ela?
É muito interessante, porque esta investigação já está a ter um impacto enorme, mesmo a nível de Portugal. Porque, por exemplo, no campo das neurociências existem já muitos cientistas que utilizam este tipo de regiões para estudar o cérebro. Por exemplo, em Portugal, em Moisés, acontece imenso. Mesmo a nível meu pessoal, nós utilizamos a luz para mudar o comportamento de animais, ou mesmo a luz para visualizar esses animais e o comportamento que eles têm. Portanto, já existe a nível científico um impacto imenso. Aquilo que começamos depois a ver ao longo dos próximos anos é a sua tradução para a clínica e a maneira como podemos então criar novos tipos de medicamentos que possam ajudar a lidar com doenças.
Peço desculpa, mas eu não percebi bem. Então, neste caso, ainda não é estudado em humanos, não é? Só ainda relativamente aos animais?
Com animais conseguimos compreender a homologia que existe para humanos. Portanto, o estudo de channelrhodopsin em humanos começa a acontecer em alguns casos muito específicos e muito poucos. Por exemplo, a nível ocular, da estimulação ocular. Por quê? Porque não podemos modificar geneticamente humanos. Ou neste momento a legislação só permite fazer algumas pequenas alterações locais em casos muito excepcionais. Mas aquilo que compreendemos fundamentalmente a acontecer em animais é depois traduzido para aquilo que pode ser utilizado na clínica.
E não sei se me consegues esclarecer: isto é uma descoberta que no fundo também já dura há vários anos, certo?
Sim. É muito interessante. Isto tudo começou com pequenas algas que conseguem virar e nadar em direção à luz. E uma das partes extremamente inteligentes deste prêmio Nobel é que estes cientistas compreenderam como podiam alterar estes canais que as algas utilizavam para nadar em relação à luz e incorporá-los em células, muito especificamente também em neurónios, para modificar a sua ativação.
Muito bem, Ricardo. Olha, acho que tenho toda a informação que preciso. Obrigada por estares aqui mais uma vez. Foi bastante esclarecedor também.
Não, obrigado a você por me receber aqui.