Mais de 50% dos adultos portugueses sofre de excesso de peso. O dado não é novo, mas nem por isso a Direção-Geral de Saúde (DGS) deixa de o frisar no relatório “Portugal – Alimentação Saudável em Números 2014”, onde sublinha também que a alimentação inadequada é a principal responsável pelos anos de vida prematuramente perdidos em Portugal. 

Em 2010, os maus hábitos alimentares em Portugal foram responsáveis por 11, 96% do total de anos de vida prematuramente perdidos, ajustados pela incapacidade, no sexo feminino, e por 15,27% no sexo masculino, lê-se no relatório divulgado esta quinta-feira, que recorda que o consumo inadequado de fruta e hortícolas é considerado um dos principais determinantes de doenças não transmissíveis, como as doenças cardiovasculares e alguns tipos de cancro, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Os grupos socialmente mais vulneráveis são os que estão mais expostos à insegurança alimentar e por sua vez ao excesso de peso.

O relatório vem reiterar as estimativas que já existiam e que apontam para cerca de um milhão de adultos obesos e 3,5 milhões pré-obesos, o que faz com que metade da população adulta sofra de excesso de peso.

De acordo com a Balança Alimentar Portuguesa, em 2012, cada português consumiu diariamente 3.882 calorias, um decréscimo de 0,7% face a 2011, “ainda assim uma disponibilidade energética claramente excessiva quando comparado com o aporte calórico diário médio aconselhado para um adulto (2.000 a 2.500 kcal)”, referem os especialistas.

Uma nota positiva para os centros de saúde, onde tem melhorado a avaliação e a notificação dos casos de pré obesidade e obesidade. Em 2013, 524.571 utentes registados nos centros de saúde eram obesos, mais 58 mil do que no ano anterior e mais 156 mil do que em 2011. Além desses, havia ainda registo de mais de 410 mil com pré obesidade em 2013.

População idosa requer uma atenção especial

Neste relatório são também divulgados os resultados de um estudo feito com base numa amostra muito específica: a população idosa dos centros de dia e centros de convívio do concelho de Paços de Ferreira. E a conclusão foi que 2,1% dos idosos estavam desnutridos e 31,8% em risco de desnutrição. Foi ainda encontrada uma elevada prevalência de obesidade, na medida em que 51,7% apresentavam um índice de massa corporal igual ou superior a 30gK/m2. A sarcopenia (perda de massa e força na musculatura esquelética) foi detetada em 15,1% dos idosos e a obesidade sarcopénica em 2,4% dos avaliados.

Estes dados, a conjugar com a informação de que a população idosa está particularmente suscetível a alterações do estado nutricional, nomeadamente ao aparecimento de desnutrição ou de sarcopenia, “demonstram a necessidade de uma avaliação nacional desta situação“, lê-se no estudo.

Mais de um quarto das crianças com 1 ano de idade já tem excesso de peso

A partir de um ano de idade já mais de um quarto das crianças da amostra apresenta excesso de peso ou mesmo obesidade, de acordo com o mesmo relatório da DGS, que aponta ainda para a “baixa prevalência de aleitamento materno exclusivo aos quatro e seis meses de idade, contrariando as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS)”. Aos quatro meses apenas 33,4% das crianças se alimenta exclusivamente de leite materno, uma percentagem que cai para os 18,9% nas crianças até aos 6 meses.

Mais de metade das crianças até aos quatro anos (52%) consome refrigerantes e néctares (colas, refrigerantes gaseificados, refrigerantes sem gás, ice tea e néctares) pelo menos uma vez ao dia. E os especialistas referem que “as crianças que aos dois anos consumiam mais refrigerantes, snacks, bolos e doces eram as que consumiam mais estes alimentos aos quatro anos de idade. O consumo diário de qualquer um destes grupos de alimentos é de 32% aos 2 anos e de 96% aos 4 anos“. Verifica-se ainda uma ingestão de sódio acima do nível máximo tolerado em praticamente todas as crianças observadas.

Dos países europeus em análise, Portugal era, em 2009/2010, o quarto com mais crianças (com sete e oito anos) com excesso de peso ou obesas. Pior só Grécia, Itália e Espanha.

E embora o crescimento da obesidade em crianças pareça ter abrandado nos últimos anos, as autoridades de saúde referem que esta tendência deve ser confirmada em estudos posteriores e utilizando metodologias semelhantes.

Uma vez que os novos dados confirmam que praticamente desde o nascimento se parecem iniciar hábitos alimentares não saudáveis que vêm a condicionar toda a juventude e idade adulta, os especialistas recomendam que se aposte na prevenção e se olhe cada vez mais para a intervenção em idades muito precoces, junto de grávidas e famílias.