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Estreia da Semana

“The Interview”: muito barulho por quase nada

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O ‘Observador’ já viu “The Interview”. É uma comédia tosca e estúpida, que se arma ao pingarelho de filme de “denúncia” anti-totalitária com final à 007.

É curioso que quase ninguém tenha referido o filme “Team América: Polícia Mundial”, realizado em 2004 por Trey Parker e Matt Stone, os criadores de “South Park”, a propósito da tempestade de controvérsia que se abateu sobre a comédia “The Interview”, de Evan Goldberg e Seth Rogen. É que este, que por se centrar numa tentativa de assassínio do actual ditador da Coreia do Norte, terá alegadamente causado um ataque informático de “hackers” norte-coreanos à Sony Pictures, sua produtora (embora haja gente do mundo da informática convencida que se tratou de um “inside job” de “hackers” norte-americanos simulando a metodologia dos da Coreia do Norte). E lançado também um debate desatado sobre a liberdade de expressão nos EUA, quando num primeiro tempo, as grandes cadeias de cinemas norte-americanas recusaram-se a exibi-lo com medo de represálias, e o estúdio encolheu-se perante esta atitude.

O filme de Parker e Stone, uma animação “marionetas”, é uma paródia decapante, ferocíssima, dos impulsos ultra-militaristas e intervencionistas dos EUA, do esquerdismo politicamente analfabeto de Hollywood, e do regime de socialismo de fome e totalitarismo dinástico norte-coreano, liderado por Kim Jong-il à altura da sua estreia. Os tratos de polé a que este é sujeito em “Team América: Polícia Mundial” ultrapassam tudo aquilo a que o argumento de “The Interview” (que chegou esta semana a algumas centenas de cinemas americanos, foi posto “online” pela Sony em vários “sites” e plataformas, e já foi visto pelo “Observador”) submete o seu filho e sucessor, Kim Jong-un. Mas há 10 anos, ou a Coreia do Norte não estava tão atenta ao mapa de estreias de Hollywood e os seus “hackers” não tinham a competência que parecem ter agora, ou então o activismo “online” não estava tão musculado como nos tempos que correm.

“Trailer” de “The Interview” 

Cenas de “Team America: Polícia do Mundo”

Seja como for, “The Interview” (que já tem título português, “Uma Entrevista de Loucos”), e como muitos daqueles que seguem há muito tempo estas coisas do cinema e as histerias mediáticas que por vezes lhe estão associadas desconfiavam, é mais um daqueles casos de muito barulho por quase nada: um filme cujo interesse, qualidade e, sobretudo, valor satírico-gozão, estão na razão inversa do sururu que causou, de Pyongyang à Casa Branca, passando pela privacidade dos computadores da Sony Pictures.

Realizado por Evan Goldberg e Seth Rogen, que também interpreta um dos dois papéis principais, ao lado do seu amigo e habitual comparsa James Franco, e pertence à pandilha de Judd Appatow (autor de “Virgem aos 40 Anos” ou “Um Azar do Caraças”), “The Interview” procura casar a comédia de adultos com nível mental de adolescentes, feita à base de “gags” envolvendo comportamentos apalhaçados, piscadelas de olho sexuais, escatologia vária e utilização pouco digna de objectos a nível físico (só para exemplificar: a ideia de “suspense” de Goldberg e Rogen é fazer a personagem deste esconder à pressa um pequeno míssil no recto antes de ser descoberto e revistado por militares norte-coreanos), com a denúncia do totalitarismo e da manipulação mediática feita pelos ditadores.

James Franco interpreta Dave Skylark, o apresentador fala-barato de um “talk show” de futilidades e escandaleiras sobre celebridades de grande sucesso, uma espécie de Jon Stewart da televisão rasca, e Seth Rogen é Aaron Rapaport, o seu produtor. Ambos descobrem que, por razões que a razão desconhece, o programa é um dos dois favoritos de Kim Jong-un (sendo o outro “A Teoria do Big Bang”…), e decidem pedir uma entrevista exclusiva ao tirano asiático, certos de que ele nunca a concederá. Só que Jong-un concorda, e Skylark e Rapaport vêem-se transportados para a Coreia do Norte com estatuto de convidados VIP – e encarregados pela CIA de matar o ditador com um adesivo envenenado que se cola na palma da mão antes de se ir cumprimentar a vítima (pouco se progrediu em Langley desde o tempo das tentativas para assassinar Fidel Castro com charutos-bomba).

Entrevista com Seth Rogen e James Franco

Uma vez em Pyongyang, Skylark e Rapaport descobrem que Kim Jong-un (Randall Park) é um “case study” de personalidade bipolar. Se por um lado é um “teenager” em corpo de adulto, completamente americanizado, conhecedor de todos os tiques e do calão da cultura pop de massas, apreciador envergonhado de Katy Perry e de “margaritas” (“O meu pai dizia-me que são gostos ‘gay’, confessa ele a um atónito Skylark no interior de um tanque), e sofrendo de um enorme complexo de inferioridade e esmagamento de identidade face à figura paternal; pelo outro, e quando contrariado e enfurecido, Jong-un mostra a sua face de ditador comunista “hardcore”, indiferente à fome e às privações que afectam o seu povo e com comichão no dedo de lançamento de mísseis nucleares. (Entretanto, num subenredo, Rapaport apaixona-se pela guia e oficial de propaganda que acompanha os dois ilustres visitantes capitalistas, descobrindo que ela, além de tarada sexual, não é lá muito segura na sua fidelidade incondicional ao regime).

Kim Jong-un e a Coreia do Norte

“The Interview” quer, em simultâneo, fazer humor da modalidade alarve à custa da natureza repressiva e famélica e do “kitsch” totalitário do sistema norte-coreano, e denunciá-lo como o faria um filme “sério”, mas a bota não mesmo nada bate com a perdigota. O que se torna tanto mais óbvio quando Goldberg e Rogen, depois de humilharem Jong-un pondo-o a soltar gases sonoramente durante uma entrevista televisiva transmitida em directo para todo o mundo, o mandam desta para melhor, incinerando-o graficamente e em câmara lenta num helicóptero destruído por um tiro do tanque que Skylark e Rapaport roubaram para fugir. É como se “The Interview” se metamorfoseasse de comédia estomacal em aventura de James Bond. No final, a revolução estala, liderada pela sexualmente fogosa guia que se revoltou contra o regime e ajudou Skylark e Rapaport, a Coreia do Norte vira “democrática” e tudo fica vagamente no melhor dos mundos (a Coreia do Sul parece não existir para os autores de “The Interview”).

A morte do ditador em “The Interview” 

Segundo a revista “Variety” noticia na sua edição diária de hoje, uma sondagem “online” feita no dia de Natal junto de 700 pessoas que já viram “The Interview” nos EUA, sete em cada 10 espectadores consideram o filme “culturalmente insensível”.  Perdeu-se todo o sentido do ridículo. A fita de Evan Goldberg e Seth Rogen é apenas tosca e estúpida. Eles que vão ver “Team América: Polícia Mundial” para aprender como se passa a rolo compressor de comédia um ditador comunista. E sem ter de armar ao pingarelho.

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