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Uma equipa de investigadores liderada por Gavin Screaton, cientista e vice-reitor no Imperial College de Londres, no Reino Unido, descobriu uma molécula capaz de desencadear uma resposta imunitária eficaz contra qualquer um dos vírus responsáveis pela dengue, segundo um estudo publicado esta segunda-feira na Nature Immunology. Esta descoberta, que os investigadores querem ver protegida por uma patente, poderá abrir caminho a uma nova vacina para proteger da infeção.

Analisando a resposta do sistema imunitário de pessoas que tinham estado expostas ao vírus, os investigadores verificaram que havia uma molécula que estava presente em cada um dos tipos de vírus estudado. Os anticorpos contra este antigénio (substância que estimula a formação de anticorpos) mostraram-se eficazes no combate ao vírus nas experiências conduzidas em laboratório.

O vírus da dengue é transmitido pela picada dos mosquitos Aedes albopictus ou Aedes aegypti. Após a primeira infeção, a pessoa fica imune àquele tipo de vírus, mas se for infetada com um dos outros quatro tipos estará mais suscetível, podendo ter manifestações hemorrágicas graves, explicou ao Observador Jorge Atouguia, especialista em infecciologia e medicina tropical.

Uma vacina contra o antigénio agora descoberto será, segundo noticiou a Bloomberg, eficaz contra quatro tipos do vírus da dengue mais conhecidos – o quinto só foi descoberto em 2013 -, porque, como refere o artigo, está é uma molécula que está presente em todos eles. Um avanço, segundo a Bloomberg, em relação a uma vacina da empresa farmacêutica Sanofi que misturava versões atenuadas dos quatro tipos de vírus. Os ensaios clínicos desta vacina, que a empresa pretende comercializar em 2015, apresentaram resultados dispares: primeiro só protegeu as pessoas contra três tipos de vírus e só depois, com um grupo maior, contra os quatro tipos.

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400 milhões de pessoas são infetadas todos os anos

Todos os anos cerca de 400 milhões de pessoas são infetadas, acabando por morrer 20 mil – calcula-se que apenas 25% das pessoas infetadas chegue a desenvolver sintomas. Uma das causas é que os tipos de vírus, outrora isolados regionalmente, viajam com as pessoas e bens. A globalização faz com que mais do que um tipo de vírus possa aparecer num região onde só existiria um e contra um o sistema imunitário ainda consegue lutar.

Em novembro o diário Nikkey anunciava que a farmacêutica japonesa Takeda teria uma vacina contra a dengue pronta a ser comercializada em 2017. A segurança e a eficácia do novo fármaco foram testadas na Colômbia em cerca de uma centena de pessoas, com idades compreendidas entre 18 e 45 anos: 76 desenvolveram anticorpos contra o vírus, sendo que 96% tinha ativas as defesas contra três serótipos da dengue e 60% contra quatro.

Além das vacinas, que pretendem preparar o sistema imunitário contra uma futura infeção, há a possibilidade de usar a mesma espécie de mosquito – Aedes aegypti – para combater aqueles que transmitem a doença. O que os investigadores fizeram foi ‘contaminar‘ os mosquitos com a bactéria Wolbachia – que existe noutros insetos e não nestes mosquitos. Esta bactéria impede que os mosquitos transmitam o vírus da dengue quando picam as pessoas. Noutro projeto, um grupo de cientistas conseguiram manipular geneticamente o macho do mosquito Anopheles gambiae (um vetor da malária) e obter uma população de machos que só consegue gerar outros machos (95%) — o parasita é transmitido apenas pelas fêmeas.