Na praça Sintagma no centro de Atenas, em frente ao parlamento e ponto nevrálgico da grande cidade, cruzam-se de forma anónima várias visões da Grécia que convivem sob tensão, do conservadorismo ao protesto, da incredulidade à esperança.

Num lado, há um apoiante da conservadora Nova Democracia (ND, do primeiro-ministro Antonis Samaras) que percorre um pavilhão improvisado do partido em campanha eleitoral para as legislativas de domingo, enquanto ao longe prossegue o longo protesto de empregadas de limpeza e, pelo meio, surge uma cidadã com poucas ilusões.

Antonis Birbilis, 56 anos, trabalhou quase 40 anos numa empresa de telecomunicações antes de se reformar. Com ar confiante, percorre o recinto azul e branco da ND instalado na grande praça em frente e onde sobressai uma foto ampliada do primeiro-ministro Antonis Samaras, com a frase de campanha: “Dizemos a verdade. Mandato de estabilidade para amanhã”. Escolha arriscada, porque o chefe do governo tem sido particularmente acusado pelos rivais de ter ignorado quase tudo o que prometeu quando venceu tangencialmente as eleições antecipadas de junho de 2012.

Mas Antonis permanece fiel ao partido “que perante as situações difíceis toma decisões difíceis”, apesar de admitir “que as pessoas estão um pouco confusas” para o embate de domingo. Apesar de apoiar a ND “pelas suas ideias”, enaltece a esperança, a “última coisa que temos” e reconhece que os principais partidos deveriam dialogar após um escrutínio onde o partido de esquerda antiausteridade Syriza surge em posição destacada.

“Devem promover conversações entre eles pela Grécia e pelo povo da Grécia”, defende. “As coisas não são preto e branco”.

Antonis pensa que é a Grécia que deve ser “colocada à frente”, mas de momento a prioridades para as empregadas de limpeza que protestam a algumas dezenas de metros a preocupação imediata é regressar ao trabalho após um despedimento coletivo de 595 mulheres pelo ministério da Economia em setembro de 2013, ditado pelas políticas de austeridade negociadas com a ‘troika’ de credores internacionais.

Na terça-feira, a ocupação da rua Sérvio Karadordevic pelas empregadas de limpeza completava os 260 dias. Desde então vão-se revezando nos piquetes permanentes, entre tendas de campanha, faixas com palavras de ordem, iniciativas destinadas à recolha de fundos, e suficiente simpatia popular.

“Despediram todas as mulheres, substituídas por empregadas de limpeza de empresas privadas com o argumento que ganhavam menos. Mas não é verdade, nós ganhávamos muito pouco. Ganhávamos mais ou menos 480 euros, há mulheres que trabalhavam há 20 anos mas com um salário muito baixo, sem licenças, sem férias”, diz à Lusa Patricia Alvarez, 46 anos, uma chilena com dupla nacionalidade, casada com um grego, e com dois filhos adolescentes.

Patricia vive há 26 anos na Grécia e é uma das faces do longo protesto, de uma longa prova de resistência. “Houve uma decisão judicial que nos foi favorável, mas o ministério não aceitou e aguardamos uma segunda decisão da justiça que deve ser anunciada em 25 de fevereiro”. Quando festejavam a primeira decisão, a polícia interveio com rispidez, como denunciam fotos coladas em grandes pedaços de cartão e em local destacado na parte protegida da artéria.

Numa banca, vende-se uma agenda de 2015 por preço simbólico “também para ajudar muitas das mulheres que estão sós”, noutra um cartaz denuncia diversas empresas multinacionais que optaram pela deslocalização para a vizinha Bulgária, deixando milhares sem trabalho. E sobre as eleições já tão próximas, deixa um sinal de esperança, reservado. “Estamos à espera, é a única esperança que nos resta. Porque estamos aqui há tanto tempo, e nada. Vamos continuar aqui?”.

Mais desconfiada, Elena, 60 anos, surge apressada de uma avenida onde o Syriza montou tenda na praça Klathmonos, com a palavra de ordem de campanha “A esperança está a chegar. A Europa está a mudar. Democracia, igualdade e dignidade”. “Ainda não decidi em que votar, tenho de pensar com muito cuidado no que vou fazer. São todos idiotas, não acredito em nenhum deles, não é fácil”, desabafa.

No entanto, admite que o Syriza “pode ser uma alternativa”. E arrisca, reticente: “Vamos tentar de novo, é algo que desconhecemos, vamos tentar. Mas será melhor?”. Elena, que diz trabalhar “por quase nada”, lamenta a degradação desde 2010 dos cuidados de saúde, da segurança social, e aponta o dedo aos políticos “que para mim não significam nada”. Lamenta ver tantos gregos a “dormir nas ruas”, sem trabalho, deseja que todos vivam melhor, e interroga-se por que motivo “é a Alemanha a decidir por nós”.

Diz saber que “que Portugal tem passado mal, a Espanha também não está bem, mas nós podemos ser melhores” e assim exalta o seu país, do qual “não se deve dizer mal”.

Preocupações decerto partilhadas por Antonis e Patricia, todos divergentes no sentido de voto, todos preocupados com a Grécia.